ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2) (continued 2)
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Apenas passára o largo da sé e transpozera a velha e soturna porta do ferro, Fr. Roy se achára perfeitamente sarado do seu tão agudo rheumatismo. Ligeiro como um galgo, desceu por entre as antigas terecenas reaes, e em menos de tres credos estava no pelourinho[2] Ahi viu cousa que o fez parar. Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um grande feltro, arengava a um troco de bésteiros e peões armados de lanças ou ascumas, de almarcovas ou cutellos: tinha nas mos um desconforme montante, e na cincta uma espada curta: a turba ora o escutava attentamente, ora prorompia em gritos confusos e estrondosos. Fr. Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartholomeu Chambão, que enthusiasmado proseguia o seu vehemente discurso sem reparar no beguino:
"Já vo-lo disse: d'aqui ninguém bóle pé antes d'elrei nosso senhor saír para S. Domingos. Nada de bulha fóra de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos mostra ao paço quando ahi fôr só a adultera. Se, como hontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso. É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta deve saír da toca. Não digo que então não seja possivel esmagar-se-lhe a cabeça… N'um brandir de ascuma… Mas cautela, não haja sangue!… Pelo menos de innocentes… Leaes e esforçados cidadãos desta mui leal cidá… Sáfa, bruto!"
Esta peroração inesperada com que mestre Bartholomeu interrompêra o seu discurso, que se ía elevar ao ápice da eloquencia, procedêra de lhe ter descido a grossa e espaçosa mão do ichacorvos sobre o hombro, que lhe vergára como se houvessem descarregado em cima delle uma aduella de cuba. A Fr. Roy occorrêra uma idéa abençoada, a de communicar a mestre Bartholomeu a nova que D. Leonor lhe recommendára espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com elrei. O mendicante sabía que o tanoeiro era homem de bofes lavados, e que dentro de meia hora a noticia teria corrido toda a cidade. Assim se esquivava não só a ser visto no rocío pelo donzel, de quem naquelle instante se apartára, mas tambem a achar-se involvido em qualquer desordem que semelhante noticia poderia produzir, attenta a irritação dos animos. Além d'isto a lembrança do arripio dorsal, que as ultimas palavras de D. Leonor lhe tinham causado, lhe fazia quasi desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebêra do fim da sua arenga) da commissão, que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbíra a Fernão Vasques, podesse ainda desempenha-la, atalhando a fuga de D. Leonor. Estas considerações que lhe haviam passado rapidamente pelo espirito, e o vêr que mestre Bartholomeu não levava geito de acabar, o moveram a falar ao tanoeiro, que só o sentíra quando elle lhe descarregára sobre o hombro a ponderosa mas amigavel palmada.
"Com mil e quinhentos satanazes!—exclamou mestre Bartholomeu, voltando-se e vendo ao pé de si o beguino.—Sabia que a mão da sancta madre igreja era pesada; mas não pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Fr. Roy?"
"Dizer-vos que podeis mandar saír vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o inverno ahi antes de verem elrei chegar e passar para S. Domingos."
"Fr. Roy,—replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de colera—para interromper-me com uma de vossas bufonerias não valia a pena de me aleijardes este hombro!"
"Tomae como quizerdes as minhas palavras; chamae-me o que vos aprouver, bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não será hoje que os populares falarão com elrei."
"Pois quê, morreu dos feitiços da adultera, ou lornou-o invisivel algum encantador seu amigo?"
"Nem uma cousa nem outra: mas com estes olhos de grande peccador (aqui o ichacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos sobre o peito) eu o vi sair para a banda da portada cruz…"
"Fr. Roy, olhae que estes honrados cidadãos vos escutam, e que o auto é mui grave para gastar truanices."
"Já disse, mestre Bartholotmeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do sancto-padre vos juro que hoje elrei não dormirá em Lisboa, segundo o geito que lhe vejo. Elle cavalgava uma possante mula de caminbo; n'outra ia uma dona coberta com um longo véu: seguiam-no donzeis, falcoeiros e moços de monte. Ao passar ainda lhe ouvi estas palavras:—olhae aquelles villãos traidores como se junctavam: certamente prender-me quizeram, se lá fora[3]!—Não pude perceber mais nada. Que mais, porém, é preciso? Deixastes fugir a prêa: agora catae-lhe o rasto."
"Traidor é elle, que nos ha mentido como um pagão!—bradou o tanoeiro sopesando o montante.—Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a adultera! Rainha ou barregan, arrancar-lhe-hemos os olhos. A arraya-miuda foi escarnida; mas não o será em vão. Que dizeis vós outros, honrados burguezes?"
"Escarnidos, escarnidos!—respondeu com grande grila o tropel.—Mas à fé que nunca a adultera será rainha de Portugal. Morra a comborça!"
E no meio da alarida, as pontas das lanças e os largos ferros das almarcovas agitadas nos ares scintillavam aos raios do sol oriental como um vasto brazido.
"Ao rocío! ao rocío!—gritou mestre Bartholomeu.—Vamos, rapazes: já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo não seja por mais tempo burlado!"
E pondo o montante ás costas, mestre Bartholoraeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Valverde, seguido da turbamulta, e sem fazer caso de Fr. Roy, que procurava rete-lo, ponderando que ainda poderia alcançar elrei e fazê-lo retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para affrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só no meio do terreiro calado e deserto.
Entretanto juncto a S. Domingos, se bem que a rixa começada entre os nobres partidários de Leonor e Fernão Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares, cujo numero crescia continuamente, não tinha diminuido. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate ora lançava os olhos de revés para os senhores da côrte e conselho, que, esperando por elrei, passeiavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquelle mar de vultos humanos, que elle sabía poder agitar ou tornar immoveis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante á hora que precede a procella, em que apenas se vêem correr na atmosphera abalada os castellos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trovões roufenhos e prolongados, aquella hora que então passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo quando, após um rugido terrivel do tigre popular, se fazia na praça apinhada de gente um silencio ainda mais temeroso e tetrico.
Foi n'uma destas interrupções do motim que um pagem, saíndo ao galope do lado da corredoura, veio apear-se juncto do alpendre, e tirando da cincta um pergaminho aberto o entregou ao infante D. Diniz.
Este fitou os olhos na escriptura, descórou subitamente, e entregou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:
"Estamos perdidos!"
Diogo Lopes leu o conteúdo naquelle escripto fatal, e no mesmo tom respondeu ao infante:
"O caminho de salvação que nos resta é o de Santarem. Obediencia e circumspecção!"
O pergaminho passou rapidamente de mão em mão: os fidalgos, letrados, e cavalheiros fizeram um circulo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassocegados. Todos receiavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando habilmente a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.
"Vistes a ordem d'elrei. Como um dos mais velhos entre nós, direi meu parecer. Embora o risco seja grande achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida por obedecer a nosso senhor elrei."
"Mas,"—atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente era ouvido como oraculo pelos cortezãos—"o caso é grave: o povo se nos vir retirar enviar-se-ha a nós: se lhes dizemos o motivo da nossa partida é capaz de desconcertos maiores que os já commettidos."
"Sua senhoria não devêra ter-nos emprasado para este auto, se a sua intenção era não dar resposta aos populares."
Visivelmente o doutor em leis e degredos estava tomado de medo, no que não levava vantagem á maior parte dos outros membros do conselho real.
O conde de Barcellos guardava silencio. Não podia conceber como D. Leonor o não avisára a tempo, e por isso preoccupava-o a indignação, ignorando que a resolução da fuga fôra tomada mui tarde. Na vespera elle aconselhara a elrei que cedesse a tudo quanto o povo quizesse; porque dissolvido o tumulto, facil era chamar á côrte os senhores e cavalleiros de mais confiança, acompanhados de gente do guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem oppôr-se de novo á vontade de seu rei e senhor. D. Fernando aceitára o conselho, que, se não era o mais leal, era ao menos o mais seguro; mas as revelações do ichacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situação do negocio.
A reflexão de Gil d'Ocem estava em todas as cabeças, e por isso os cortezãos ficaram outra vez em silencio, como buscando um expediente para sair daquelle difficultoso passo: a incerteza, o despeito, o receio pintava-se nos rostos demudados de muitos.
E as vagas do oceano, que ameaçava traga-los, encapellavam-se aos pés deites: o povo, vendo os fidalgos erguidos e mudos n'um circulo, apinhava-se cada vez mais basto ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbava demais os animos para não poderem achar um expediente acertado.
Era por isso que esperava o astuto Pacheco.
"De um lado a colera do povo: do outro os mandados delrei—disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro de Affonso ÍV.—Resta-nos só um arbitrio."
"Dizei, dizei!—clamaram a um tempo todos, á excepcão do conde de Barcellos, que fitou nelle os olhos desconfiados.
"É necessário que annunciemos a nova da partida d'elrei, e que sejamos os primeiros a affeíar este procedimento: é necessário que vamos adiante da indignação dos peòes. Depois dir-lhes-hemos que, burlados como elles, nada fazemos aqui. Então apartar-nos-hemos sem susto, e sairemos da cidade como podérmos, na certeza de que não serei eu o ultimo, apesar de velho, que cruze as portas da alcaçova de Santarem."
"Mas quem ha-de falar em nosso nome?—perguntou Gil d'Ocem.
