PORTUGAL
Reading edition
Monumentos architectonicos―Restaurações―Desacatos Pintura e esculptura―Artes industriaes O genio e o trabalho do povo―Indifferença oficial―Decadencia Anarchia esthetica Desnacionalisação da arte―Dissolução dos sentimentos Urgencia de uma reforma

LISBOA Antonio Maria Pereira, Livreiro-Editor 50―Rua Augusta―52 1896
Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa
Á Commissão dos Monumentos Nacionaes dedica respeitosamente este humilde trabalho
O AUCTOR
Durante a Renascença, e ainda atravez da Edade Média, tão insufficientemente conhecida no enigma da sua cultura artistica, os reis, os monges, os fidalgos, os burguezes enriquecidos ostentavam o fausto e a pompa hierarchica não sómente construindo palacios e castellos, que enobreciam os logares que elles habitavam, mas erigindo basilicas e cathedraes, em que se concentravam todos os esforços do talento de uma raça, e eram verdadeiramente os palacios do povo, doados magnanimamente pelos mais poderosos aos mais humildes, em nome de Deus, em nome do rei, em honra da patria.
N'esses edificios incomparaveis se achavam colligidas como em escolas monumentaes, como em museus portentosos, todas as maravilhas da sciencia, da poesia e da arte. A esculptura architectural, a estatuaria dos mausoleus, a imaginaria dos altares, a illuminura dos missaes, a pintura das vidraçarias, a talha dos retabulos subordinavam-se a um pensamento commum, expresso n'um vasto symbolismo, comprehendendo as fecundidades da terra e do mar, o trabalho do homem nos seus desfallecimentos e nos seus triumphos, a perturbação dos sentidos pelo peccado, a fatalidade do sangue, o horror do universal aniquilamento, e o vôo da alma para Deus, levada por um immortal instincto de amor, de paz, de verdade e de justiça.
Dentro d'essas egrejas, ameaçadas hoje de proxima ruina ou inteiramente arruinadas, se celebravam todos os actos da vida religiosa, da vida civil e da vida domestica. Ahi se casavam os noivos, se baptisavam os filhos, se sepultavam os paes. Ahi se ungiam os reis, velavam as armas os cavalleiros, professavam os monges, benziam-se os fructos da terra, as bandeiras das hostes, as ferramentas da lavoura e os pendões dos officios. Ahi se discutiam os interesses do povo, os direitos, as franquias, os foros da communa. Ahi se prégava o Evangelho, se resava a missa, e se representavam os autos populares da vida de Jesus e dos seus santos; e nas vigilias da Natividade, da Epiphania e da Paschoa, quando o orgão emudecia no coro e se calavam os cantos liturgicos, o povo bailava ao longo da nave, sob as abobadas gothicas ou sob as cupulas bysantinas, e as lôas e os villancicos, entoados pelos fieis, subiam para o ceu com a fragancia das flores e com o fumo dos thuribulos, ao repique das castanholas e ao rufar dos adufes.
Ao lado dos brazões e das divisas heraldicas pendiam dos muros os votos modestos dos mais obscuros mesteiraes, dos mais humildes braceiros.
Esse alcaçar dos pobres, que era a egreja medieval, alcaçar mais sumptuoso que o de nenhum rei, dava asylo incondicional, inviolavel e sagrado, aos maltrapilhos, aos villões, aos mendigos, aos lazaros e ás lazaras de todas as lepras do corpo e da alma, aos tinhosos, aos nus, aos imbecis, aos ignorantes, aos criminosos, ás mulheres adulteras, ás mancebas, ás mundanarias, ás barregãs.
O egoismo dos tempos modernos torna-nos incompativeis com o commetimento de tão grandes obras. Creamos instituições de caridade, fazemos regulamentos de assistencia publica, e vangloriamo-nos de haver definido pela revolução liberal o dogma da fraternidade humana, mas somos fundamentalmente incapazes de consagrar á pratica das virtudes, de que julgamos ter na historia o monopolio, monumentos como aquelles que nossos avós lhe levantaram
a proll do comum e aproveitança da terra
, dando em resultado que o mais andrajoso mendigo da portaria do mosteiro de Alcobaça ou do mosteiro de Santa Cruz, com o seu alforge ao pescoço e a sua escudella debaixo do braço, participava, além da ração quotidiana que se lhe distribuia pelo caldeirão da communidade, de um agasalho de principe e de um luxo d'arte com que hoje não competem os maiores potentados, os quaes em suas casas e para seu recreio intimo se rodeiam de todas as joias artisticas de que pela abolição dos vinculos e pela extinção das ordens religiosas se apoderou o moderno commercio do bric-à-brac.
Falta-nos a alta noção de solidariedade patriotica, falta-nos o desapego dos bens de fortuna, falta-nos o largo espirito de abnegação, falta-nos a illimitada liberalidade cavalleirosa, e falta-nos a fé dos nossos avós.
Na architectura trabalhamos unicamente para nós mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento de continuidade de raça ou de familia, deslembrados de que teremos vindouros e de que teremos netos.
Entre as nossas antigas construcções hydraulicas ha o aqueducto de Elvas, que levou cem annos a fazer. Varias gerações successivas acarretaram para essa construcção os materiaes; e lentamente, pacientemente, foram collocando pedra sobre pedra, para que um dia a agua chegasse a Elvas, e bebessem d'ella os netos dos netos d'aquelles que de tão longe principiaram a recolhel-a e a canalisal-a. Uma tal empresa é a humilhação e a vergonha do nosso tempo, imcapaz de pagar com egual carinho ao futuro aquillo que deve á previdencia, aos sacrificios e aos desvelos do passado.
O nosso ideal na arte de construir é que a obra se faça em pouco tempo e por pouco dinheiro. Vamos abandonando cada vez mais, de dia para dia, a pedra e a madeira, em que é nimiamente moroso para a morbida inquietação do nosso espirito o trabalho de desbaste, de esquadria e de lavor. Adoptamos, como material typico do nosso systema de edificar, o ferro, o tijolo e a pasta. A casa cessou de ser uma obra de architectura para se converter em uma empreitada de engenharia, e os delicados artistas da pedra, da madeira e do ferro forjado abdicam da sua antiga missão perante os subalternos obreiros encarregados de fundir, de amassar e de enformar a vapôr a habitação moderna e o moderno edificio publico―a gare, o quartel, o mercado ou a cadeia.
O seculo XIX, se com a impotencia de continuar a obra monumental dos seculos que o precederam, accumulasse a incapacidade de comprehender e de venerar essa obra, representaria um pavoroso retrocesso na historia. Não succede assim, porque são inviolaveis as leis do progresso. Ao seculo XIX coube patentear o estudo mais dedicado e o conhecimento mais perfeito da arte antiga. A sciencia archeologica e a critica d'arte nunca em nenhum outro periodo da civilisação chegaram á eminencia attingida pelos investigadores contemporaneos. É tambem em sua maneira um colossal monumento, dos mais gloriosos para a intelligencia, o que erigiu a erudição do nosso tempo, constituindo scientificamente a archeologia, definindo o seu methodo, fixando os seus limites, especialisando o trabalho dos seus contribuintes, distinguindo da archeologia litteraria a archeologia da arte, ramificando para um lado a paleographia, a epigraphia, a ecdotica, a museographia e a propedeutica, para o outro as bellas artes, as artes industriaes, a numismatica, e ainda como desdobramento d'estes estudos a iconographia, a mithologia figurada e a symbologia, particularisando emfim estas investigações a cada povo e a cada epocha da humanidade, creando d'esse modo a prehistoria, a egyptologia, a syriologia, que tão amplo clarão teem derramado sobre os problemas da origem do homem, da distribuição das raças, da formação das linguas. Fixaram-se pelas escavações de Troia, de Mycenes, de Chypre, de Santorin e de Rhodes as origens orientaes e pelasgicas da arte grega. Corrigiu-se na historia da ceramica a confusão existente entre os vasos pintados gregos e etruscos. Refez-se completamente sobre novos elementos e por um criterio novo a historia da olaria, a da toreutica, a da glyptica, a da esculptura em barro, a dos bronzes, a das joias, a da tapeçaria, a da illuminura. Desvendou-se o conhecimento da tachigraphia hieratica e dos alphabetos hieroglyphicos, ideographicos e phoneticos, que precederam o alphabeto grego e o latino. Creou-se a critica scientifica dos textos. Colligiram-se e classificaram-se as inscripções gregas e romanas dessiminadas pela Europa, e definiu-se o methodo de as datar. Leram-se os carcomidos graffitos de Pompeia, os papyrus carbonisados de Herculanum, as cartas lapidares da edade média e os palimpsestos de Plauto, de Cicero, de Marco Aurelio, de Tito Livio, de Euripedes e dos scribas carolingeanos. Interpretaram-se os documentos de procedencia egypcia, copta ou phenicia sepultados nos jazigos das mumias. E os mysteriosos caracteres hieroglyphicos e cuneiformes das inscripções egypcias, caldéas, assyrias e persas foram simplesmente trasladados a vulgar. Determinou-se a edade dos manuscriptos pelo systema das abreviaturas e da pontuação e pela evolução da letra desde a oncial da
Iliada
no palimpsesto greco-syriaco do Museu Britannico até a minuscula italiana egual á dos primeiros caracteres da imprensa. Inspeccionaram-se e inquiriram-se as primitivas habitações do homem, as suas primeiras fortificações, os seus mais antigos sepulcros,―a caverna, a cidade lacustre, os castros e os dolmens. Na architectura principiou-se a estudar por novos meios de critica as causas dos seus progressos e da sua decadencia, prendendo assim pelos mais estreitos vinculos ao destino da arte o destino do homem. Por tal modo se transfigurou completamente desde o seu alicerce até o seu remate o vasto edificio da historia, segundo a resumida formula dada por Champolion Figeac: que todos os monumentos, ainda os mais communs e os mais grosseiros, conteem factos cujo conjuncto é como a estatistica moral das sociedades extinctas.
D'esse novo criterio resultou a attenção especial com que todos os povos cultos principiaram a considerar a obra material do passado; e assim nasceu, com uma nova palavra, a nova maneira de
restaurar
os edificios publicos.
Em mais de um documento da edade média se encontram provas de que os antigos poderes não abandonavam, tão completamente como hoje se poderia suppor, ao accaso de qualquer iniciativa, sem beneplacito do estado, as edificações consagradas ao publico. No
Codigo de las partidas
, lei 6.ª, titulo X, dizia Affonso o Sabio, n'aquella saborosa lingua de que mais tarde se desdobrou o portuguez e o castelhano: «Por bienaventurado se debe tener todo home que pueda facer eglesia, do se ha de consagrar tan noble cosa et tan sancta como el cuerpo de Nuestro Señor Jesucristo, et como quiere que todo home ó mujer la puede facer a servicio de Dios, pero con mandamiento del obispo, como es dicho en la ley segunda deste titulo, con todo eso debe catar dos cosas el que la ficiere, que la faga complida et apuesta; et esto tambien en la labor como en los libros et en las vestimientas...»
