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Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China

FEITOS MACAENSES

Reading edition

CONTRA OS PIRATAS DA CHINA:

E DA

ENTRADA VIOLENTA DOS INGLEZES

NA CIDADE DE MACÁO:

AUCTOR JOSÉ IGNACIO ANDRADE.

SEGUNDA EDIÇÃO.

Illustration from Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo

LISBOA: NA TYPOGRAFIA LISBONENSE 1835. Largo de S. Roque N. 12 A C. Dias.

Rien ne peut arretêr dans leurs projets nouveaux Ces Portugais ardens qui volent sur les eaux, O' com bien de héros guiderent leur audace! Que de faits immortels ont signalé leur trace!

Esmenarde, C. V. pg. 26.

PROEMIO.

Quanto é arriscado escrever feitos gloriosos de homens, que ainda vivem! Não só os seus inimigos, mas tambem os feridos do orgulho, ou da inveja, saírão a vociferar contra a mesma evidencia. Ha quem julgue mais prudente calar as grandes acções dos heroes em sua vida. Mas porque se ha de recusar este premio ás pessoas, que o ganharam a risco da vida e fazenda?

[1]

Por se temer a mordacidade dos

zoilos

? Eis a fraqueza, que não tenho. Transmittindo a verdade aos vindouros, e dizendo o que fizeram os Portuguezes dignos deste nome; se fôr censurado por alguns, louvarão outros o meu zelo.

INTRODUCÇÃO.

De todos os espectaculos, que a industria humana tem dado ao mundo nenhum mais admiravel do que a navegação. Entes fracos e mortaes filhos da terra ousaram transportar-se sobre elemento inestavel e perigoso, levantar edificios em cima das aguas, dominar os ventos, e voar ás extremidades do mundo por baixo de Ceos desconhecidos.

Mas qual é a sorte do homem? Dotado de coração tão perverso, quanto o espirito é grande; o crime assenta-se ao lado do genio. De todas as invenções sublimes tem os homens abusado. Dos vegetaes extraíram venenos: do ouro a moeda que tudo corrompe. As artes serviram-lhe para multiplicarem os meios de se destruirem. A navegação é, sobre tudo, origem de mortandades; o mar tornou-se campo de carnagem; e as ondas foram ensanguentadas pela guerra.

As duas partes do globo oriente, e occidente, terra e mar, são igualmente o theatro das desgraças e crimes do homem: com a differença, que dilatando as vistas e passos ao longo do continente, descobrimos ruinas e despojos do ferro e fogo; campos e ermos incultos; porém o mar sendo tumulo de grande parte da humanidade, nenhum vestigio offerece de tantos estragos. Todos os dias passa o navegador com despejo por cima das ondas, que tem engolido milhares de homens.

Quem não desejará voltar aos tempos felizes de ignorancia e parcimonia, em que nossos avós menos grandes, porém menos criminosos, sem industria, mas sem remorsos, viviam pobres e virtuosos, e morriam nos campos que os tinham visto nascer.

[2]

Á custa das vidas portuguezas formaram os nossos antepassados um estabelecimento na China: os nossos contemporaneos foram de novo obrigados a ensanguentar as ondas para submetter Cam-pau-sai ás leis do imperio; e a usar prudencia consummada além do valor, a fim de livrar Macáo da invasão britanica.==Nada ha mais proveitoso que a historia para adquirir prudencia, (diz Jeronimo Osorio) nem mais poderoso do que ella para despertar virtudes, mais saudavel para sanar as feridas da republica, nem mais aprasivel para o deleitamento da vida. Mas segundo os homens foram sempre, não crêm nunca feitos, quem sahêm álém do seu engenho e posses; nem ha meio que admittam o que sobrepuja os termos de trivial esforço, e usada industria.==Todavia os feitos exarados nesta memoria jámais serão desmentidos; e podem despertar virtudes.

A China por nós ha muito tempo ignorada, depois inteiramente desfigurada, e hoje melhor conhecida do que algumas provincias da Europa, é o imperio mais antigo, extenso, e florecente do globo. Pelo ultimo censo, feito no seculo passado, foram avaliados os seus habitantes em duzentos milhões de almas. O rendimento annual sobe a quinhentos milhões de cruzados. Sustenta oitocentos mil soldados, e trezentos mil cavallos, que emprega nas armas, e correios publicos.

Ha tempo immemoriavel são os imperadores tambem pontifices do imperio; para que as authoridades civil, e religiosa nunca se achem em conflicto. Adoram um Deus unico; e offerecem-lhe as primicias de um campo lavrado, todos os annos em dia solemne, por suas proprias mãos. Alento exemplar á agricultura, primeira base da independencia e prosperidade nacional.