"No vosso, mestre Gil das Leis!—interrompeu o conde de Barcellos.—Nem o receio das affrontas do alguns milhares de sandeus, nem o da propria morte me obrigaria a cuspir maldicções sobre o nome daquelle a quem uma vez jurei preito e leal menagem."
"Viram impendere vero nemo tenetur"—replicou Gil d'Ocem—"ou, como quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós fazei o que vos aprouver."
Á auctoridade de um texto latino trazido assim a ponto por um tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos e conselheiros approvaram quasi unanimente o alvitre de Diogo Lopes.
"Mas quem ha-de falar ao povo?—insistiu o mestre em leis, que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.
"Eu, se assim o quizerdes"—replicou immediatamente Diogo Lopes.
O manhoso cortesão vira claramente que a partida d'elrei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculára n'um momento como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques, e por consequencia alguma revelação perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que elrei se esquivára á influencia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D. Leonor era inevitavel, e ainda suppondo, o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, que Lisboa se rebellasse claramente contra D. Fernando, o resultado da guerra civil tinha muito maior probabilidade de ser favoravel a elrei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquella conjunctura dos principaes meios com que poderia sustentar uma lucta intestina. Assim, o alvitre que offerecêra para a salvação dos cortezãos era só para se haver de salvar a si, conservando ao mesmo tempo a affeição dos cabeças da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decahir da graça de D. Fernando.
Para os calculos de Diogo Lopes faltáro, porém, um elemento: era a delação do beguino; e era justamente, esta falta que os destruia todos. Assim é a politica.
O sacrifício de Diogo Lopes foi geralmente recebido com approvação e agradecimento. Então elle, saíndo do circulo, aproximou-se a Fernão Vasques, que de quando em quando volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavalleiros.
"Falhou a traça:—disse o velho cortezão em voz sumida ao alfaiate.—Elrei acaba de saír da cidade."
Fernão Vasques recuou, e poz-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.
"O que vos digo é a verdade,—continuou Pacheco.—Mas não affrouxar! Elrei de Castella é por nós, e bom numero de fidalgos portuguezes o são tambem. Mais; são por nós a maior parte dos que ora aqui vêdes presentes. Conservae o bom animo do povo, e fiae o resto de mim e … de quem vós sabeis."
Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance os olhos para D. Diniz.
"Mas elrei tomará por mulher D. Leonor—acudiu o alfaiate aterrado:—voltará a Lisboa com seus cavalleiros e homens d'armas, e então coitados de nós!"
"Não temaes: o matrimonio adultero será condemnado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o que succedeu a elrei D. Sancho: a D. Fernando póde succeder o mesmo. Tambem os fidalgos de Portugal têem homens d'armas. Podeis estar certo de que não vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leaes burguezes, que tão ousadamente se oppozeram á deshonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por elles. Mandae-lhes que façam silencio."
Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que não descontinuára durante esta scena, acalmou a um aceno do alfaiate.
Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não cansaremos os leitores, que pouco mais ou menos terão previsto como seria. Misturando amargas reprehensões contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indignação. Alludiu á resistencia por armas que elrei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e no caso de vir este a cabo, a probabilidade de ser annullado pelas censuras da igreja. Emfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta, e tractassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as idéas que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto difficultoso; o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperanças aos peões de que elles se encaminhavam para suas alcaidarias e honras com o louvavel intento de se aperceberem em soccorro dos burguezes de Lisboa, e com tal arte o fez, que os senhores e cavalleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o proprio conde de Barcellos, não viram nas suas palavras senão uma feliz inspiração para os salvar da colera da arraya-miuda.
Durante aquella larga arenga esta guardára silencio, interrompido a espaços por um desses borborinhos, que são como os annuncios das erupções do volcão popular. Pacheco, emfim, concluiu: mas o espectaculo que tinha diante de si o fez ficar immovel por alguns momentos; e estes foram terriveis. Aquelles centenares de olhos avermelhados, scintillantes de furor, eravados nelle e nos outros fidalgos; aquellas bôcas semi-abertas prestes a proromper em brados de morte, eram como um pesadello diabolico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escuta-lo, e não poderem acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.
Os fidalgos aproveitaram este instante de torpor moral que precedia a procella. Desceram da alpendrada, e montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavalleiros mais bemquistos do povo ía o conde de Barcellos, e Diogo Lopes com os seus pagens fechava o sequito. Se houvessem atravessado a praça, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o angulo do mesteiro, ja os doestos grosseiros e violentos voavam contra elle do meio do povo apinhado, e até dois virotes de bésta pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas apertando os acicates, os cavalleiros seguiram ao longo da corredoura, em quanto Diogo Lopes, victoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuia aquellas mostras de affécto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto numero de cortezãos, alguns dos quaes tinham fundados motivos para receiar a irritação desses animos ferozes, exaltados pela fuga d'elrei.
A cavalgada linha desapparecido, quando um troço de bésteiros e peões desembocou do lado da rua nova. Eram mestre Bartholomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.
Mas as palavras que Fr. Roy dissera ter ouvido proferir a elrei, lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão de lenha por onde lavra ha muito fogo occulto, levaram o tumulto a um ponto medonho. As affrontas, que até ahi quasi só se encaminhavam contra Leonor Telles e seus parciaes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldieçòes, as pragas, os nomes de traidor e covarde se ajunctavam ás mais violentas ameaças. Uns juravam que nunca mais elle entraria em Lisboa; outros propunham que se lançasse fogo aos paços reaes. Debalde Fernão Vasques trabalhava por aquieta-los; nem já escutavam o seu idolo. Furiosos espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que se neste momento D. Fernando lhes tivesse apparecido, não teriam talvez respeitado a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dynastia.
Este motim sem objecto, sem resistencia, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha cahido no seu habitual silencio, e pouco a pouco os fidalgos e cavalleiros, atravessando as portas da cruz, seguiam caminho de Santarem. O systema militar dos antigos parthos dera a victoria a elrei: elle vencêra fugindo!
O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediavelmente perdidos.
[1] Moeda de prata de cinco soldos.
[2] As terecenas ou taracenas reaes, isto é o deposito dos aprestos das galés, de guerra, eram juncto ao sitio em que hoje vemos a igreja da Magdalena: o pelourinho velho ou Açougues era um terreiro que ficava pouco mais ou menos no fim da rua da Praia.
[3] Nom quis alla hir e partiose da çidade com D. Lionor, ho mais escusamente que pode, e hi a dizendo pello caminho; "Oulhaae, &c."—Fernão Lopes, chr. de D. Fernando c. 61.
UMA BARREGAN RAINHA.
O Douro é bem carregado e triste! A sua corrente rapida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve aguas turvas e mal assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de nevoas, e através desse manto a atmosphera embaciada faz cahir sobre a vossa cabeça os raios do sol semi-mortos, quasi como um frio reflexo de lua, ou como a luz sem calor de uma tocha distante. É depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desopprime os pulmões, onde muitas vezes tem depositado já os germens da morte. Então, se, trepando a um pinaculo das ribas, espraiaes os olhos para a banda do sertão, lá vêdes como uma serpente immensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo esta por baixo de vossos pés: é o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as aguas que o geraram. O horisonte até ahi turvo, limitado, indistincto, expande-se ao longe, contornêa-se dos cimos franjados das montanhas engastadas na cortina azul do horisonte, e a terra, a perder de vista, parece-nos um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paizagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel Angelo: foi robusta, solemne e profunda.
Como sobre um circo convertido em naumachia, o Porto ergue-se em amphitheatro sobre o esteiro do Douro, e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tres provincias, e tendo nas mãos as chaves dos haveres dellas, o seu aspecto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas não o julgueis antes de o tractar familiarmente. Não façaes cabedal de certo modo aspero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o á prova, e achar-lhe-heis um coração bom, generoso e leal. Rudeza e virtude são muitas vezes companheiras; e entre nós, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja elle quem guarde ainda maior porção da desbaratada herança do antigo caracter portuguez no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que não passava de algumas demasias de orgulho.
Nos fins do seculo decimo-quarto o Porto ía ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no caracter dos seus filhos, na sua situação e nas mudanças politicas e industriaes que depois sobrevieram em Portugal. Posto que nobre, e lembrado como origem do nome desta linhagem portugueza, os seus destinos eram humildes comparados com os da theocratica Braga, com os da cavalleirosa Coimbra, com os de Santarem a cortezan, com os de Evora a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse coroado da sua cathedral, semi-arabe, semi-gothica, em voz de alcacer ameiado; soltoposta, em vez de o ser á torre de menagem, aos dous campanarios lisos, quadrangulares e macissos, tão differentes dos campanarios dos outros povos christãos, talvez porque entre nós os architectos arabes quieram deixar as almadenas das mesquitas estampadas como um ferrete da antiga servidão na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o burgo episcopal do Porto, pendurado á roda da igreja, e defendido antes por anathemas sacerdotaes, que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emporio de commercio, onde dentro de cinco seculos, mais que em nenhuma outra povoação do reino, a classe então fraca e não definida, a que chamavam burguezia, teria a consciencia da sua força e dos seus direitos, e daria a Portugal exemplos de um amor tenaz d'independencia e de liberdade.
