HISTORIA D'UM NERVOSO
Reading edition
I
Minha mãi era nervosa, hypocondriaca, apprehensivel.
Eu nasci portanto sob a influencia fatal da predisposição hereditaria; recebi ao nascer um patrimonio do que se chama em medicina affecções dynamicas.
Era eu uma creança de sete annos e vivia sob a vigilancia d'uma criada fanatica, que me fallava todos os dias, ao anoitecer, da resurreição dos mortos, do inferno e do diabo.
Minha mãi, que não assistia a estas praticas quotidianas, não abdicava porém todos os seus direitos educativos.
Quem me educava o espirito era a criada; quem velava pela minha saude era minha mãi. Resguardava-me{190} o peito com flanellas, prohibia-me que comesse fructas, e não me deixava expôr ao ar, no quintal.
Meu pai, cuja vida agitada o trazia sempre por fóra de casa, oppunha-se, nas poucas horas que demorava no lar, a este regimen anti-hygienico. Todavia, como eu estava sempre ao pé de minha mãi, cada vez se me arraigavam mais no espirito os seus habitos.
N'esse tempo a gymnastica era um exclusivo dos acrobatas. Uma creança que subisse ao trapezio nivelar-se-hia com os filhos dos saltimbancos.
Meu pai, que tinha lido por curiosidade um pouco de hygiene, propoz tomar-me um mestre d'esgrima e de gymnastica. O preconceito d'aquelles tempos oppoz-se. Meu pai, que não tinha tempo para estas luctas familiares, desistiu.
Estudava eu instrucção primaria.
O professor dizia a minha mãi que eu tinha certa vivacidade intellectual, e que me devia destinar para um curso superior. De dia estudava as minhas lições; á noite lia a Biblia á mesa do chá.
Iamos poucas vezes ao theatro.
As noites de nossa casa eram tristes.
Meu pai jogava com alguns amigos; minha mãi seroava; eu lia, e a criada rezava ao som da minha leitura.
Não sei porque, mas eu odiava o theatro.
Talvez pela criada velha me ter dito um dia que se não salvava quem morresse n'um espectaculo...{191}
II
Fiz exame de instrucção primaria e comecei a estudar o latim com um padre decrepito, que morava perto de nossa casa. O padre vivia de jejuns e orações. O seu contacto dava á alma uma tristeza gelida.
Eu estudava longas horas, velado pela criada que ia rezando sempre. A concentração do estudo e a convivencia com o padre tornaram-me melancolico. Atravessavam-me o espirito uns horrores vagos do inferno e do dia de juizo. A idéa da morte punha-me medo. De noite tinha sonhos agitados; acordava banhado em suor, a chamar por minha mãi. A criada velha, que dormia perto, dizia-me que rezasse e fizesse por adormecer.
Comecei a adoecer frequentemente.{192}
Como eu entristecesse cada vez mais, compraram-me uma capella de pau, que eu armava de festa todos os sabbados, e desarmava todas as segundas feiras, antes de ir para a aula.
Esta predilecção pelo culto religioso provinha de certo da minha educação biblica e caseira.
Fiz exame de latim, ao cabo de dezoito mezes d'estudo.
O padre achou isto prodigioso, e disse que as creanças como eu não se vingavam.
Eu suppunha o padre muito em relação com as cousas futuras, e tremi da prophecia.{193}
III
Quiz meu pai que eu frequentasse o lyceu.
Estudei francez, e logica nas aulas publicas.
Os rapazes que me cercavam eram alegres, inquietos, robustos.
Esta circumstancia prejudicou-me ainda; eu comparava-me com os meus condiscipulos e achava-me rachitico.
Vencidas estas disciplinas, estudei inglez e geographia.
Comecei a gostar muito dos poetas inglezes, e a interessar-me pela poesia.
Um dia, um rapaz meu condiscipulo emprestou-me a Menina e moça de Bernadim Ribeiro. Esse livro produziu-me uma impressão suavissima; pedi mais livros, e li-os todos.{194}
Quando meu pai fez annos, escrevi-lhe umas quadras que conservo ainda; eram simplesmente desastradas.
Todavia continuei a ler, e, quando acabei os preparatorios, estava doudamente namorado pela litteratura.
Os negocios de meu pai corriam mal, e tive de renunciar a idéa d'um curso superior. Meu pai propoz-me o commercio, e eu aceitei o alvitre. A esse tempo tinha esboçado um poemeto no genero archaico. Quando entrei para um escriptorio commercial, estava ainda o poemeto incompleto. O meu patrão era boçal. A sua presença exercia no meu animo uma influencia tyrannica.
