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Lendas e Narrativas (Tomo II)

O PAROCHO DA ALDEIA

Reading edition

(1825)

PROLOGO.

Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera, o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo. Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura. Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força, e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que se desvaneceu tão breve.

E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas, de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol de uma crença viva.

Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as philosophias.

A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se para o presente: foi o scepticismo.

Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:—"Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe tranquillamente—quem sabe!"—e cahir desanimado no lethargo da duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito, opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe: —hypocrita!—porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas, que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração! —Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas, e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro, lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse aos que visse ao longe:—"não vos affasteis para aqui!"—Hypocritas são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas. Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que ella dá é inquietação e desesperança.

Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira. A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza. As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta, que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe de ser.

Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida, mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias. São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de todas as lembranças de Deus.

Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre as nevoas densas do duvidar de tudo.

O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas. Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo: nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença, lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.

Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia: vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente: dizei-lhe:—"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade o mais eloquente dos homens!"—Dizei-lhe isto, e vereis esse engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia o vaso fragil que já não o podia conter.

Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal: outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças: o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e a regeneração da morte.

Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis, ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas, descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de saphyras em que se reclina a rainha da noite.

Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até se derramarem na terra.

Dae-me uma nota só dos canticos que eu então escutava; dar-vos-hei em troca toda a minha estupida e inutil sciencia!

Mas essa epocha da vida não voltará mais, porque não póde retroceder uma unica onda do rio impetuoso do tempo! Depois da taça do mel esgotada resta a do absinthio. Que se resigne e espere aquelle que vae devorando os dias da duvida e do desalento. Chegará a hora de renascer para a poesia e para a certeza: será a da morte. A Providencia foi ainda generosa comnosco, consentindo-nos que a espaços affastemos dos labios o calix do fel, e deixando que nestes momentos rasguem o nosso longo e tedioso crepusculo alguns raios transitorios de luz. A memoria é o instante de repouso, e a saudade o clarão suave que nos illumina.

Recordar-se—consolar-se.

* * * * *

I

A ALDEIA E O PRESBYTERIO.

Uma das cousas que nas recordações da juventude ainda espiram para mim poesia e saudade é a imagem de um velho prior d'aldeia que conheci na minha meninice. Hoje tão bondosos, tão alegres, tão veneraveis, ha-os por certo ahi, e muitos: eu é que não sei conhecê-los. A auréola, que então rodeava as cans do sacerdote ancião, desvaneceu-se pouco a pouco; desvaneceu-a a experiencia do mundo, como tantas mil crenças e imaginações de outr'ora! Elle morreu já, por certo; mas vivo que fosse, eu não sentiria ao vê-lo, ao falar-lhe, aquella especie de alegria timida, de confiança receiosa que nesse tempo o bom do velho me inspirava. Parecia-me que estando ao pé delle estava mais perto de Deus, cujo valído, por assim dizer, era o padre prior. Não sabia o sacerdote essa lingua que eu cria falar-se no ceu, o latim, que então era para mim cousa mysteriosa e sancta? Não trajava ás vezes os trajos da côrte celeste, o amicto, a casula, o pluvial, com que estavam vestidos alguns vultos de anjos pintados em tres ou quatro antiquissimos quadros do presbyterio? Quando nas suas practicas, depois da missa do dia, narrava os gosos da bemaventurança, os tormentos do purgatorio, e os tractos intoleraveis do inferno, não juraria qualquer que elle já peregrinára largos annos além do sepulchro, ou que voz de cima lhe revelava tantas maravilhas e tão solemnes terrores? Evidentemente o velho clerigo estava mais perto dos degraus do throno divino que toda a outra gente, e, por me servir da linguagem politica, exercia em nome do céu uma delegação na terra; era uma especie de missus dominicus da Providencia. E quando elle, apezar dos meus tenros annos, me escolhia para acolyto, para estafar a porção de latim do missal, que as rubricas inexoraveis subtrahiam ao seu imperio, sorriam-me as esperanças, algum tanto vaidosas, de obter de Deus deferimento ás minhas pretenções infantis, como costumam sorrir ao requerente, a quem deputado de grande conta mostra familiaridade na presença de omnipotente ministro.

Hoje o latim do padre prior parecer-me-hia um tanto barbaro, e talvez barbarissima a sua prosodia: nas vestes sacerdotaes acharia os trajos romanos do imperio atravessando, immutaveis como a igreja, por entre as transformações da moda e do luxo; nos quadros do presbyterio riria da ignorancia e mau gosto do pobre pintor; e nas descripções das venturas e tormentos da outra vida descubriria unicamente uma incarnação grosseira em imagens materiaes das revelações profundas do espiritualismo christão. É que nesse tempo tudo me chegava aos olhos da alma alumiado, risonho, variegado, porque tudo transparecia através de um prisma de sete côres, da innocencia singela e credula da infancia; e hoje tudo me parece como a folha que cahiu da arvore no outono, murcho e desbotado, passando através da atmosphera nevoenta e triste da sciencia e do orgulho. Então o velho parocho affigurava-se-me mais que um homem; hoje, na escala das desigualdades humanas, provavelmente só acharia para elle um bem modesto logar.

A aldeia em que o bom do clerigo pastoreava o seu rebanho espiritual estava assentada na falda de um monte, e pouco inferior a ella dilatava-se uma veiga, que ao longe, lá bastante ao longe, ía bater no mar. No alto da povoação ficava o presbyterio. Era a igreja, segundo hoje se me affigura (e tenho-a bem presente) daquelle gosto duvidoso entre a architectura christan que expirava, e a da restauração romana, que ainda se não comprehendia: era um desses templosinhos construidos nos fins do reinado de D. Manuel e durante o de D. João III, de que tão grande numero resta ainda pelas parochias de Portugal, e que são mais um argumento de que os nobres conquistadores da India, donatarios das terras e padroeiros das igrejas, não voltavam do oriente com as mãos vazias. A devoção nesses tempos era um objecto de luxo: edificar uma igreja ou uma capella equivalia a ter hoje um camarote em S. Carlos, ou um cocheiro com estrigas de linho na cabeça e chapeu triangular.

A portada da igreja, de arco tricentrico firmado em pilares polystylos de meio relevo, era o mais claro testemunho da idade provecta do presbyterio. A residencia parochial, originariamente do mesmo estylo, estava já civilisada: uma porta rectangular substituíra a antiga. Esquadriadas estavam tambem as duas janellas do sobrado de differentes dimensões, e affastadas uma da outra; e nos seus postigos da esquerda via-se o moderno conforto das vidraças. Não quero dizer com este elogio á morada do padre prior que a igreja tinha resistido, teimosa como um velho caturra, aos progressos da civilisação. Pelo contrario. Estava mais alindada ainda. Uma irmandade, ou não sei quem, que entendia na fabrica, havia pintado de ochre tudo o que era pedra, de vermelhão tudo o que era azulejo. As camaras municipaes das grandes cidades, os conegos das collegiadas e sés ainda não passaram do ochre; e uma pobre irmandade da aldeia já tinha ha vinte annos vencido a méta a que apenas hoje chegam o municipio e a cathedral.

O que, porém, escapou ao ochre e ao vermelhão dos mesarios do burgo foram dous seculares e formosos platanos que sombreavam o portal do presbyterio: na febre amarella, que grassa tão furiosa pelo senso esthetico dos nossos magistrados populares e das nossas dignidades ecclesiasticas, admira que tenha esquecido estender o beneficio da caiadura gemada aos troncos rugosos e carrancudos das velhas arvores, que rodeiam os edificios ou as praças. Verdade é que todos os dias alguma desaba sob os golpes do machado. Isto é melhor: mas porque não haveis de remoçar as que vão escapando com as lindezas e alegrias canonico-municipaes?

Bellos e veneraveis eram os dous platanos. O adro, cubriam-no todo com as suas sombras fechadas, e só pela volta da tarde, principalmente no outono, é que algumas resteas açafroadas do sol no poente se estiravam por debaixo delles, e lá íam bater frouxas no limiar da igreja pulído do contínuo perpassar, e na porta de um vermelho desbotado, onde nesse tempo começavam a alvejar os remendos brancos com que as revoluções converteram os áditos dos templos em pelourinhos eleitoraes.

Á entrada do adro alevantava-se uma grande cruz de madeira pintada de preto, em cuja haste mãos devotas tinham atado um ramo de flores, e este ramo, no meio do qual havia um pé de perpetuas, era a imagem das vaidades do mundo ao redor da religião do calvario, immutavel no meio dellas. As outras flores tinham-nas mirrado os ardores do estio: só restavam do morto ramilhete as immarcessiveis perpetuas.