A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma legua desde o Seminario até além de Miragaia, ou antes até a Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sertão, mostrava ainda nos fins do seculo decimo-quarto os elementos distinctos de que se compoz. Ao oriente o burgo do bispo, edificado pelo pendor do monte da sé, vinha morrer nas hortas, que cobriam todo o valle onde hoje estão lançadas a praça de D. Pedro e as ruas das Flores e de S. João, e que o separavam dos mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente a povoação de Miragaia, assentada ao redor da ermida de S. Pedro, trepava já para o lado do Olival, e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita, e pelo oriente com a villa ou burgo episcopal. A igreja, o municipio, e a monarchia entre esses limites pelejaram por seculos suas batalhas de predominio, até que triumphou a corôa. Então a linha que dividia as tres povoações desappareceu rapidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos palacios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade monarchica.
Era neste burgo ecclesiastico, nesta cidade nascente, que por um formoso dia de janeiro da era de Cesar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos gascões, se não mentem memorias remotas[1]. Na rua do Souto, já assim chamada, talvez pela vizinhança de algum bosque de castanheiros[2], como principal entrada da povoação, andavam as danças judengas e folias mouriscas com musicas e trebelhos ou jogos, por entre o povo vestido de festa, o que era indicio evidente de que se esperava elrei, cuja vinda a qualquer povoação era o unico motivo legal para fazer dançar e foliar judeus e mouros, que de certo não folgavam com estes forçados e dispendiosos signaes de contentamento publico.
Com effeito uma numerosa e esplendida cavalgada viha da banda do bailiado de Leça, Elrei D. Fernando ajunctára em Santarem os seus ricos-homens e conselheiros: amestrado por Leonor Telles na arte de dissimular, recebêra com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Diniz e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, não escaceára mercês[3]. Depois em folgares e caçadas vagueára pelo reino com D. Leonor, até que em Eixo fizera um como manifesto da resolução que tomára de a receber por mulher, o que neste dia cumpríra na antiga igreja daquella celebre commenda dos Hospitalarios. Era, pois, para celebrar este matrimonio adultero, agourado pelas maldicções populares, que o bispo D. Affonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa ácerca de adulterios, vestia de festa o seu mui canonico burgo[4].
A cavalgada, que se víra descer ao longo do valle, já atravessava o rio da villa pela ponte do Souto[5] e encaminhava-se para uma antiga porta da povoação primitiva, porta conhecida ainda hoje, como então, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito d'elrei ia D. Leonor, a rainha de Portugal: elle montado em um cavallo de guerra; ella em um palafrem branco, levado de redea desde a entrada da ponte pelo infante D. João, que familiarmente falava e ria com a formosa cavalleira. Da banda esquerda o bispo D. Affonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscillava e fazia cortezias involuntarias a cada passada da mansissima e veneranda mula episcopal. Juncto ao velho prelado o infante D. Diniz caminhava em silencio, e no aspecto melancholico do mancebo se divisava que uma profunda tristeza lhe consumia o coração, vendo-se como atado ao carro triumphal da mulher que pouco a pouco se convertêra em sua irreconciliavel inimiga. Após estas principaes personagens via-se uma grande multidão de cavalleiros, clerigos, cortezãos, conselheiros, juizes da côrte, companhia esplendida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata, e as variadas côres dos trajos de festa, que sobresaiam no chão negro das vestiduras roçagantes dos magistrados e clerigos. Adiante d'elrei as danças dos mouros e judeus volteavam rapidas ao som da viola ou alaude arabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso seguiam-se ás danças córos de donzellas burguezas, que celebravam cora seus cantos o amor e a ventura dos noivos[6].
Mas esse canto tinha o que quer que era triste na toada. Triste era tambem o aspecto dos populares, que sem um só grito de regosijo se apinhava para vêr passar aquelle prestito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Diniz, cujo rosto melanclholico revelava que os seus pensamentos eram accordes com os do povo, que por toda a parte não via neste consorcio senão um crime e uma fonte de desventuras. Os cortezãos, porém, fingiam não perceber o que passava á roda delles, e pareciam transbordar de alegria. Muitos eram daquelles que mais contrarios haviam sido aos amores d'elrei, mas que vendo emfim D. Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia, e calculavam já quantas terras, e que somma de direitos reaes lhes poderia render da parte de um rei prodigo a sua mudança de opinião.
Entre elles não se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao tracto da côrte por largos annos, experimentado em todos os enredos dos paços, habil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, não tardára em perceber que as mercês e agrados d'elrei e de D. Leonor encobriam intentos de irrevogavel vingança. Conhecendo que a sedição popular fôra inutil, e que, ainda renovada com mais furia, não poderia resistir ás armas de D. Fernando, havia-se affastado da côrte, e posto que só nos fins desse anno elle passasse a servir o seu antigo protector e amigo D. Henrique de Castella, buscára entretanto esquivar-se ao odio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opinião entre o vulgo.
Abandonado assim do seu guia, o infante D. Diniz soffrêra resignado um successo que não podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservára intacta a sua má vontade a D. Leonor. Abandonado dos seus parciaes, vendo, se não trahida, ao menos quasi morta, e inactiva a alliança de Pacheco, e, para maior desalento, seu irmão mais velho o infante D. João ligado com essa mulher, da qual este principe mal pensava então lhe viria a ultima ruina; no meio de tanto desamparo, o infante, a principio timido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentíra girar-lhe nas veías o sangue paterno. Obrigado a seguir a corte, nunca D. Leonor achára um sorriso nos seus labios; nunca o víra conter diante della um só signal de despreso. Assim a colera d'elrei contra seu irmão havia chegado ao maior auge, e os calculos de fria e paciente vingança estavam resolvidos no animo de Leonor Telles.
A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da sé, juncto da qual se dilatavam os paços episcopaes. Ahi as danças e folias pararam e fizeram por um momento silencio: então o infante D. João, tomando nos braços a formosa rainha, apeou-a do palafrem: após ella elrei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantado ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desapparecido no profundo portal dos paços, e os donzeís conduziam os elegantes cavallos, as mulas inquietas e os mansos palafrens para as vastas e bem providas cavallariças do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole[7].
O aposento principal dos paços, quadra vasta e grandiosa, estava de antemão ornado para receber os hospedes reaes do velho bispo D. Affonso. Um throno com dous assentos de espaldas indicava que a elle ia subir tambem uma rainha. D. Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzellas da sua camara; elrei de todos os principaes cavalleiros. Viam-se entre estes o alferes-mór Ayras Gomes da Silva, ancião veneravel, que fôra seu aio, o orgulhoso mordomo-mór D. João Affonso Tello, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Diniz, o prior do hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a còrte, ou tinham vindo assistir ás bodas reaes.
Guiada por D. Fernando, Leonor Telles subiu com passo firme os degraus do throno. Como o navegante, que, affrontando temporaes desfeitos por mares incognitos e aparcellados, e chegando ao porto longinquo, quasi que não crê pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua elevação. A alma sorria-lhe a míl esperanças; a vida trasbordava nella. A seu lado um rei, a seus pés um reino! Era mais que embriaguez; era delirio. Ella sentia um novo affecto, um como desejo de perdão aos seus inimigos! Tremeu de si mesma, e convocando todas as forças do coração, salvou a sua ferocidade hypocrita, que parecia querer abandona-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo espirito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto, quando o instincto de tigre pôde faze-la triumphar desse momento em que a generosidade costuma accommetter com violencia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realisa a summa ventura por largo tempo sonhada.
Do alto do throno e em pé, D. Fernando estendeu a mão: o tropel de cortezâos e cavalleiros, de donas e donzellas formaram aos lados da espaçosa sala fileiras esplendidas, immoveis e silenciosas: elrei volveu olhos lentos para um e outro lado, e disse:
"Ricos-homens, infançôes, e cavalleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrimonio: como para os outros homens, para os reis se instituiu elle; porque por elle as corôas se perpetuam na linhagem real. É por isso que eu desposei hoje a mui illustre D. Leonor, filha de D. Affonso Tello, descendente dos antigos reis, e ligada com os mais nobres d'entre vós pelo divido do sangue. Assim a rainha de Portugal será mais um laço que vos una a mim como parentes, que de hoje ávante sois meus. Leaes como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo titulo. Em que pez a traidores, D. Leonor Telles é minha mulher! Fidalgos portuguezes, beijae a mão á vossa rainha.[8]"
O velho alferes-mór Ayras Gomes aproximou-se então do throno á voz do seu moço pupillo; ajoelhou e beijou a mão a D. Leonor; mas o olhar que lançou para elrei era como o de pedagogo que de mau humor se accommoda ao capricho infantil de um principe. Ao volver d'olhos do ancião, D. Fernando córou e voltou o rosto.
O infante D. João, porém, dobrando o joelho aos pés da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria: contemplando-o Leonor Telles deixou assomar aos labios um daquelles ambiguos e quasi imperceptiveis sorrisos que, vindos della, sempre tinham uma significação profunda. Por ventura que no infante D. João ella já não via mais que o precursor da humilhação de D. Diniz, do seu capital inimigo.
Após o infante os fidalgos vieram successivamente curvar-se ante D. Leonor. Boa parte delles eram como os capitães vencidos seguindo ao capitolio um triumphador romano. Podia-se com effeito dizer que, mau-grado desses que se rojavam a seus pés, ella conquistára o throno.