Quando elle voltava costas, ia eu escrevendo no poemeto. Um dia surprehendeu-me nas minhas lucubrações poeticas, quiz ver o meu autographo, desatou a rir alarvemente, e despediu-me. Entrei em casa triste, concentrado, apprehensivel.
Tinha então dezoito annos.
A criada velha havia-me perguntado muitas vezes se eu já tinha sido convidado para a maçonaria.
Certo dia li n'uma folha um artigo que desvendava a cegueira popular sobre a maçonaria.
Eu não conhecia bem o espirito d'esta associação, mas sympathisei com a maneira porque o jornal desfasia os preconceitos do povo, que eram tambem os meus. Comecei então a pensar na grandeza do problema social que a imprensa se propunha resolver. O{195} jornalismo afigurou-se-me a mais poderosa alavanca dos povos modernos, porque tinha o seu ponto de apoio no pensamento humano.
Informei-me sobre a dignidade dos periodicos de aquelle tempo, e soube que o mais digno era portanto aquelle com que mais eu sympathisava.
Procurei o redactor, e pedi-lhe um lugar na sua folha. O jornalista procurado, que me pareceu um cavalheiro, sorriu do meu denodo, das minhas illusões talvez, e aceitou-me. Comecei por ser traductor e revisor, e tirava d'essa tarefa salario de que repartia com meu pai.{196}
{197}
IV
Eu amava.
A minha amada era rosada e loura.
Tinha nas tranças o que o céo tem de mais formoso—o sol; e nas faces o que a primavera possue de mais puro—as rosas.
Eu era naturalmente triste, e pasmava da metamorphose que se havia operado em mim.
Sentia-me assombrado.
Tinha vagas aspirações, desejos indefinidos.
Queria ser grande.
Comecei a estudar. Versei livros de botanica, de zoologia e d'economia politica.
O jornalismo afigurava-se-me a escada de Jacob, pela qual eu devia subir ao olympo das grandezas sociaes.{198}
Comecei a escrever artigos politicos, e já uma vez por outra se fallava no meu nome.
Por esse tempo uma facção militante offereceu-me um circulo.
Eu endoudecia de felicidade; começava a vêr realisarem-se os meus desejos.
Sahi eleito.
Entrei nas camaras, e desgostou-me conhecer de perto o que era aquillo.
O meu temperamento desvairava-me.
Queria esmagar todos os futeis e todas as futilidades que encravavam a cada momento a marcha da governação publica.
Comecei a fallar calorosamente, frequentemente, a querer desmascarar os hypocritas, a apontar os traidores, a desarmar os imbecis.
Ao mesmo tempo escrevia para os jornaes do meu partido, e tirava d'ahi os recursos com que vivia modestamente.
Um dia um sectario do governo convidou-me a desertar para a facção ministerial, sob promessa d'um despacho.
Renunciei dignamente, e lancei mão do facto na camara para fulminar o ministro do reino.
Dentro em poucas semanas o chefe do meu partido fusionava com o governo, na esperança de ser nomeado conselheiro d'estado.
A maioria ficou por tanto sendo governamental.
Ergui-me para fallar.{199}
Fui impetuoso, violento, audaz.
O presidente notou-me que eu estava fóra da ordem, e retirou-me a palavra.
Pedi que se consultasse a camara, e a camara resolveu approvando a resolução da presidencia.
Sahi do parlamento, estonteado, febril, delirante.
Cheguei a casa, e encontrei uma carta de minha mãi.
Soube por ella, que a mulher que eu amava estava perigosamente doente.
Dei-me pressa em partir.
Todavia a fatalidade andou mais ligeira; quando cheguei, a minha amada tinha morrido.{200}
V
Vi-a no caixão.
Era loura ainda. Tremiam-lhe nas tranças os reflexos da eternidade.
As rosas da face tinham desmaiado.
Em volta da sala havia crepes.
Senti um horror instinctivo d'aquelle luto.
Ao longe dobrava um sino.
Lembrei-me de Goethe que detestava todo este apparato funebre.
Se a alma é immortal, para que chorar a minha amada, que renascia para outra vida?
Se não é, para que sanctifical-a ainda com estas honras religiosas?
Notou alguem que eu estava excessivamente pallido.{202}
Tiraram-me da sala, quando eu já não dava accôrdo de mim.
Ao outro dia despertei, fatigado e triste, como de um pesadelo horrivel.
Estive muito tempo sentado no leito até que me fosse possivel atinar com a realidade.
