NOTA C
Reading edition
A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr. Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei no O Paiz da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro Alvares Cabral, em 1500:
«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso, porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril, pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.
Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.
Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.
Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.
Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite, porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas sempre á vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.
Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente que o seu pincel produziu.
A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.
Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.
Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.
Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos que denominou A Historia e a Legenda.
Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?
É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.
E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.
Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano, nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.
Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente consagrada para assim manter-se na tradição popular.
De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII, limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da chegada de Cabral ao Brazil.
Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou, para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.
Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»
Garcia Redondo