Toda a comprida fileira de nobres e officiaes da corôa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes illustres por valor ou sciencia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ella, a mulher orgulhosa e implacavel esperava, cogitando no momento em que o mancebo ainda impubere, sem renome, sem poderio, celebre só por seu berço e pelo desgraçado drama da morte de D. Ignez, viesse tributar homenagem á que representava um papel analogo ao daquella desventurada, salvo na sinceridade do amor e na innocencia da vida.
Mas esse para quem D. Leonor mais de uma vez volvêra rapidamente os olhos, considerava com os braços cruzados aquelle espectáculo em perfeita immobilidade, de que unicamente saíra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se affastára, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertára a mão do idoso aio, trémula da idade, com a mão ainda mais trémula de colera. Na conta de pae o tinha; venerava-o como filho, e a idéa de o vêr prostituir os seus cabellos brancos aos pés de uma adultera o levára a esse movimento involuntario; involuntario, porque elle, naquella postura e naquella hora, não fazia mais que colligir todas as forças da alma para salvar a honra do nome de seus avós, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irmãos, e talvez mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de mão: duas lagrymas lhe cahiram pelas faces; mas obedeceu a elrei.
Só faltava D. Diniz, que continuára a ficar immovel. Houve um momento de silencio sepulchral na vasta sala, e este silencio era para todos indefinido, mas terrivel.
D. Fernando poz-se a olhar fito para seu irmão, enleiado, ao que parecia, em scismar profundo.
Pouco a pouco todos os fidalgos que povoavam aquella immensa quadra se poderiam crer petrificados como as columnas gothicas, que sustinham as voltas ponteagudas do tecto, se não fosse o respirar anciado e rapido que lhes fazia ranger sobre os peitos e hombros os seus ricos briaes[9].
Os labios d'elrei tremeram, como a superficie do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede immediatamente o tufão. Depois entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:
"Infante D. Diniz, beijae a mão á vossa rainha!"
Foi um só o volver de todos os olhos para o moço infante: o sussurro das respirações cessára.
D. Diniz não respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do throno, e olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo escarneo:
"Onde está aqui a rainha de Portugal?"
"Infante D. Diniz!—disse elrei, cujo rosto o furor mal reprimido demudára.—Soffredor e bom irmão tenho sido por largo tempo: não queiraes que seja hoje só juiz inflexível do filho querido daquelle que tambem me gerou! Infante D. Diniz! beijae a mão da mui nobre e virtuosa D. Leonor Telles, como fez vosso irmão mais velho, de quem devereis haver vergonha.[10]"
"Nunca um neto do D. Affonso do Salado—replicou o infante com apparenle tranquillidade—beijará a mão da que elrei seu irmào e senhor quer chamar rainha. Nunca D. Diniz de Portugal beijará a mão da mulher de João Lourenço da Cunha. Primeiro ella descera desse throno e virá ajoelhar a meus pés; que de reis venho eu, não ella."
"De joelhos, dom traidor!—gritou D. Fernando, pondo-se em pé e descendo dous degraus do estrado.—De joelhos, vil parceiro de reveis sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos peões de Lisboa, quebra-lo-heis diante de vosso rei: quebra-lo-heis, que vo-lo digo eu!"
D. Diniz viu então que todos seus passos estavam descobertos: achava-se por isso â borda de um abysmo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do heroe do Salado, e precipitou-se na voragem.
"Vil é a mulher barregan e adultera, e essa é ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adulterio no throno, e vós o fizestes, rei deshonrado e maldicto de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste logar é o vil e o traidor?"
O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabeça e deixou descahir os braços. Elle bem sabia que se seguia o morrer.
Apenas elrei se alevantára, D. Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarellidào da morte, tinha-se erguido tambem. Naquelle rosto, semelhante ao de uma estatua de sepulchro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontaes que se lhe vinham junctar entre os sobr' olhos.
Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Diniz, elrei soltára um destes rugidos de desesperação e colera humana, que nem o rugido da mais brava fera póde igualar; grito de ventriloquo, que é como o estridor de todas os fibras do coração que se despedaçam a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro gyro do instrumento do supplicio; rugido, grito, gemido, conglobados n'um só hiato, fundidos n'um som unico pela raiva, pelo odio, pela angustia: brado que só terá eccho pleno no bramido que ha-de soltar o reprobo quando no derradeiro juízo o julgador dos mundos lhe disser:—para ti as penas eternas.
O brado de D. Fernando fizera tremer os mais esforçados cavalleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.
Como um relampago elle tinha arrancado da cincta o agudo bulhâo, e com os olhos desvairados encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irmâo o esperara immovel, com a mâo sobre o peito, como se dissesse: aqui!
Mas D. Fernando nâo pôde offerecer nas aras do adulterio um fratricidio: uma barreira se tinha alevantado a seus pés. Era um velho de fronte calva, e de longas melenas brancas e desbastadas pelos annos: era aquelle que lhe fôra mais que pae, e que elle respeitava mais que a memória deste: era o seu alferes-mór, o venerável Ayras Gomes, que ajoelhado lhe clamava com vozes truncadas de soluços e lagrimas:
"Senhor! que é vosso irmão!"
"É um covarde traidor, que deve morrer! Irmão!? Mentes, velho! Elle já não o é!"
Á palavra—mentes!—um relampago de vermelhidão passou pelas faces cavadas do antigo cavalleiro: abaixou os olhos, e correu-os pela espada. Fôra esta a primeira vez que ella ficára na bainha depois de tão funda affronta. Mas aquelle era o momento dos grandes sacrificios. Ayras Gomes replicou, alimpando as lagrymas:
"Nunca vos menti, senhor, nem quando ereis na puericia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou innocente, D. Diniz é filho de meu bom senhor D. Pedro. A vosso pae servi com lealdade; por vós já me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavalleiros de Portugal: elle é que não tem um só. Senhor rei, ficae certo de que para assassinar vosso irmão vos é mister passar por cima do cadaver de vosso segundo pae."
Atalhado assim o primeiro impeto, o caracter do moço monarcha revelou-se inteiro neste momento. Commoveu-o a postura do venerando ancião, que pela primeira vez via a seus pés; e com a irresolução pintada nos olhos fitou-os em Leonor Telles.
Por uma reflexão instantânea a hyena previra que o sangue derramado pelo fratricida não cahiria sómente sobre a cabeça deste, mas também sobre a della. Naquelle rosto, então semelhante ao de uma estatua, D. Fernando não pôde ler a sentença do infante, bem que lá no fundo do coração ella estivesse escripta com sangue.
Entretanto os cortezãos, que no furor rompente d'elrei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacillar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se também entre D. Diniz e elrei, quando este arrancára o punhal, parára ao ver a heróica resolução do alferes-mór; mas ao hesitar de D. Fernando corrêra a abraçar-se com o seu pupillo, que, no meio de tantos animos agitados por paixões diversas, era quem unicamente parecia tranquillo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.
Finalmente elrei metteu vagarosamente o punhal no cincto, e com voz pausada, mas trémula e presa, disse:
"Que esse malaventurado sáia d'ante mim."
O tom com que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o animo de D. Diniz, cujo coração antes d'isso parecêra de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de agua. Sentira que até então era uma cólera cega, repentina, insensata, que o ameaçava: agora, porém, no modo e na expressão de D. Fernando vira claramente que era um amor de irmão que expirára.
Com a cabeça pendida em cima do hombro de Gil Vasques de Resende saiu do aposento.
Era talvez o velho o unico amigo que lhe restava no mundo.
D. Leonor levou ambas as mãos ao rosto, e via-se-lhe arquejar o collo formoso por mal contido suspiro.
"Coração compadecido e generoso!—pensou lá comsigo o alferes-mór, que havia pouco a tractára pela primeira vez.
"Hora maldicta e negra, em que perdi metade de minha tão esperada vingança!—pensava Leonor Telles, e o chôro rebentou-lhe com violencia.
"Não te afllijas, Leonor:—disse D. Fernando, apertando-a ao peito.—Que nunca mais eu o veja, e viva, se podér, em paz!"
Mas as lagrymas correram ainda com mais abundancia e amargura.
O resto daquelle dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosphera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que era pesado e mortal, que resfriava todos os corações.
Á meia noite, por um claro luar de ceo limpo de inverno, uma barca subia com difficuldade a corrente rapida do Douro: à pôpa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dous cavalleiros que ahi iam assentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava ama cantiga melancholica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:
Mortos me sào padre e madre: Eu tamanino fiquei. Irmãos meus mal me quizeram: Eu mal não lhes quererei.
Vou-me correr esse mundo: Sabe Deus se o correrei! A alma deixo-a cá presa; O corpo só levarei.
De meus avós nos solares Nasci: dous dias passei: Meus irmãos, nada vos tenho, Senão o nome que herdei.
Esta cantiga, cuja toada monotona repercutia nos rocbedos aprumados das margens, foi interrompida por um doloroso suspiro. Um dos cavalleiros o déra.
Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais ancia, e depois continuaram:
Se fui rico, ora sou pobre: Choro hoje, se já folguei: Villas troquei por desvios: Muito fui: nada serei.
Sem padre, madre, ou irmãos, A quem me soccorrerei? A ti, meu Senhor Jesus: Senhor Jesus me accorrei!
