II
Reading edition
Oração
Outomno. Morre o dia. Cae sobre as coisas placidas e calmas Um véo de sombra e de melancolia Que dulcifica e embrandece as almas.
Todo o meu sêr se invade De enervantes e mysticas doçuras, De mansidão, de paz, de suavidade, De sentimentos bons, de ideias puras.
No coração prepassa Uma piedade e compaixão serena Por todos os validos da desgraça, Por tudo quanto soffre e quanto pena:
Pelos pequenos entes Sem abrigo, sem lar e sem carinho, Que são como avesinhas innocentes Postas por mão cruel fóra do ninho;
Pelos encarcerados Que lançam, d'entre as grades da cadeia, Ao ar, á luz, aos montes afastados A vista afflicta e de amarguras cheia;
Pelos que vão pedindo De porta em porta o pão de cada dia, Tristes, que sempre a morte olham sorrindo Porque ella unicamente os allivia;
Pelos que andam distantes Entre cruezas, fomes e perigos, Sentindo a nostalgia lancinante Da patria, da familia, dos amigos;
E n'uma emoção crente, N'uma fé viva, forte e bemfazeja, A Deus supplico fervorosamente Que os guie, que os soccorra, que os proteja.
De longe
(N'UM BILHETE DE VISITA)
Eis o pedido simples que te indico, Se acaso o teu amor do meu partilha: Ama-me com o amor que eu te dedico E pensa em mim, como em ti penso, filha.
Manhã no campo
Manhã no campo. O som, a luz, o aroma, a côr, Fundem-se alegremente em galas festivaes. A luz por todo o espaço, o aroma em cada flôr, O som na passarada, a côr nos vegetaes.
É toda a natureza um extasis d'amor. Por sob o céo, do tom das rosas outomnaes, Concebe o lirio branco, a laranjeira em flôr, A abelha delicada, a pomba dos pombaes.
O vento sul dissipa as brumas do nascente, E, como tem chovido a primavera inteira, Vae quasi a transbordar o leito da ribeira.
O sol envolve o azul n'um longo beijo ardente E pelo espaço vão, em phantasiosas linhas, As bohemias d'além-mar, as meigas andorinhas…
Adeus
Ha de lembrar-me sempre a immensa magua Que vi transparecer nos olhos teus Ceruleos, languescentes, rasos de agua, Quando, poisando os labios sobre os meus, N'um demorado osculo celeste, Tremente e carinhosa me disseste Esta palavra:—Adeus!—
Afastei-me de ti e já distante Voltei-me para vêr-te inda uma vez Com o presentimento lancinante De que te não veria mais, talvez. Tornei-me então da lividez d'um monge, Quando vi alvejar nos dedos teus Um lenço branco repelindo ao longe: Adeus, adeus, adeus…
Lyrica chineza
I
Lembra-me a hastea comprida Dos lyrios brancos em flôr, A elegancia apetecida Do seu corpo tentador.
II
Da sua côr singular Dá uma ideia leve A pallidez do luar, Batendo um floco de neve.
III
Nem o breu, nem o carvão, Nem a noite sem estrellas, Têm a densa escuridão Das suas tranças tão bellas.
IV
A sua bocca, a sorrir, Quando mostra os alvos dentes, Lembra perolas d'Ophir Entre dois rubís fundentes.
V
Das suas fallas suaves, Ao som commovente e lêdo, Cessam os cantos das aves E as folhas ficam de quêdo.
VI
O seu meigo olhar luzente Nem sei bem o que revela… Lembra um lago azul, dormente, O dulcissimo olhar d'ella.
VII
Da sua mão pequenina, Disse o imperador chinez: Dava o throno, o sceptro, a China, Pel-a beijar uma vez.
VIII
Quanto ao pé—que perfeição!— Eu nem citarei mais factos: Cabem na palma da mão As fórmas dos seus sapatos.
Perolas
(A ABILIO DA FONSECA)
Como os mergulhadores orientaes Que ao leito das ondinas vão roubar As perolas fulgentes, virginaes, Sondei o negro abysmo d'esse olhar.