Pela maxima da tolerancia geral seguida no oriente, admittem-se os bonzos de todas as religiões, e deixam-os espalhar os seus desvarios: mas se chegam a amutinar o povo, são logo enforcados. Assim os toleram e os reprimem. O imperador

Cham-hi

mandou gravar no frontispicio da sua capella:==O Chang-ti não tem principio nem fim: creou e governa tudo: é summamente bom e justo.==

Os Chinezes em geral são polidos e virtuosos. O Imperador tem uma só mulher legitima, mas póde segundo as leis do Imperio ter grande numero de amasias. A sorte destas é triste, por viverem encerradas. Pagam com a privação em que vivem da sociedade, a honra de satisfazer ao imperante, a qual devem á formosura, e não ao nascimento, que os Chinezes desapreciam, quando não é accompanhado da virtude.

Os Coláos e mandarins letrados são mais estimados no imperio do que os militares. Entre o grande numero dos primeiros ha seis que acompanham a côrte. O coláo mais antigo e de maior merito nomeia os mandarins para todos os empregos superiores, e os manda punir se não cumprem com o seu dever; o segundo cuida nos cultos, e dispõe as ceremonias da côrte; o terceiro é o Ministro da Justiça; o quarto administra a fazenda; o quinto preside no ministerio da guerra, e determina tudo, quando é preciso sustentala; o sexto tem a seu cargo as obras publicas.

Ha outros que deliberam com o Imperador sobre os negocios do Estado. Além disso tem censores publicos de officio. Em cada uma provincia ha um Suntó (delegado imperial) com tres mandarins letrados debaixo das suas ordens. O primeiro conhece das causas civis e criminaes; o segundo recebe os tributos; o terceiro mantém a segurança publica. Para chegar a ser mandarim é preciso passar por tres gráos, como os nossos de Bacharel, Licenciado, e Doutor: destes são tirados os coláos.

O governo não é despotico como se pensa. Os mandarins oppõem-se aos seus decretos, quando são contrarios ás leis do Estado. Querendo certo Imperador abusar do poder, um mandarim escreveo-lhe pelo modo seguinte:—Senhor sei que me arrisco em offender o vosso amor proprio, mas devo preferir a morte á perda da honra: não posso deixar de vos advertir, que o máo exemplo dado por vós ao Imperio nos lança a todos no abysmo.—O Imperador foi generoso para não se agravar, mas não o foi para mudar de conducta. Todos os mandarins esperaram occasião para lhe mostrar serem dos sentimentos do primeiro.

Não tinha o Imperador filhos legitimos, e pelas leis do Estado devem ser chamados á successão do Imperio os bastardos, preferindo sempre o primogenito. O Imperador tinha grande affeição a um dos outros: pretendeu que o reconhecessem, com perjuizo do mais velho. Os mandarins representaram ao Imperador a injustiça que pretendia fazer: este por isso privou alguns dos empregos. Aquelles publicaram um aviso dirigido a todos os mandarins anexos á côrte para se acharem um dia aprazado no logar ordinario. Ahi decidiram em junta que visto o Imperador desprezar as leis do Estado, deviam elles desistir dos seus empregos e ir para suas casas viver como particulares: assim o executaram.

O Imperador entrou em seus deveres: mandou aos mandarins que tornassem aos seus empregos, que estava pelo que elles entendiam. Assim obedeceram todos á lei. Os mandarins ganharam nesta occasião honra por sua firmeza, e o Imperador por sua prudencia.

O tribunal da historia, para tudo ser conforme, é surdo ás supplicas, ou ameaços dos imperantes. Na sala do tribunal ha um cofre, onde cada historiador lança suas memorias sem as communicar a pessoa alguma. No fim de cada reinado abre-se o deposito, e dos escriptos alli achados formam os annaes do Imperio: Para conhecer o espirito deste tribunal basta o caso seguinte:

Tai-te-song

, Imperador da dynastia de Tang, rogou ao presidente do tribunal, que lhe mostrasse as memorias que deviam formar a historia do seu reinado. Senhor, deveis saber, que damos conta exacta dos vicios e das virtudes dos Soberanos, e que deixariamos de ser livres se consentissimos no que exigis—O Imperador tornou:—Pois vós que me sois tão obrigado, pretendeis levar á posteridade os meus defeitos?—Com summa dôr os escreverei, mas é tal o dever do meu emprego, que me obriga a levar á posteridade a pretenção, que hoje tivestes de mim.—

Em todos os paizes as leis punem os crimes, na China fazem mais premeiam a virtude. A noticia de uma acção generosa, de uma virtude extremada, assim que se divulga em

qualquer

provincia, é obrigado o mandarim de policia a participala ao Imperador: este manda logo áquelle subdito um signal, que o distingue no caminho da virtude.