Affonso V escreve de Almada, em 1467, aos juizes, vereadores, procuradores e homens bons da cidade de Evora para que se permitta a Sueiro Mendes levar duas pedras que estavam nos açougues, e eram do antigo templo romano, para antipeitos das janellas de uma casa, que a esse tempo edificava. «E porque as ditas pedras aproveitam pouco honde estam e em as ditas casas faram muito, e ainda é nobresa as cidades haverem em ellas bôas casas taes como as do dito Sueiro Mendes, e seu fundamento he as faser para nós em ellas havermos de pousar, Nós vos rogamos e encomendamos que vos prasa lh'as quererdes dar, e Rodrigo Esteves mestre das nossas obras em essa cidade terá cuidado de as tirar donde estam, etc.» Estas linhas são um traço caracteristico da policia do tempo. D'ellas se deduz que era preciso no seculo XV requestar a intervenção regia para bulir em duas pedras de um velho monumento, operação que hoje se realisa com menos formalidades, e até, como é sabido, sem formalidade alguma. Era porém entendido como doutrina corrente não desdizer da nobreza de uma cidade que cantarias de stylo romano se transpuzessem do edificio a que pertenciam para edificio de stylo completamente diverso. Aquillo que modernamente se entende pelo neologismo restaurar é operação desconhecida dos antigos. A obra architectonica seguia sempre e invariavelmente quer em novas edificações, quer em reparação de antigas, o systema e o stylo da epocha em que era feita. Sem falarmos do Egypto, da Grecia, de Roma, onde as reconstrucções se emprehendiam, sem o menor sentimento de respeito pela tradição, em vista de celebrar uma gloria coeva com os mesmos materiaes que haviam servido á glorificação de feitos anteriores, como no arco de Constantino feito com as pedras do arco de Trajano, vemos em toda a Europa, e mais particularmente em Hispanha e em Portugal, edificios em cujos stylos sobrepostos perfeitamente se espelha o independentismo das influencias diversas atravez das successivas phases da construcção por differentes vezes interrompida. Uns nascem genuinamente bysantinos e desenvolvem-se romanicos; outros começam romanicos e concluem gothicos; outros, gothicos de nascença, acabam no clacissismo greco-romano do renascimento; e é frequente nas nossas egrejas entrarmos por um portal do seculo XVI para nos defrontarmos com uma capella mór no stylo barroco de D. João V, de D. José ou de D. Maria I. D'esses casos de polyarchitectonismo encontramos exemplos em Toledo, em Burgos, nos Jeronymos, na Batalha.
A cathedral de Colonia é n'este ponto de vista, um facto particularmente expressivo. A construcção, principiada no meado do seculo XIII, proseguida muito lentamente, suspende-se no fim do seculo XV por desanimo de a concluir segundo o plano primitivo. No seculo XVII e no seculo XVIII, a nave, abrigada por um tecto provisorio, é ornamentada em stylo rococo. Sómente em 1842 se encetaram os trabalhos de uma restauração authenticamente archeologica, segundo o plano original, cabendo o projecto da conclusão a um architecto que ao mais profundo estudo do stylo ogival reunia o talento mais esclarecido e mais perspicaz.
Na historia da cathedral de Milão circumstancias analogas ás de Colonia veem ainda corroborar a affirmação de que unicamente ao seculo XIX cabe o privilegio de restaurar monumentos. A obra de Milão iniciada no seculo XIV, é interrompida por desavenças entre os architectos, uns allemães, outros italianos, outros francezes; é continuada no seculo XVI em stylo da renascença; e tão sómente em 1805 a restauração do monumento no seu stylo primitivo, segundo os programmas mais tarde definidos, se achou determinada por Napoleão I, o qual pela vastidão do seu genio, ainda que pouco propicio aos humildes, muitas vezes se adeantou do seu tempo, e em muitas campanhas da intelligencia indicou de antemão o ponto da victoria, assim como ao principiar a campanha de Italia assignalava na carta do Piemonte o logar de Marengo.
Foi Vitet, nomeado inspector geral dos monumentos historicos em 1830, quem primeiro indicou em França o programma das restaurações architectonicas, presentemente seguido em toda a parte:―em Hispanha, onde depois da real ordem de 4 de maio de 1850, se não emprehende obra de especie alguma nos edificios monumentaes sem prévia consulta da commissão dos monumentos historicos e artisticos; em Inglaterra e na Allemanha, que haviam precedido a França na protecção da arte nacional; na Italia, emfim, na Belgica, na Dinamarca, na Suecia, na Noruega, na Grecia, na Turquia.
Violet-le-Duc, o erudito mestre a quem tanto deve o ensino da archeologia e das artes, completou o programma de Vitet, não sómente ampliando os seus preceitos, mas dando da applicação d'elles o mais notavel exemplo na restauração do castello le Pierrefonds.
Conhecidos os livros de Violet-le-Duc, estudados com tão paciente laboriosidade, escriptos com tão lucido e penetrante engenho, e conhecida a legislação européa baseada n'esses estudos tão completos e tão perfeitos, a questão puramente administrativa de dar aos monumentos nacionaes de cada povo a protecção que se lhes deve, quando menos por simples solidariedade intellectual na civilisação do nosso tempo, é questão perfeitamente illucidada e rigorosamente definida.
Vejamos agora qual é em Portugal, perante as responsabilidades da administração, o reflexo das ideias, cuja historia procurei resumir, com o fim de pôr o assumpto na perspectiva que a sua magnitude pede.
Levaria muito tempo e seria excessivamente triste ennumerar todos os attentados de que teem sido e continuam a ser objecto, perante a mais desastrosa indifferença dos poderes constituidos, os monumentos architectonicos da nação, os quaes assignalam e commemoram os mais grandes feitos da nossa raça, sendo assim por duplo titulo, já como documento historico, já como documento artistico, quanto ha, sobre a terra em que nascemos mais delicado e precioso para a honra, para a dignidade, para a gloria da nossa patria.
Dos desacatos de lesa magestade nacional, a que tenho a dôr e a vergonha de me referir, uns teem caracter anonymo, outros affectam directamente a cumplicidade official. Os primeiros são uma consequencia de desdem; os segundos são um resultado de incapacidade.
A auctoridade, incerta, vagamente definida, a quem tem sido confiada a conservação e a guarda da nossa architectura monumental, procede com esse enfermo, de quem se incumbiu de ser o enfermeiro, por dois methodos differentes: umas vezes deixa-o morrer; outras vezes, para que elle mesmo não tome essa resolução lamentavel, assassina-o. Na primeira hypothese a calamidade correlativa chama-se
abandonar
. Na segunda hypothese a catastrophe correspondente chama-se
restaurar
,―gallicismo technico, recentemente introduzido no vocabulario nacional, mas ainda não definido vernaculamente na applicação pratica.
Para o argumento que tenho em vista produzir, tomarei unicamente d'entre os differentes desastres com que se deshonram e enxovalham os nossos monumentos, o desastre denominado
restauração
.
Serei laconico, sem deixar de ser sufficientemente expressivo, porque os factos são de uma eloquencia que esmaga toda a especie de replica na materia de que se trata.
Aqui temos tres edificios restaurados ou em restauro a expensas da nação, sob os auspicios do estado: Os Jeronymos, a Madre de Deus e a Batalha.
Nos Jeronymos a construcção desmoronou-se, sem provocação alguma de agente extranho, por mero desequilibrio de si mesma. Inutil todo o commentario. A restauração, ainda antes de terminada, cahiu. Que prova mais lastimavelmente completa, evidente e cabal, de que foi insufficientemente estudado, logo nos seus primordiaes elementos, o programma de tal restauração?! As seguranças de execução falham precisamente na parte mais rudimentar do problema.
Attente-se em que não se trata ainda de uma questão de archeologia, nem de uma questão de arte; não se apresenta nenhuma d'essas subtis difficuldades inherentes ao estudo das fórmas constructivas ou ornamentaes, ao discernimento dos diversos stylos, ao pleno conhecimento das antigas escolas no tempo e na região a que o edificio pertence. Resolve-se apenas realisar uma simples tarefa de construcção, e esquece, incumbindo esse trabalho de simples mestre de obras ao mais distincto dos scenographos, que a primeira condição de um architecto a quem se confia a restauração de um monumento é que elle seja, antes de tudo, acima de tudo, o mais habil, o mais experiente, o mais perito de todos os constructores.
Na Madre de Deus, onde aliás o primitivo portal da rainha D. Leonor foi discretamente reconstituido na moderna fachada do edificio, temos o infortunio de ir encontrar no consecutivo restauro de uma fabrica do tempo de D. João III novos capiteis de columnas, nos quaes em vez da ornamentação vegetal do nosso seculo XVI se vê reinar nos entablamentos a figuração, absolutamente imprevista e inopinada, de uma locomotiva de caminho de ferro, arrastando fumegante o respectivo comboyo, tudo lavrado mui laboriosamente em pedra, e demandando um tunel. Este assombroso phenomeno de pathologia archeologica estou convencido de que dispensa ainda mais do que o caso dos Jeronymos a investigação da autopsia.
Nas restaurações da Batalha, umas já em realidade, outras ainda em projecto, falta, primeiro que tudo, o meditado programma de conjuncto no ponto de vista archeologico, no ponto de vista artistico e no ponto de vista technico, visando o assumpto por todos os lados de que elle pode ser encarado: qualidade do solo, influencias da atmosphera, escolha de materiaes, condições de resistencia e de equilibrio, systema geral de structura, determinação do stylo, desde as suas grandes linhas e dos seus motivos dominantes até os ultimos desenvolvimentos d'essas linhas, até o extremo desdobramento d'esses motivos, mão de obra, direcção e apprendisagem em todas as officinas de que depende o restauro, etc.
Seria por um programma d'essa natureza que a competencia do architecto restaurador deveria principiar a affirmar-se. Perante essa prova, comprehendendo o estudo do monumento, plantas, alçados, photographias, desenhos de projectos, systemas de stylisação, methodos de estudo e de trabalho, regimentos de officinas, etc., poderiamos nós, que não somos architectos, mas simples criticos, fiscaes da arte em nome do publico, decidir se o restaurador da Batalha está ou não está ao nivel da sua missão. Sem prova d'essa ordem que cotejemos com os requisitos a que teem de satisfazer, nos paizes extrangeiros, os architectos a quem se entrega a restauração de um monumento, nós não podemos julgar senão de um modo muito imperfeito, tendo de entrar mais ou menos no exame da execução, para o qual nos fallece a competencia profissional.
Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque é o unico architecto portuguez de quem conhecemos, com relação á historia do edificio e ao plano da restauração da Batalha, estudos especiaes, consubstanciados n'uma memoria publicada, depois da morte do auctor, em 1867. A monographia a que me refiro, além de mui interessantes revelações sobre os vandalismos perpetrados pelos ultimos frades que habitaram o mosteiro e chegaram a quebrar os preciosos vidramentos das janellas para presentearem os visitantes com cabeças das figuras de que elles se compunham, contém alguns principios mui judiciosos e bem definidos, sobre o modo como esse perito restaurador, que a influencia do rei D. Fernando fizera nomear, comprehendia a sua delicada missão. E excellente o methodo por elle proposto para a conservação das Capellas imperfeitas. Notam-se alguns excessivos e infundados rigores de zelo, como na parte em que ao restaurador repugna adoptar, para o fim de pôr o monumento ao abrigo das intemperies, processos de resguardo mais perfeitos que os conhecidos ao tempo da construcção primitiva, taes como, por exemplo, o emprego de cimentos modernos na vedação de uma cobertura, etc. A memoria programma de Mousinho de Albuquerque é não obstante um trabalho de incontestavel merecimento, que muito augmenta de valor se levarmos em conta que esse illustre architecto escrevia em 1840, quatro annos depois d'aquelle em que o rei D. Fernando visitou o edificio, chamando para elle pela primeira vez a attenção dos poderes publicos.
Até Mousinho a architectura da Batalha foi na litteratura portugueza um puro thema de rhetorica. O romantismo tinha-nos trazido a moda do gothico por via de Chateaubriand e de Victor Hugo. Os romances, as xacaras, as baladas e os solaus, com as suas castellãs, os seus paladinos, os seus pagens, os seus menestreis e os seus respectivos attributos―lanças, montantes, elmos, guantes de ferro, falcões, adagas, béstas e bandolins, pediam um scenario de fortificação feudal, fossos e pontes levadiças, revelins, caminhos de ronda, ameias, torres de menagem, amplas chaminés com trasfogueiros forjados, ogivas e abobadas. As egrejas, para os effeitos de grandiosidade no stylo, sempre que não eram ermidas eram cathedraes. Os romanticos chamavam cathedraes a todos os grandes templos, como o da Batalha, o do Carmo e o dos Jeronymos. O romance historico, tanto em voga durante a geração litteraria de Alexandre Herculano, tinha exigencias decorativas analogas ás da poesia cavalheiresca. Os estudos de critica e de archeologia artistica, tendo por objecto os nossos monumentos architectonicos, davam em resultado geral uma especie de lenga-lenga de eruditos ciceroni.