Um gemido mnis angustiado, que saíu involto em soluços, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que já a interrompêra. O seu companheiro bradou aos barqueiros com a voz trémula e cansada de um ancião:
"Calae-vos ahi com vossas trovas maldictas!"
Os remeiros vogaram em silencio; mas pensaram lá comsigo que muito damnadas deviam ser as almas de cavalleiros que assim maldiziam tão devoto trovar.
Repararam, porém, que dos dous desconhecidos, o que suspirára e gemêra lançára os braços ao pescoço do que falára, e que este, affagando-o, lhe dizia:
"Quando todos, senhor, vos abandonarem não vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos creei, e á esclarecida e sancta memoria de vosso virtuoso pae."
Então os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que não fossem duas almas damnadas aquellas, mas sim malaventuradas.
[1] Conde D. Pedro, tit. dos Viegas. Cunha, Cat. dos Bispos do Porto, part. 1.ª pag. 15.
[2] E fezerom mui ápressa hua grande praça ante S. Domingos e a rua do Souto, que era entom todo ortas. F. Lopes, Chr. de D. João I, P. 2. c. 96.—Isto era poucos annos depois da epocha de que vamos falando.
[3] A 25 de setembro de 1371, em Santarem, fez elrei mercê a Diogo Lopes Pacheco da terra de Trancoso para que a haja e tenha em pagamento da sua quantia. Chancell d'elrei D. Fernando L. l. f. 84.
[4] Este bispo D. Affonso era ainda o mesmo a quem elrei D. Pedro, dizem, quizera açoutar por sua própria mão em consequencia de elle haver commettido adulterio com a mulher de um honrado cidadão, historia miudamente narrada por Fernão Lopes chronica daquelle rei, e que nós não sabemos dizer até que ponto seja verdadeira. D. Rodrigo da Cunha, suppõe que o bispo, corrido desta aventura, escandalosa não pelo delicto, trivialissimo no clero daquelle tempo, mas pelo ameaçado castigo, cousa inaudita antes e depois de D. Pedro, saíra do bispado e nunca mais voltára ao Porto, posto que ainda vivesse pelo menos até maio de 1732, como se vê do catalogo chronologico dos bispos portuguezes, por J. P. Ribeiro. Esta opinião, que assenta n'um argumento negativo—a falta de noticias desse prelado nos documentos consultados por D. Rodrigo da Cunha, posteriores aos eminentes açoutes—é desmentida pelo testemunho de Fernão Lopes, no cap. 49 da chronica de D. Fernando, que fez presente D. Affonso á renovação das pazes d'Alcoutim, juradas no Porto em 1371. É por isso que, apesar de Cunha, nos pareceu natural fazer abençoar por um bispo, que se pinta como manchado de adulterio, um casamento adultero.
[5] Sobre esta antiga topographia vejam-se as inquirições dos annos de 1268 e 1348 nas Memorias das Inquirições pag. 45 nota 2, e Dissert. Chr. e Crit. tom. 5.º pag. 292 e segg.
[6] Ácerca de semelhante usança veja-se F. Lopes. Chr. de D. João I, P. 2ª c. 96.
[7] Na supposta divisão dos bispados, attribuida ao rei Godo Wamba, dá-se ao Porto o nome de Festabole.
[8] Em grande parte extrahido quasi textualmente da Carta d'Arrhas de Leonor Telles, datada de Eixo aos 5 de Janeiro de era de 1410 (1372).
[9] O brial era uma especie de camisola que os cavalleiros vestiam sobre as armas, e por cima da qual apertaram o cincto da espada. Tambem o vestiam sobre os pannos interiores quando andavam desarmados. O seu uso durou por toda a idade media, e era ainda lembrado nos fins do seculo decimo-sexto, em que o auctor, ou traductor, do Palmeirim d'Inglaterra tantas vezes o menciona. Nas leis sumptuarias de Alfonso IV não se tracta é verdade de tal vestido; mas a razão d'isso é obvia: o brial era trajo militar, e aquellas leis versam sobre o vestuario civil. Na ordenação affonsina L. 1.°, til. 63, § 21, se manda cingir a espada ao movel sobre o brial. O diccionario de Moraes affirma que o brial era o manto dos cavalleiros: é um dos bastos destemperos daquella babel da lingua portugueza. Eis o que diz o auctor do poema do Cid, escripto no meiado do seculo decimo-segundo, falando no brial. (Sanches Pocs. Cast. ant. al siglo 15.° t. 1.° pag. 347.)
Vistió camisu de ranzal tan blanca como el sol . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sobre ella un brial primo de ciclaton
. . . . . . . . . . . . . . Sobre esto una piel bermeia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . De suso cubrió un manto que es de grant valor.
[10] Dizendo elrei sanhudamente coulra elle: "Que non avia vergonça nenhuuma, beijarem a mão aa Rainha sua molher o Infante Dom Joham, que era moor que elle, e isso mesmo seu irmaão, e todollos outros lidallgos do reino, e el soomente dizer que lha nom beijaria, mas que lha beijasse ella a elle." Fern. Lopes, Chr. d'elrei D. Fern cap. 62.
JURAMENTO—PAGAMENTO.
Passára mais de um anno depois do casamento d'elrei. Este casamento, que explicava o repudio da infanta de Castella, não bastára em verdade para accender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando já de algum modo previsto nos capitulos addicionaes do tractado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante offensa devia gerar no animo do rei castelhano não fosse assás forte para servir de fermento a futuras guerras, D. Fernando suscitára novos motivos de sérias desavenças, que não particularisaremos aqui, por não virem a nosso intento. Baste saber que, depois de inuteis mensagens e queixas, D. Henrique de Castella, entrando subitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessára rapidamente a Beira, passára juncto aos muros de Coimbra, onde se achava D. Leonor Telles, e vindo offerecer batalha a elrei D. Fernando, que estava em Santarem, e que não acceitou o combate, se encaminhára para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tiveram tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de Affonso III, de cujas torres e adaves viram os castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o arrabalde, sem lhes poderem pôr obstaculo. No meio deste apertado cêrco, desamparados d'el-rei, que apenas lhes enviára alguns de seus cavalleiros, os moradores de Lisboa não tinham desanimado. Com varia fortuna haviam resistido aos commettimentos dos castelhanos, e o que mais duro era de soffrer, á fome, á sede, e até ao receio de traições de seus naturaes. Finalmente D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu affastar dos seus muros o exercito d'elrei de Castella, que a tivera sitiada durante quasi dous mezes.
Era nos fins de maio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de primavera. O ar eslava tepido e o céu limpo. Pelos campos e valles via-se verdejar a relva; a madresilva, e as rosas bravias, enredadas pelos vallados, embalsamavam a atmosphera. Mas estes eram os unicos signaes que nos arredores de Lisboa revelavam aquella estação suave no seu clima suavissimo. Tudo o mais contrastava horrivelmente com elles. Os extensos e bastos olivedos, que nessas eras a rodeavam, jaziam decepados em terra, como se por alli tivesse passado fouce gigante meneada por braço de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas resecadas antes de tempo, ou ennegrecidas pelo fogo, assimilhando-se a gandra coberta de urzes, que foi desbravada por fins d'outono. As vastas hortas, que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos pés dos cavallos, estavam incultas e abandonadas. Mas sobre este mal assombrado e triste chão do painel, mais melancholica e afflictiva avultava ainda a figura principal, a cidade.
O populoso bairro chamado o arrabalde, onde d'antes era contínuo o ruído discorde de tracto immeriso, achava-se convertido em um montão de ruinas. Para o lado do sul e poente não se viam desde os antigos muros (cujo perimetro pouco mais cercava do que o castello e o bairro a que hoje damos geralmente o nome d'Alfama) senão edificios queimados, ruas entulhadas, praças desfeitas, vestigios do sangue, peças de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lanças e de espadas, e aqui e acolá cadáveres fétidos, não só de cavallos, mas também de homens, cujas carnes, meias devoradas pelos cães ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos appareciam como phantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado ás chammas e ao inimigo; e juncto ás paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depennavam as barbas â roda dos rahbis, que recitavam em tom de pranto os versiculos hebraicos dos Threnos.
Por meio deste vasto quadro de assolação rompia uma numerosa companhia de cavalleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzellas e pagens, brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Antão para S. Domingos, e tomava pela corredoura para a porta do ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras athleticas e os rostos varonis dos cavalleiros, o brunido das armas, o loução dos trajos, o rico dos arreios, tudo emfim dava clara mostra de que naquella cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os dictos galantes o agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corcéis briosos e dos delicados palafrens, as doudices dos donzeis, que ora correndo á rédea solta, ora soffreando os cavallos ao perpassar pelas mulas pacificas dos cortezãos letrados, os faziam vacillar e debruçar sobre os arções, o bater das asas dos nebris e girifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e allãos, que atrellados forcejavam por se atirarem acima daquelles centenares de habitações derrocadas, d'onde saía de vez em quando uma exhalacâo de carniça: este rir, este folgar, este ruído do contentamento, este matiz de reflexos metallicos, de côres variegadas, passando como um turbilhão através daquelle silencio sepulchral, parecia rasgar o veu de tristeza que cobria a vasta área da cidade destruida, e revoca-la a uma nova existencia.