Era n'um poial que servia de base á cruz, onde áquella hora do pôr do sol o padre prior vinha muitas vezes sentar-se; e alli estava tempo esquecido, ora alongando os olhos pelas solidões do mar, que lá em baixo no fundo do extenso valle quebrava nas rochas, ora traçando attentamente na terra com a sua grande bengala de castão de marfim diversas figuras, se geometricas não o sei dizer, porque hoje não creio tanto na geometria do padre prior como então cria nas suas terriveis revelações do outro mundo tiradas do Speculum Vitae. O que, porém, eu sentia melhor do que hoje, sem então o saber explicar, era a suave e profunda poesia que respirava esse quadro do velho sacerdote juncto do symbolo religioso, áquella luz moribunda da ultima hora do dia, em que uma curta saudade melancholica vem como percursora da noite pousar-nos sobre o coração. Não o imaginava nesse tempo, mas imagino agora por onde vaguearia a mente do velho clerigo em quanto a bengala ía d'um para outro lado cruzando linhas tortuosas e incertas. Os ultimos instantes de moribundo, os quaes elle tinha adoçado com as consolações da fé; a esmola tirada da escassa congrua para enxugar lagrymas de viuvas e de orphãos; os conselhos paternaes dados á mocidade, salva assim por elle de largos dias de remorsos e amargura; os odios convertidos em perdão entre inimigos; as dissensões domesticas pacificadas pela conciliação do pastor; todo o bem, emfim, que por trinta ou quarenta annos elle havia semeado na aldeia, desde as ultimas casinhas de colmo que alvejavam caiadas na orla pallida dos campos até o altar do presbyterio, fructificava talvez ante os olhos da sua alma, n'esses momentos de extasi, em rica seára de esperanças, cujos fructos enthesourava no céu. Depois, a cruz hasteada juncto delle lhe viria lembrar o nada das diligencias que empregára, dos sacrificios que fizera para verter algum balsamo de ventura nas chagas dolorosas da vida; para remir da perdição as ovelhas transviadas do pobre rebanho que lhe fôra confiado. A cruz negra no seu eloquente silencio contava-lhe sacrificios infinitamente mais arduos que os delle, feitos, não em proveito d'uma aldeia ou d'um povo, mas para remir o genero-humano. Por isso lhe via ás vezes deixar pender a fronte calva sobre o peito, e tomar-lhe o rosto uma expressão singular, inexplicavel nessa epocha para mim, mas que era o desalento que lhe gerava no espirito a terrivel comparação das suas acções com as do Suppliciado do Calvario, ao qual tomára por modelo, e que jurára imitar. Muitas vezes espantava-me de que se conservasse assim engolfado em seus pensamentos até que o sino das ave-marias o vinha despertar; e na minha alegria da infancia, vendo-o tão triste e carrancudo, pensava comigo, que o padre prior se ía tornando com a idade tonto e aborrido. Todavia, era que o bom velho nesses momentos de meditação volvia atraz os olhos para os caminhos da sua vida, onde esperava achar alguns vestigios brilhantes de obras virtuosas; mas esses caminhos, sumidos na penumbra da cruz, não os percebia senão como uma nuvemsinha escura e duvidosa através da luz immortal das virtudes e dos beneficios do Christo.

Ao tocar, porém, das ave-marias todas aquellas imaginações desconsoladas, se elle as tinha, como hoje creio, desappareciam por um movimento habitual do espirito e do corpo; este para se erguer, aquelle para orar. Sobraçada a bengala, em pé, com as mãos postas, segurando ao mesmo tempo entre ellas o seu chapéu de tres ventos, com a cabeça um pouco inclinada para o chão, o padre prior murmurava em voz baixa aquella tão poetica oração do despedir do dia. Os trabalhadores, que, voltando das fadigas do campo, acontecia passarem por ahi nessa occasião, descobriam-se tambem, e encostando-se ao ancinho ou á enxada punham as mãos e resavam até que o reverendo, acabando os latinorios, que elles íam repetindo em vulgar, lhes dizia:—Boas noites, rapazes, vá a cobrir."—E os ganha-pães cobriam-se, respondendo:—Guarde-o Deus, padre prior:"—E partiam: e elle assentava-se outra vez a olhar para o poente, onde o sol, que se affundíra no mar, deixava entre si e a noite, precipitando-se após elle das alturas do céu, uma barra de vermelhidão e ouro, que se estirava para um e outro lado do horisonte como tentando embargar o caminho ás trevas. E alli estava scismando até que a tia Jeronyma alçava meia adufa de uma janella baixa, que dava claridade á cozinha, e o chamava para a ceia, ao que promptamente obedecia, porque cumpre advertir que o padre prior não só respeitava á carga cerrada todas as tradições do catholicismo romano, mas tambem a sabedoria tradicional do povo, que neste capitulo de ceia resa que deve ser comida sem sol, sem luz, e sem moscas, momento fugitivo do expirar do dia, que não consta deixasse jámais passar por alto a boa da tia Jeronyma.

Nunca me ha-de esquecer aquella hora na aldeia, a luz crepuscular da atmosphera, as gelosias dos aposentos inferiores da residencia parochial, e a sancta velha da tia Jeronyma que teria proporcionado mais um capitulo a Chateaubriand sobre a poesia das usanças christans, se esse illustre escriptor houvesse uma vez saboreado as filhós que ella compunha para celebrar o Carnaval;—e os seus bolos da Natividade—e a sua ôlha e o seu anho assado da Paschoa. Não!—Saudades de tudo isso, durante a minha vida inteira, em qualquer fortuna, no meio das mais graves cogitações, nunca hei-de affastar-vos impaciente quando vierdes, como creança travessa, baralhar-me um periodo de trabalhada prosa, ou aleijar-me com um verso parvo uma estrophe soffrivel. Vinde, meus amores antigos, que para vós esta fronte não saberá arrugar-se; esta bôca não terá esses monosyllabos duros e gelados com que se repellem importunações d'indifferentes. Vinde, e demorae-vos comigo, e palrae por uma hora, por um dia, por uma semana, que vos escutarei sempre sorrindo; e quando fôr ao sol posto, que os ouvidos da minha alma vos ouçam reproduzir vivas, harmoniosas, melancholicas as lentas badaladas das ave-marias, não como agora as ouço ás vezes no meio do ruído confuso, aspero, estridente do povoado, mas partindo da aldeia ainda deserta dos seus moradores, rolando pela veiga, espriguiçando-se pelo prado, rumorejando pelas quebradas da encosta ou pelo pinhal do cabeço, e indo morrer lá muito ao longe nas toadas duvidosas de uma cantiga de lavadeiras, ou no tinir das esquillas de um rebanho de ovelhas, que se encaminham pára o aprisco ao sibilar do pastor. Repeti-m'as assim, puras, campestres, vibradas n'um ar puro e sonoro, livres por um horisonte immenso, e ter-me-heis despertado um affecto consolador, o qual valerá mais que todas as ambições, que todos os contentamentos, que todas as esperanças do mundo.

Tem-se discutido os sinos, como se discute quanto ha no universo. Desde a existencia objectiva ou material deste mundo até a legitimidade do chocalho pendurado ao pescoço da cabra retouçando pelas ruas de qualquer capital, que resta ainda ahi para se lhe trazerem á praça os prós e os contras? Das definições possiveis do homem uma só é verdadeira: o homem é o animal que disputa. Os sinos têem tido amigos e inimigos: e porquê? Pela mesma razão porque sobre tudo ha duas opiniões contradictorias. É que tudo tem duas faces diversas. O vento sul é meigo para a arvore que veceja no recosto septentrional da montanha, e açoute da que vegeta no pendor opposto: o norte é o supplicio da primeira, e grato para a segunda. N'isto está cifrada a historia das contradicções humanas.

Os sinos, collocados em campanario de parochia aldeian, ou de mosteiro solitario, são uma cousa poetica e sancta: os sinos, pendurados nas torres garridas de garridissimas igrejas das cidades de hoje, são uma cousa estupida e mesquinha. O sino é um instrumento accorde com as vastas harmonias das serras e dos descampados. Assim como o orgão foi feito para reboar pelas arcarias profundas de uma cathedral gothica, para vibrar na atmosphera mal alumiada pelas frestas estreitas e ogivaes, do mesmo modo o sino foi perfilhado pelo christianismo para convocar os seus humildes sectarios occupados nos trabalhos campestres. Quando se associou o sino ao culto? Ignoramo-lo: ignoramo-lo, porque foi a religião serva e perseguida que o sanctificou: e quando os poderosos da terra a acceitaram para si, então entrou elle nas cidades soberbas. Lá converteu-se n'uma cousa insignificante e impertinente. É mais um ruído intoleravel para ajunctar aos outros ruídos discordes que troam por essas ruas e praças. O sino, tornado cortesão e fidalgo, é semelhante ao orgão trazido para o aposento do baile, ou, o que vale quasi o mesmo, para essas salas ao divino, bonitas, vaidosas, douradinhas, que insensatos edificam para as admirações de parvos.

E com estas digressões esquecemo-nos do padre prior. Não importa. Deixa-lo ceiar em paz, e resar o breviario. Eram estas, entre outras, duas phases graves e sérias de todos os seus dias. Depois, emquanto a velha Jeronyma punha em ordem a casa, elle pegava em um livro da pequena estante que lhe ficava á cabeceira, e lia ou uma lenda pia do Flos-Sanctorum de Rosario, ou um tracto d'aquellas grandes historias de Fr. Bernardo de Brito, até que o somno tranquillo de uma boa e san consciencia, apertando-lhe com os dedos rosados as palpebras, o entregava aos sonhos placidos que só a alvorada vinha interromper, quando o perigo imminente de alguma das suas ovelhas o não obrigava a erguer-se alta noite, ao som do resmungar malsoffrido e, até certo ponto, impio da tia Jeronyma. No horisonte limpo e sereno destas duas vidas innocentes, destes Philemon e Baucis celibatarios, que amparados um no outro íam peregrinando contentes para o sepulchro, havia um ponto negro e triste. O rendimento da parochia não consentia que o padre prior possuisse essa especie de ilota in sacris, de servo de gleba sacerdotal, chamado o padre cura. As ventanias, as chuvas, as noitadas através das serras revertiam como a congrua e os benesses em beneficio, senão do corpo, ao menos da alma do reverendo prior.

A sua congrua era maravilhosamente estitica: o grosso dos dizimos da parochia, jogava-os á risca todas as noites em tertulias um digno commendador não sei de que ordem. Ai, que a extincção dos dizimos foi a morte da religião!

* * * * *

II

NOITADAS PAROCHIAES.