A Batalha tem sido constantemente, desde a primeira apparição da
Abobada
no
Panorama
, até hoje, o
grande livro de marmore
, o
immortal poema
, a
Divina Comedia portuguesa
, a triumphante affirmação da nacionalidade independente, definitiva, fundada pela vontade do povo, pela espada do mestre de Aviz, pela lança de D. Nuno Alvares Pereira e pela penna de João das Regras.
Com effeito, nada mais bello, na historia nacional, do que o feito d'armas de Aljubarrota e o monumento de Nossa Senhora da Victoria, destinado a commemorar esse feito, por voto de D. João I. Mas d'ahi a poder-se dizer que o edificio da Batalha é, como a epopéa dos
Luziadas
, a imagem technica das idéas e dos sentimentos da patria, medeia―me parece―um largo abysmo.
Olhemos por um momento a historia d'esta construcção.
Frei Luiz de Sousa diz que «El-rei chamara de longes terras os mais celebres architectos que se sabiam; convocara de todas as partes, officiaes de cantaria déstros e sabios; convidara a uns com honras, a outros com grossos partidos, e obrigara a muitos com tudo junto.» Este testemunho é precioso e está acima de toda a suspeita, porque nos vem de um frade de S. Domingos, que habitou por muitos annos o convento da Batalha, e que, como chronista da ordem, conheceu inteiramente pelo archivo do convento quanto se sabia da historia da sua fundação.
Frei Francisco de S. Luiz contesta, sem provas, que fossem architectos celebres chamados de longes terras, como diz Sousa, os iniciadores da grande obra, e cita como auctor do risco Affonso Domingues, porque d'elle se sabe que teve parte na direcção das obras nos primeiros annos da fundação, e não consta de documento authentico que qualquer outro architecto interviesse nos trabalhos durante os dezeseis annos que medeiam entre o seu começo e o anno da morte de Affonso Domingues, em 1402.
Todos os que se seguiram a Frei Francisco de S. Luiz, adoptaram esta opinião; de modo que se tornou uma cousa tão corrente como se estivesse demonstrada que foi Affonso Domingues quem construiu a Batalha.
James Murphy, porém, no seu livro
Travels in Portugal
, affirma, por
informações que lhe foram dadas em Lisboa por empregados da Torre do Tombo
, que o encarregado da construcção foi o architecto inglez Stephan Stephenson, socio das
free and accepted masons
, que tinham a sua séde principal em York. Stephenson teria vindo a Portugal por intervenção da rainha D. Filippa, mulher de D. João I, ingleza de nação, filha do duque João de Lencastre e neta de Eduardo III.
O conde de Rakzynski diz a este respeito, que desde que examinou as gravuras do convento da Batalha, na obra
in folio
de Murphy, se convenceu de que a analogia existente entre a Batalha e a cathedral de York não permitte a minima duvida acerca da origem commum d'estes dois edificios. «Que o plano da igreja da Batalha―diz Rakzynski―seja obra de um portuguez ou de um inglez, a verdade é que as duas igrejas nasceram de inspirações artisticas analogas, homogeneas e contemporaneas, e o estylo de ambos me parece identico. Esta impressão tornou-se para mim ainda mais forte, depois que visitei a Batalha.»
Temos, pois, sobre a origem estrangeira d'este monumento tres votos importantes: o de Fr. Luiz de Sousa, o de James Murphy e o do conde de Rakzynski, aos quaes recentemente se juntou o architecto Haupt.
Na Torre do Tombo não se encontra documento algum relativo á construcção da Batalha, nem á vinda de Stephenson a Portugal. Em 1845, Alexandre Herculano e o Visconde de Juromenha, auxiliados pelos officiaes da Torre, fizeram as mais demoradas e escrupulosas pesquizas para o fim de satisfazer a curiosidade de Rakzynski, e nada appareceu.
É claro que esta ausencia de vestigios no real archivo nada prova sobre o facto de ter estado ou não em Portugal o architecto de York. Não consta tão pouco, dos documentos existentes no archivo, que tivesse estado em Portugal durante nove annos o insigne esculptor italiano Andrea Contucci, emulo de Miguel Angelo; e no emtanto este facto acha-se fóra de toda a contestação.
O cardeal patriarcha Frei Francisco de S. Luiz, queixando-se da negligencia e da superficialidade com que Frei Luiz de Sousa falla dos primeiros architectos da Batalha, e propondo-se demonstrar que o auctor da obra foi Affonso Domingues, diz que não vê razão para pôr em duvida a habilidade dos nossos compatriotas, suppondo que houvessemos de reclamar a assistencia de estrangeiros em uma epocha como a de D. João I, na qual, exceptuadas as italianas,
nenhuma nação da Europa se achava mais adeantada que a nação portugueza, tanto na arte da architectura, como em todas as outras
.
O patriotismo imprudentemente levado até ás affirmações da natureza das de Frei Francisco de S. Luiz, tem um inconveniente grave, que é o de fazer sorrir os estrangeiros, da ingenua applicação dos nossos sentimentos civicos á historia da arte européa.
Hoje, toda a gente sabe, porque esta ordem de conhecimentos tem-se vulgarisado muito, que o systema gothico ou systema ogival, a que primitivamente se chamou
Opus francigenum
, teve a sua origem na ilha de França e na região circumstante. Foi n'esses logares que até o seculo XII se construiram os primeiros edificios gothicos. O novo stylo chega em França aos seus mais completos desenvolvimentos no seculo XIII, e d'essa epocha datam as cathedraes de Amiens, de Pariz, de Reims e de Chartres.
Os allemães e os inglezes teem contestado á França a prioridade do emprego do arco ogival e dos desenvolvimentos architectonicos que d'elle procedem. O que, porém, está acima de todo o litigio, é que o systema ogival, chamado stylo gothico, ou gothico puro da igreja da Batalha, não procede da invenção dos paizes meridionaes, de céu azul, mas sim das regiões nevoentas de longos e rudes invernos.
No norte da Europa, durante a edade média, tratou-se de edificar a grande cathedral que désse um abrigo espaçoso ás numerosas congregações de fieis e de cidadãos; como a pedra escasseava, como a neve cahia em abundancia e permanecia por longo tempo, procurou-se um modo de construcção, que, sem difficultar a circulação da gente com grandes e repetidos corpos de cantaria no interior do edificio, permittisse empregar materiaes menos solidos e fazer tectos elevados e agudos, que, não pesando excessivamente sobre os membros destinados a sustental-os, deixassem facilmente resvalar e escorrer a neve pelas superficies exteriores, impedindo o mais completamente possivel a infiltração da humidade no interior do templo.
Foi d'estas causas, determinadas pela natureza do clima e do solo, pelas condições sociaes, e não de um mero capricho inventivo, que resultou para os architectos dos paizes septentrionaes o pensamento de readoptar a abobada de aresta, que os romanos, depois de a haverem empregado, puzeram de parte, para o fim de dar logar na construcção das basilicas christãs á enorme quantidade de columnas legadas pelo paganismo.
Assim foi que nasceu, bem longe de Portugal e inteiramente fóra das influencias cosmicas e das influencias sociaes geradoras do caracter e da indole da nossa raça, que nasceu o stylo architectonico da egreja da Batalha.
A affirmativa de que nenhuma nação da Europa, com excepção da Italia, se achava mais adeantada do que Portugal do tempo de D. João I, nas artes da architectura, sómente prova, da parte do cardeal frei Francisco de S. Luiz, que este benemerito academico e illustre litterato, ou não viajou nunca em França e na Allemanha, ou não visitou n'estes paizes os monumentos anteriores ao fim do seculo XIV.
A egreja da Batalha, que data d'essa epocha, é chronologicamente um dos ultimos edificios em stylo gothico puro construidos na Europa, e, apesar de toda a sua belleza, está, como obra d'arte e como magnificencia monumental, bastante abaixo de alguns outros edificios construidos cem ou duzentos annos antes, como a cathedral de Strasburgo (1015 a 1275), Reims (1215), Amiens (1222), Colonia (1248) a Sainte-Chapelle em Pariz (1248), Notre-Dame (1275), etc.
Bastaria que o auctor da interessante memoria sobre a construcção do convento da Batalha, encorporada na collecção das memorias da Academia, tivesse olhado em Pariz para as estatuas de Sainte-Chapelle e para os baixos-relevos da egreja de Notre-Dame; que tivesse observado um momento as esculpturas de Chartres, de Reims e de Amiens; para ter uma idéa do enorme abysmo que no tempo de D. João I nos distanciava ainda dos grandes mestres da architectura e da esculptura franceza, que se chamaram Pierre de Montreuil, Thomas e Regnaut de Carmont, Jean de Chelles, Hugues Libergier e outros artistas leigos, sem contar os muitos monges anonymos com que se illustrou na historia da arte, a ordem de Cluny, no seculo XII e no seculo XIII.
Na Allemanha, temos, precedendo a Batalha, a cathedral de Colonia; na Inglaterra Canterbury, Westminster, Salisbury, Lincoln e York; e em Hispanha, Burgos e Toledo.
Anterior á Batalha não ha em Portugal monumento algum que prenuncie, prepare e explique a apparição d'este.
Nos primeiros tempos da monarchia, em quasi todo o periodo affonsino, os artistas e os obreiros eram em geral arabes ou mouros. O portuguez era como os seus reis, soldado ou agricultor. Para as especulações estheticas faltava-lhe a paz, a tranquillidade, a riqueza. Mal lhe chegava o tempo para desbravar o sólo e para bater os inimigos, que de todas as partes rodeavam a pequena sociedade nascente, aventurosa e aguerrida.
A Batalha, com a delicada pureza das suas linhas, já então consagradas na Europa, surge repentinamente, imprevistamente, esporadicamente, na corrente da architectura portugueza, como a flor desconhecida de uma planta exotica.
D'onde é que foi transplantado para terra portugueza este producto de uma civilisação superior, em que o desenvolvimento da vida municipal, iniciada pelas fortes corporações operarias e mercantis, impellira as communas a construirem as luxuosas cathedraes, que eram ao mesmo tempo, nas cidades novas, um asylo de religião e um fóco de vida civil?
Não sei responder peremptoriamente a esse quesito.
O problema assim estreitado é, no fim de contas, de pura curiosidade.
O architecto inglez Hope, na sua
Historia da
Architectura
, diz que o estylo ogival não tem propriamente nem uma patria nem uma nacionalidade. Só poderia ter nascido no seio de alguma ordem religiosa ou de uma corporação de pedreiros livres, porque o clero e os pedreiros livres eram as unicas corporações que na edade média possuiam os conhecimentos necessarios para o plano e para a execução dos edificios sagrados, quer para as communidades monasticas, quer para a egreja latina em geral.
Hope acrescenta: como os conventos e sobretudo as
lojas
dos pedreiros livres se compunham de cidadãos de todos os paizes, que reconheciam a supremacia da egreja romana, não seria possivel determinar positivamente os inventores do stylo ogival quando mesmo se houvesse descoberto o logar preciso do seu berço.
Em toda a parte onde apparecem as primeiras amostras d'esse stylo ellas não são a obra de individuos de um paiz determinado, mas sim de uma congregação encerrando no seu gremio homens de todas as nações.
Na
Real Encyclopedia
de Leipzig lê-se com referencia ás associações maçonicas que ellas se compunham de homens de arte de todos os paizes formando uma só corporação dirigida por um ou por varios chefes. «Protegidos por privilegios ou cartas patentes emanadas das auctoridades ecclesiasticas e seculares, emprehendiam as maiores construcções em toda a Europa e são auctores d'esses magnificos edificios chamados gothicos e que antes se deveriam chamar
Altdoutsch
. Achamos o stylo de todas as construcções d'essa época fundamentalmente identico. As associações alludidas compunham-se de architectos e de obreiros italianos, allemães, flamengos, francezes, inglezes, escocezes e até gregos. Foi d'essa maneira que nasceram os monumentos seguintes: o
mosteiro da Batalha em Portugal
, a cathedral de Strasburgo, a de Colonia, a de Meissen, a de Milão, o convento do Monte Casino, e todos os edificios notaveis da Inglaterra.»
Esta hypothese―e chamo-lhe hypothese, porque não conheço os documentos positivos em que se baseia o escriptor allemão―condiz perfeitamente com a lição de Frei Luiz de Sousa, e é talvez de todas a mais verosimil com relação aos constructores da Batalha.