Mas o povo, apesar d'isso, continuava a estar triste.
A cavalgada chegou ao terreiro da sé. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio delle, e os grossos madeiros de que era construído viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama, que vinha na frente da comitiva, parou: um cavalleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou tambem. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavalleiro, e depois desatou a rir.
Era ella a mui nobre e virtuosa minha D. Leonor: elle o mui excellente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.
D. Leonor Telles tinha razão para rir.
Durante o cêrco de Lisboa uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhára de que vários moradores da cidade estavam preitejados com elrei de Castella para lhe abrirem uma das portas. Dava força a taes suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Diniz, que com elle se haviam ajunctado na sua entrada em Portugal, e as desconfianças recahiam naturalmente sobre aquelles que dous annos antes tinham seguido o partido contrario a D. Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Affonso IV eram cabeças. Assim a popularidade dos parciaes de D. Diniz tinha diminuido consideravelmente, porque o povo, em vez de attribuir a sua ruina ás causas remotas, ás paixões insensatas de D. Leonor e á imprudencia d'elrei, só nas suggestòes de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o odio que contra os dous havia concebido se estendêra a todos os que cria serem-lhes affeiçoados.
Apenas, portanto, se divulgou a noticia da intentada traição, o povo furioso correu ás moradas daquelles, que, como fica dicto, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de cannibaes, festa de vulgacho em qualquer tempo e logar que elle reine. Aquelles que não poderam provar de modo innegavel a sua innocencia, foram mettidos aos mais crueis tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgraçado, contra o qual eram mais vehementes as desconfianças, foi arrastado pelas ruas e feito depois em pedaços: "outro—diz o chronísta[1]—tomarom e pozerom-no na fumda d'huum engenho, que estava armado ante a porta da see; e quando desfechou lançono em cima dessa egreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na fumda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida."
Era por isso que D. Leonor olhára para o engenho, e se ríra. O próprio povo tinha pagado uma parte das arrhas do seu casamento.
A noite descêra entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e á luz de muitas tochas parte daquella multidão escoou-se pouco a pouco por diversas ruas, emquanto outra parte subia á sala principal, ou se derramava pelos aposentos dos paços, cujo silencio de quasi dous annos, depois du fuga d'elrei com D. Leonor Telles, era a primera vez interrompido pelo ruido de uma côrte numerosa, mas bem differente da antiga. A rainha havia quasi exclusivamente chamado a ella os seus parentes, ou aquelles fidalgos que lhe tinham dado provas não equivocas de sincero affeiçcão e substituíra á severidade antiga do paço todo brilho de um luxo insensato, e o que mais era, a dissoluçao dos costumes, que quasi sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia esplendida, como o devia ser nesta côrte voluptuaria, apenas ficára na camara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcellos D. Joâo, D. Gonçalo Telles, irmão de D. Leonor e um donzel da rainha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital Alvaro Gonçalves Pereira, e que ella mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde dous annos antes o beguino Fr. Roy viera revelar á então amante de D. Fernando os intentos de seus inimigos. Era deste aposento que ella saíra fugitiva e amaldicçoada do povo. Mas era ahi também que ella vinha depois de tantos sustos, de tantas difficuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triumphadora, segura já na fronte a corôa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que em parte eram diversas e em diversa situação.
Elrei, habitualmente alegre, se assentára triste na cadeira de espaldas, unico movel do aposento, e encostára a cabeça sobre o punho cerrado: D. Leonor, posto que naturalmente loquaz[2], assentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se tambem em silencio: em pé, um pouco atraz da cadeira d'elrei, o donzel querido de D. Leonor, com os olhos fitos nella, esperava attento as determinações de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.
Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principaes tinha bem differentes motivos.
A imagem da sua capital destruida havia-se embebido na alma d'elrei como um remorso cruel. Pelas suggestões de seu tio adoptivo consentíra que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Elle, neto de Affonso IV, rejeitára os soccorros de seus valorosos vassallos, que de toda a parte haviam corrido, lança em punho, para combaterem debaixo da signa real, ao esvoaçar dos pendões inimigos: elle, cavalleiro, fôra vil instrumento de vingança covarde: elle, rei de Portugal, fôra o destruidor do seu povo; elle, portuguez, recebêra o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a affronta[3]! Estas idéas, que o tinham assaltado ao atravessar as ruinas dos arrabaldes, tomavam maior vulto e força na solidão e no silencio. O pobre monarcha, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja razão de estar triste. A lua, que começava a subir, dava de chapa, através da janella oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dous annos antes, quasi a essa hora, lhe allumiára tambem as faces demudadas de afflicção. Este logar, esta luz, e esta hora eram para elle fataes!
Nesse momento passos mais rapidos e mais pesados que os dos dous fidalgos começaram a soar na sala contigua: quem quer que era passeava também.
Dos olhos de D. Fernando saíam dous tenues reflexos; eram os raios da lua que se espelhavam em duas lagrymas.
A raínha, alevantando-se então, disse ao donzel:
"Nunalvares Pereira, vêde quem está nessa sala."
Nunalvares abriu a porta, e alongando a cabeça voltou-se immediatamente, e disse:
"O corregedor da côrte."
Os dous fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se, e conservaram-se immoveis.
A rainha fez signal com a mão a Nunalvares para que esperasse: o donzel ficou á porta sem pestanejar.
D. Leonor encaminhou-se então para elrei, que, embebido no seu profundo scismar, não víra nem ouvíra o que se fazia ou dizia. Curvando-se, e firmando o cotovello no braço da cadeira d'elrei encostou a cabeça sobre o hombro delle, com a face unida á sua.
"Que tens tu, Fernando?—perguntou ella com essa inflexão de voz meiga, que só sabem labios de esposa que muito ama, mas com que tambem soubera atinar esta mulher sublime de hypocrisia.
"Nada! oh … nada!"—respondeu elrei, lançando-lhe o braço ao redor do pescoço, e apertando a face incendiada aquelle rosto de anjo, que dissimulava um coração de demonio.
Os dous tenues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o halito de Leonor Telles queimára as lagrymas da compaixão e do remorso.
"Enganas-me, ou enganas-te a ti proprio, Fernando!—replicou a rainha.—Tu és infeliz, e eu sei porque o és. Aborreces já a pobre Leonor Telles."
O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um coração de marmore.
"Enlouqueceste, Leonor?—exclamou el-rei.—Aborrecer-te? Sem ti este mundo fôra para mim um ermo, a corôa martyrio, a vida maldicção de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-hei ainda. Gloria, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei: não me pêsa. Mil vezes que tu o queiras t'o sacrificarei de novo."
"Oh, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu!"
"Busca, inventa, aponta-me algum modo de te provar o que digo, e verás se as minhas palavras são sinceras!"
"Ha um, rei de Portugal!"—replicou Leonor Telles, em cujos olhos scintillava o contentamento.
Dizendo isto ella se affastára d'elrei. O seu aspecto tomou subitamente a expressão grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nunalvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da côrte entrou. Trazia na mão um pergaminho aberto. Chegou ao pé de Leonor Telles, ajoelhou e entregou-lh'o.
A rainha pegou nelle, e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos angulos do aposento, e collocou-se á esquerda da cadeira de D. Fernando.
"A prova do que dissestes, rei de Portugal, está em estampardes no fim desse pergaminho o vosso sello de puridade.[4]"
D. Fernando recebeu o pergaminho e começou a ler: a cada uma das extensas linhas que o obrigavam a descrever um semi-circulo com o raio visual, o tremor das suas mãos se tornava mais violento, as contracções do seu rosto mais profundas. Antes de acabar de ler atirou o pergaminho ao chão, e com voz terrível exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Telles:
"Mulher, que me pedes tu?"
"Justiça, e as minhas arrhas."
Era a primeira vez que elrei ousava resistir á vontade de Leonor Telles. Ella ainda não o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarcha, estas ultimas palavras foram proferidas com a insolencia de uma resolução incontrastavel.
"Justiça? Contra quem a pedes? Contra cadaveres e moribundos. As tuas arrhas? Tiveste em dote as mais formosas villas de meus senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arrhas de sangue e ruinas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor d'inimigos: para te contentar, fui vil e fraco: para te contentar, dos patibulos já têm pendido sobejos cadaveres[5]. E ainda não satisfeita, pretendes que antes de dormir uma unica noite na minha capital assolada, confirme uma sentença de morte? Leonor! tu eras digna de ser filha de meu implacavel pae!"
D. Leonor repellíra o olhar, entre colerico e timido, de Fernando, que mal acreditava a própria audacia, com um olhar em que se misturava a indignação e o despreso. Ella ouvira as suas palavras sem mudar de aspecto, mas apenas elrei acabou, encaminhou-se para a janella d'onde batia o luar, e estendeu a mão para o céu:
"Ha dous annos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavalleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher póde ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo céu, pelos ossos de seus avós, pela sua fé de cavalleiro—e o cavalleiro mentiu. As bôcas de homens vis vomitavam contra essa mulher, e a essa mesma hora, os nomes de adultera, de barregan, de prostituta, e pediam a sua morte. O cavalleiro sabia que taes affrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu não as lava um dia. O cavalleiro ofereceu a sua alma aos demonios se não as lavasse com sangue—e esse cavalleiro blasphemou e mentiu. Senhor rei, diante do céu que elle invocou, perto dos ossos de seus avós, pelos quaes jurou, á luz da lua que o allumiava, dir-vos-hei: aquelle cavalleiro foi perjuro, blasphemo, desleal e covarde, e eu a sua victima. É contra elle que ora vos peço justiça. Rei do Portugal, justiça!"