A vida do velho prior passava na verdade dura e trabalhosa! Como todas as cousas deste mundo, o egoismo da tia Jeronyma não era acabado e completo, ou, para falarmos em estylo de philosophia fidalga, não era absoluto. O limitado e imperfeito é o signal que o Creador estampou na fronte do homem e na face da terra para nos recordar a todo o instante a nossa origem; é a barreira que elle alevantou diante d'este grande mysterio de energia e de audacia chamado a intelligencia. Sabedoria, força, paixões, affectos, tudo tem um horisonte commensuravel; horisonte para as virtudes como para a dor. O espirito mede e abrange o que ha mais vasto e profundo, os ermos, os mares, o coração humano; porque ao cabo d'isso tudo está o finito. Immensa, eterna, absoluta só ha uma idéa, que está fora do universo. Esta é a idéa de Deus.

Por isso, grande é somente Deus!

Mas dizia eu que o egoismo da tia Jeronyma era incompleto: digo mais; era incompletissimo. Quando o sacristão vinha alta noite quebrar o dormir risonho e variamente resonado do padre prior; quando á voz roufenha do ostiario aldeião, despertando o pastor para ir levar as consolações extremas á ovelha moribunda, e tira-la lá, porventura, dos dentes e garras do cão tinhoso, se ajunctava o trovejar ao longe da tempestade, o fustigar da chuva nas vidraças progressivas das meias janellas, e o ramalhar da ventania nos dous platanos do adro, era sem duvida que o resmungar da tia Jeronyma, apparecendo da banda da sua pocilga com a candeia mortiça na mão e as roupinhas vermelhas do envez, tinha o que quer que fosse repugnante e vil. A boa da velha pensava, acaso, que a morte não seria tão descortez que negasse ao espirito do pobre moribundo o tempo necessario para poder, ao abandonar o corpo, subir como chammasinha tenue, e galgar para o céu sobre um raio do sol nascente? Póde ser que sim. Não seria, porém, antes, que ella preferisse o deixar frigir por alguns seculos nas caldeiras do purgatorio aquella pobre alma christan, largando a sua veste mortal sem os ultimos sacramentos, á necessidade de erguer-se por noite fria e tempestuosa para tomar nos hombros uma parte da cruz do ministerio parochial? Tambem isto póde ser. O que se passava no abysmo da sua consciencia cousa era que ella não revelava a ninguem; mas em todo o caso era um pensamento egoista.

Todavia é preciso confessar que com elle se misturava um sentimento puro e nobre: dizia-o esse cuidado pressuroso com que a tia Jeronyma trazia as botas de côr terrea, o berneo de saragoça, o capote de barregana, o chapeirão oleado, e a aguardente de ginjas, sem um copo da qual o prior não ousaria transpôr o limiar da porta, e investir com as furias da noite procellosa: diziam-n'o a attenção com que mirava se elle ía agasalhado, e as mil vezes repetidas ponderações hygienicas, que lhe fazia com admiravel volubilidade de lingua. A affeição da sancta velha mostrava-se em tudo isso viva e sincera; e o seu resmonear, que no meio das idas e das voltas, e do perguntar e do responder, ía rareando e abatendo como o assobio do furacão pelo valle, perdia gradualmente a expressão de egoismo, e convertia-se pouco a pouco na de um pensamento moral.

E o padre prior calado!—Calado enfiava as botas; envergava o gabinardo; cobria-se com o capote; punha o amplo sombreiro; enchia um copinho do excellente cordial que a boa da ama lhe havia posto diante; virava-o d'um golpe; fazia uma visagem fechando os olhos com força e estendendo os beiços; dava um estalído com a lingua no céu da bôca; exprimia o intimo conforto que n'elle gerára o ethereo licor com um brrahhh prolongado; estendia a pequena taça, cheia de novo, ao sacristão, que, mestre nos estylos de cortezia, se curvava formando com o corpo um angulo obtuso de noventa e cinco graus, despresadas as fracções, e arqueando o braço para levar o copo á bôca sequiosa, como se curva e arqueia um peralvilho de guedelhas sansimonianas e miolos de agua chilra, ao conduzir em sala de baile a deusa dos seus affectos de vinte e quatro horas ao meio do turbilhão doudo e (perdoe-se-nos a blasphemia) um tanto parvo das valsas e contradanças.

Depois duas palavras magicas saíam da bôca do reverendo pastor:—"Até logo!"—O seu effeito era instantaneo: o sacristão, pegando n'uma lanterna, com as chaves da igreja na mão encaminhava-se para o adro seguido do padre prior: a tia Jeronyma fechava a porta após elles; e o tentador, como se estivesse esperando por esse momento, travava-lhe novamente do espirito, e o resmoninhar da impaciencia recomeçava em breve, acompanhado do ranger do linho na roca, e do espirrar da candeia a espaços, e do respiro asthmatico do nedio gato do presbyterio, que, enroscado na lareira, abria de quando em quando os olhos amortecidos, e cerrava-os logo com philosophica indifferença, emquanto a tia Jeronyma esperava por seu velho amo, e se lhe apertava o coração sentindo o temporal que passava lá fóra, e lembrando-se de que o enfermo poderia ter guardado para hora mais decente e commoda a agonia do passamento.

E pela serra fóra, caminho de casal remoto, vae o velho prior: adiante o sacristão com a lanterna e a ambula da extrema-unção, e elle atrás com o ciborio. As poças de agua reflectem essa debil claridade que as alumia, e fazem um continuo plach, plach, debaixo dos pés dos dous caminhantes, cujo passo apressam as cordas de chuva batida pelos furacões do sudoeste. Os pinheiros balouçando-se gemem tristemente, e os enxurros, estrepitando pelos corregos, tiram com o pinhal uma toada soturna.

No céu profundamente negro não apparece uma estrella: na terra ao longe, bem ao longe, não se descortina uma luz. A natureza debate-se comsigo mesma: tudo dorme, entretanto, nos casaes e na aldeia, salvo o velho parocho e a familia daquelle que em trances mortaes espera o representante do Christo, que lhe traz as derradeiras consolações e esperanças. Entre a philantropia humana e as agonias extremas dos pequenos e humildes a noite e a tempestade ergueram uma barreira quasi insuperavel: esta barreira desapparece, porém, diante da caridade que a todos nos ensina o Evangelho, e que ao parocho impõem como dever imprescriptivel a sua missão sacerdotal e o seu caracter de pae dos pobres e affligidos.

A esta mesma hora, em que o velho prior assim vagueava por sendas alpestres exposto ás inclemencias de noite invernosa, talvez em aposento bem resguardado, no fim de ceia brilhante, entre as taças cheias de vinhos generosos, no meio de mulheres formosas e voluptuarias, embriagado em todos os deleites dos sentidos, algum famoso espirito forte cirzia remendos das paginas soporiferas d'Holbach ou de Diderot, e dissertava profundamente sobre a mandriice, egoismo e cubiça do clero, ou carpia a superstição do povo, que, para ser completamente feliz de nada mais precisa do que de abandonar as crenças do christianismo e de amaldiçoar as esperanças de Deus, o conforto unico da sua vida de miseria, de trabalho e de amargura. E naturalmente os neophitos daquella triste philosophia extasiavam-se em redor do sabio philantropo, que, impando de iguarias delicadas, de vinhos custosos, e de grossa sciencia, só lamentava a ignorancia daquelles a quem muitas vezes faltava então, falta hoje, e faltará de futuro um bocado de pão negro para matar a fome; extasiavam-se alli diante da sensualidade e bruteza de um insensato vanglorioso, emquanto a virtude do velho clerigo, exercitada nos desvios dos montes e no silencio da noite, não tinha por testemunhas senão um céu humido e cerrado, e o vulto impetuoso e bramidor da ventania; mas que, em vez das lisonjarias de parvos, tinha para o applaudir a voz sincera, consoladora e sancta da propria consciencia.

Havia, porém, no fim de tudo, uma differença entre o homem do evangelho e o da falsa sciencia. Era o systema das compensações. O padre prior, depois de cumprir com o seu dever, voltava ao presbyterio tranquillamente: tirava o capote alagado, despia o gabinardo felpudo, sacudia a uma distancia razoavel as ponderosas botas, e enfiando-se entre os grosseiros lençoes, atava o fio do somno no ponto em que o deixára; e emballado brandamente por sonhos apraziveis, só acordava sol nado e alto, ao bradar da tia Jeronyma, e ao cheiro da açorda fumegante; almoço que, como tudo o que era consagrado pelos seculos e pela tradição, elle profundamente respeitava.

E o nosso philosopho? O nosso philosopho, recolhendo-se alta noite, ía todo o caminho provando a si mesmo que não ha diabos no mundo, nem almas, nem talvez Deus; mas sentindo arripiarem-se-lhe os cabellos ao vêr dançar a phosphorescencia d'algum marnel, rezando o credo em cruz ao passar por algum cemiterio, benzendo-se ao ouvir piar algum mocho. E depois de se deitar e adormecer sonhava…. Em quê? Nas combinações infinitas da materia eterna de que deve, segundo as boas doutrinas, ter rebentado o universo? Não! Sonhava com as penas do inferno; e ao acordar pela manhan com defluxo, pedia confissão e sacramentos.

Já lá vão vinte annos! Bom tempo era esse, ao menos para mim, que ainda nem sabia da existencia do animal chamado philosopho, classificavel entre os rodentia, pelo medroso e damninho. Em vinte annos que voltas tem dado o mundo! Aquella especie vae-se acabando de todo. Auctores de comedias apressae-vos! Antes que se perca o typo, levae o incredulo ostentoso á scena. Dae-nos algumas noites de rir doudo e inextinguivel.