Que fosse, porém, uma associação de artistas e de operarios; que fosse Stephan Stephenson, como indica Murphy, de quem devemos crer que não inventou esse nome e o recebeu, como diz, dos empregados do archivo da Torre do Tombo; que fosse, como pretende Hope, mestre Ouet, Huguet ou Huet, de nação inglez, que trabalhou nas obras e cujo nome Frei Francisco de S. Luiz encontrou como testemunha no contracto de aforamento, em que se fala de Affonso Domingues; como quer que seja, emfim, a hypothese que menos verosimilhança offerece é a de ter sido o monumento delineado e construido pelo mestre portuguez Affonso Domingues, como em Portugal se tem geralmente escripto.
O mais superficial exame aos edificios anteriores á Batalha manifesta do modo mais evidente que não tinhamos nem escola, nem tradições, nem tendencias de que procedesse um artista como o que delineou e construiu a egreja da Batalha.
Vilhena Barbosa, nos
Monumentos de Portugal
, repete ainda a versão relativa a Affonso Domingues como constructor da Batalha, mas accrescenta: «É muito para admirar, não devo negal-o, que houvesse n'aquella época em Portugal um artista tão consumado como o que fez o risco do monumento, achando-se a architectura entre nós, antes da execução d'esta obra em um estado, que, se não era de grande atrazo, tambem não se lhe poderá chamar de adiantamento; em um estado pelo menos que nenhuma memoria ou documento nos auctorisa para o considerarmos como escola d'onde pudesse sahir um artista tão completo.»
A seguir, Vilhena Barbosa, procurando conciliar o arrojo do seu reparo com a tradição geralmente recebida, exclama um tanto contricto: «N'este caso lançarei mão de uma conjectura, não pela necessidade de sahir do embaraço, mas porque me parece acceitavel e muito plausivel. Vem a ser que talvez Affonso Domingues tivesse sahido da sua patria antes da acclamação do mestre d'Aviz, com o intento de se instruir e aperfeiçoar na sua arte. Bem sei que n'essa época não eram dados os artistas, pelo menos os nossos, a procurar taes meios de estudo. Entretanto, tendo estado em Portugal, no reinado de D. Fernando e com alguma demora, dois principes inglezes, o duque de Cambridge, e um seu irmão natural, filhos de D. Duarte III, rei de Inglaterra, pode ser que Affonso Domingues, levado pelo amor da arte ou por outro qualquer respeito, se resolvesse a acompanhar algum d'elles na sua volta para Inglaterra, paiz classico da architectura gothica no genero da Batalha.»
Confessemos que é preciso ter vontade de attribuir por força a Affonso Domingues uma obra que este não podia fazer, para formular a conjectura de que
talvez elle se tivesse resolvido
a ir a Inglaterra com os filhos de Duarte III.
Ainda quando admittida a singular camaradagem do duque de Cambridge e de seu irmão com Affonso Domingues, camaradagem conjecturada por Barbosa, e de que não ha o minimo vestigio historico, não será talvez inutil reflectir que depois d'essa excursão a Inglaterra―paiz tão debilmente
classico na architectura gothica
, no tempo de Duarte III, que não tinha um architecto indigena, nem monumento gothico algum, que se possa pôr em confronto com as obras magnificas do continente―Affonso Domingos voltaria de Inglaterra, no tocante ao conhecimento da arte de edificar, proximamente no mesmo estado em que para lá tivesse ido, o que facilmente se demonstra, como vamos vêr.
Sabe-se que desde o seculo X se organisaram na Italia, iniciadas pela Lombardia, essas associações de artistas seculares, architectos, esculptores, illuminadores, imaginarios, vidristas, entalhadores e canteiros, empregados pela egreja nas vastas obras da primeira renascença da Europa, subsequentes aos terrores do millenio, que por muitos annos paralysaram todas as faculdades artisticas da humanidade estupefacta perante a prophecia pavorosa do proximo aniquilamento universal.
Estas confrarias, creadas e protegidas pelo clero, tomaram o nome geral de
franco-maçonaria
ou de
pedreiros livres
, e compunham-se de associados, que, depois de haverem passado por todos os minuciosos tramites de uma longa aprendizagem, adquiriam geralmente o direito de exercer a profissão na qualidade de mestres.
Com a rapida e maravilhosa prosperidade das novas cidades da Italia Septentrional nasceram egrejas sumptuosas e conventos magnificos, que em poucos annos cobriram uma grande superficie da Lombardia e dos Estados adjacentes.
Chegado o momento previsto em que as ordens religiosas de Italia cessaram emfim de ter obras em que empregar a associação, cada vez mais numerosa e mais habil, dos pedreiros livres, pensaram estes em dilatar a sua actividade fora do solo natal.
Este expatriamento não representava unicamente uma expansão artistica mas tambem uma forte propaganda e uma consideravel conquista internacional da egreja latina.
Essa grande companhia edificadora de monumentos religiosos, de cathedraes e de mosteiros, mobilisada n'uma companhia de arte atravez do Norte da Europa, constituia como que um solido reforço esthetico, temporal, naturalista e humano á sagrada legião espiritual vulgarisadora do credo latino pela ramificação das ordens religiosas sobre todas as latitudes da terra.
Cada egreja e cada convento edificados em paizes estranhos e longinquos eram―diz Hope―um novo feudo adquirido ao papa.
A egreja comprehendeu inteiramente o alcance d'este grande facto, tão importante na historia da arte romanica, da arte lombarda, da arte gothica e de todas as artes liberaes na Europa, depois de cahida a influencia da antiga civilisação hellenico-romana.
Como incentivo e amparo da vasta odysséa, a que se aventuravam os denominados pedreiros livres receberam então da auctoridade pontificia, emminente a todos os conflictos e discordias de soberania para soberania e de nacionalidade para nacionalidade, privilegios incomparaveis, destinados a assegurar á confraria errante uma especie de inviolavel monopolio esthetico e artistico, como o que em nossos dias poderia resultar de um congresso universal, tendo em vista pôr acima de qualquer contingencia politica um interesse commum a toda a especie humana.
Diplomas e bulas papaes confirmaram para todos os paizes, que houvessem reconhecido a fé catholica apostolica romana, todos os privilegios que a confraria dos pedreiros livres havia recebido dos Estados de que era oriunda.
Ella dependeria directamente e unicamente da auctoridade pontificia, isenta de todas as leis e estatutos locaes, dos editos dos reis ou dos regulamentos dos municipios e de toda e qualquer imposição obrigatoria para os naturaes do paiz em que se encontrasse.
Só á associação caberia o direito e o poder de taxar os salarios, e de prover em capitulo, sem appellação nem aggravo, a quanto dissesse respeito ao seu proprio governo. Era expressamente prohibido a todo o artista não iniciado nem admittido na associação estabelecer para com ella qualquer especie de concorrencia, assim como era defeso, sob pena de excomunhão, a todo o soberano manter os seus subditos n'esse acto de rebeldia ás prescripções da egreja.
Esta
Internacional
carolingiana, bem mais poderosa do que a
Internacional
napoleonica sahida dos primeiros movimentos socialistas do segundo imperio, desenvolveu-se rapida e portentosamente. Muitos gregos vindos de Constantinopla se reuniram aos primeiros artistas confederados, vindo em seguida allemães, francezes, belgas e inglezes.
Desdobraram-se successivamente as diversas lojas ou series de agrupamentos, em que cada dez associados obedeciam a um chefe em communicação com os chefes das demais decurias e com a direcção central.
Os ecclesiasticos da mais alta categoria, os prelados, abbades mitrados e bispos, accrescentavam a força e o prestigio da associação, alistando-se como membros da irmandade.
Todos os soberanos da christandade se gloriavam em honrar com especiaes distincções e particulares privilegios as suas lojas nacionaes.
Para o fim de evitar que individuos estranhos á associação aproveitassem fraudulentamente os enormes beneficios de que ella tinha o privilegio, e bem assim para que, em qualquer região do mundo, cada irmão pudesse communicar com os seus consocios, fazendo conhecer a sua iniciação e o seu grau na confraria, estabeleceram-se as senhas secretas, os
signaes maçonicos
, por meio dos quaes os consocios se reconheciam em qualquer parte, e revestiu-se o acto de iniciação e matricula de formalidades solemnes, de provas especiaes, de juramentos terriveis, por via dos quaes cada novo confrade se obrigava não sómente a não revelar a quem quer que fosse os signaes, com que mutuamente se entendiam os pedreiros, mas a esconder dos estranhos todos os processos technicos e todas as regras do officio, de que a associação tinha a posse. Esta collaboração phenomenal dos melhores obreiros, de todos os grandes artistas e de todos os sabios do mundo, associados da maneira mais engenhosamente completa e perfeita para exercer a arte de edificar, elevou a architectura religiosa n'este periodo á mais alta perfeição scientifica e technica, a que jámais chegou a obra da intelligencia e da mão do homem.
Quando a longa e laboriosa gestação de todos os demais ramos do saber humano se discriminava apenas em rudimentos embrionarios, de uma confusão tenebrosa, a architectura constituia o mais perfeito corpo de leis estheticas e de leis scientificas. Crearam-se as mais elevadas e as mais caracteristicas fórmas de stylo, resolveram-se os mais complicados e os mais difficeis problemas de calculo, de geometria e de mechanica, acharam-se, emfim, innumeraveis processos chimicos e methodos technicos, que se perderam e nunca mais se substituiram, porque com a grande confraria dos maçons morreu a tradição de que elles tinham a guarda e o segredo.
No tempo de Eduardo III a maçonaria, que só um seculo depois acabou na Inglaterra sob o reinado de Henrique VI, mantinha-se em pleno vigor.
Ora, dado que só muito lentamente e por via de provas espaçadas e progressivas podia o obreiro no gremio da confraria subir á qualificação de mestre, e só como simples obreiro podia ser admittido e iniciado, dado por outro lado que era tal o segredo sobre os methodos de edificar que toda a planta, todo o risco, todo o calculo, todo o estudo graphico, era invariavelmente e escrupulosamente destruido immediatamente depois de utilisado em qualquer obra, parece-me não haver um excessivo arrojo em conjecturar que Affonso Domingues n'uma viagem a Inglaterra, no tempo de Eduardo III, nada aprenderia de architectura, ficando estranho á maçonaria, e, tendo-se iniciado n'ella antes de vir construir a Batalha, seria então da maçonaria e não d'elle o monumento de que se trata.
Revertendo ao escrupuloso e esclarecido estudo de Mousinho, notemos que elle não encontrou nem quem o continuasse nem sequer quem se lhe submettesse entre os restauradores que se lhe seguiram. As capellas imperfeitas, incomparavel joia da architectura portugueza mais caracteristicamente regional, acham-se no mesmo abandono em que ficaram em 1843, depois que elle as desinfestou dos parasitas arbustivos e das herbaceas, cujas radiculas se tinham por tal modo multiplicado nos intersticios das cantarias que em muitos pontos houve que desmontar as lageas para extirpar as hervas e refazer os massames substituidos pelo intimo estojo vegetal, que inchando por todas as juntas da pedra, ameaçava desarticular e destruir tudo por uma derrocada geral.
Sem exposição de plano referido ás obras que recentemente se tem feito, e cuja doutrina nos daria uma base de estudo e de discussão, quem, como eu, não tem voto na materia para a resolver por sentença, precisaria de entrar em uma longa serie de pacientes raciocinios e de humildes demonstrações para pôr em evidencia todos os erros que em taes obras se teem comettido. Para não tornar pelo emprego d'esse processo, excessivamente longo este modesto estudo, tomarei um ponto capital, sufficientemente expressivo para dar a medida do criterio empregado na restauração da Batalha.
Pela entrada principal da egreja, á semelhança do que succede em grande parte das egrejas gothicas, desciam-se na Batalha alguns degraus,―sete se me não engano―para chegar ao pavimento da nave central. Um dos restauradores que se succederam a Mousinho de Albuquerque, tendo-se por assistido de razões plausiveis para modificar o alludido systema, rebaixou o terreno exterior ao nivel do pavimento da egreja, e supprimiu os degraus, serrando as hombreiras e substituindo as cantarias que lhe serviam de base. A porta principal do monumento da Batalha ficou por esse modo tendo de altura a dimensão de duas larguras em vez de largura e meia approximadamente, segundo a dimensão primitiva. O architecto havia previamente submettido o seu projecto ao exame das estações superiores, e o respectivo ministro sanccionara a obra com a sua alta approvação.