O certo é, que os vicios e as virtudes dos povos nascem da sua legislação: esse conhecimento deu talvez motivo a esta boa lei dos Chinezes.—Para fecundar o germen da virtude, os mandarins participam da gloria, ou da vergonha das acções virtuosas ou injustas commettidas em seu governo.

A moral, a obediencia ás leis, e o culto ao ente supremo, formam a religião do Estado. O Imperador não é só pontifice, mas tambem o primeiro orador do Imperio. Seus decretos são quasi sempre lições de moral. Subsistem ha mais de quatro mil annos com a mesma forma de governo, as mesmas leis e costumes, sempre estudiosos e apreciadores das letras.

Com tudo o povo é idolatra; os letrados deistas, sem acreditarem em revelação alguma, nem na vida eterna. Dados ao estudo das leis, desprezam por ellas os dogmas e ritos de seus bonzos. Em verdade estes são ignorantes, supersticiosos, credulos e ambiciosos de riquezas. A maior parte dos Chinezes observam as seguintes maximas de Confucio.

Lembra-te que és homem, a tua

natureza

é fraca, podes succumbir. Afasta de ti os obstaculos que te embaracem o caminho da virtude.

O homem bom occupa-se de suas virtudes: o máo de suas riquezas. Aquelle trata do interesse da patria: este só no seu cuida.

Faze aos outros o que desejas te façam: eis a unica lei que te é precisa.

O silencio é indispensavel ao sabio; este despreza sempre os rasgos da eloquencia por inuteis; explica-se por suas acções. O ceo falla, mas por que modo nos diz elle ser o Soberano principio de todas as cousas? O seu movimento é a sua linguagem: creou e deu impulso á natureza, e esta como filha sua obedece-lhe e produz.

Quando se trata da saude da patria despreza-se o perigo da vida.

O ganho do imperante avalia-se pela felicidade publica.

Estas poucas regras bastam para se fazer perfeita idéa da moral Chineza.

Por morte de Afonso de

Albuquerque

, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarc, em 1515, succedeu-lhe no governo da India Lopo Soares de Albergaria: no principio do anno de 1517, mandou este uma esquadra de nove embarcações commandadas por Fernão Peres de Andrade, levar ao Imperador dos Chinezes o Embaixador Thomé Pires, como El-Rei D. Manoel lhe tinha ordenado.

Por motivo de grande temporal arribou a frota a Malaca, e só pôde sair daquelle porto, para estrear as quilhas portuguezas no mar da China, em Junho do mesmo anno. Já os nossos sabiam, pela amisade contrahida em Malaca, com os Chinezes, a que rumo lhe demorava Cantão: foram ás ilhas visinhas daquella cidade por onde enviaram o nosso Embaixador á côrte.

Quando alli aportou o nosso Andrade, achou uma frota Chineza destinada a combater os piratas, que infestavam aquelles mares. Sendo Fernão Peres de Andrade benefico e destemido, anniquillava preversos, e attrahia qual iman os discipulos de Confucio. Largou aquelle Imperio deixando nelle as cem trombetas da fama apregoando sua magnanimidade.

Do meu arco possante Hoje o famoso Andrade Alvo será: seu nome triunfante No porto surgirá da Eternidade.[3]

Assim que largou de Cantão chegou alli Simão de Andrade, com outros: procederam de forma, que perderam, em credito, tudo quanto Fernão Peres tinha adquirido. Usaram tão grandes violencias, que os Chinezes resolveram tratalos como a piratas. Equiparam grande frota, e cercaram os portuguezes por todos os lados. Se não fôra um temporal, que abrio caminho por onde fugiram, ficariam todos prisioneiros.

Depois de tal desar das armas e da honra portugueza, chegou alli Afonso Martins de Mello, ignorando o que se tinha passado. Assim que os mandarins o descobriram reuniram a sua frota para atacalo. Martins de Mello, dizia-lhe, que ia levar paz e não guerra; mas estes só lhe respondiam por bocas de fogo. Travou-se o combate; os nossos succumbiram. Assim que Martins de Mello vio perdidos todos os recursos, cortou a linha inimiga como raio abrazador, e ganhou o mar largo, deixando os Chinezes pasmados de tal audacia. Foi preciso que os portuguezes com seu valor e prudencia, fizessem esquecer aos Chinezes a memoria do immoral Simão, para serem outra vez recebidos em seus portos.

Recuperada a boa fé entre as duas nações obtiveram os portuguezes, em recompensa de serviços prestados ao Imperio, o isthmo do Sul na ilha de Macáo, para levantarem casas, debaixo de certas condições; mas

fizeram delle

uma cidade a que deram o nome da ilha.