No pelago vastissimo do mar Mergulham elles, muita vez em vão; Pois eu, mulher, roubei ao teu olhar —A perola sem par d'esta paixão…
Ignotus
Ninguem sabia ao certo quem elle era, O bondoso pastor do presbyterio. A terra onde nasceu? D'onde viera? —Em vão se investigava tal mysterio.
Andava sempre só. Pelos caminhos Encontravam-n'o, á tarde, muitas vezes, Parado, a ouvir a musica dos ninhos Ou as joviaes canções dos camponezes.
O signal do seu livro de orações, Um dia que passava, absorto, a lêr, Cahiu perto d'um grupo d'aldeões.
Um velho ao apanhar-lh'o reparára: —Era um retrato antigo de mulher D'uma belleza peregrina e rara.
Nec semper
São gemeas a Verdade e a Belleza, Disse-me um grande sabio n'outro dia. Se elle te conhecesse, com certeza, Tamanha falsidade não diria.
Pois tu oh formosura incomparada A quem o meu amor ardente aspira, Sendo a propria Belleza humanisada —És a synthesis viva da Mentira!
Combate
Fazer versos delirantes Ao teu frio coração É como engastar diamantes N'um ad'reço de latão;
Comtudo meus versos são Tiros certeiros, constantes, Ao teu frio coração, Aos teus desdens provocantes,
N'esta singular batalha Não sei mesmo quem mais valha, Qual de nós seja a vencer.
N'esta campanha secreta Entre o amor d'um poeta —E o desdem d'uma mulher!
Nostalgica
O amor é chamma enorme que allumia E nos consome e gasta o coração. Uma faúlha o ateia—a sympathia, Termina em labaredas—a paixão.
Tanto é maior a luz que elle irradia, Quanto intensa é depois a escuridão. A indifferença é como a cinza fria Que fica d'essa lenta combustão.
Senhora a quem amei perdidamente, Não me entristece o seu desdem mordente, Já nada me preoccupa, nem me importa…
Porque, desde que vós me não amaes, O meu corpo doente não é mais —Que a tumba viva da minh'alma morta…
Irmã da caridade
(A HENRIQUE GOES)
I
Muitos, ao vel-a, estacam deslumbrados, Ficam como suspensos d'esse olhar Mais timido que os olhos dos veados, Mais candido que os raios do luar.
Indifferente á propria formosura Segue, porém, impavida, serena, De habito negro como a noite escura E touca branca como uma açucena.
A linha esculptural do seu perfil É d'uma correcção incomparavel. É alta, aristocratica, gentil, De brandos gestos e maneira affavel.
E a Rubens, a Murillo, a Ticiano Excederia certamente em gloria Algum pintor que modelasse o arcano Do seu busto de virgem merencoria.
II
É fria como a neve sobre o polo E pura como uma alma de creança. Olha uma rocha como olha um collo; E-lhe estranha a tormenta ou a bonança.
Nem lhe estremece o labio virginal Ao beijar a nudeza de Jesus, O grande martyr, sonhador ideal Que expira mansamente n'uma cruz.
Quando morrer na cella do mosteiro, Á cova n'um esquife hão de leval-a; Serão então os braços do coveiro —Ultimos e primeiros a abraçal-a…
Abril
Enorme, arredondado, reluzente, Como se fôra um olho de Titan, O sol no azul olhava fixamente A natureza lubrica, pagã.
E á luminosidade transparente Do céu avelludado da manhã, Um melro ia cantando alegremente Uma canção brejeira e folgazã.
Nuvens de fumo tenues, vaporosas, Evolavam-se em fórmas caprichosas Das chaminés esguias dos casaes.
E em choreação festiva, galhofeira, Ouvia-se nas bandas da ribeira Um concertante alegre de pardaes..
Aldeã
Podem dizer talvez que ella não tem As fórmas peregrinas, delicadas, Das cortezãs de peito de cecem Que vão á noite aos bailes, decotadas.
Podem dizer talvez, e dizem bem, Que ás suas faces tumidas, rosadas, Falta a côr macilenta que convém Ás virgens dos sonetos e balladas.
Á elegancia doente e vaporosa Eu prefiro, comtudo, a fórma airosa Do seu corpo gentil de mulher sã;
Por isso adoro e préso mais que tudo Os seus olhos dolentes de velludo, Os seus labios vermelhos de romã.