Não sahi n'esse dia, não sahi tambem nos immediatos.
Comecei a lêr, a pensar, a propor-me todos os problemas que dementam a cabeça humana.
Queria devassar os mysterios d'além-tumulo.
Tinha visões, dôres dilacerantes.
Chamei um medico, que me disse que as visões eram gastricas e as dôres nevralgicas.
Aconselhou-me distracções, passeios, agitação.
Desobedeci, e continuei a viver recluso.
Passava as noites a passeiar no meu quarto d'um lado para outro; Percebi que a minha pertinacia começava a aborrecer aos meus amigos.
A proximidade da pobreza tornava-me quasi louco.
Um medico confirmou as minhas suspeitas, e aconselhou-me a sahir immediatamente para o campo.
Por acaso, vi n'um jornal um annuncio em que se offerecia um lugar de administrador d'uma casa no Minho.
Resolvi-me a trabalhar, apesar de me sentir doente.
Offereci os meus serviços, que foram aceites.{203}
O rio Lima passa perto da casa que eu administro.
O sitio é formoso e saudavel.
Comecei a levantar-me de madrugada, a acompanhar os trabalhadores, a dirigir as maltas.
Ao domingo ou caço ou pesco.
Dispensei-me de pensar, e a minha unica leitura é a do jornal que eu assigno.
Detesto profundamente a litteratura, especialmente os versos.
Estou d'uma carnação razoavel, sem todavia estar gordo.
Umas vezes por outras, pego na enxada ou na fouce, e trabalho tambem.
Posso rir-me de vós, ó nervosos esgrouviados, que tendes visões, idiosyncrasias, que viveis n'um inferno.
O clarão do vosso espirito vai-vos calcinando o corpo.
Dentro em pouco sereis cinzas.
O adelgaçamento da raça toma um incremento prodigioso.
Os vossos filhos são amarellos e intanguidos; já me não parecem creanças, mas futuras congestões visceraes, dyspepsias, catarrhos vesicaes, nevralgias e affecções calculosas.
Pobres d'elles, por vossa causa!
Um unico meio póde ainda conservar-vos, a vós, e remil-os a elles d'uma catastrophe imminente.{204}
Um grande medico que vos póde salvar,—a Hygiene!
Vêde bem que a questão do temperamento é uma questão nacional, porque os nervos da patria começam a ter contracções dolorosas.
Na estatistica dos temperamentos, o nervoso é o predominante.
Pois bem. Resta um unico meio de salvação, o regimen hygienico.{205}
VI
Costumai-os desde pequenos á gymnastica, não á gymnastica violenta do trapezio, mas á suave gymnastica de quarto.
Mandai comprar-lhes a Gymnastique de chambre, escripta em allemão por Schreber e traduzida em francez por Delondre.
Chegando a primavera, atirai-os para o campo.
Deixai-os correr, saltar, e cahir,—e cahir tambem.
Vêde bem que é preciso desenvolver-lhes o systema muscular.
Urge reformar esta raça enfesada que se está eximindo a cada passo de servir o exercito nacional por não chegar ao estalão.{206}
Não deixemos mumificar estes pobres rapazes de vinte annos que se narcotisam com o charuto, que se requeimam com o grog, e se desvairam com o romance.
E as raparigas! ah! e as raparigas!
Como ellas querem ser pallidas e languidas!
Aos dezoito annos começam a ter enxaquecas, e aos vinte soffrem nevroses,—classicas e romanticas—, como as classificou Balzac na Physiologia do casamento.
Havieis de vêr estas moçoilas do Minho, bellas e rosadas, que volteiam tardes inteiras na valsa, em dias de romagem!
Vós, rapazes e raparigas, sois feitos de nevoeiro.
Tendes uma transparencia etherea.
Um dia, passando um cyclone na Europa, haveis de desapparecer da superficie da terra e subir ao ar em vapor.
Depois haverá uma epidemia europêa, porque vós, particulas deleterias, corrompereis a atmosphera, e os animaes que vos respirarem hão-de cahir fulminados.
Das alturas de Barroso descerá então uma mocetona que, solidamente organisada, o tufão não logrou empolgar.
E da serra da Estrella baixará um beirão que zombou das correntes atmosphericas erguido sobre um penhasco, que serviu muitas vezes de canapé a Viriato.{207}
E d'esta mulher e d'este homem nascerá a raça futura.
E a proposito de vós, ó gentes de 1872, contar-se-ha o caso de certas mumias que foram desfeitas por um sôpro...
FIM