Será difficil encontrar em um tão breve episodio de construcção uma tão vasta affirmativa de desoladora ignorancia.
Poderá parecer excessiva e condemnavel ousadia que um simples curioso se arrogue o direito de qualificar de ignorante um architecto em exercicio da sua profissão. O erro é todavia no caso sujeito tão flagrante que não supporta defesa. Um barbarismo architectonico está tanto ao alcance de um escriptor como um barbarismo grammatical está ao alcance de um architecto.
Toda a gente sabe que ha em architectura uma inilludivel medida de proporção e de relacionação que se chama a
escala
. Sem escala não ha obra de architectura nem ha construcção alguma sensata, por mais subalterna, por mais infima que ella seja. Na architectura grega a unidade abstracta d'essa medida é o modulo. Na architectura da edade média a unidade é o homem. N'este simples principio, tão magistralmente exposto por Violet-le-Duc, se baseia o caracter essencial da architectura medieval. D'essa referencia de toda a construcção á pequenez da estatura humana resulta o singular effeito de grandiosidade que distingue os monumentos gothicos dos monumentos neo-classicos, Nossa Senhora de Pariz de S. Pedro de Roma, ou a egreja da Batalha da egreja de Mafra. Para esse effeito contribue o aspecto das successivas fileiras da cantaria á altura das paredes e das pilastras, porque a escala gothica, determinada pela altura do homem, se subordina correlativamente ás dimensões do material. Assim pela serie das juntas, sempre em evidencia na sobreposição das cantarias, a vista calcula rapidamente, por instincto arithmetico, a grandeza de uma fabrica como a da Batalha, estabelecendo a proporção entre as dimensões da pedra e a estatura do homem, e entre a altura do homem e a elevação da nave.
Do que fica exposto resulta que a simples substituição de uma pedra por uma pedra de dimensão differente na base de uma hombreira no portal da Batalha é, em si mesma e isoladamente, como troca de pedra por pedra, um grave erro, porque essa base de hombreira, devendo ter tido inicialmente a dimensão exacta e precisa, que á esquadria da cantaria impõe a dimensão do bloco, é um elemento fundamental da escala pela qual se rege todo o edificio; e não pode como tal nem supprimir-se nem alterar-se.
Mas temos de considerar ainda que com essa mudança de pedra se offendeu o preceito da unidade, alterando a fórma e a dimensão de um dos mais importantes membros da construcção. O conjuncto de um monumento―diz Quatremère de Quincy―é de tal modo combinado, que n'elle se não pode nem tirar nem pôr nem alterar o que quer que seja. E Violet-le-Dué desenvolve esse preceito da maneira seguinte: «É um erro grosseiro suppôr que um qualquer membro de architectura da edade média pode ser impunemente accrescentado ou diminuido. N'esta architectura não ha membro algum, que não esteja na escala do monumento para que foi composto. Alterar esta escala é tornar esse membro disforme... Os erros de escala que escandalisam em um monumento novo e lhe tiram todo o valor, tornam-se monstruosos quando se trata de uma restauração.» As dimensões das portas―já dizia Vinhola―devem ser de uma proporção relativa á escala pela qual se construir o edificio, á grandeza das suas differentes peças e finalmente ás particularidades da obra e do local em que esta fôr feita. Com relação ás portas nas ordens jonica, dorica, corinthia e toscana as proporções entre a altura e a largura dos portaes, acham-se geometricamente determinadas pelos discipulos de Vitruvio. Na architectura gothica a porta representa porém um papel mais preponderante que em qualquer outro systema de construcção. «De hora avante―proclama Violet-le-Duc referindo-se ao periodo medieval―a porta deixará de augmentar em proporção com o edificio, porque, sendo feita para o homem, conservará sempre a escala propria do seu destino.»
A medida de extensão na edade média era a toeza, correspondente á estatura do homem alto. A porta da egreja destinada a dar passagem ao portador de uma lança de guerra ou de torneio, de um baculo, de uma cruz ou de um pendão, tinha a altura fixa e invariavel de duas toezas a duas toezas e meia, segundo as regiões em que se construia. O portal gothico tem ainda, como titulo ao nosso respeito pela sua inviolabilidade, a condição de representar na fachada do templo como que um summario de toda a obra. É do principio da arcada, de que a porta é o motivo predominante, que se deduzem e desenvolvem systematicamente todas as demais fórmas constructivas e ornamentaes na architectura do edificio. Archivoltas, nervuras, pilastras, columnelos, janellas, nichos, misulas, baldaquinos, trifolios, que são na egreja da Batalha senão applicações e desdobramentos successivos, engenhosamente variados, das linhas constitutivas da porta principal do templo?
Quão tragicamente profunda tem que ser a indisciplina official em todos os serviços da arte para que possa dar-se um attentado da ordem d'aquelle a que me refiro:―para que um architecto proponha, para que uma repartição publica auctorise, para que um ministro da corôa sanccione―sem protesto do districto, do municipio ou da parochia―que se desfigure o primeiro dos nossos monumentos da edade média, alterando as fórmas de uma porta, que é a porta principal d'essa gloriosa egreja de Santa Maria de Victoria, que os architectos do mestre de Aviz alçaram pela bitola dos estandartes, dos balsões e das bandeiras de Aljubarrota, e segundo a altura a que chegava nas hombreiras o bico do bacinete ou a cimeira do morrião dos da ala da madresilva ou da ala dos namorados!
Se fosse meu proposito enumerar os erros commettidos nas restaurações da Batalha teria de referir-me ás vís deturpações por que está passando a capella do fundador; ao detestavel altar mór, em cuja pedra tão miseramente se acha reproduzido por uma especie de grafito o desenho de um mosaico, e a odiosa coloração das vidraças, em que o doce tom de ambar, que os vidristas da edade média obtinham por uma emulsão de mel na preparação da tinta, se vê substituido pelo de um reles amarello cru, de refalsado topasio. O inacreditavel tabernaculo com que houve o arrojo de empachar o ambito de uma das naves, sob pretexto de construir uma capella baptismal, teria ainda que deter por algum tempo o meu horrorisado espanto perante esse tão insolente e tão irrespeitoso abuso do pseudo-gothico, em proporção e em escala unicamente permittidas, por longanimidade de ridiculo, em jazigos de familia e em pratos montados, na latitudinaria architectura dos cemiterios ou das confeitarias.
O meu fim porém não é fazer a critica das restaurações da Batalha, mas sim demonstrar, como julgo ter feito, por meio de alguns factos caracteristicos e capitaes, que nas restaurações emprehendidas tanto n'esse como nos demais monumentos architectonicos recentemente reparados a expensas do estado, não houve antecedencia de programma, nem estudo previo, nem determinação de methodo, nem sancção critica, nem fiscalisação technica, nem policia artistica de especie alguma.
Pelo numero e pelo quilate das mutilações, deturpações e superfetações, inteiramente arbitrarias e escandalosas, de que são objecto os monumentos restaurados com assentimento e com subsidio official, como a Batalha, os Jeronymos e a Madre de Deus, poderemos calcular o que se passa nos edificios em que camaras, parochias e simples particulares estão no logro de restaurar, de concertar ou de demolir a seu gosto.
Em Ponte de Lima havia uma ponte, que dava o nome á villa. Esta ponte, em parte romana, em parte gothica, era revestida de ameias e entestada por dois castellos ogivaes. A vereação, com o motivo de desafogar a vista sobre as duas margens do rio, manda demolir os castellos e serrar as ameias da alludida ponte.
Outra vereação, em Santarem, bota a baixo a bella torre gothica de Santa Maria de Marvilla, fundação dos primeiros tempos da monarchia, para o fim unico de deixar o terreno sem coisa alguma em cima, e ser por essa razão uma praça. A Real Associação dos architectos civis propõe-se a esse tempo comprar os sinos da torre demolida, em bronze esculpido. A junta de parochia prefere derretel-os.
No castello de Leiria, que, tendo sido construido como casa e museu pelo rei mais artista, mais poeta e mais sabio do seu tempo, constitue um documento, unico talvez na Europa, da archeologia romana e da vida de côrte na edade média, certos festeiros em noite de gala, derribam a columnata do eirado principal para dar campo a um effeito de luminarias e de pyrotechnica.
Na alcaçova de Santarem as ameias de D. Affonso Henriques substituem-se por ignobeis grades de ferro fundido e pintado de verde.
A porta da Atamarma, pela qual ainda passou Garrett ao tempo das
Viagens na minha terra
, é arrasada, juntamente com a capellinha de Nossa Senhora da Victoria, que tinha por cima. No orçamento d'essa demolição, que o governo approvou no anno de 1865, a camara de Santarem, tripudia de jubilo, affirmando que a dita desmontagem,
que por mais tempo se não podia protrahir
, fôra vantajosamente arrematada pela quantia de trinta e nove mil réis, calculando-se em mais de cem mil o valôr da pedra e do tijolo que ella produziu. Com esse cantico de alegria orçamental, desappareceu o glorioso portico, por onde o fundador da nacionalidade portugueza e os da sua hoste entraram em Santarem com as espadas e as lanças gottejantes de sangue mouro, firmando por esse acto o fim do dominio sarraceno em Portugal.
A porta do
Bom Successo
veio abaixo, como a de Atamarma, por disposição do respectivo municipio.
A destruição das portas de muralha, bellos arcos na maior parte ogivaes, com que tanto se enobreciam algumas das nossas velhas cidades, tem sido a grande preocupação vesanica das municipalidades modernas, absolutamente ignorantes, ao que parece, das gloriosas tradições locaes de que esses monumentos eram o testemunho authentico e sagrado.
Dentro d'essa cathegoria de delinquentes será difficil disputar o primeiro logar da serie pathologica á cidade do Porto.
O Arco da Vendoma, á rua Chan, que havia sido uma das portas da circumvalação sueva, sobre a qual a rainha D. Tareja fizera collocar em ediculo a imagem da Senhora da Vendoma, trazida de França pelo bispo D. Nonego, é desapiedadamente demolida em nossos dias, depois de oito seculos de existencia.
Os bellos arcos do Postigo de Santo Antonio do Penedo e do Postigo do Sol veem egualmente abaixo, em 1875, sem razões algumas que expliquem mais esta demolição que a do Arco da Vendoma. Junto do Postigo do Sol ficava no entanto, e memorava-a o arco, a veneranda
Viella das Tripas
, onde assistiam as fressureiras, que deram aos do Porto o nome de tripeiros, vendendo-lhes os miudos das rezes, cuja carne elles haviam espontaneamente cedido á armada de D. João I para a expedição de Ceuta.
Á Porta do Olival, da qual como do Postigo do Sol só resta o nome, foi acclamado D. João I. A essa porta foi esperada pelos portuenses, e por ella entrou pela primeira vez na cidade, na occasião das suas bodas com o mestre de Aviz, a rainha Filippa de Lencastre.
O Arco da Senhora Sant'Anna, que deu o titulo á linda narrativa portuense de Almeida Garrett, é sacrificado como os demais ao alvião municipal da cidade invicta.
O ultimo emfim dos arcos do Porto, ainda ha bem poucos annos destruido, foi o da Porta Nobre, por onde faziam a sua entrada solemne os bispos e os reis, que os moradores da Reboleira recebiam triumphalmente na sua rua, juncada de espadanas e de funcho, entre festões de flores pendentes das velhas janellas de resalto, á flamenga, sob punhados de trigo, reluzente no ar em chuva de ouro.
Em Santarem disseram-me ha dias, nos proprios logares em que se está mancumunando o delicto, que os vereadores projectam agora demolir a Torre das Cabaças.
Quando a rainha D. Maria I visitou Santarem em 1785, botaram-se as medidas do côche de sua magestade a todo o caminho que elle tinha de percorrer, e desfizeram-se diligentemente a picão, nas ruas da villa, todas as protuberancias architectonicas em que se anteviu algum risco de entalação para o trajecto da real berlinda.