Amor omnia vincit
(A GARCIA MARQUES)
I
O amor não se confrange, O amor não se combate. É como a luz do sol que tudo abrange, É como um raio audaz que tudo abate: É como em terra fecundante a flôr, Viceja e medra, embora se não trate. Não se confrange o amor, O amor não se combate.
II
O amor não se commenta, O amor não se discute. Embalde imploro á minh'alma sedenta Que me oiça, que me attenda, que me escute Em vão busco acalmar o louco ardor D'esta paixão lethal que me atormenta. Não se discute o amor, O amor não se commenta.
A uns annos
Se eu fosse rei, Senhora, n'este dia O pagem mais gentil da minha côrte, Como tributo d'amisade, iria A esses pés miniaturaes depôr-te
Um brinde sem rival, d'alta valia; Mas sabes bem que não sou rei. De sorte Que não pode ir, como eu desejaria, O pagem mais gentil da minha côrte
Offerendar-te joias de valia. Em vez do brinde, mando todavia Um ramo de lilazes e cecens.
E pelo pagem loiro, alvinitente, Mando, Senhora minha, unicamente Este soneto a dar-te os parabens.
Struggle for life
(A ALBERTO SILVA)
«Luctar, luctar!» dizeis-me vós. «A lucta É inherente á propria natureza», Mas qual é a victoria absoluta N'esta guerra sem treguas, sempre accesa!
Hája quem venha á barra, quem discuta E me combata e dome esta incerteza. Sinto a minha alma inerme, irresoluta, Cheia de abatimento e de fraqueza.
Eu luctaria com denodo, sim, Se á lucta visse um terminus, um fim; Mas qual de vós que ha tanto batalhaes
Com animo valente e sanha viva, Poude alcançar ou conseguir jámais A victoria final—a decisiva?
Ponto final
(N'UM ALBUM)
Pediste-me um soneto delicado, Exquisito, gentil, galanteador, Feito com versos d'oiro e cravejado Com rimas de finissimo lavor.
Ora eu, confesso aqui o meu peccado, Nunca tive feição de trovador, Acho o lyrismo d'album requintado, Banal, elogioso, sem valor.
Aqui me tens; jámais falto ás promessas. Exijo, pois, de ti que não esqueças, Em troca, filha, este pedido meu:
Que para ennobreceres o soneto, Venhas fechar o ultimo tercetto —Com o ponto final d'um beijo teu.
El punto final
(TRAD. DE JOSÉ DE SILES)
Pedisteme un soneto delicado, exquisito, gentil, galanteador, hecho con versos de oro, y cincelado con rima de finissima labor.
Ahora bien, yo confieso mi pecado; nunca tuve afición de trovador, y detesto al poeta almibarado que en albums habla de banal amor.
Cedo, no obstante. Pero, no te azores si pretendo de ti que colabores, y que en premio al trabajo que rehuyo,
para que algún valor tenga el soneto, te dignes terminar este terceto… con el punto final de un beso tuyo.
Indice
MUSA CERULA
Dedicatoria Pag. 9 Profissão de fé " 11 A minha mãe " 15 Impressões d'ella " 17 O matrimonio " 19 Dolorosa " 21 Sonho de nupcias " 23 Serenata " 25 A Alberto de Oliveira " 29 Perdularia " 31 Em wagon " 33 Blasphemia santa " 35 Á sobremesa " 37 Cármen " 41 Fervet amor " 43 Cantares " 45 Senhor Doutor " 49 Ritornello " 51 Esboceto " 53 Consummatum est " 55 I— " 57 II—Oração " 59 De longe " 63 Manhã no campo " 65 Adeus " 67 Lyrica chineza " 69 Perolas " 73 Ignotus " 75 Nec semper " 77 Combate " 79 Nostalgica " 81 Irmã de caridade " 83 Abril " 87 Aldeã " 89 Amor omnia vincit " 91 A uns annos " 93 Struggle for life " 95 Ponto final " 97 El punto final " 99
Acabou de imprimir-se este volume aos 6 de abril de mil oitocentos e noventa e quatro na typographia de José Joaquim dos Reis Leitão, Rua do Norte, 6 Coimbra.