Os dias do padre prior corriam assim placidamente para o seu viver intimo, posto que o duro mister de parocho lhe entenebrecesse muitas vezes os horisontes da vida material. E que importava, se todos na aldeia lhe queriam bem; se todos o acatavam como a summa bondade, e o que não era menos, como a summa intelligencia da parochia? Até o barbeiro, o proprio barbeiro, homem entendido e grave em materias de eloquencia sagrada, não constava houvesse jámais torcido o nariz ás praticas e sermões do padre prior, que elle, com a mão sobre a consciencia, punha acima dos melhores de frei Timotheo, um fradalhão arrabido, cousa brava em gritarias ao divino, que por via de regra se incumbia das domingas de quaresma naquella freguezia e nas circumvizinhas com acceitação e applauso universal do auditorio, mas cuja fama era offuscada pelos periodos singelos do velho sacerdote, repassados de uncção, e daquella eloquencia de missionario, que, apesar de rude, lá vae fazer vibrar o coração do povo, afinado pela crença viva, como a harmonia que se tira das cordas de dous instrumentos accordes.

Agora por isso, o que será feito de frei Timotheo?! Era naquelle tempo um frade guapo e alentado! O que será feito delle? Se ainda vive, tiraram-lhe o burel e a corda de esparto, o seu capital; venderam-lhe o convento, o seu tonel de Diogenes; prohibiram-lhe o capuz e as sandalias, o seu direito inauferivel de andar trajado como lhe aprouvesse; e mandaram-no, desarmado de tudo isso, pedir para o mendigo a esmola que se dava ao burel, ao esparto, ao convento, ao capuz e ás sandalias. Bom passaporte para frei Timotheo transitar pela valla plebea do cemiterio nos braços morbidos e suavissimos da fome! Foi um progresso de civilisação, que se completou pelo lado moral com o augmento das loterias, das casas de cambio, e das traducções de novellas e dramas francezes. Bemaventurada a tão esperta nação que assim comprehende o progresso!

Duas cousas, porém, mais que as práticas e sermões, serviam para engrandecer e glorificar o padre prior, não só diante dos homens, mas tambem diante de Deus. Era a primeira o incansavel zêlo com que se applicava a apaziguar as rixas, a estabelecer a concordia domestica, a prégar o trabalho, a guerrear a embriaguez, e sobretudo a sanctificar pelo casamento as affeições illicitas: era a segunda o fervor modesto e o innocente luxo com que procurava celebrar as festas religiosas, principalmente a de S. Pantaleão, orago da freguezia, e de quem tanto os aldeiões como o velho presbytero criam affincadamente possuir o metacarpo da mão direita, o qual devia ser de outro sancto, ou não-sancto, se acreditarmos (eu cá pela minha parte acredito) os parochianos da sé do Porto, que se gabam de ter debaixo de chave S. Pantaleão in totum, sem lhe faltar dedo de pé nem de mão, quanto mais um metacarpo inteiro.

* * * * *

III

UMA ESCORREGADELA.

A proposito do que o padre prior era de casamenteiro ainda me lembra uma velha viuva, a senhora Perpetua Rosa (Deus lhe fale na alma!) que morava ao cabo do logar n'uma barraquinha á beira do rio muito caiada, com seu rodapé de vermelhão, e sombreada por cinco ou seis choupos que nasciam da agua. Tinha ella (a velha, não a barraquinha) uma filha, formosa rapariga, chamada Bernardina. Era uma das leiteiras mais desenxovalhadas de que se gabavam os arredores de Lisboa: bonita, que não havia mais dizer: alva como toalha de freira, airosa como pinheirinho de quatro annos. Uns poucos de rapazes da aldeia andavam doudos por ella. Nas noites dos domingos, em que havia dança e viola na casa da brincadeira[1], a tia Jeronyma, que era capaz de espreitar este mundo e o outro, mirando da sua rotula o que se passava á entrada da rustica sala do baile, pouco distante do presbyterio, notava que, apenas a Bernardina apparecia, os rapazes entravam após ella com muita mais furia e pressa do que pela manhan haviam corrido para a igreja ao ultimo toque da missa do dia. Antes d'isso já a boa da velha tinha reparado no modo por que elles se encostavam aos cajados para lados oppostos, em frente uns dos outros, nos motejos do cantar ao desafio, no pôr dos barretes á banda, nos olhares que mutuamente se lançavam, no pegarem em seixos e atirarem-nos a grande distancia a modo de competencia, sem dizerem palavra, como se cada um quizesse mostrar aos seus rivaes a robustez do proprio braço. D'isto tudo tirava a tia Jeronyma agouro de muita pancadaria,—"por amor daquella delambida—dizia a ama do prior em suas caridosas murmurações—que anda toda arrebicada por baralhotas, em quanto a pobre da mãe moureja todo o sancto dia ao sol e á neve naquelle rio, para ganhar um bocado de pão sem vergonha da cara. Havia de ser comigo!"

E o mais é que a tia Jeronyma não se enganava nas suas previsões. Chegou vespera de Reis: houve á noite brincadeira ou baile extraordinario: passou-se ahi tudo na melhor ordem: riu-se, tocou-se viola, dançou-se, cantou-se ao desafio, e cada qual se recolheu a esperar entre os lençoes os sanctos Reis magnos, designação popular dos magos do Oriente, cuja vinda a Bethlem se memora na Epiphania.

Houve, porém, nessa noite um saloio mais cortez, que esperou vestido e ao relento, no caminho da serra, a vinda dos tres sanctos personagens. Foi o Manuel da Ventosa, estendido com uma tremebunda e magnifica massada, de que esteve ido, a ponto de dar ao padre prior uma daquellas noitadas que suscitavam a colera da tia Jeronyma, e de que já acima fiz honrosa e especifica menção.

O Manuel da Ventosa era filho unico d'um moleiro ricaço, chamado Bartholomeu, velho honrado, mas avarento como seiscentos Satanáses. Teve a ventura (o rapaz, entende-se) de caír em graça á Bernardina. Amoricos d'aqui, amoricos d'acolá, janella na cara a um, respostas tortas a outro, segredar e rir de vizinhas, raivas de desprezados: somma total—zás, uma sova mestra no Manuel da Ventosa, por ter tido a negregada dita de merecer a preferencia daquella que era o enlevo de todos os corações.

Mas enganaram-se. O amor redobrou com o sacrificio; os desprezos cresceram com a vingança. O que começára por passatempo converteu-se em paixão violenta: um fogo íntimo devorava a alma de Bernardina, e desbotava-lhe as faces, d'antes tão frescas e rosadas como as de um seraphim da peanha da Senhora da Conceição, obra de esculptor insigne. No Manuel da Ventosa, isso não falemos: quando melhorou da doença andava entre parvo e abstracto: attribuia-o o licenciado dos sitios a depressão cerebral produzida por alguma ripada nas vertebras; mas, se existia depressão de cerebro, outra era a sua origem. Certa mulher de virtude que havia na aldeia jurava e tresjurava que o moço moleiro tinha a espinhela caída. Historias. Eu, apesar de ser então uma creança, sabia bem onde batia o ponto; por isso nunca fui para ahi.

Por encurtar razões: os dous amavam-se como loucos. As pessoas desinteressadas achavam-nos um par completo; e com bom fundamento: o Manuel da Ventosa era um galhardo mancebo, unico herdeiro de ginja abastado, e Bernardina uma rapariga honesta. As beatas da aldeia, ás quaes, conforme a direito, incumbia pôr ao soalheiro a vida privada de cada uma, no capitulo da honra nunca se tinham atrevido a ir devassar a barraquinha de Perpetua Rosa. Podia a senhora Perpetua Rosa gabar-se dessa! E de feito, muitas vezes, mettida no rio até os joelhos, em discussões acaloradas com as suas illustres amigas, as outras lavadeiras pelo circulo de Lisboa, a ouvi empraza-las para que formulassem precisamente certas interpellações infundadas, rejeitando com desprezo alguns remoques bernardos relativos a Bernardina, e appellando para a opinião do paiz representada pelos seus orgãos, as beatas do soalheiro.

Mas se os dous se amavam com tanto extremo, e eram feitos e talhados para puxarem o mesmo carro matrimonial, porque não íam pedir ao padre prior o conjungo vos? Ahi é que certo animal torcia certa parte do corpo, que eu e o leitor sabemos. Por não terem pedido esclarecimentos sobre o facto é que as lavadeiras faziam declamações vagas.

Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho, ou antes dos moinhos, porque para a exacção historica deve-se advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levára grande porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas. Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.—"Juro por esta—dizia elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre a bôca:—juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!"—Mas nem novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha com que as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés á porta. Desde este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar com a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das tres saccas gravada naquelle coração de avarento. Assim para elle seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a possibilidade de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha á união dos dous amantes.

E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez (dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta da Bernardina, e… e etcaetera. Era muito vêr! Mas a cousa ía correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana da murmuração, e o diabo que se lambia para, por estas e por outras, os catrafilar a seu tempo.

Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa. O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina para se confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou a filha: persignou-se, benzeu-se, disse mea culpa, e começou sua confissão.

Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste ponto o casus foederis de eu tomar a postura tragica a la moda, carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:—"O que ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem o soube!—!—!—!—Mysterio!—!—!—! Acontecimento horrivel e fatal!—!—!—! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos pés, mas o da infeliz) era de maldicção!—!—!—!" Limitada, porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre parocho d'aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar o segredo do confessionario. Os sigillistas já deram que fazer ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo. Calo-me, porque não quero caír no erro que elle condemnou. Direi só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao alevantar-se d'ante os pés do prior, ella trazia os olhos como punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando a penitencia em quanto a filha se desobrigava.

Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume. A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em cogitações; e tão fundas íam estas, que, em vez de traçar na terra com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas, conservava-a immovel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no mecher tremulo dos beiços, que algum grande cuidado o inquietava. E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias, deixando-se ficar sentado, e até, oh profanação! com o chapeu na cabeça. Felizmente não passava ninguem naquelle momento, que podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.

Mas um vulto assomou lá ao longe, e os olhos do velho brilharam como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte, e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro: o prior ergueu-se, estendendo a mão, e brandindo a bengala na direcção do vulto.

"Oh Manuel! psio, Manuel! chega á fala! Oh rapaz!"