Foi no anno de 1557, que o Imperador da China concedeu aos portuguezes aforarem aquelle isthmo em premio de terem anniquilado a esquadra do pirata Chang-Silau.

Em 1584 prometteram os macaenses obediencia a Filippe II, porém a bandeira portugueza tremulou sempre nas fortalezas de Macáo.

Em 1586 recebeu Macáo o titulo de cidade do nome de Deus na China, e todas as liberdades e preeminencias, que tinha a cidade de Evora, cujos foros se confirmaram em 1709.

Em 1622 tendo Macáo apenas 80 portuguezes, e alguns cafres, foi atacado por 800 hollandezes: deixaram 500 mortos, e 100 prisioneiros; os restantes fugiram largando em nosso poder 8 bandeiras, armas e bagagens.

Antes de fazerem o desembarque, pediram a dois navios inglezes, surtos na bahia, para ajudalos; estes não duvidaram, mas exigiam o fruto de todo o saque. Os hollandezes rejeitaram: julgaram muito excessiva a ambição dos inglezes.

De 1557 até 1625 foi Macáo governado pelos capitães de navios do Estado, que todos os annos iam de viagem ao Japão, e faziam escala naquella cidade. Com esses governadores teve prosperidade.

Em 1626 foi de Goa para Macáo D. Francisco Mascaranhas para Governador com o titulo de Capitão Geral. Começou no seu governo a desintelligencia com o Senado, e a dissolução praticada pelos Governadores. Este foi grande assassino, grande roubador e forçador cruel das mulheres e filhas dos

cidadãos

. Levou os macaenses a tal desesperação, que o mataram, a fim de se verem livres de tão horrendo monstro.

Em 1641 chegou alli a noticia da feliz aclamação do Senhor D. João IV: os macaenses logo romperam os grilhões de Filippe, e mandaram grande donativo á capital do Rei legitimo.

Em 1709 soffreram segundo Verres; Diogo de Pinho Teixeira; chegou a mandar bombardear o Senado, onde ferio e matou, por não consentir em suas prepotencias.

Em 1726 chegou a Macáo o Embaixador Alexandre Metello de Sousa Menezes, mandado por El-Rei D. João V. ao Imperador da China. Os moradores daquella cidade cooperaram muito para sustentar-se o decoro nacional naquella embaixada.

Em 1747 foi governar Macáo, Antonio José Telles: espantou os algozes do Imperio Chinez por suas crueldades. Levou aquelle estabelecimento aponto de perder-se.

Esta cidade celebre pela riqueza de seu trato, illustre pela fama de nossas victorias, é situada na latitude de 22

1

⁄

4

gráos ao Nórte do Equador, e 122.° ao Oriente de Lisboa. Seus habitantes pouco distam dos nossos

periecos

; motivo talvez por que o Padre Antonio Vieira disse: que a espada dos portuguezes tinha chegado, onde não alcançou a penna de Santo Agostinho. Tem de extensão a cidade pouco mais de uma legua. Do lado do Norte é defendida por grossa muralha guarnecida de fortins: e do Sul por tres fortalezas. A de S. Francisco na parte oriental da Praia Grande; a do Bom porto na ponta occidental e a de Sant-Iago que defende a entrada da barra: tem mais entre as primeiras duas, o forte de S. Pedro. No centro a fortaleza do monte domina toda a cidade. Além destas fortalezas tem outra sobre o monte da Sr.

a

da Guia, fora dos muros da cidade. As casas são bem edificadas, mas as ruas desiguaes. O porto é bom: podem entrar nelle navios em lastro de oitocentas tonelladas. Tambem podem surgir ao largo náos de 74. A povoação é de 20 mil individuos, a maior parte Chinezes. O Governo é o Senado composto de dois Juizes ordinarios, tres Vereadores, um Procurador, e um Escrivão. O Governador militar ou Capitão Geral, e o Ouvidor, são chamados ao Senado, quando ha negocios politicos, ou de fazenda. Neste caso preside no Senado o Capitão Geral, e tem voto de qualidade. A tudo o que é relativo ao governo municipal preside o Vereador do mez.

Os macaenses são tão zelozos das suas liberdades, que até na meza das sessões do Governo tiraram ao Presidente a regalia de ficar isolado no extremo della. Sendo nove os membros, collocaram a meza dentro de uma tribuna de modo, que ficam tres de cada lado; a frente é livre para entrar e sair.