No Canto da Cruz cortaram-se, como quem corta queijo, os vertices dos angulos nos edificios de esquinas menos reverenciosas para com o regio transito. Entre a Torre do Alporão e a Torre das Cabaças o passo porém apresentou-se especialmente difficil. Applicou-se-lhe a bitola do regio côche, que o secretario de estado visconde de Villa Nova da Cerveira mandára previdentemente de Salvaterra de Magos ao juiz de fóra, presidente da camara municipal da villa, e consignou-se que, por obra infernal de palmo ou palmo e meio de saliencia, o magestatico vehiculo da soberana teria de ficar engasgalhado pelos cubos das rodas entre os dois monumentos. Então, depois de haverem marrado por um momento no problema, e uns nos outros, os vereadores scalabitanos removeram a difficuldade, redobando a fita da medição inutilmente esticada, mettendo os solicitos e suados covados debaixo dos braços, e mandando simplesmente arrasar a Torre do Alporão, monumento do dominio romano, do alto do qual, durante a occupação serracena, o arabe dictava ao povo a lei de Mahomet.
A Torre das Cabaças é muito menos antiga e menos documental que a do Alporão. Com quanto Garrett a faça invocar anachronicamente no
Alfageme de Santarem
, em estimulo de defesa contra a invasão castelhana, como um dos traços mais expressivos da physionomia pittoresca da patria, essa torre data apenas do tempo de D. Manoel. Não tem caracter propriamente architectural, é uma simples peça de alvenaria quadrada. Mas o seu estranho remate, em grande elevação, formado pelo sino a descoberto, sustido na convergencia superior de quatro varões de ferro, estribados obliquamente nos quatro angulos da torre, e revestidos de pucaras de barro, da olaria local, destinadas a ampliar a sonoridade do bronze no tanger das horas e dos signaes de rebate, dá-lhe uma feição verdadeiramente especial, inconfundivel, indelevel. Não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é de certo o mais suggestivo, o mais anedoctico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanario de toda essa tão formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrario da terra portugueza. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de
relogio das cabaças
ou de
cabaceiro
se allia harmonicamente no ouvido á lembrança das lezirias, das hortas, dos paues, das courellas e dos olivedos, que o circumdam, e fazem d'elle como que uma parte integrante da paizagem, um natural rebento da terra. O aspecto de improvisação e de interinidade d'essa summaria ventana de sino, que parece armada em quatro pampilhos, é uma verdadeira obra d'arte, que lembra mais commoventemente do que nenhuma outra inventada pelos architectos, a origem arabe, a vida nomada, a tradição pastoral da região em que surgiu.
Os conspicuos burguezes do senado de Santarem não podem ter opinião sobre esta questão de esthetica, porque elles carecem absolutamente do ponto de vista em que deve de ser considerada a sua Torre das Cabaças, a qual evidentemente se não construiu para que suas excellencias a alveitassem doutoralmente de dentro dos paços do concelho, ou cá fora na praça, de chapeus altos, sobrecasacas dominicaes e barbas feitas, abordoados aos seus chapeus de sol, e muito mais garantidamente cucurbitaceos que o seu proprio cabaceiro. A Torre das Cabaças fez-se para ser olhada do vasto campo da Gollegã ou do campo de Almeirim, vindo do Valle, vindo de Coruche, de Benavente, ou da Barquinha, atravez dos olivaes, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarem, de jaqueta e sapatos de prateleira, montando uma egua de maioral, de cabeçada de esparto, almatrixa de pelles e estribos chapeados. O Cabaceiro de Santarem, com a sua cupula em trempe, as suas cabaças de barro e o seu sino grande de correr e de governar as horas, fez-se para o largo e ridente campo ribatejano, fez-se para os campinos, para os vaqueiros, para os almocreves, e talvez se fizesse tambem para mim, que não vejo em arte razão alguma plausivel para que, como motivo ornamental de uma torre, á folha do acantho ou ao chavelho em voluta da architectura grega se prefira a nossa linda pucarinha de barro vermelho de Reguengo, da Atalaia ou da Asseiceira.
Não! o senado santareno tem de deixar ficar onde ella está a sua tão caracteristica torre, para que se não diga que dos tres potes, que de antiga tradição consta acharem-se soterrados na Alcaçova, um cheio de ouro, outro cheio de prata, outro cheio de peste, a camara da localidade não encontrou senão o ultimo para o despejar sobre os monumentos publicos sujeitos á sua jurisdição e confiados á sua guarda.
Que sob o antigo regimen os vereadores de Santarem deitassem a baixo a Torre do Alporão, para passar uma rainha, é uma desdita em extremo lastimavel, mas que sob o regimen vigente se deite egualmente a baixo a Torre das Cabaças, para que passem os proprios vereadores, é um desando grande da publica administração para muito peior do que estavamos no tempo da muito saudosa senhora D. Maria I.
A torre da Sé Velha, de Coimbra, desapparece no fim do seculo passado perante uma simplicidade de processo, que bem demonstra quanto os poderes publicos, desajudados de conselho artistico, teem sido, em todo o tempo, inhabeis e incompetentes para proteger os monumentos da nação. Foi o meu amigo Theofilo Braga quem, ao colligir no Archivo Nacional os documentos ineditos das relações do marquez de Pombal com D. Francisco de Lemos para a reforma dos estudos na Universidade, descobriu a breve historia da demolição da torre da Sé Velha. Em carta de 3 de setembro de 1773, D. Francisco de Lemos dá conta ao marquez de que demoliu a torre: «...A dita torre era um montão de pedra e cal sem arte e figura, que servisse de ornato á cidade, e antes estava tirando a vista do Paço das Escolas, e de muitas casas. E principalmente é muito nociva á Imprensa, porque ficando ella no alto e esta embaixo, lhe tirava o sol, com que a fazia menos clara e humida. Pareceu-me conveniente á vista de todas estas razões que se demolisse, o que se tem executado, seguindo-se todas as utilidades ponderadas acima, e egualmente a de haver pedra para tudo o que foi preciso fazer.» Em sigla marginal a esta carta opina o marquez de Pombal: «Que está muito bem feita a providencia sobre a torre da Sé antiga.» E em carta de 5 de outubro do alludido anno de 1773, o marquez, em stylo official, desenvolve a sua acquiescencia ao estupido vandalismo de D. Francisco de Lemos: «Tambem me pareceu bem ajustada a providencia e resolução que V. Ex.
a
tomou de mandar demolir a torre da Sé antiga que não servia mais que de ser um
Padrasto sombrio e infimo
, só proprio para desfigurar a formosura do Palacio a que estava quase contiguo e de escurecer as actuaes officinas, etc.»
Do mosteiro de Alcobaça desapparece todo um claustro do tempo de D. Affonso Henriques.
Em S. Francisco d'Evora ampliam-se as dimensões da rosacea no frontespicio da egreja, abalando as cantarias circumstantes e pondo em risco todo o equilibrio da empena. Além d'isso, para o fim de aproveitar a pedra para outras applicações, desampara-se a abobada, deitando abaixo a ala do convento que lhe servia de encontro.
No castello de Palmella e em S. Salvador de Paço de Sousa acham-se violados e deshonrados pelo mais completo despreso, além das campas dos cavalleiros de Santiago, o tumulo do principe D. Jorge, e o tumulo de Egas Moniz, que em Paço de Sousa dividiram em dois, pondo cada metade para seu lado, em pontos oppostos da egreja. O cofre de pedra que continha a ossada do fiel aio de Affonso Henriques transforma-se em pia de um bebedouro publico.
A sumptuosa egreja do convento de S. Francisco em Santarem, fundação de D. Sancho II, com as suas tres naves, as suas columnas de preciosos capiteis e os floridos arcos da sua restauração manoelina, converte-se em uma das cavallariças do regimento aquartelado no convento. Violaram-se todos os tumulos que encerrava o claustro e occupavam a egreja, sem que esta, segundo nos consta, fosse nunca dessagrada liturgicamente. Parece que não houve tempo para satisfazer essa tão breve formalidade de respeito.
As sarças, os silvados, e os subtis rendilhamentos manoelinos do tumulo precioso do conde de Vianna D. Duarte de Menezes, pela circumstancia de ser a esculptura removida para S. João do Alporão pela benemerita commissão administrativa do Museu Districtal de Santarem, escaparam miraculosamente aos coices das bestas de guerra, que o governo portuguez destinava ao sagrado monumento erigido pela doce piedade conjugal á memoria do leal e valoroso soldado de Affonso V, que na conquista de Alcacer-Ceguer se deixou morrer ás lançadas para salvar a vida do seu rei.
O tumulo de D. Fernando, que estava na mesma egreja, foi pela Associação dos architectos trazido para o museu do Carmo.
Um dente de D. Duarte, que a condessa de Vianna encerrara, como unica reliquia de seu marido, no monumento que lhe consagrara, conserva-se ainda dentro do estojo que primitivamente o continha. A ossada do rei D. Fernando, essa desappareceu, como desappareceu a de D. Francisco de Almeida, atirada para a cerca do quartel na occasião em que se lhe destruiu o tumulo, aproveitando-se a area de pedra em que jazia o corpo para bebedouro especial dos cavallos com mormo.
As demais campas, que constituiam o pavimento do claustro desde o principio do seculo XIV desappareceram todas, e nem sequer se sabe já de quem eram, por que, para não escorregarem os cavallos do regimento, desempedrou-se o claustro e perderam-se as lapides que n'elle se continham.
A sepultura de Pedro Alvares Cabral está na egreja da Graça, um dos bellos templos da fundação da monarchia em Santarem. Esta egreja é cedida pelo governo á pobre irmandade dos Passos. A irmandade carecia de meios para custear o decoro do culto e a conservação do edificio. Occorria generosamente a essa despeza o proprietario do convento annexo á egreja. O dono do convento falleceu recentemente, legando a casa a um azylo que n'ella fundou. A egreja da Graça de Santarem está portanto, a bem dizer, desamparada. A quem é que se acha confiado o tumulo de Pedro Alvares Cabral? Não se sabe bem, e são grandes, como pessoalmente tive occasião de experimentar, as difficuldades que encontra quem deseje dar com o depositario das chaves para ver a egreja. Ás gloriosas cinzas d'aquelle que nos deu o Brazil, a gente nem sequer sabe dar um guarda.
O mausoleu do nosso S. Frei Gil corre aventuras parecidas com as do mausoleu do rei D. Fernando. Os marquezes de Penalva, parentes do Santo, recolhem na capella do seu palacio em Lisboa as cinzas do bemaventurado. A tampa do tumulo com a estatua do Santo vem para o museu do Carmo. A arca sepulchral, que encerrava os seus restos, fica em Santarem, servindo de pia de amassar cal para as obras do municipio.
Em Guimarães mascaram indignamente de cal e de madeira as columnas e as arcarias da veneravel egreja de Nossa Senhora da Oliveira, fundada nos primeiros annos do seculo X pelo conde Hermenegildo Mendes e por sua mulher a condessa Mumadona. No claustro do seculo XIII, que envolve uma parte da egreja, revestem de caixilharia envidraçada a graciosa arcaria, e rebocam espessamente a cal os capiteis das columnas. A flammante janella gothica, que por cima da porta, na fachada do templo, fazia explodir em apotheose a polychromia do espelho, emoldurado na sua larga cercadura esculpida de silvados, historiada de estatuetas de santos em phantasiosos resaltos de misulas, sob rendilhados baldaquinos, é impiedosamente arrasada e substituida por uma chapada de cantaria corrida, perfurada por quatro oculos.
Em Santarem, na egreja do Milagre, pelas trovoadas d'este verão, um raio fere o cone azulejado da torre, penetra na capella mór, despedaça a madeira do arco que a separa da nave, e põe a descoberto, por baixo d'esse revestimento de
taboas
pintadas, os mais lindos lavores esculpturaes de uma arcaria da Renascença, em que cherubins voejam, sustendo grinaldas e cornucopias floridas, por entre a laçaria afestoada, com rotulos pendentes. Todos os relevos mais salientes da esculptura haviam sido desbastados a picão para nivelar a superficie da pedra em que assentara a madeira.