Esta ultima palavra restrugiu horrivelmente pelo aposento. Elrei, que durante o discurso de D. Leonor se erguêra pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diabolico e pelo seu olhar fulminante, cahiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgraçado cobriu a cara com ambas as mãos, e depois de um momento de silencio murmurou:
"Mas como punir aquelles que talvez são cadaveres? A guerra e a furia popular os puniram!"
D. Leonor trinmphára.
"Nem todos:—proseguíu a astuta e sanguinária panthera, accommettendo o ultimo entrincheiramento, em que D. Fernando já debalde procurava defender-se.—Os seus mais vis inimigos ainda respiram, e porventura, ainda sonham vingança. Corregedor da côrte, lêde os nomes escriptos em vossa sentença."
O corregedor da côrte levantou o pergaminho, affastando-o dos olhos, e interpondo a mão aberta entre estes e a tocha que Nunalvares segurava: tossiu duas vezes, inclinou para traz a cabeça, e com o tom cheio e solemne de um mestre em degredos, leu:
"Item: Fernào Vaasques, peom, alfayate, cabeça e propoedor dos ssusodictos rreveis."—Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou a sua ementa particular, e leu a seguinte cota:
"Vivo; muy malferido dhuùa ffrechada com hera[6] no ffecto do meirinho-moor, quando hos da cidade llevarom os castellãos de vencida atá mêa rrua nova."
Lida esta observação, o corregedor continuou a ler successivamente os nomes dos réus e as respectivas cotas.
"Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, pcom, capitão dhuù corpo dos ssusodictos rreveis."—Dizia a ementa:—"Morto de ssua door naturall.
"Item: Bertolameu Martijs, ourivez, peom, dizidor de pallavras de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria, e de grão ssamdice e desavergonhamento."—Dizia a ementa:—"Morto dhuùa pedrada dhuù emgenho dos imiguos."
"Item: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do allcayde moor que ffoy do caslello desta lyal cidade, capitão dos beesteiros que fforom a Ssam domingos."—Dizia a cota:—"Foy cativo dhos castellãos: dado em rrendiçom, e a boõrrequado na pryssom Dalcaçova."
"Item: Bertolameu Chambão, peom, tanoeiro, cabeça da beestaria do concelho, deputado, pera ffazer vilto e affronta a ssua rreal ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes, rrainha dona llyanor."—Resava a ementa:—"Morto dhuùa lamçada aa porta dho fferro."
"Item: Ayras Gil, petintal, capitão dos rreveis, gualiotes, arraizes, e pesquadores Dalfama."—Dizia a cota:—"Ffogido com os castellaõs."
"Item: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de sseu officio, bevedo, assoalhador de palavras e dictos devedados, e scuita dhos reveis."—Notava a ementa:—"Enssandeçeu na pryssom ao lleer da ssemtemça."
Pobre Fr. Roy! Vendo-se condemnado á morte, desesperado, revelára o que tinha sido na revolta—um espia de Leonor Telles. A cota da ementa fôra tudo o que tirára das suas revelações: o corregedor, homem agudo como o melhor mestre em leis ou degredos, deduzira das suas palavras que o beguino endoudecêra. Trocava as idéas. Tinha sido espia, mas dos revoltosos.
Alevantado o cêrco da Lisboa, o corregedor da côrte fôra o primeiro presente que a nova rainha enviára á cidade. Áquelle perspicaz e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar um sarau digno della, uma sentença de morte. A prova da sua perspicacia e diligencia estava em ter já no caminho da forca os desgraçados, cuja sentença vinha trazer confirmação real. N'uma execução nocturna não havia a receiar tumultos populares, e a brevidade que a rainha lhe recommendára neste negocio, lhe fazia crer que não seria desagradavel a sua real senhoria a immediata execução dos réus.
Quando acabou a leitura, elrei tirou da bolça que trazia ao cindo o sêllo de camafeu, e sem dizer palavra entregou-o ao corregedor. Este pegou na tocha de Nunalvares, deixou cahir alguns pingos de cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento de papel que tirára da ementa, e cravou neste o sêllo. As armas d'elrei ficaram ahi estampadas. O corregedor fizera isto com a promptidào e aceio com que o mais habil algoz enforcaria o seu proximo.
Depois o honesto magistrado entregou o sêllo a elrei, cujo tremor nervoso se renovára durante a fatal ceremonia. Ao pegar-lhe, o pobre monarcha deixou-o cahir no chão. O sêllo foi rolando e parou aos pés de D. Leonor Telles. Ella empallideceu. Porquê? Talvez se lhe figurou uma cabeça humana, que rolava diante delia.
O corregedor fez uma profunda venia, e perguntou em voz sumida á rainha:
"Quando, senhora?"
No mesmo tom D. Leonor respondeu:
"Já."
O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O já da seria mais já do que ella propria pensava.
O corregedor saíu.
A um aceno de D. Leonor, o donzel metteu a tocha no annel de ferro embebido na parede, d'onde a tinha tirado, e encaminhou-se para juncto da porta, onde ficou com os braços cruzados, olhos no chão, e immovel como uma estatua. Desde este dia o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquella que lhe cingira a espada. O generoso Nunalvares conhecêra que debaixo desse rosto suave se escondia um instincto de besta-fera.
Os dous fidalgos continuaram a passeiar de um para outro lado, conversando em voz baixa e como alheios á scena que alli se passava.
Elrei tomára a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no braço da cadeira, e a cabeça encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas orbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa alienação daquella alma timida, atormentada por mil affectos oppostos.
Ouvia-se apenas o cicío dos dous que conversavam. E por largo espaço aquetle murmurio, e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o unico ruído que interrompeu o silencio do vasto aposento.
Elrei, com a mão esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das idéas tenebrosas que lhe offuscavam o espirito, e que protrahidas o levariam bem proximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Telles apparecia-lhe como composto monstruoso de vulto d'anjo e de olhar de demonio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror affastava-o della. Via-a como um simulachro das virgens, que, na infancia, imaginava ao ouvir ler ao bom de seu aio Ayras Gomes as lendas das martyres; mas logo cuidava ouvi-la dar risada, infernal passando por cima das ruinas de cidade deserta. O patibulo e os delirios amorosos; o cheiro do sangue e o halito dos banquetes misturavam-se-lhe no senso intimo: e o pobre monarcha, nos seus desvarios, perdêra a consciencia do logar, da hora e da situação em que se achava naquelle terrivel momento.
Mas um beijo ardente, dado nessa mão que tinha estendida, e lagrymas ainda mais ardentes que a regavam foram como faisca electrica revocando-o á razão e á realidade da vida.
A commoçào indizivel e mysteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus pés: era ella quem lhe cobria a mão de beijos e lh'a regava de lagrymas.
D. Fernando affastou-a suavemente de si: ella alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era de feito a imagem de uma das martyres que elle via no seu imaginar da infância. D. Leonor ergueu as mãos supplicantes com um gesto de profunda angustia: então era mais formosa que ellas.
"Ah!"—murmurou elrei:—"porque é o teu coração implacavel, ou porque te amei eu tanto?!"
"Desgraçada de mim!—acudiu D. Leonor entre soluços.—O teu amor era como o iris do céu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperança; mas desvaneceu-se e passou: a vida de Leonor Telles desvanecer-se-ha e passará com elle!"
"É porque sabes que esse amor não póde perecer; que esse amor como um fado escripto lá em cima—interrompeu D. Fernando—que tu me fazes tingir as mãos de sangue, para satisfazer tuas crueis vinganças: é porque sabes que eu esgóto sempre o calix das ignominias quando as tuas mãos m'o apresentam, que tu me sacias de deshonra. Terás acaso algum dia piedade daquelle que fizeste teu servo, e que não póde esquivar-se a ser tua victima?"
"Oh quanto és injusto, Fernando, e quão mal me conheces!—exclamou Leonor Telles limpando as lagrymas.—Foi a tua dignidade real, a tua justiça, o teu nome que eu quiz salvar da tua propria brandura. Aos mesquinhos que me offenderam perdoei de todo o coração; mas tu, que eras rei e juiz, nào o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pae ainda hoje lembra a todos com veneração e amor, é porque teu pae foi implacavel contra os criminosos, e aquillo em que pões a deshonra e a ignominia, é a coroa de gloria immortal que cérca o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirmação dessa fatal sentença e a deslealdade e blasphemia, que não cabem em coração e labios de cavalleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se crês que nisto fui culpada, dize-me só—Leonor, já não te amo!—e eu ficarei punida; porque nessas palavras estará escripta a minha sentença de morte! Possas tu depois perdoar-me, e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma expressão de piedade!"
As lagrymas e os soluços parecia não a deixarem proseguir. Reclinou a cabeça sobre os joelhos d'elrei, apertando-lhe a mão entre as suas com um movimento convulso.