Sobre a meza descança um extremo da vara da Justiça, e o outro fica encostado na parede por cima da cabeça do Ministro: um delles (Lazaro da Silva Ferreira) assombrando-se com ella tocou-lhe de proposito para a fazer cair, e mandou-a tirar, dizendo lhe ferira a cabeça. Os Senadores mandaram por-lhe um gancho no extremo, e uma argola na parede para segurar assim a insignia da Justiça. Outro dia o Ministro ao entrar tocou-lhe para caindo lançala fora: ficou surpreso ao ver, que estava segura. O Vereador do mez tirou-o do embaraço dizendo:—Tributamos tão grande respeito a nossos maiores, que não podemos prescindir deste seu costume; e presamos tanto a V. S.

a

, que para não o ferir a vara da Justiça mandamo-la segurar.

Ha um Bispo, e um Batalhão de naturaes de Goa, commandados por Officiaes macaenses; guarnece as fortalezas, e faz as rondas da cidade. Seus rendimentos são os direitos da Alfandega.

As minhas viagens á China deram-me occasião para conhecer os descendentes dos honrados portuguezes, que no tempo do nosso captiveiro debaixo do pezado grilhão dos Filippes tiverão a constancia e valor de conservar illesos os foros nacionaes naquelle canto do mundo. Ainda que logravam a amizade dos Chinezes, só tinham seus braços para se defenderem das nações da Europa, que alli foram atacalos. A historia diz pouco ácerca dos grandes feitos macaenses daquella época.

[4]

Apenas dessas grandes acções ha hoje pintadas algumas mais notaveis na Sé e Senado de Macáo. Tudo o mais se tem perdido com os heróes, que tão dignos eram de memoria eterna.

Em 1808 foram os macaenses atacados por tal forma, que a não terem herdado o valor de seus maiores, de certo succumbiriam

[Nota 1ª]

. Fui testimunha de feitos mui gloriosos. Os portuguezes nesta época mostraram-se grandes nas armas, e na politica; nas armas pelo valor com que tomaram a grande esquadra de Campau-sai, na politica, pelo bem que se houveram com os Chinezes e Inglezes. Salvaram Macáo de nadar em sangue; acreditaram-se com os primeiros; e foram uteis aos segundos. Deixarei tão nobres acções no esquecimento á maneira de nossos maiores? Não: farei diligencia para as transmittir á posteridade. Se não forem uteis aos presentes, se-lo-hão por certo aos vindouros. Não ha cousa mais capaz de fortalecer nossas almas, do que as proezas de nossos avós. Julgo de obrigação referilas a nossos nétos.

Macáo é monumento precioso da gloria portugueza. Fernão Peres de Andrade, foi quem primeiro immortalisou os portuguezes naquella parte do mundo. Ver-se-ha firmado pela mão dos Chinezes, que ainda temos grande consideração naquelle imperio.

Contendo esta memoria dois objectos differentes, julguei a proposito lançalos em separado; ainda que um principia antes e acaba depois do outro. Pegaram os macaenses ás mãos com os piratas em 1805: A esquadra ingleza aportou em Macáo a 18 de Setembro de 1808, e saiu a 10 de Dezembro do mesmo anno. O Tratado entre o Governo Chinez e o Macaense, para a completa derrota da esquadra de Cam-pau-sai, foi assignado em 23 de Novembro de 1809, e concluido tão importante negocio em Abril de 1810. Para o leitor vêr sem custo as grandes difficuldades, que em Macáo se venceram, dividirei, esta memoria em duas partes. Tractarei na primeira da extincção dos piratas. Cousas ha nesta parte, que se fossem praticadas em tempos mais tenebrosos, seriam tidas por milagres, sendo só o esforço de almas valorosas que mandaram seus braços com a penna e espada obrar taes prodigios. Na segunda fallarei da invasão dos inglezes em Macáo, da sua e nossa conducta, assim como da politica Chineza, e do final resultado.

Em Athenas, eram os famosos oradores quem celebravam os heroes de Salamina; e tinham por ouvintes os Socrates e os Pericles. Eu não tenho os mesmos talentos, e tenho juizes não menos temiveis. Mas em objecto desta natureza a eloquencia consiste em ser sincero.

PRIMEIRA PARTE.

Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram seu numero e força de modo, que em

1805

estavam senhores de grande esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio, dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A primeira e mais possante coube ao celebre

Apócha

, que depois se chamou

Cam-pau-sai

, e onde sempre residio a viuva.

Apau-tai

foi commandar a segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta.

Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo, fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China. Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde passava. Sendo a

Cidade

de Cantão a mais rica e a mais commerciante, quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.

Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes; mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que todos os dias entram na Cidade.

Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o Governo julgou ser insufficiente tão pequena força, para os afastar da Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.

Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio; porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque; mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam devastando a provincia de Cantão.

Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo. Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o valente e destemido

Pereira Barreto

. Já nesse tempo havia adquirido tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do mar.