O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma cousa lhe roía na consciencia. Mas vendo o prior em pé com ar de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou para elle com o barrete azul e vermelho na mão.

"Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?"

"Quero que você chegue aqui, porque temos que falar."

O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo aquelle você, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior tractava todos por tu, e o você na bôca delle era presagio infallivel de temporal.

O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no chão, torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos. O padre prior mediu-o de alto a baixo, e começou ex abrupto:

"Então que historias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi você aprender isso? (Esta pergunta era asnatica). É a doutrina que eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de modestia e honra que lhe dá seu pae? De ser um vadío, um seductor, um… Deixe estar: a cadeia não se fez para as aranhas, e elrei nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola historica) ainda não mandou queimar a náu de viagem…"

"Eu, padre prior… como lhe ía dizendo—interrompeu atarantado o saloio, coçando na cabeça, e procurando atar o fio das suas idéas inteiramente confundidas.

"Cale-se; não me responda:—proseguiu o velho parocho, achando talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.—Diga-me: que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?"

"Eu…"

"Não me replique; já lh'o disse. Lembre-se de que é o seu pastor que lhe fala. Ahi está porque você ainda não veio desobrigar-se. Pensava que, por ella ser miseravel e sua mãe uma triste viuva, não tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba que a poder que eu possa ha-de ír bater com o costado na India, ou casar com a Bernardina."

Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho, e exclamau soluçando:

"E é isso o que eu quero!… Juro-o por aquella arvore da bella cruz que alli está…"

"Vera cruz, salvage! vera cruz!—interrompeu o prior, visivelmente abrandado com o pranto, humildade, e declaração categorica do moço moleiro.

"Mas, como eu ía dizendo—proseguiu este—por'mor daquella diabrura das saccas meu pae não póde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe falasse em tal, fazia-me os ossos tão miudos como a picadura da mó. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse… Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não como, não durmo, ando doudo. Não basta a massada que gramei… Ahn! ahn! ahn!"

Chorava em berreiro, e o chôro não o deixava continuar. As lagrymas começaram tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns momentos pensativo.

"Levanta-te, rapaz dos meus peccados:—disse elle por fim, puxando pelo braço do moleiro.—Vamos; confessa a verdade: estás arrependido do que fizeste?"

"Estou, sim senhor! Ahn! ahn!"

Nesta parte, apesar do chôro e soluços, parece-me que o saloio mentia.

"Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?"

"Prometto, sim senhor! Ahn!"

"Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta. Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende? Olhe que!…"

O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se aproximava a crise mais temerosa da sua vida.

Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro, e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora, poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido. De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!

E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um aduar inteiro de philosophos:

Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc[2].

O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume, Fr.

Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio de vulto, que lhe embargava o dormir!

Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.

Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:

"Jeronyma! oh Jeronyma!"

A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mão.

"Estão quasi feitas:—disse ella.—Tenha paciencia um instantinho."

"Não é isso, mulher:—replicou o prior.—Ouve cá: vae ao forro da escada e traze-me aquillo."

"Isso, eu lá ponho. Mas, com sua licença, d'onde veio maquia grossa? Hontem não houve baptisado nem enterro…"

E a tia Jeronyma estendia a mão esquerda coberta com a ponta do avental, para não sujar a maquia de que falava, e ao mesmo tempo volvia olhos ávidos, ora para o bofete, ora para o prior.

"Qual carapuça!—replicou elle fazendo-se vermelho.—Tira-se; não se põe. Faça o que lhe digo, e dê ao démo o que sabe."

A ama empallideceu. As palavras tira-se; não se põe eram de ruim agouro; mas vendo já o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.

D'alli a pouco o velho parocho começava a tirar de um pé de meia uma, duas, tres peças de ouro; foi tirando até setenta: restavam apenas obra de uma duzia dellas.

"Basta:—rosnou o prior.—Póde occorrer uma doença. Então, Jeronyma, vem essas papas?!"

E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peças na folha de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da loba.

"Guarde isso, Jeronyma:"—disse elle á ama, que entrava com as papas. E empurrou pela mesa fóra o exangue pé de meia. A ama, ao vêr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a frigideira no chão, e de deixar o bom do padre sem almoço.

Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluçar.

"Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc."

Murmurando esta profunda sentença da Biblia, o reverendo parocho saiu pela porta fóra. A ama, vendo-o saír, andava como pasmada.

Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa, afanado com a sua lida, em pé á porta de um dos moinhos, bracejava, ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe quebrado já duas cordas ao enquerir as cargas de uma récua de machos pimpões presa á argola do moinho.

De repente viu um castão de bengala saír-lhe por cima do hombro. Voltou-se: era o prior.

"Olé, vossenhoria por aqui a estas horas?!… Psio, oh Zé Dorna, olha o rabicho daquelle macho!… Grande novidade, padre prior! grande novidade!… Raios te partam! Que tal'stá o filho do diabo?!"

Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois reverendissimos pontapés na barriga de uma das cavalgaduras, que já estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se em quanto as outras se aviavam.

O moleiro dava assim a modo d'umas lembranças de Napoleão dictando ao mesmo tempo a dous secretarios.

"Falaste, Bartholomeu!—replicou o prior.—Novidade, e grande! Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e é a primeira vez que tal me succede. É negocio intrincado, e quero ouvir o teu conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes—accrescentou dirigindo-se aos moços do moinho—safa d'aqui, que tenho que dizer ao patrão em particular."

"Rua!—gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.—Entre vossenhoria."

O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripeça que estava a um canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia, e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.

"Homem—disse por fim o prior—tenho em minha mão uma somma avultada; mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo. És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te com o coração nas mãos, e…"

"Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas—interrompeu o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;—essas mandrionas do soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os diabos me levem…"

"Tá, ta!—acudiu o prior.—Ajustaremos contas na desobriga. Vamos agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos este dote? Parafusa lá."

O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto, estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando em quando na testa.

"Nada … a Genoveva da Theresa não:—disse por fim.—Tal mãe, tal filha. Aquella está arrumada."

"Nem pensar n'isso é bom:—retrucou o prior.—Libera nos Domine. Anda, vê se atinas."

"A Clara da Fonte tambem não…"

"Uhm!—rosnou o clerigo, abanando a cabeça.

"A Catharina Carriça menos. Heim?"

"Tó carapuça! Ahi vae já! Fundia-me o dote em menos de um anno com tafularias tolas. Adiante."

O leitor póde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha affastado por tres vezes do espirito essa lembrança como uma idéa importuna.

"Eu—disse elle finalmente, coçando na cabeça—tinha cá uma idéa… mas não sei… Não digo nada… Acabou-se."

"Desembuxa lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui."

"Então sempre lh'o direi. Minha sobrinha Joanna é um anjo. Boa rapariga! famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola, é verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Caniços arrasou-o este anno: deve-me já vinte moedas, e…"

O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bôca aberta no meio daquelle destampatorio.

"Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas vinte moedas?! Não é assim?—E, voltando immediatamente ao seu serio, proseguiu:—Bartholomeu! Bartholomeu! Por causa da iniquidade da sua avareza me irei, e o feri: diz o propheta. A cubiça que te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldêas alli para a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir á tua consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que o aconselhes? Isto não é bonito, Bartholomeu! Não é bonito!"

"Mas, padre prior…"

"Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o dictado:—Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim á minha remediei-me.—O melhor é seguir a primeira lembrança."

"Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo…"

"Tinha, tinha!—retrucou o prior:—Queria só ver se tu concordavas comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!"

E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.

"Pois diga vossenhoria—acudiu o moleiro ainda atrapalhado com o revertere:—e enforcado morra eu se…"

"Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a Bernardina d'ao pé do rio…"

A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:

"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras! Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me matem…"

"Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras? coitadínhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda? Pagar-lhe-hão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres, e Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento."

Emquanto o prior falava, uma idéa bem-aventurada illuminára subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam não estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa do norte.

"É verdade que a gente ás vezes tem cá as suas birras:—disse elle com certo ar que queria ser fino e saía parvo.—Cega-se com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra vossenhoria."

"Pois bem!—proseguiu o prior.—Esta lebre está corrida. Resta achar um noivo para Bernardina. Isso é bico d'obra que requer escolha e siso. Pensa no caso, Bartholomeu! Vamos a vêr se acertas melhor desta vez. Agora outra cousa. Tu és capaz: tens sabido guardar o teu dinheiro; saberás guardar o alheio. Eu para isso não presto: sou um mãos-rotas. Aqui te deixo setenta louras, que a seu tempo se hão-de entregar a quem tocarem. Incumbes-te d'isto?"

"Vossenhoria manda:"—respondeu o moleiro, cujos olhos brilharam com o fulgor devorante da avareza ao vêr rolar as peças, que o prior tivera a cautela de desembrulhar sobre a grande arca das maquias. O velho parocho usava de uma esperteza de Satanás para fazer uma obra de Deus.

E, despedindo-se de Bartholomeu, saíu. O moleiro ficou em pé e immovel. Estava, mal comparado, como o asno de Buridan entre as duas medidas iguaes de cevada: nem se podia affastar do ouro, nem ousava faltar á cortezia devida ao padre prior. A final, por um movimento sublime de energia moral, correu pela porta fóra atrás delle, que já ía a certa distancia. Neste correr parecia-lhe sentir estalar o que quer que era dentro do coração.

"Se vossenhoria é servido do nosso almoço"—bradava o moleiro"—não tarda ahi um credo. Pobre, mas de boamente."

"Obrigado! obrigado!"—respondeu o prior sem se voltar, brandindo para trás a bengala, como quem dizia adeus. E pensava lá comsigo:—"Fóra, miseravel sovina!"