Formosa, querida, humilhada a seus pés, como resistiria o pobre monarcha? Unindo a face áquella fronte divina, só lhe disse:—oh Leonor, Leonor!—e as suas lagrymas misturavam-se com as della.
Durante esta lucta da dor e da hypocrisia, em que, como sempre acontece, a ultima triumphava, o conde de Barcellos e D. Gonçalo Telles tinham-se encostado á janella fatal que dava para o rio, e que tambem dominava grande porção do arrabalde occidental da cidade. O espectaculo da noite era de melancholica magnificencia.
A lua caminhava nos céus limpos do nuvens, e pela face da terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas aguas, mas esmorecia batendo na povoação, na qual não achava, além dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva onde espelhar-se, ou um sussurro do lesta acorde com as suas harmonias. O incendio e o ferro tinham passado por lá, e Lisboa era um cahos de ruinas, um cemiterio sem lapides. Apenas no extremo do seu, d'antes, mais rico e povoado arrabalde amarelejava pulido pelo tempo o gothico mosteiro de S. Francisco juncto de sua irman mais velha a igreja dos Martyres. No valle que ficava em meio a luz do cima embebia-se inutilmente na povoação que jazia extincta. A bella lua de maio, tão fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se á leôa, que voltando ao antro acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indifferente, e frio, não o crê, e vae, e volta muitas vezes renovando seus inuteis affagos. Lisboa era um cadaver, e a lua passava e sorria-lhe ainda!
Mas no meio daquelle; chão irregular, negro, callado, viam-se aqui e acolá luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as reliquias dos mortos, para lhes darem sepultura christan. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo, que para se esforçarem cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham com triste som bater de vez em quando nos ouvidos dos dous cavalleiros. Resavam as coplas:
D'amigos e imigos, Que ahi são deitados, Levemos os ossos Ao chão dos finados. Ave Maria! Sancta Maria!
Madre gloriosa, Dess'alta ventura Demovei os olhos Á nossa tristura. Ave Maria! Sancta Maria!
Ao bento Jesus, E ao padre eternal Pedi que perdoe A quem morreu mal. Ave Maria! Sancta Maria!
Esta longinqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dous cavalleiros. Uma voz esganiçada dava o seguinte pregão:
"….Justiça que manda fazer elrei em Fernão Vasques, João Lobeira e Fr. Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as mãos decepadas em vida."
Os cavalleiros abaixaram os olhos para o logar d'onde subíra a voz: era no terreiro proximo: os três padecentes e o algoz, cercados de alguns bésteiros, aproximavam-se do cadafalso: varios vultos negros fechavam o prestito: daquella pinha partira a voz do pregoeiro.
Este pregão, dado a horas mortas e n'uma praça deserta, parecia um escarneo. Mas o corregedor da côrte era affamado jurisconsulto e nós temos ouvido a alguns que na execução das leis as fórmas são tudo. Assim piamente o cremos.
Duas se tinham, porém, esquecido: os desgraçados morriam, como aquelles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.
O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma especie de marco escuro que estava ao pé do patibulo. D'ahi a nada os cavalleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram successivamente dois golpes dados como em vão, seguindo-se a cada um delles um grito de terrivel angustia.
O conde de Barcellos quiz rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gonçalo Telles, recuou involuntariamente.
O grilo que restrugira, chegára aos ouvidos d'elrei.
"Que bradar de homem que matam é este?—perguntou elle.
"A justiça de sua senhoria que se executa—respondeu o conde, que neste momento retrocedia da janella.
"Oh desgraçados! tão breve!—disse elrei, passando a mão pela fronte, d'onde manava o suor da afflicção e do terror. Olhando então para Leonor Telles accrescentou:
"Até a derradeira mealha estão pagas vossas arrhas, rainha de Portugal! Que mais pretendeis de mim?"
E deixou pender a cabeça sobre o peito.
D. Leonor não respondeu.
D. Gonçalo Telles aproximou-se então da cadeira de D. Fernando, e curvou um joelho em terra.
Elrei alevantou os olhos e perguntou-lhe:—Que me quereis?"
"Senhor—respondeu o honrado e nobre cavalleiro—se vossa senhoria consentisse neste momento em ouvir a supplica de um dos seus mais leaes vassallos!…"
"Falae:—replicou D. Fernando.
"João de Lobeira acaba de receber o premio de sua traição:—proseguiu D. Gonçalo.—O desleal escudeiro possuia avultados bens, que ficam pertencendo á corôa real. Por vossa muita piedade podeis fazer mercê delles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre moço ensandeceu ha tempos! Tresleu com livros de cavallarias, e tão varrido está que não fala em al, senão em um que anda imaginando, e a que poz o nome Amadis. Para um mesquinho parvo e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha escassa quantia mal chega …"
"Calae-vos, calae-vos; que isso é negro e vil;—bradou elrei, redobrando-lbo o horror que tinha pintado no rosto.—Deixae ao menos que a sua alma chegue perante o throno de Deus!"
"Apenas cincoenta maravedis!"—murmurou D. Gonçalo, erguendo-se, e abaixando os olhos, afflicto com a lembrança de sua extremada pobreza.
A seis de junho da era de Cesar de 1411 (1373) em um dos andares da torre do castello, o veador da chancellaria, Alvaro Pires, passeando de um para outro lado, dictava a um mancebo vestido de garnacha preta, e que tinha diante de si tinteiro, pennas, e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota:
"Item. Pera se spreuer a fl'olhas cento e vinte-oyto do llivro prymeyro da Chancelaria Delrrey noso senhor:—Doaçom dos bees de rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor contra ho serviço de ssua rreal senhoria, ao muy nobre D. Gonçaalo Tellez, per ho muyito divedo que cõ elrrey ha, e polos muytos sserviços que del teè rreçebido e ao deante espera de rreçeber.[7]"
E o povo?… Oh, este sim! Mostrava-se agradecido e bom, no meio de tantas infamias e crimes.
Os populares, que, na manhan immediata áquella horrivel noite dos fins de maio, passavam pello terreiro maldict, onde pendiam da forca os tres cadaveres, meneavam a cabeça, e seguindo ávante diziam:
"Boa e prestes foi a justiça d'elrei nos traidores. Alcacer por sua senhoria!"
NOTA FINAL.
D. Fernando guardou até á primavera de 73 a vingança contra os populares de Lisboa e d'outras terras, que no anno de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. Vê-se isto dos documentos registados na sua chancellaria e citados por Fr. Manuel dos Sanctos. Quem attentamente tiver estudado o caracter atroz e dissimulado de Leonor Telles, tão bem pintado por Fernão Lopes, e os factos que provam a sua influencia sem limites no animo daquelle principe, não poderá esquivar-se a vehementes suspeitas sobre os motivps, que n'um romance nós damos como reaes, porque ahi é licito faze-lo, da, aliás inexplicavel, inacção com que D. Fernando não quiz oppor-se á vinda d'elrei de Castella sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros, e que converteu a cidade, por assim dizer, em um montão de ruinas. Daquelles documentos resulta que, depois de tirada toda a força aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castella, em que se viram quasi sós e abandonados, elrei viera, sobre as ruinas da maior e melhor parte della, satisfazer os odios de D. Leonor; porque, levantado o cerco em março de 73, achâmos elrei em Lisboa (aonde não voltára desde a sua fuga em outono de 71) durante alguns dias de maio, e em Santarem e outros logares nos mezes seguintes, fazendo mercês dos bens de cidadãos mortos, decepados, ou fugidos, do que se póde concluir que então foram executados ou banidos, não sendo de crer que a cobiça cortezan tivesse esporado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos.
O casamento de Leonor Telles, e as consequencias delle são o primeiro acto do drama terrivel, da Iliada scelerun da sua vida politica. Foi este primeiro acto que nós procurámos dispor na tela do romance historico. Todo o drama daria, nessa fórma da arte, uma terrivel chronica. Desde esta conjunctura, até ser arrastada em ferros para Castella por aquelles mesmos que chamára a assolar o seu paiz, a Lucrecia Borgia portugueza é na historia daquella epocha uma espécie de phantasma diabolico, que apparece onde quer que haja um feito de traições, de sangue, ou d'atrocidade.
[1] Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 75.
[2] A rainha… como era ousada e muito faladora: Fernão Lopes, Chr. de D. Fern. cap. 126.
[3] Ibid. Cap. 72.
[4] O selo de puridade ou do camafeu era aquelle que se estampava no proprio pergaminho, e que servia ordinariamente para o rei expedir documentos de menos importancia, na falta do chanceller-mór, que tinha o sêllo grande, curial, ou do cavallo. Veja-se a Dissertação 3ª de J. P. Ribeiro.
[5] Os tumultos contra o casamento de D. Fernando não se tinham limitado a Lisboa. Pelas doações dos bens dos treedores mortos ou decepados se conhece que houve assoadas e depois vinganças em Satarem, Leiria, Abrantes e outras partes.
[6] Neste século ainda barbaro o uso de hervarou envenenar as armas de tiro ou arremesso era vulgarissímo nos combates.
[7] a nota é imaginaria, mas esta mercê acha-se com effeito registada a f. 128 do L.º 1.º da chancellaria de D. Fernando; cumpre todavia advertir que dessa chancellaria apenas existe original o 3.º livro: o 1.º é dos reformados ou estragados por Gomes Eannes de Azurara.