[5]

O impavido

Barreto

tinha valor para investir com toda a esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás mãos com o

brigue

. Vendo o forte

Barreto

, que a artilheria inimiga éra de maior calibre, resolveu abordar o Taó

[6]

. Deve imaginar-se uma grande lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte

Barreto

dirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente

Barreto

não corresse a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações;

Barreto

é o primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés sobre a tolda inimiga, cantou victoria:

Saltando a fará só com lança e espada De quatro centos mouros despejada[7]

Barreto

usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado, lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e sepultou-se no mar com ella.

[8]

Este combate foi dado perto de Macáo;

Barreto

conduzio immediatamente a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte. Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e até nos parecia impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300 Chinezes.

Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino estro sirva para immortalisar os dois.

Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria Com argivo buril padrão sagrado:

Morda-se o tempo irado,

Que ella eterna fará a clara historia Alma que atraz da fama immenso espaço

Corre, veja em meus hymnos

Que em vão não sua bellicoso braço.[9]

Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto

Barreto

fez desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações.

Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao denodado

Barreto

. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. João VI o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses: deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por bons costumes.

Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella, restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio. Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.

Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia, de já não existir em Macáo o

tygre do mar

. Voaram como bando de Açores famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro, cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de 15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.

Recolhendo-se de Goa o brigue do

Botelho

, Capitão Manoel José Vianna, foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossos

Barretos

, quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavam homem, mas sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas.

Cem paráos torreados,

Donde por boccas mil brota Mavorte;

Entre horrorosos brados

Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam.[10]

Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto capazes de tal empreza, eram o brigue do

Senado

, e o navio Belisario. O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.

Seriam nove horas da manhã, quando se avistou o navio apresado; e antes de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na promptificação dos navios.

Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos, espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso eloquencia extremada e presencear todos os seus

illustres

feitos, para elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados.

Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa. Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão Lusitano, que aportou naquelle imperio.

[Nota 2ª]

Theotonio da Silva Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos submergido.

Ao amanhecer

subirão

os montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver seus campeões; avistaram o brigue do

Botelho

, que tendo surgido em Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortara, que tendo surgido em Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande pericia de seus officiaes

tinhão

escapado á furia do tufão.

Havia tambem uma lorcha armada em guerra

[11]

commandada por Antonio José Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos, levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios, quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.

Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos, para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o novo

Aquilles Lusitano

chegou ao passo, que bem pode nomear-se Cabalão

[12]

. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o desempenho da sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso bastava.

Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer. Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que apreciavam a existencia do seu commandante.

Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.

Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens, grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las. Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos.

Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.—Fazia do merecimento dos homens estimação tão justa, que nem á conveniencia, nem ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos ministros rara

[13]

.

Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias fez para o tomar.

Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo. Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de

Wam-poo

, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles. Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem uns não se tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas deixou em cinzas muitas embarcações inimigas.

É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador, não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da justiça.

[14]

Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios portuguezes.

Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes,

por ser

a empreza

mui

dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de Cantão, e fez-se a convenção seguinte:

[15]

O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo, igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações commerciaes,

formarão

uma guarda costa, combinando a força dos dois governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado, José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e ajustaram os artigos seguintes:

1.º Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos canaes, que até agora tem infestado.

2.º O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para ajudar o armamento dos navios portuguezes.

3.º O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.

4.º Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.

5.º As presas seram repartidas entre os dois Governos.

6.º Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os seus antigos privilegios.

7.º As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo 23 de Novembro de 1809.

Shou-Key-chi.—Arriaga. Pom.—Chu—Barros.

O governo de Macáo observou logo o

3º

artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o seu credito: então e artigo. Arriaga entrou a promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos grandes sommas sobre o seu credito: então era valor de sobejo para os negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam

[16]

.

Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os prodigios obrados pela gente portugueza.

.....Tornando frio De espanto o ardor immenso do oriente, Que verá tanto obrar tão pouca gente.

Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu, exclamou:—São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do mundo está em serem poucos.—Em verdade com cem portuguezes, e sete centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado, José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais longe de Macáo.

O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na classe mandarina.

Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e não descançaria sem exterminalo.

Campau-sai, respondeu:—Tenho presente a vossa carta: não me assusta. Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, ainda que me assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo, e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do mesmo mez.

Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta embarcações bem equipadas de homens e de armas.

Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo, que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.

Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse, como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.

Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio e estimação.

Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por que não cumpro o vosso desejo.

Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe: assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o fim a que me proponho. Tenho muitas embarcações, e mantimentos para longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a conhecer o meu projecto.

Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos convier.

Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta, para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de 1809.

Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas sem

effusão

de sangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar. Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.

Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser cantados antes, pelo nosso Diniz.

A fiel ave, que arma vigilante

O grão furor a Jove.

Quando sobre os mortaes os raios chove

A dextra coruscante,

Tão rapida ao rebanho temeroso Não cala, a garra abrindo, das estrellas,

Como o varão famoso Sobre as immensas velas Cahe de grande ira armado Treçando denodado

A féra espada, e torna em seu estrago O azul oceano em roxo lago.[17]

Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos, commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelha electrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos; manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos do que outros. O navio commandado por

Luiz Carlos de Miranda

, na maior força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda, vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:—Creio não haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem, fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o navio do escôlho.

O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do pagode.

[Nota 3ª]

Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle; e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos, os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos seus deuses

espedaçados

, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de todo o animo: apenas ousaram largar

as velas

todas, e por entre syrtes foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos vazos não podiam entrar.

Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida. Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio. Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só o deixou saír para entregar-se.

Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de capitulação; e que só trataria com os imperiaes, estando elle presente. Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador.

Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a Macáo, um novo

Ouvidor

, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio, já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a tractar deste importante negocio.

Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a capitulação com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.

Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata. Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações, communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia tomado. Todos acordaram com os

Officiaes

do seu navio, menos elle, que fallou da maneira seguinte.—Grande é meu contentamento por ver o empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo. Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme, tremerá de vós—Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou a primeira embarcação da vanguada

[Nota 4ª]

:

Sonorosas trombetas incitavam Os animos alegres resonando: Dos Chinas os bateis o mar coalhavam, Os toldos pelas aguas arrojando. As bombardas horrisonas bramavam Com as nuves de fumo o sol toldando.[18]

Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe, não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade. Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.

Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto conceito, e a quem de boa vontade se rendia.

Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de Cam-pau-sai. Disse mais:—como chefe da esquadra macaense, tenho ordem para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado, levantou-se:

Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso V;

[19]

ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.

Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Macáo; no ponto, onde se faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga, governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar das façanhas portuguezas

[20]

. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este importante negocio fóra de Macáo.

Avisou os mondarins,

Chu

, e

Pom

, que viessem ao pagode

[21]

: ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte, e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção.

Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.

Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse. Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha tractado com o ministro.

Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado, que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.

Alcoforado respondeu:—aprecío muito

a honra

, que me fazeis—e desejo, ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga, se tentar saír, em quanto não houver outra em contrario, não posso deixar de fazelo.

Os mandarins tornaram-lhe:—Homem recto e valoroso, conhecemos os serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas. Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de homens

marcantes

, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não desconfiar da nossa palavra.—Nesta occasião chegou a ordem de Macáo, por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir Cam-pau-sai

para Chumpin

. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga. Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar aprazado.

Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.

Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação, para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador. Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por vós.—E virando-se para os mandarins:—Tendes por experiencia de 14 annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido—E tomou assento.

Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar

alguns dos seus

, que fossem mais criminosos.—Para satisfazer a esse requisito, darei os nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.—Sendo este o unico embaraço que havia, concluio-se o negocio.

Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.

Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia repartir a preza; visto são ser o artigo 1.º da convenção preenchido pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a capitular.

Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou á disposição do Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes; elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo.

Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro Arriaga:—Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores—O Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.

Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes macaenses, que éra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos. Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.

[Nota 5ª]

Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:—Rebellada a divisão a primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas, deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.

O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde. Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de Cam-pau-sai.—Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de utilisar ao imperio.—

O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa esquadra

[Nota 6ª]

com os bons moradores da cidade a caza do Ministro Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas, segundo o costume Chinez disse:—Deus immortal, estão completos os meus ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados—Brilhava o jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.—Acha-se neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo conhecelo—Aqui me tendes respondeu o

Caroxa

. Cam-pau-sai caminhou para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:—Este homem fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós, ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente.

—Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis: affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á ordem dos Coláos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes praticar:

[Nota 7ª]

E julgareis qual é mais excellente, Se ser do mundo rei, se de tal gente.[22]

Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas proprias paixões.

[23]

Do vosso nome um grão Rei

Neste reino Lusitano Se poz esta mesma lei: Que diz o seu Pelicano Pela lei, e pela grei[24]

Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:

Procclamão.

Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem. Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos, que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem, ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o nosso partido a seu respeito é

summamente

pequeno. Não podeis negar-me, que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua desgraça

[25]

. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro, experimentareis pela primeira vez o meu rigor.

Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso. Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os macaenses, a verdade do que lhe havia dito.

Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão. Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se á

bocca do tygre

. Alli encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiou

Cam-pau-sai

de modo, que se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto de velo.

Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros. Emprego superior aos ministros de Estado.

Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus conhecimentos e qualidades relevantes.

[26]

É provavel, que em quanto elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China. Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção.

Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende: ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta. A estatua do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta guerra foi differente. Obrigados os macaenses por

Ladrões

a defenderem as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não houveram crueldades.

Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no Senado que de boa vontade assentio.

Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a artilheria tomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges de Bonaparte.

A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver a nossa antiga reputação naquelle imperio.

Illustration from Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo

Nota (1.ª)

Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador de Macáo. A paginas 255 rompe:—De grande importancia seria Macáo a uma nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez, injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo Chinez, é reputado por elle o peior do mundo!

Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo, tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se

pela honra

da nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação com os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.

Nota (2.ª)

Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros, tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.

Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor.

Nota (3.ª)

Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom resultado da empreza, lançou mão desses instrumentos do erro, que degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.

Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos bonzos, e reputado seu chefe.

Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.

Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.

Nota (4.ª)

Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo de Mr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.

[27]

Eis como elle o pinta.

—Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.

[28]

Dir-te-hei o modo porque fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez, nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os patricios dos maiores sabios do mundo.

Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz, cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do prazer.

O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que nos deu a entender, procedeu de causas politicas.

[29]

Ocupou-se com desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.—

Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim cantadas.

Le généreux Souza, qui sut domter l'amour Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore, Et q'aprés Scipion la vertu nomme encore.

Nota (5.ª)

No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo seguinte:

Á sombra de frondifera oliveira,

Por ti, ha tanto tempo, desejada, (Graças ao creador Omnipotente.) Te vejo, cara patria[1] reclinada.

No pelago espaçoso, que te cerca,

Ja não vês tremular hostis pendões[2]. Não ouves rebombar os horisontes[3] Com horrorosos tiros de canhões[4].

De salitroso pó[5] que antes servia

Para ao longe mandar lethaes pelouros Se ferreos tubos hoje tu carregas[6], É só por festejar c'os seus estouros.

Centenares de Taós[7] prenhes de tygres,

Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[8] Meninas e donzelas delicadas A teu Pai sujeitou[9] o Eterno Ente.

Teu benefico Pai, o Arriaga[10]

Estes tygres de Hyrcania domou E a frondente oliveira, que te cobre, Cortando mil obstaculos, plantou.

Jámais pois riscarão da fantasia[11]

O nome deste Heroe da lusa gente: E agora, que celebras seu triumfo, De verde palma vai cingir-lhe a frente.

Da victoria este emblema para ornares,

Lindas flores procura designantes D'aquelles predicados appreciaveis, Neste filho de Lisia mui brilhantes.

O louro girasol, que sempre segue

O planeta, que os outros illumina[12] Designa a bem notoria lealdade Do nosso Heroe á prole Bragantina.

Os rubros amaranthos, que resistem

Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam A intrepida constancia nas empresas[13], Que o nome de Arriaga immortalizam.

A candida açucena, que dispende

Liberalmente o corceo, de que gosa É symbolo do seu singello peito[14], Emblema da sua alma generosa.

O Lirio, que nascendo d'alta vara,

Sendo rei da florida monarquia Para baixo a sublime frente inclina, Sua clemencia designa, e cortezia[15].

Das mais virtudes symbolos procura

N'outros lindos matizes dos jardins; Não te esqueças das rosas rubicundas, Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.

De ti receba agora esta corôa

Bem que inferior ao seu merecimento; Em quanto outra melhor se lhe prepara No reino superior ao firmamento.

Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo.

1.ª A patria é a cidade de Macáo.

2.ª As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.

4.ª Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.

5.ª Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.

6.ª Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus contornos, a melhor parte do povo da cidade.

7.ª Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens, Apautai 2000.

8.ª Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.

9.ª Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga, seu medianeiro para com o imperador da China.

10.ª Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo.

11.ª O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em seus annaes para haver delle eterna memoria.

12.ª Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não arrebatarem esta cidade á nação portugueza.

13.ª Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.

14.ª A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles desavindos.

15.ª Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos, com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da sua nobreza de coração e das altas e perfeitas

virtudes que possuia

.

Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI, na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus imfortunios, e sua morte prematura.

Nota (6.ª)

Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!

Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra os piratas, obraram cousas uteis,

faria

mui grosso o volume; porque muitos foram elles, e todos merecem elogio.

Nota (7.ª)

Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em pouco a estimação publica. A maior parte dos homens são como o negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome. Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir. Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça os

habitantes

:

tome agoa

e largue as velas ao seu destino sem lhe importar descobertas

[30]

. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo, unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens embarcam a fim de explorar a naturesa

[31]

. Todavia o governo de Macáo provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a fazenda.

Graças

aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.

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