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Nas Cinzas

II

Augusto Ernesto de Castilho e Melo translation

Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a sua propriedade não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.

Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter começado por dizer: nem um soldo!{10} O resto depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno, levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores invisíveis...

Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André. Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.

Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um terno[1] à loteria; consistia ela em reunir alguns centos de francos,{11} não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da aldeia.

Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu atelier, onde perigosas imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»

Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.

Era véspera de Natal. Em toda a linha dos boulevards humildes barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um dormente{12} que desperta em sobressalto, e, poucos minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na verdade singular.{13}

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