Apenas o bom do clerigo dobrára a quina, do muro de uma quinta, que se dilatava desde a encosta até a baixa do rio, truz!… Com quem havia d'elle dar de rosto? Com o Manuel da Ventosa, de espingarda ao hombro, rede ás costas, chumbeira e polvorinho a tiracolo. O saloio ficou embaçado.

"Com que, sim, senhor! Já você por aqui me apparece a estas horas,"—disse o prior com um gesto folgado, que forcejava por ser colerico.—"Heim?"

"É verdade, padre prior!… Entreter um bocado… A manhan estava boa."

"Pois não! Aos pardaes… bem sei! Ora corte-me para casa, e vá ajudar seu pae, o pobre velho, que lá anda lidando… e você feito caçador das duzias… Caçador! Pensava agora o sonso que me enganava! Vamos marchando!"

Deu alguns passos para diante, emquanto o Manuel da Ventosa fazia o mesmo em sentido contrario. Depois voltou-se de repente. O saloio também parára a olhar para trás.

"Olé. Escuta cá, Manuel!"—O Manuel aproximou-se.

"Depois d'amanhan é necessario que você se bote aos pés de seu pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe peça licença para casar com Bernardina…"

"Pelo amor de Deus, padre prior!"—interrompeu o triste do rapaz cheio de susto.—"Com os figados delle, põe-me os ossos n'um feixe."

"Não se perdia nada:"—acudiu o velho.—"Mas não é anno de fortuna. Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo, que não lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos."

"Se vossenhoria entende?!…"

"Entendo, sim, senhor. A paschoa não tarda; e passada a quaresma você ha-de receber-se. Mas d'isto nem palavra! E córte!"

O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado o negocio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente agarrou a mão do clerigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera. O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mãos callosas, que apertavam a sua mão enrugada, naquelles labios ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente, bradou com voz aspera, mas alguma cousa trémula:—"Deixa-me, pateta! Deixa-me! … e Deus te alumie para que seja esta a ultima das tuas rapaziadas."

Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.

Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan não fez senão cantarolar, ora um pedaço do Tantum ergo, logo um versiculo do Te Deum Laudamus, e assim por diante. Até andou por mais de meia hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste dizer que, ao descalçar-se, arrumou os çapatos para um canto, e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de Carlos-Magno monastico sem o pôr de pernas ao ar. Aquelle coração sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.

E porque não cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria suave e intima, que nunca pôde entrar nos palacios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o premio, não do beneficio insolente da opulencia, mas sim da abnegação caridosa da humildade.

O padre prior tinha tido tempo de estudar individualmente o caracter dos seus freguezes, e por isso seguíra aquelle caminho para chegar ao fim moral que se proposera. De feito o velho moleiro andou abstracto todo o dia. Pois de noite? Não pregou olho! Ás escuras via diante dos olhos as setenta peças a reluzirem como uma visão ao mesmo tempo celeste e infernal. Depois, naquellas horas longas de vigilia punha-se a calcular a acção prodigiosa que ellas teriam incorporadas com mais de outras tantas que elle tinha enterradas. Era o que bastava para dar o harmonioso epitheto de minha á azenha do Ignacio Codeço, e pôr lá o seu Manuel a labutar, e a ganhar dinheiro, muito dinheiro: e elle a tomar-lhe contas ao sabbado: meia moeda … uma moeda … duas moedas; e a pilha-lo em uma gaziva de seis vintens; e despertava daquella especie de extasi ao atirar-lhe o primeiro pontapé. Era um regalo! Ria ás vezes ao lembrar-se de uma que elle havia de pregar no outro dia ao Agostinho da tenda. Essa estava segura. Ia-lhe comprar o créto de Perpetua Rosa por metade, por um terço, talvez.—"Oh sô Agostinho, você não vê que isso é dinheiro perdido? Cinco mil réis! seis mil réis! Vamos; é minha a divida."—E tripudiava na cama, e assentava-se, lançando mão dos calções, para ir, para correr, para voar, antes que algum diabo (pensava elle) fosse metter no bico ao usurario do tendeiro a mudança de fortuna de Bernardina. Chegava, naquelle fervor, a enfiar os calções mas recaía na cama ao vêr, ou antes ao não vêr, que era escuro como breu. Momentos havia em que as suas idéas tomavam outro curso: representava-se-lhe seu irmão Barnabé a largar-lhe o casal dos Caniços pelas vinte moedas e por mais umas trinta peças com que o engodava; e elle a fazer estercar as terras, e alqueivar, e lavrar, e semear, e mondar, e ceifar, e a ter na eira uma serra de trigo durazio, e achar uma excommungada de uma velha pedinchona a furtar-lhe á sorrelfa uma abáda daquelle grande trigo, e elle a desanca-la com uma tranca. E saía desse pesadello de homem acordado a ranger os dentes, e com a mão agarrada á maçaneta do catre. D'ahi a pouco vinha-lhe outra enfiada de imaginações, e d'ahi outra, e outra, até que por fim a idéa de que as setenta peças eram suas lhe ficava de tal modo encravada e enraizada na alma, que o arrancar-lh'a de lá seria o mesmo que metter-lhe no bucho uma apoplexia. Então punha-se a scismar no pensamento capital e gerador de todas essas imagens bemaventuradas que lhe luziam no olho, o como chamaria á muxilla as setenta do dote. Abafa-las? Nega-las ao prior? Estremeceu horrorisado; porque Bartholomeu era homem de probidade, a seu modo, que, sem malicia seja dicto, vinha a ser um modo como o de tantos homens honrados que todos nós conhecemos. Nada! Era preciso um meio natural, decente, legitimo de arranjar o negocio. Caíu então no que o prior queria que elle caísse. Casou in mente o seu Manuel com a Bernardina. Feito isto, as peças eram suas; suas porque o Manuel pellava-se com medo delle, e casado ou solteiro havia de ficar-lhe sempre debaixo dos cabeções. Assentado este ponto, o moleiro sentia um certo refrigerio interior que o consolava. Não tardou a adormecer no somno do justo, e em placidos sonhos balouçou-se todo o resto da noite entre a azenha do Ignacio Codeço e o casal de seu irmão Barnabé. Saía ás vezes desta hesitação beatifica sonhando no gatazio que ía pregar ao Agostinho, e ria com um rir de innocencia. Era um sancto velho aquelle Bartholomeu da Ventosa!

O leitor deve estar já sufficientemente aborrecido de tão comprida historia do moleiro, da lavadeira e do prior; por isso não o farei assistir ás explicações entre o pae e o filho. Mais repousado o sangue com o dormir, Bartholomeu reflectiu pela manhan que o propor ao parocho o seu Manuel para noivo de Bernardina tinha suas parecenças com o haver-lhe proposto para ser dotada sua sobrinha Joanna, idéa maldicta que lhe tinha custado uma risada nas suas barbas e um revértere com texto de Biblia. Por outra parte pensava que Manuel era o seu unico herdeiro, e que se Bernardina trazia para a ceia, elle levaria para o jantar, principio consagrado pela philosophia saloia, talvez desde o tempo dos mouros. Emfim o pae nestes vaivens, e o filho com os receios que o leitor póde imaginar, fizeram ao declararem-se uma verdadeira scena de comedia. Ao cabo, porém, de tudo entenderam-se. Assim o padre prior, á custa das suas economias de quarenta annos, teve a consolação de fazer tres sermões, um a Bartholomeu sobre a cubiça e avareza, outro a Manuel sobre o trabalho, sobriedade e mais virtudes annexas á condição de pae de familia, outro finalmente a Bernardina sobre a honestidade, modestia e sujeição das mulheres casadas. Depois, quando veio a paschoa, regalou-se de atar o laço matrimonial entre os dous amantes, acabando por uma vez com as interpellações das lavadeiras, com as espreitaduras dos curiosos, e com as murmurações do beaterio. Custou-lhe a brincadeira setenta peças, e o atirar á rua o sermão sobre a avareza, porque o Bartholomeu continuou a ser sovina até a hora da morte, na qual piamente se deve crer o catrafilou o diabo, não só por ser unhas de fome, mas por ter refinado a ponto, que, perdendo a vergonha, já começava a sizar nas maquias, com escandalo dos freguezes, e grande mortificação de seu filho Manuel.

Agora duas palavras sobre a festa do orago da parochia, o meu rico S. Pantaleão. O leitor vio o padre prior caminhando pela estrada dolorosa da moral evangelica: é necessario que o veja tambem radiante no meio das pompas do culto.

* * * * *

[1] Assim se denominava ainda ha poucos annos uma casa, na proximidade da cada uma das aldeias vizinhas de Lisboa, emprestada por algum ricaço ou alugada, em que se ajunctava nas noites dos domingos para brincar (dançar) a mocidade aldeian.

[2] Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei para alli. Job: cap. 1, v. 21.

IV

ALHOS E BUGALHOS.

S. Pantaleão era, como disse, o orago da freguezia aldeian, cujos habitantes mais conspicuos o leitor já conhece, e por via dos quaes o puz em contacto com as differentes classes de que se compunha aquelle mundozinho, ou, para melhor dizer, e falar de modo que não me entendam, aquelle microcosmo. Esse grecismo expremeu-mo do espirito S. Pantaleão, que, conforme o que bem pondera a folhinha, foi medico, e os medicos finam-se por grego. O padre prior e o sacristão representam a igreja espiritual e materialmente, o Agostinho da tenda o commercio, o Barnabé a agricultura, a senhora Perpetua Rosa a industria, e finalmente o honrado Bartholomeu da Ventosa representa nos seus sonhos a industria-agricola, ou a agricultura-industrial, genero de existencia lembrado pelos economistas da Alemanha para salvar as classes laboriosas do horrivel futuro com que as ameaça o vapor; porque se ha-de advertir que alguns restos de prudencia e juizo que ainda havia cá por esta nossa Europa varreu-os Deus para aquelle canto do mundo, a que nós chamamos a terra das theorias e das chimeras; nós os homens do meio dia, que fazemos phalansterios e não sei quantas mais comedias politicas capazes de fazer rir… quem direi eu? O proprio mirradissimo S. Pantaleão da cidade eterna.

