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O Centenario de José Estevão

O anti-clerical

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José Estevão não queria as irmãs da caridade, porque as considerava uma violação das leis do reino, d'aquellas que tinham levado ao throno a sr.ª D. Maria II, que nunca capitulou, dentro da esphera do poder e das sympathias, com aquellas invasões surrateiras do poder ecclesiastico, que para ella eram suspeitas de serem contrarias ao poder representativo.

«Respeitemos essas leis,—dizia elle—porque vivemos por ellas. São as nossas leis, são o nosso coração, são a nossa vida, são a nossa historia.

Com essas leis no pensamento, entrámos sete mil perseguidos, sete mil expatriados, que tinham mais do que nós essas leis no pensamento, porque tinham visto n'essas congregações religiosas os instigadores e os conselheiros de uma tyrannia nefanda; porque tinham visto sahir d'essas casas ou corporações religiosas cohortes de testemunhas falsas que tinham ido aos tribunaes, para levantar com os processos judiciaes os patibulos d'onde deviam cahir as cabeças d'aquelles que ellas tinham marcado como nefastos ao seu predominio...

É preciso que nos convençamos de que não podemos salvar os objectos que veneramos, se não reunirmos todas as nossas forças constitucionaes e moraes, para desfazermos e contrariarmos as intrigas e os embustes, pelos quaes se quer repor outra vez no seu throno e predominio estas instituições que nós combatemos, destruimos e desfizemos.

Taes instituições, pelas riquezas e influencias de familia, tornam-se nefastas aos poderes do Estado e ao exercicio das liberdades publicas.

«Sou inimigo das irmãs da caridade,—dizia—porque as considero como um ataque ao principio de familia; e a caridade attribuida a uma certa instituição, com o piedoso fim de educar as creanças e tratar dos enfermos nos differentes paizes da terra, é uma malicia ostentosa feita em nome de Deus.

«Não se queima só, queimando as carnes, carbonisando os ossos; queima-se apartando do coração, desfazendo e levando para longinquas paragens o que elle tem de mais caro.

«Sr. presidente, isto não é questão de irmãs da caridade, estão enganados; é mais alguma coisa, é a questão das ordens religiosas; é a sua elevação ao estado primitivo.»

O espirito catholico congreganista é adverso aos principios liberaes e por isso carece de ser vigiado de perto. As irmãs da caridade são uma emanação do espirito jesuitico e em volta d'essa congregação juntaram-se todas essas ideias que ficaram desbaratadas e destruidas pela perseguição que se fez a essa instituição. A religiosidade, no sentido que lhe dão os theologos, não dispensa o culto externo; e o culto externo das irmãs da caridade é pouco consentaneo com as formas, com os costumes e com as prevenções da auctoridade civil.

Foi justamente para provar que a mulher portugueza era tão boa ou melhor educadora que as irmãs de caridade francezas, expulsas do nosso paiz, graças ao seu formidavel libello, que José Estevão fundou o Asylo de S. João, com sede em Lisboa e Porto e que com muito prazer nos é dado representar n'este logar.

O que pedem os liberaes?

O rigoroso cumprimento dos decretos que não foram revogados: de Pombal que expulsou os jesuitas; de Joaquim Antonio de Aguiar que dissolveu as congregações religiosas e de Loulé e Braancamp relativo ás irmãs da caridade.

Pedem a revogação do decreto de abril de 1901 (Hintze Ribeiro) que, prohibindo o noviciado e a clausura, dá, todavia, existencia legal ás congregações religiosas, desde que se trate de ensino e beneficencia que são precisamente as duas armas mais perigosas de que o clericalismo usa e abusa a seu talante e por causa das quaes foi expulso de França.

A natureza offerece-nos universalmente um espectaculo desolador: a força triumphante. Mas o homem, sahido da longa evolução dos seres organisados, concebeu a noção da justiça e experimentou os transportes do amor, não do amor que se manifesta no calor do sol, no perfume das flôres, no brilho das estrellas, no murmurio das aguas, no crescimento das arvores, mas do amor que se revela nos individuos, nas classes e nos povos solidarios.

Brada-se a cada passo, clamei eu ha dias n'uma reunião, contra os bandos de mendigos, de vadios, de miseraveis, de analphabetos, que enxameiam, pelas ruas das grandes cidades, como se a culpa fosse d'elles, filhos espurios de uma sociedade madrasta. A culpa é toda nossa; a culpa é do egoismo collectivo. A vagabundagem, a mendicidade não se evita com a repressão, com as casas de correcção, com a esquadra policial. Evita-se e corrige-se com as casas de trabalho, com as colonias agricolas, com as créches, com escolas, como as nossas escolas liberaes e com asylos, como o Asylo de S. João.

A estas manifestações de amor, chama-se solidariedade, que póde resumir-se n'esta palavra de ordem: viver para os seus semelhantes.

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