Em Setubal, na egreja manoelina das freiras de Jesus, besuntam as columnas, os artezões e os fechos da abobada com a mais tosca e espessa camada de pintura. O material subjacente é o lindo marmore polychromico da Arrabida. A pintura a que me refiro tem a intenção esthetica de imitar a borrões d'ocre esse mesmo marmore cuja superficie tão sordidamente conspurca.
Quando ha quatro annos o governo mandou pôr em hasta publica uma parte do convento de Cellas, incluindo o seu encantador claustro, metade do qual é do tempo de D. Diniz, uma voz anonyma protestou, eloquente e energicamente, contra semelhante desacato, por meio de uma pequena brochura impressa em Coimbra e largamente espalhada pelo paiz todo, a pedir soccorro á imprensa. Rarissimos periodicos acudiram ao rebate. Na parte que data do seculo XIV, o pequenino claustro de Cellas, em arcadas de meio ponto e columnas geminadas, de capiteis cubicos, historiados por todos os lados com deliciosas figurinhas representando os mais tocantes episodios da vida da Virgem Maria, de Jesus e dos seus santos, é a mais delicada, a mais commovida, a mais poetica obra da arte portugueza n'esse interessante periodo da transição do stylo romanico para o advento do gothico, na evolução capital da arte na Edade Media. A virginal candura, profundamente enternecida, do artista desligado da preceituação hieratica de uma esthetica que se extingue, para entrar com toda a frescura intacta do sentimento na sinceridade de uma arte nova, é invasivamente tocante na concepção de varios episodios d'esta composição, como o da Annunciação, o do Sonho de Nossa Senhora, o da Adoração dos Reis Magos, o da Fuga para o Egypto, e o da Crucificação de Jesus, que, pela primeira vez nas representações d'este periodo, nos apparece flagellado pela corôa de espinhos e com os dois pés sobrepostos, fixados ao madeiro por um só cravo. Acompanhando e envolvendo a primorosa obra do esculptor, tudo no claustro de Cellas se compensa, se pondera e se equilibra admiravelmente para o fim de pôr em suggestão o pensamento que d'essa obra deriva.
É uma construcção ineffavelmente pura, toda de intimidade e de religião, no sentido de cada uma das suas partes e na harmonia total do seu conjuncto. Nem a mais leve macula mundana, de presumpção ou de orgulho. Nem um só nome profano, nem um unico emblema heraldico, brazão, corôa, paquife, divisa ou empresa. Nada que lembre da terra as ambições, a força, a gloria ou o brilho: nem quinas, nem lizes, nem pelicanos,
nem
espheras. A mesma aconchegada
dimensão
do recinto, parecendo amoldado ao passo leve e recolhido das freiras, as quaes se ouviriam a meia voz de um extremo para o extremo opposto do pateo; o stylobato em bancada revestida de azulejos do tempo, enxadrezados em verde e branco; a pequena altura dos fustes, proporcionados a uma estatura de noviça, que poderia do chão acarinhar as imagens dos capiteis com uma flôr de açucena; a reclusa modestia da galeria superior, em que o beiral do telhado se apoia ao parapeito em curtos esteios de granito; a mesma vegetação arbustiva, que ainda sobrevive á antiga ornamentação floral do pateosinho ajardinado; as diminutas capellas e os nichos que rodeiam a claustra; tudo emfim concorda e condiz na mais rara e doce harmonia de uma expressão intradusivel. O claustro de Cellas é, pela extranhesa e pela preciosidade da sua poesia e da sua arte, uma especie de murmurosa fonte, ineffavel e perenne, em que a agua não vem de alterosos e magestaticos aqueductos cantar ao sol em taças brunidas de prophyro ou de alabastro, suspensas por grupos de naiades, de sereias ou de golfinhos, mas rompe da rocha viva, como nas grandes altitudes alcantiladas das nossas serras, manando em fio tenue e crystalino, desnevada e purissima, escondida entre fragas, a que se entra de rastos para ir sedentamente beijal-a na sua humilde nascente engrinaldada de violetas em flôr.
Providenciando sobre o destino de um tão delicado monumento, posto em leilão pela quantia de um conto de réis, dispunha o governo que os capiteis das columnas se serrassem dos respectivos fustes e se recolhessem n'um museu!
Não sei em que phase administrativa se acha ao presente esse negocio. O que sei é que o primoroso claustro de Cellas, medonhamente desaprumado da perpendicularidade das suas columnas, não espera senão o primeiro dos mais leves pretextos para se desmoronar inteiramente.
Na linda egreja de S. João, em Thomar, abrem-se na fachada principal, de cada lado de um portal manoelino, duas janellas da mais corriqueira e mais villôa cantaria.
Ha bem poucos dias ainda um distincto critico nos revelava, em uma folha periodica, os desacatos por que está passando o antigo mosteiro das Bernardas de Almoster, construido para commemorar o milagre de Santa Iria pela devota Berengaria com a collaboração de Santa Isabel.
Na Sé de Braga as estatuas jacentes dos tumulos do conde D. Henrique e de sua mulher foram cortadas pelo meio das pernas para caberem nos novos logares para onde as transferiram, e, com o fim de não transtornar inteiramente a anatomia dos personagens, pareceu util applicar os pés decepados aos joelhos das figuras.
Na mesma egreja existe o bello tumulo em bronze do joven infante D. Affonso, filho de D. João I, obra mandada fazer em Bruxellas pela infanta portugueza D. Isabel, mulher de Filippe o Bom. A estatua do infante, em tamanho natural, repousava deitada na tampa do mausoleo entre dois anjos em adoração. A caixa tumular, ornada de brazões, cingidos de arabescos e silvados em relevo, descança sobre leões. Em 1881 foram roubadas as cabeças dos leões, os pés e as mãos da estatua, e os dois anjos que ladeavam a cabeça do principe. O templo está completamente desfigurado do seu aspecto primitivo. Empastaram-se os capiteis das columnas, transformou-se a arcaria das naves, abriram-se grandes janellas nas paredes da egreja, adornaram-se os intervallos das capellas com enormes estatuas dos apostolos feitas de pau, e pintou-se tudo de branco―madeiras e cantarias.
A pedra da campa de Garcia de Rezende, sepultado na encantadora ermida que elle mesmo delineou e mandou construir na cerca do convento de Nossa Senhora do Espinheiro, foi arrancada da sepultura do nosso chronista, e serve presentemente de banca de cosinha em casa de um cavalheiro de Evora.
Os tumulos da familia de Abrantes acham-se em tanto esquecimento e em tanto abandono na capella do seu castello, como em Alcobaça os de D. Pedro e D. Ignez de Castro; como em Paço de Sousa o de Egas Moniz; como em Palmella o de D. Jorge, em cujo testamento aliás se attribue uma verba ás reparações d'aquella casa; como, finalmente, ainda ha pouco em Alemquer, o de Damião de Goes, antes de haver sido reposto pelo sr. Possidonio da Silva o busto do nosso chronista sobre o seu jazigo da egreja da Varzea.
Na Vidigueira a camara auctorisa o povo a utilisar em obras particulares as cantarias do castello de Vasco da Gama, como se o solar do descobridor da India não tivesse mais importancia historica que a que se liga a qualquer pedreira.
Em Evora, para dar mais um metro ou metro e meio de superficie a uma praça, a camara deita abaixo a historica varanda da casa dos paços do concelho, edificada em tempo de Affonso V, por João Mendes Cecioso, o
pae dos pobres d'Evora
. A varanda demolida, da qual pela primeira vez se aclamou a independencia de Portugal depois das famosas
alterações
, tão minuciosamente narradas por D. Francisco Manoel de Mello na sua
Epanaphora politica
, parece ter sido obra de D. João II.
Por muitas vezes se tem discutido na camara eborense, e parece até haver sobre tal assumpto uma resolução assente, o projecto inaudito de eliminar toda a bella alpendrada da praça, da rua Ancha e da rua da Porta Nova.
Outra resolução da camara de Evora, resolução definitiva e aprasada para muito breve, é a de destruir a pequena e tão graciosa egreja do convento do Paraizo para o fim de estabelecer mais uma praça entre as duas ruas de Machede e de Mendo Estevens, ás quaes faz esquina aquelle templo.
A diminuta egreja do Paraizo, com os seus dois arcos manoelinos, com os seus preciosos azulejos do seculo XVI, em tapete mural, acompanhando nas barras o recorte dos arcos em zig-zag, e com o seu tumulo em ediculo de D. Alvaro da Costa, é um dos mais graciosos documentos architectonicos do seu tempo.
Pobre cidade de Evora, um dos nossos mais vastos e mais preciosos museus de archeologia e d'arte, preferindo como Santarem ser uma estupida collecção de praças largas e de ruas novas! Por toda a Europa, os velhos bairros historicos são hoje o thesouro das cidades que os possuem. Em muitos logares, onde esses bairros não existem, estão-os inventando, estão-os reconstituindo em homenagem erudita e piedosa á tradição historica, á poesia do passado. A camara de Evora, vangloriosa no pelintrismo das suas innovações, bota abaixo os mais venerandos monumentos da cidade; por outro lado improvisa ruinas scenographicas no seu jardim publico, armando com trepadeiras e malvaiscos grupos sentimentaes de velhas columnas postas de pernas para o ar n'esse effeito de bordado a cortiça ou a miolo de figueira; pica os seus historicos brazões para fazer passeios lisos de ruas novas aos seus janotas; e bate, modernisante e festeira, sobre o epitaphio do mais palaciano e do mais artistico dos seus escriptores quinhentistas, a carne do bife consagrado talvez ao penso d'algum dos seus novos reporters.
Mas eu é que não posso deixar de dizer á cidade de Evora, que o que a ella nos attrae e n'ella nos retem não são as suas novas avenidas, nem as suas praças, nem o seu lindo theatro, nem o seu bello Passeio Publico. O que em Evora nos embelleza e nos encanta, são os seus velhos mosteiros, as suas antigas egrejas, os nomes das suas primitivas ruas, estreitas e sinuosas, tão curiosos e tão archaicos como o de
Valdevinos
, o de
Alconchel
, o das
Amas do Cardeal
, o do
Alfaiate da
Condessa
; são os quadros incomparaveis do seu paço archiepiscopal; são os variadissimos documentos da sua architectura ogival e da sua architectura da Renascença, tão especialmente amoiriscada n'esta parte do Alemtejo; são os restos das suas antigas industrias locaes, a olaria, a tapeçaria, a caldeiraria, a sellaria e a carpintaria de moveis; é talvez ainda a sua tradicional cosinha, a doçaria famosa dos seus conventos, a sua honrada assorda de cuentros, e o seu bolo pôdre, de farinha de milho, azeite e mel, como o que se comeria talvez, entre os hebreus da Biblia, á mesa de Abrahão.
Com as improvisações do seu modernismo Evora é como Vianna do Castello, Braga, Guimarães, Coimbra, Thomar, Santarem, ou Beja, que sómente interessam os viajantes pela sua antiga arte, e não valem realmente a pena de que alguem as visite pelo que dão de novo.
Em Lisboa repudia-se a soberba egreja de Santa Engracia, o mais bello dos nossos monumentos do seculo XVII. O interior do templo é de uma magnificencia magestosa. A riqueza dos marmores sómente se pode comparar á de Mafra. A mão d'obra é de uma perfeição magistral a ponto de parecer indestructivel. Aproveitada para pantheon nacional esta egreja seria um dos mais imponentes edificios da Europa. Falta unicamente á sua conclusão a cupula do tecto e o lageamento do chão. Taparam-lhe o arco da entrada a pedra e cal, não tem cobertura, e está servindo de armazem de arrecadação do inutilisado material de guerra do Arsenal do Exercito.
A inoffensiva capellinha das Albertas, bem interessante pela ornamentação tão portugueza dos seus embrechados, ha poucos dias ainda acabou de desapparecer, como o convento da Esperança, sem se saber porque, nem para que.
A restauração, que recentemente padeceu a egreja de S. Vicente de Fóra, tão particularmente notavel pelos bellos mosaicos portuguezes que a exornam, caracterisa-se bem no mau gosto da pintura com que se maculou a nobreza d'aquelle templo.