Eterna, entenda-se, até que o primeiro cometa venha embrulhar na cauda este nosso microcosmo tão caturra e parvo chamado o orbe terraqueo.

Celebra-se a festa de S. Pantaleão a vinte-sete de julho; data preciosa e averiguada por mim em largas vigilias, consumidas em revolver breviarios, antiphonarios, legendarios, missaes, sanctoraes, e livros historiaes, na phrase daquelle grande rhetorico Gomes Eannes. Está a folhinha pontualissima; podem acreditar-me! Celebrou-se, celebra-se e ha-de celebrar-se a festa de S. Pantaleão, o bemaventurado physico, todos os vinte-sete de julho, até a consummação dos seculos; salvo o caso de ninguem se lembrar d'aqui a cem ou duzentos annos de que existiu no mundo o meu rico sancto; mas espero tal não aconteça ficando lançada a sua memoria nestas paginas, ás quaes incontestavelmente pertence a immortalidade.

"Mas—acudirão os leitores—que nos importa a nós que essa commemoração seja a vinte-sete ou a vinte-oito: seja em julho ou em dezembro? Vamos á festa, e deixemo-nos de historias."—Devagar, devagar! É justamente porque isto é uma historia grave, sisuda, erudita, que eu não me havia de metter abrutadamente na narração, sem deixar averiguada, esmiuçada e fixada a data precisa e irrecusavel do meu recontamento. Sabem o que é uma data? Uma data é, depois de uma questão de orthographia, do talho e feitura de uma judia, a que os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um phalansterio, a que os dictos velhos chamariam uma sandice, a cousa mais importante que conheço neste valle de lagrymas. No caso presente, supponhamos que eu fosse um cabeça de vento, que atirasse com S. Pantaleão para vinte-sete de dezembro. Ficavamos aceiados; não tem duvida! Ahi se me ía metter a segunda oitava do Natal com o meu sancto martyr; e eu a querer revestir o padre prior para a missa cantada e a vêr-me doudo na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me a canzoada dos criticos:—Fóra ignorantão! Vermelho na segunda oitava da Natividade!? Vae ler o Claudio de Vert, alarve! vae ler o Campello, o Gavanto, o Lambertini."—Atarantado com a grita, atirava-me ao gavetão da vestimenta branca. Peior! Vinha-me outra surriada de sotavento:—Olha a alimaria! Não querem ver? A um martyr vestimenta branca! Hypocrita! que nos anda aqui a prégar sermões a favor dos padres e dos frades, e ainda não sabe qual é a sua vestimenta direita. Ahi tem os taes escrevedores d'agua doce, que se riem á socapa das arcadias, e das odes pindaricas, e da sciencia em notas, e das chronologias dos academicos. A gente que fazia essas cousas trazia as vestimentas na ponta da lingua: distinguia-as como hora horae de servus servi. Vae ler, oh taboa rasa de Locke, vae ler o Prado, o Clericato, o Bauldry, o…"

E eu, que não podia ir ler tanto calhamaço em folio, em quarto, em oitavo, e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o fio da narrativa, e não proseguia nesta notavel historia do padre prior, a qual me abriria as portas do Instituto Historico de París, se eu fosse tão creança que me resolvesse a pagar não sei quantos francos por anno para gosar dessa incomparavel honra.

Por isto façam os leitores idéa das deploraveis consequencias de um erro de data!—"Porém—replicarão elles—quem te obrigava a tractares essa questão chronologica, superior talvez ás forças do teu entendimento? Não foste andando até aqui sem te metteres nesses debuxos? Porque não descreves a festa, deixando aos entendidos em calendario o pô-la na epocha propria?"—Bonissimos leitores, pensaes vós que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por uma saraivada de perguntas? Enganaes-vos! A resposta vae caír dos bicos desta penna como as frechas de Apollo longe-asseteador caíam no campo dos argivos, segundo resa Homero no capitulo primeiro da sua chronica das birras do Pelida e do Atrida: a minha tréplica vae tombar sobre os prelos convincente, irresistivel, irreplicavel. Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os respectivos auctores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleão no taboleiro do calendario, nem sequer pensava nisso, e começava ex abrupto a scena da festa aldeian. Que succedia? Como estamos no inverno, e eu gósto do inverno, principalmente quando ruge uma boa nortada (são gostos), punha-me a descrever um destes formosos dias de dezembro ou de janeiro, em que o firmamento parece retincto de novo no seu tão lindo azul; em que a verdura infantil das searas á flor da terra sorri estirando-se dos topos arredondados dos outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a relva se mira á luz vermelha da aurora no espelho do caramelo, que envidraça a superficie dos pegos e remansos dos regatos. Falar-vos-hia de uma abençoada missa do gallo na aldeia em noite de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poetica do que toda a poesia protestante desde Luthero, o pae do protestantismo, até Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequencias; falar-vos-hia, emfim, de mil cousas, muito bonitas, muito viçosas, muito brilhantes, mas que viriam tanto a proposito de S. Pantaleão, como o anho paschal daquella sancta velha da tia Jeronyma viria a pello da Natividade com o seu caldo tradicional de perú, ou como o estylo do nosso drama moderno se casa com a linguagem da sociedade cujo transumpto deve ser. É por esta razão que em cousas serias, quaes a presente narrativa, eu sou muito pechoso em averiguar tudo quanto póde contribuir para a perfeição de obras em que a fórma de modo nenhum ha-de vencer a substancia:—e a essa classe pertencem estes estudos moraes.

Resolvida e assentada a questão de tempo e logar, sem o que não ha obra litteraria, segundo affirmam os glossadores e espivitadores daquella famosa embrulhada de Horacio chamada a Epistola aos Pisões, resta dizer alguma cousa ácerca de S. Pantaleão. Por muita importancia que eu ligue á feira, aos foguetes, aos buscapés, ás jarras de flores, aos tocheiros accesos, ao sacristão, á musica, aos festeiros, e ao padre prior, ligo muita mais á memoria daquelle cuja festa trazia n'um rodopio toda a aldeia, e até tivera a influencia magnetica de alargar os fechos da bolça ao veneravel moleiro Bartholomeu. Tenham, portanto, paciencia; que já agora hei-de dizer-lhes duas palavras ácerca do meu rico sancto. São reminiscencias do sermão, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito e prégado por Fr. Timotheo, o fradalhão arrabido de mendicante e espoliada memoria. É pouco mais ou menos um resumo da historia do sancto como a contou Fr. Timotheo. Parece-me que o estou ouvindo!

S. Pantaleão era um medico de Nicomedia: o bispo Hermolau converteu-o ao christianismo. Desde então elle reduziu o seu receituario á invocação do nome do Senhor. Seguiram-se d'aqui duas consequencias graves: as suas curas foram mais baratas e mais rapidas, ao mesmo tempo que as offertas dos doentes escaceavam nos templos pagãos, e os sacerdotes de Esculapio começavam a morrer litteralmente de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre sancto: os sacerdotes accusavam-n'o de impio e de bruxo, os medicos de charlatão. O odio contra elle chegou ao ultimo auge: só faltava uma occasião para a vingança: esta não tardou a apparecer.

"Não, que não havia de chegar!—rosnou o barbeiro, que, espécado em frente do pulpito, meneava a cabeça laudativamente de quando em quando, em honra da eloquencia de Fr. Timotheo, que, narrando a vida do sancto, esbravejava como um possesso.—Não, que não havia de chegar! Bastavam os medicos. Os medicos e os cirurgiões! Posto que até certo ponto pertença á faculdade, hei-de dize-lo: é a classe mais invejosa do merito, que eu conheço."

O barbeiro pensava assim havia muitos annos: desde que fôra cruelmente arranhado por tres raposas, que os lentes do Hospital lhe tinham largado ás pernas em um exame de sangrador. Boas ou más, eram as suas doutrinas.

Entretanto o arrabido continuava a lenda de S. Pantaleão: as idéas que della conservo são as seguintes:

Neste meio tempo veio a Nicomedia o imperador Maximiano. S. Pantaleão restituiu perante elle a um paralytico o uso dos membros, o que nem os sacerdotes pagãos, nem os medicos tinham podido fazer, mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos nazarenos. Mostrar aos poderosos que se tem razão contra elles é o maior dos perigos do mundo. S. Pantaleão experimentou-o. Lançaram-n'o ás feras no circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os pés. Cresceu a colera do imperador. Mandou ata-lo a uma grande roda e solta-lo por uma ladeira abaixo; mas as prisões quebraram-se e o suppliciado ficou illeso. Então ordenou que o degolassem. O sancto, segundo parece, estava já saciado de prodigios: ao golpe do algoz a cabeça voou-lhe dos hombros, e a sua alma, subindo ao ceu, viu o proprio nome escripto no livro dos martyres. O inferno e a tyrannia tinham sido mais uma vez vencidos.

Tal é em poucas palavras a historia do sancto orago da aldeia, que constituia os dominios espirituaes do padre prior.

