FATUM
Reading edition
Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations folles.
La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait d'abord sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour se contempler dans son oeuvre.
ARSÈNE HOUSSAYE.
O esboço é tudo.
A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida começam pelo embryão.
Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas, principia pelo esboço.
A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o fiat lux biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.
Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro Pimentel e Figueiredo.
Assim fiz.
Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.
Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro, arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das elevadas torres d'aquelle templo pagão.
O passado vencera, aqui, o futuro.
Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu singelo proceder.
Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.
Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.
Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições, personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.
A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é, como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia, para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, uma das mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.
Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.
Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.
A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente aristocraticas são as mesmas.
Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.
A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as cadêas da côrte pela liberdade.
Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado, na urna etrusca em que brilha e resplandece.
A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo, com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas epopêas da nossa liberdade.
E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu contador.
Eu respeito todas as crenças.
Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade marcada com o sello divino.
O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se, em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e sobe até ao seu throno de gloria.
Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.
Não condemnemos crenças, nem aspirações.
Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.
Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a mentira, e a blasphemia do futuro.
Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos nós mais do mundo moral?
Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram, são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da consciencia.
Basta.
Volto ao manuscripto.
No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.
Ahi vive a marqueza.
Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada teem que vêr.
Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações. Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.
Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por direito de conquista.
A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra, seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.
Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou apenas estas palavras, fitando os seus avós:
--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o passado. Bata á porta da actualidade.
Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso seculo.
Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu marido:
--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.
--Os desejos de v. exc.a são ordens para mim, minha senhora.
E sahi.
No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz o confortavel da vida intima.
Vive ahi a condessa.
Pendem das paredes e cobrem as étagères varios retratos de familia.
Ha trabalhos de costura, e de crochet estendidos por sobre as mesas; ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar domestico.
Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?
A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do seu elegantissimo trato.
Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins dos deuses.
Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.
--Que me diz v. exc.a a este livro?
Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.
--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado, aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de descrença. Consulte o passado.
Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma perplexidade d'espirito com que entrára.
--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve, e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.
Curvei-me respeitoso, e sahi.
A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva, analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.
Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o sempre, a mythologia pagã.
Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e de Roma: «Morreu o Deus Pan!»
Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher, divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, Madame Rolland, expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza que se extingue com tantas outras.
Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.
E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do desembargador.
VISCONDE DE OUGUELLA.