Os attentados de restauro de que ainda nos tempos modernos tem sido objecto a Sé de Lisboa são tão lastimosos quanto innumeraveis.
Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto, como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul. Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite, formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas, de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso, gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos, houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado de carvão como um chéché de entrudo.
Ministerios de todos os diversos partidos politicos se revezam consecutivamente no poder, sem que nenhum d'elles pareça attentar em um tal desdouro, expressão viva do mais abandalhado rebaixamento a que, perante as suas tradições historicas e artisticas, podia chegar a degeneração de uma raça. Por seu lado o parlamento e a imprensa são insensiveis á responsabilidade de taes civicias, porque esses dois poderes do Estado, enrascados na baixa intriga partidaria, immobilisados n'ella, como um enxame de pardaes n'uma bola de visco, de ha muito que perderam o sentimento de nacionalidade e a noção de patria, relaxando completamente aos archeologos, aos poetas e aos artistas a unica legitima representação, desinteressada e altiva, do espirito portuguez.
Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo, mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe puzemos ao pé, para o deshonrar.
Se do exame da architectura dos nossos monumentos, passamos ao exame das artes decorativas, da pintura e da esculptura amovivel, é mais lastimoso ainda o espectaculo da nossa incuria.
Ao clero portuguez cabe principalmente a gloria de haver conservado o que ainda resta do nosso patrimonio artistico.
Das galerias particulares de pintura que o conde de Raczynski ainda encontrou em Portugal, no anno de 1845, quasi tudo se sumiu.
Demoliram-se, desappareceram, ou foram transformadas pela mudança de dono, pela mudança de destino, pela transformação mais radical da vida interior que as animava, quasi todas as casas que ainda em 1840 eram o typo das habitações nobres em Lisboa.
Citarei, ao acaso da memoria: o palacio da marqueza de Niza, a Xabregas, fundado no seculo XV pela rainha D. Leonor; o palacio chamado dos Patriarchas, o de Pessanha e o do conde de S. Miguel, á Junqueira; o do marquez de Pombal ás Janellas Verdes; o do conde de Carvalhal na Rocha do Conde d'Obidos, famoso outr'ora pela collecção das suas mobilias; á Cotovia o do conde de Ceia e o do conde de Povlide; no Calhariz os de Braancamp, do duque de Palmella e do marquez de Olhão; o do marquez de Castello Melhor e o do conde de Lumiares, no antigo Passeio Publico; na collina do Castello o do marquez de Ponte de Lima, o do marquez de Alegrete, o do marquez de Tancos; no Campo de Santa Clara o do visconde de Barbacena, o do conde de Resende, o do marquez de Lavradio, e um pouco mais para leste o do conde da Taipa; o do visconde da Bandeira, a S. Domingos; e finalmente o do marquez de Borba, o do conde de Almada, e o do morgado de Assintis, cujo theatro era o mais sumptuoso entre todos os numerosos theatrinhos particulares que havia em Lisboa no principio do seculo, como o do barão de Quintella, o do visconde de Anadia, o do conde de Almada, e o do conde de Sampaio.
A maior parte d'essas casas eram ainda, pelo seu antigo recheio, apesar dos estragos do terremoto, apesar da rapina da invasão franceza, verdadeiros sanctuarios d'arte. Mobilavam-as as mais ricas peças das industrias do Oriente que existiam na Europa, escriptorios, papelleiras e bahus monumentaes de charão, bufetes e contadores feitos na India ou fabricados em Lisboa por marceneiros aqui educados, no tempo de D. Manoel, por artistas indianos.
Os serviços de mesa e os vasos decorativos eram das mais antigas e das mais preciosas porcellanas da China e do Japão. A collecção das colxas e dos panos de armar, com que no dia da procissão de Corpus-Christi se revestiam inteiramente as fachadas de todos os predios da Baixa, eram de brocado, de damasco, de setim e de veludo, constellados a matiz e a ouro nos mais deslumbrantes desenhos persas.
Os bragaes, de linho da Hollanda, da Flandres e do Reino, arrecadavam-se nas sumptuosas caixas encouradas, que foram no seculo XVI uma das industrias famosas de Lisboa.
Nas gavetinhas dos contadores e nos escaninhos dos armarios e das arcas estavam as joias, as rendas, os aljofares, os entretalhos, os firmaes, as chaparias, os ouros de martello, e as obras mais diminutas e subtis das antigas bordadoras e colxoeiras de Lisboa,―restos de coifas, de face e gravis, redes, cadenetas, desfiados.
As baixellas brazonadas, de ouro e prata, levantadas em bestiões e em silvados, a martello, ou cinzeladas por emulos de Benvenuto Celini, trasbordantes de ornato, em encaiches de arabescos e de laçarias, eram um luxo commum a todas as familias nobres, e refulgiam pelas grandes festas do anno em todas as casas de jantar.
O mogno francez do imperio, com as suas applicações de bronze, representando fachos, pyras ardentes, lyras e tropheus de guerra, invadira com as modas da revolução liberal muitas casas lisboetas, sem todavia desthronar inteiramente o precioso mobiliario da Renascença, em cedro, em pau rosa, em sandalo, em nogueira, em carvalho ou em ebano, ao gosto mudegar ou ao gosto florentino, embutido de marfim, de madreperola, de prata, de esmaltes limosinos ou aragonezes. Abundavam as cadeiras e os catles de couro lavrado ou de guadamecim, cravejado no carvalho ou no pau santo com pregos cinzelados de cobre ou de prata; e nas poltronas, nas commodas, nas meias-commodas, nos escaparates, nas cadeirinhas, nas molduras dos espelhos e das sobreportas predominavam as formas curvilineas da influencia de Luiz XIV e de Luiz XV na época de D. João V e de D. Maria I.
Na talha dos oratorios encontravam-se alguns d'esses baixos relevos em madeira, polychromicos, em escala mui clara, tão caracteristicos da nossa esculptura em madeira do seculo XVII, bem accentuadamente revelada nas obras de Bouro, de Tibães, de S. Gonçalo de Aveiro, e da Sé Nova de Coimbra.
O presepio era um appendice por assim dizer obrigatorio; sempre que não occupava um compartimento especial da casa, o presepio concentrava-se na sua machineta em forma de urna, semelhante ás que se destinavam a conter uma cella de Santo Antonio ou uma arribanasinha de menino Jesus.
Todas as familias historicas tinham a sua mais ou menos consideravel galeria de pintura: paineis de devoção, retratos de antepassados, e um ou outro quadro de genero ou de paizagem, em tela ou em cobre, attribuidos a Breughel, a Rosa di Tivoli, a Tenniers ou a Rubens, obras em geral apocryphas e mediocres. Grassavam, com tenacidade talvez excessiva, as Josephas d'Obidos e os Morgados de Setubal, mas entre os retratos do seculo passado, encontravam-se alguns preciosos, como os de Pelegrini em casa dos viscondes de Anadia, como os pintados por Madame Guiard, por Gérard e por Therbouché, em casa do visconde de Sobral. Entre os quadros de devoção destacavam-se frequentes obras primas nacionaes, do seculo XVI, referidas á vida da Virgem Maria, á lenda de Santa Ursula, aos agiologios de alguns santos portuguezes, como Verissimo, Maxima e Julia.
Nos sotãos d'essas antigas casas havia accumulações seculares de moveis inutilisados, de miudezas rejeitadas e esquecidas, com as quaes se sepultariam documentos inapreciaveis para a historia da nossa influencia na evolução europeia das artes sumptuarias: cadeiras aluidas e canapés desconjuntados, desusados manicordios, velhos cravos de charão, abandonadas espinetas, em cujo teclado amarellecido se teriam dedilhado as primeiras composições de Palestrina e de Cimarosa; antigos arreios de tiro e de sella, braseiras, perfumadores, lanternas e candieiros de cobre, velhos palmitos contrafeitos de conchas e de pennas, montões de manuscriptos, montões de gravuras, dentes de elephante, ferrugentas clavinas de pederneira; e, entre feixes de cacetes e de chibatas de marmelleiro, talvez, desarticulado e roto, algum d'esses chapeus de sol, que nós fomos os primeiros que fabricámos e que introduzimos na Europa, ou algum d'esses primitivos leques, em quarto de circulo, que os companheiros de Fernão Mendes Pinto trouxeram da China, com os primeiros apparelhos de chá, com os primeiros vasos de porcellana, com as primeiras caixas de sinaes e pastilhas, doando a Roma e a Florença, a Paris e a Londres todos os principaes attributos e os themas fundamentaes de toda a arte da casa e de toda a elegancia feminina da civilisação moderna.
E tudo isso desappareceu, ou se está evolando, com o successivo desmanchar de todas as velhas casas, n'um saudoso e doce perfume de camphora, de mofo, de alfazema e de bejoim, errante no ar dos casarões despejados.
Estão nas bibliothecas extrangeiras, em França e na Inglaterra, as mais preciosas illuminuras dos nossos codices e das nossas arvores genealogicas.
Das encantadoras figurinhas dos presepios de Faustino José Rodrigues, de Antonio Ferreira, de Machado de Castro, já não ha intacta senão a collecção da Sé. Destroçaram-se as da Madre de Deus, do Coração de Jesus e do marquez de Borba em Santa Martha.
O que ainda persiste da obra tão curiosa e tão caracteristica dos barristas de Alcobaça está ao desamparo no abandono d'aquelle incomparavel monumento.
Lanças, espadas, adagas, elmos de todas as fórmas―almafres, capellinas, bacinetes, barbudas e morriões―, couraças, escarcellas, grevas, manoplas, escudos e rodellas, todas as peças, emfim, da armadura dos nossos heroes da Africa e da India, desappareceram com as balças, as sinas, os estandartes e as bandeiras das suas hostes.
A espada de Vasco da Gama é hoje propriedade de um particular, que ha pouco tempo adquiriu por compra essa reliquia nacional.
Uma espada e um capacete de torneio, que se diz terem pertencido ao Mestre de Aviz, peças ferrugentas, sujas, sem estojo nem outro qualquer resguardo que as defenda da irreverencia do publico, estão na Batalha á mercê dos moços, dos pedreiros e dos visitantes, que de chacota se adornam com essas armas, em galhofa carnavalesca.
Na cathedral de Toledo, na soberba capella dos Reis Novos, preciosamente edificada por Alonso de Covarrubias, em tempo de Carlos V e por disposição testamentaria de Henrique II de Trastamara, vê-se uma armadura portugueza. Guardada por castelhanos, essa armadura suspende-se, d'entre os ornatos platerescos da capella, por cima do órgão, em todo o respeito devido a um trophéo sagrado. E um dos guardas da cathedral, explica ao publico, apontando essa reliquia:―«Aquella é a armadura do alferes portuguez Duarte de Almeida, o qual, batendo-se na batalha de Toro contra nós outros, tendo tido decepadas as duas mãos, morreu ás lançadas, segurando nos dentes a bandeira do seu rei.» E em frente do arnez, que vestiu o corpo sanguento e exanime de um inimigo, Castella inclina-se reverente e commovida, fazendo-nos corar, perante a grandeza de tal exemplo, da lenda grosseira em que envolvemos a pá da padeira Brites―
Quantos vivos rapuit omnes esbarrigavit
,―a qual pá uma esperta e linda creada de Aljubarrota faz o favor de ir buscar, e de tirar de dentro de um saco, para a mostrar n'um patamar de escada aos viajantes que para esse fim lhe vão bater á porta.
Não está feita nem estudada a historia dos nossos vidros, dos nossos esmaltes, da iconographia da nossa habitação, e do nosso trage.
Uma das obras primas da nossa joalheria, a propria custodia de Belem, lavrada por Gil Vicente, o famoso ourives, tio do poeta, acha-se desfigurada nas suas dimensões primitivas pela interpollação de um novo hostiario e de duas pilastras, que já não são do primeiro ouro das conquistas, mas de simples prata dourada.
Depois dos tão numerosos e tão grosseiros erros a que tem dado origem a investigação da identidade de Grão Vasco, a historia, a classificação e a attribuição da nossa incomparavel pintura do seculo XVI, encontra-se ainda por fazer.