A noite que precedeu á grande solemnidade da parochia foi semelhante naquelle anno em que succedeu o caso da Bernardina ao que havia sido no anno antecedente; semelhante ao que costumam ser taes noites nos campos deste nosso bom Portugal. Um coreto coberto de velhos razes alteava-se á porta da igreja: delle resfolgava uma selvagem e, ás vezes, atrozmente desentoada musica, e em baixo crepitavam as fogueiras. Como faltariam fogueiras no mez de julho e em festa saloia? Os fogos nocturnos são o symbolo da alegria; mas cumpre que se repintem no ceu diaphano e estrellado. Debaixo de uma atmosphera crassa e negra o seu reflexo tem o que quer que seja soturno e infernal. O sentimento poetico está mais vivo e puro nas almas habituadas ás harmonias campestres, do que em nós os habitantes das grandes cidades: é por isto que os camponezes accendem no estio as fogueiras festivas, usança que, como todos sabem, offende o nosso profundissimo e estupidissimo senso-commum. Eu, por mim, que, graças a Deus, não tenho a honra de pertencer á classe desses que lidam, contentes de si, por se bambolearem no vertice da animalidade pura, e que se chamam homens da vida positiva, digo que, por mais ardente que vá o estio, amo uma fogueira no arraial em vespera de festa, e aquelle estourar e chispar dos foguetes que roçam rapidos pelo manto escuro da noite. Sei tambem que o consumir-se polvora em esbombardear cidades, e em alastrar de cadaveres um campo de batalha é cousa muito mais philosophica e sisuda, do que desbarata-la nas festividades supersticiosas do povo. Mas nem todos podemos ser philosophos, e eu tenho quéda particular para a superstição.

E que quereis? O catholicismo é jovial: o seu culto, como o vulgo o entende, é ruidoso, e risonho, e brilhante, e attractivo, e sociavel, e por isso debalde trabalharieis por arranca-lo ao povo, que vive e morre no meio do trabalho, dos cuidados, das privações. O domingo, o dia sancto, o orago da parochia são os seus dias de contentamento e repouso. Abençoado quem inventou os oragos! Pois as invocações da Virgem, e a advocacia dos sanctos?! Mil vezes bemdito quem os multiplicou! Ride-vos, se vos aprouver, dos que crêem que tal Senhora obra mais maravilhas que todas as outras Senhoras junctas; que tal sancto é remedio infallivel para esta ou para aquella enfermidade. As preces levam pelo menos uma vantagem ás drogas dos physicos: não custam nada, e são mais ricas de esperança; e a esperança é a maior, quasi a unica virtude dos medicamentos. E depois as devoções, as promessas geraram as romarias, as festas, e logo as feiras e todo esse franco e alegre folgar das multidões, que voltam de lá contentes, sem tedio e sem remorsos, o que nem sempre nos acontece nos nossos prazeres das cidades, a que bem longe estamos de associar nenhum pensamento de Deus.

Alguns economistas destes tempos dizem—"as feiras vão-se"—como certos doutores de ha uns annos diziam, alludindo ao christianismo —"os deuses vão-se."—Oh semsaborões de meus peccados! Nem os deuses, nem as feiras se vão! Tudo isso fica, porque o abriga e salva a egide encantada do amor popular: vós é que tendes seguro o passardes; e se fizerdes o vosso ablativo de viagem n'alguma aldeia como a do meu padre prior, lá do adro, onde haveis de jazer, alevantae a caveira descarnada, no dia de S. Pantaleão, ou do sancto influente do logar, qualquer que elle seja, e vereis o foguete subir aos ares, e os Manueis e as Bernardinas de então a feirarem-vos em rebemdita sobre as cinzas, que as ventanias terão espalhado, e ouvireis o ramram da guitarra, e o cantar ao desafio, e o bradar dos leilões de cargos, e aviventar-vos-ha o olfacto o cheiro do incenso, involto em rolos de fumo, que, espalmando-se nas faces dos gordos cherubins pintados no tecto, surdirão pelo portal da velha igreja remoçada d'ochre, e virão embalsamar os ares: inclinae, não as orelhas, que não as tereis, mas os ouvidos em osso, e escutae o futuro padre prior alevantando o Gloria, e o prégador—"ai! já não será um fradalhão arrabido!…"—contando, voz em grita, as maravilhas do martyr. Então reconhecereis a vaidade das vossas doutrinas, e morder-vos-heis e damnar-vos-heis, dizendo com as vossas costellas esbrugadas, á falta de botões:—"Bem nos prégava aquelle grande chronista do padre prior! Aquillo é que era homem de juizo! Miserere mei, Deus, quia asinificavimus! Compadece-te de nós, Senhor, porque asneámos!"

Agora por asnear, acudamos a um reparo antes de ir mais longe. Já ouço um destes oragos de botequim (tambem aquelles templos tem seus oragos); um destes eruditos em Balzac e Marryat, em Paul de Kock e Dickens, sacudir a melena annelada, affastar da bôca o charuto apertado entre o pae-de-todos e o fura-bolos, salivar com os dentes cerrados, dando um som de espirro de gato, tomar a postura solemne que estudou n'uma gravura em madeira do Antony de Dumas, e dizer-me em tom pausado e soturno:—Oh malfeliz, malfeliz! que em vez de empregares esses raios do fogo ceruleo e invisivel das inspirações estheticas, que, da mysteriosa solidão em que se dilata o halito celeste da summa intelligencia, desceu aos abysmos íntimos da tua essencia, em depurares o sentimento religioso das suas formulas materialisadas para o transportares ás regiões ideaes do culto íntimo, seguindo os vestigios das notabilidades mais remarcaveis da intellectualidade actual que fluctuam nos grandes centros de luz progressiva chamados París e Londres, vertes os teus sarcasmos baixos, triviaes, e desgostantes, sobre o espiritualismo pantheistico, apoias o fetichismo, e poetisas (crês poetisar, digo eu) essas festas da populaça, e esses prazeres gordureiros das massas, que sublevam o coração daquelle que adora o supremo architecto no silencio interior, em quanto os seus labios estão immoveis como se elles fossem de marmore explorado nas carreiras de Paros! Escriptor retrogrado e condemnavel, que em logar de combateres a barbarie do paiz, pretendes atacar mais o povo ao obscurantismo, que dirão as summidades do jornalismo estrangeiro e os toiristas e impressionistas viageiros quando lançarem seu golpe d'olho d'aguias para o Portugal, e virem sua materialisação supersticiosa inculcada, e suas tradições grosseiras exaltadas? Repetirão o que o immortal marido de Lady Byron dizia de nós a proposito de uns cachações com que o massacraram certa noite á saída de S. Carlos:

"Nação impando de ignorancia e orgulho, Que lambe e odeia a mão que brande a espada Que do Gallo assanhado á zanga o rouba[1]…

* * * * *

Onde é sujo o palacio ao par da choça, E o hospede forçado em lama trepa; Onde nobres, plebeus nunca pensaram Em ter limpa a casaca ou roupa branca[2], Posto que a lepra egypcia os cubra e rôa, Intacta d'agua a pelle, e a grenha hirsuta.

Servos torpes e vis[3], bem que nascidos Nas pompas da creação. Tola és, natura, Com defunctos ruins em gastar cera.

Eis o que elles dirão lendo a tua inconscienciosa defeza dos costumes e credulidades dos tempos do jesuitismo e da inquisição."

Tal reparo antevejo eu que me ha-de ser feito pelos pensadores da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo—o que escrevi escrevi. A primeira vez que puz os olhos naquelles bonitos versos do Child Harold, impei. Fui vivendo e lendo, e affiz-me ás injurias de estranhos. Livros, jornaes serramadeiras, jornaes populares, jornaes atoalhados, jornaes lençoes, em se tocando em Portugal, sancta Barbara, advogada dos trovões, nos acuda! Fervem as calumnias, os motejos, as accusações de todo o genero; o que inquestionavelmente é grande, é nobre, é generoso! O dar é assim!—n'uma nação cuja lingua, pouco conhecida na Europa, torna impossiveis as represalias. E se fosse a verdade só! Muitas verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas as nações do mundo; mas a calumnia tem mais pilheria; e Portugal é um thema em que até os inglezes querem ter graça! Os francezes ainda alguma vez por engano nos fazem justiça: elles nunca. Em Inglaterra não ha nenhum tolo que não faça um livro de tourist, nenhum architolo que não o faça sobre Portugal: estes livros e os sermões constituem o grosso da sua litteratura[4]. Assim, oh philosopho idealista progressivo, eu sei tão bem como tu o que nos ha-de custar a festa de S. Pantaleão, quando esta famosa historia for caír nas mãos dos criticos d'alem-mar. Mas pensas que me faltará moeda para dar troco ás miserias de revisteiros, touristas, magazineiros, e fazedores de livros em sarapatel mascavado de normando e teutonico, surripiado por metade em cada palavra na melodiosa pronunciação britannica? Enganas-te, oh caricatura viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os inglezes se rirem de elles terem muito dinheiro e nós pouco, torçamos a orelha, e choremos como creanças pelas barbas abaixo. Quando elles compararem o Strand ou Regent-Street com os arruamentos da nossa cidade baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as nossas azinhagas reaes, cubramos a cara. Mas quando compararem as venturas do homem de trabalho inglez com a triste sorte do peão portuguez, risada. Quando oppozerem as virtudes e illustrações das suas classes infimas á barbaria e estupidez das nossas, duas risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades (do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwell e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular, e da clareza, simplicidade, e rectidão de todas as suas leis em geral, e nos atirarem á cara o absolutismo dos nossos antigos monarchas, a bruteza da nossa ordenação, a intolerancia dos inquisidores, trinta risadas. Quando, emfim, nos offerecerem em escambo das nossas crenças, dos nossos costumes religiosos, os seus costumes e a sua crença, que esborôa ha mais de dous seculos em quatrocentas crençasinhas, com seus nomes muito arrevesadinhos, quatrocentas risadas ou antes uma risada só, mas retumbante, macissa, inextinguivel, como aquellas famosas gargalhadas dos deuses de Homero. O caso é d'isso! Se caíssemos na troca ficavamos logrados. Traziam-nos de involta na carregação dos sermões domingueiros os dizimos e as bruxas, de que ha muito estamos livres pela misericordia divina, e que são os dous maiores flagellos da Inglaterra, depois da lei dos cereaes e dos arrendamentos das terras, que ahi alugam, até por semana, a dez milhões de esfaimados quatrocentos mil proprietarios gordos e anafados.

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