← Table of contents
Judas

SEGUNDA JORNADA

Reading edition

EM 9 DE NISAN

Estamos em casa de Simão de Bethania.

A casa de entrada é ampla. N'uma das paredes abrem-se as duas janellas tendo ao centro a porta; por ellas vemos o aprazivel sitio já nosso conhecido e a fonte d'onde a agua dimana. Na parede, que nos fica á direita, outra janella olha para Jerusalem e para a estrada que á cidade conduz; na da esquerda, pequena porta com trez degraus dá communicação para o interior.

Em volta da casa, a todo o comprimento das paredes, largo e baixo poial, onde existem em descuidosa promiscuidade varios utensilios da vida domestica, pratos, amphoras, onde o estilo ainda egypcio se revela; pequenos copos de barro pintalgados, almofadas de velho tecido da Syria, pedaços d'esteira de junco do Jordão. Não distante da janella fronteira á cidade, pequena meza redonda cercada de camilhas denuncía tambem a influencia do triclinio nos costumes da Judéa.

A lampada de cobre, que do tecto pende, tem ainda nos seus quatro bicos os morrões que a apagada luz na vespera deixara. É dia claro, festivamente bello; o sol dardeja e as cigarras vibram.

No triclinio trez homens estão deitados: Simão Pedra, Matheus e o Leproso. Comem vagarosamente restos de legumes e peixe secco temperados com oleo de oliveira doce, de que estivera cheio e amplo graal collocado no centro da meza. Duas infusas junto de Simão; pedaços de pão levedo em frente de cada commensal.

Não distante da porta, Judas está sentado no poial, as pernas cruzadas sob a tunica, e tendo nos joelhos um grande rôlo aberto onde lê attento as Sagradas Escripturas.

João, no limiar da porta, sem manto, a tunica á cintura aconchegada por uma velha corda de linho que foi branco, braços cruzados,—medita e lança de quando em quando olhares furtivos e penetrantes, que prescrutam Judas.

MATHEUS

De ha muito que não como, e sem lisonja o digo, Um pão com tal sabor. Que saboroso trigo! Não achas?

SIMÃO PEDRA

Fabricado em casa do Simão...

SIMÃO

Obrigado. Outro copo?

SIMÃO PEDRA

O vinho é de Ascalão. Conhece-se a distancia apenas pelo aroma.

SIMÃO

Continuam a dar-lhe enorme apreço em Roma Para onde vão toneis sobre toneis!

MATHEUS que n'um movimento de cabeça concordára e que bebera depois d'aspirar o bom perfume:

Pudera! O amor entre os pagãos á embriaguez prospéra.

SIMÃO apresentando outra infusa:

Temos agora aqui magnifica cerveja.

SIMÃO PEDRA

De cevada?

SIMÃO

Não é.

MATHEUS

De peros?

SIMÃO

De cereja Cultivada em Ramá.

Com sorriso amigo, Simão Pedra e Matheus estendem os copos para Simão que n'elles verte o nectar rubro e espumante. Cheio o seu, bebem os trez em silencio e com recolhimento.

SIMÃO PEDRA pousando o copo onde o olhar pensativo está fixando:

Olhae como é profundo Este segredo!

MATHEUS

Qual?

SIMÃO PEDRA

Por um processo immundo, Pela fermentação, consegue-se tirar Da materia um licor tão grato ao paladar.

JOÃO que parecia estranho a tudo, fala emfim, com o olhar cravado em Judas, que continúa lendo:

Não acontece o mesmo a tudo que fermenta. Ha certas podridões que geram peçonhenta Bebida a que nem Deus o rude effeito acalma. Entrando pela vista, é digirida na alma! E sinto que n'esta hora a dôr que me aniquila Provem d'esse veneno horrivel que distila Muito perto de mim com lugubre misterio. Inutil procurar um doce refrigerio, Por que elle é semelhante á nodoa, que onde cae Arredonda-se, alastra, afunda-se e não sae!

Judas ergue para elle o olhar inquiridor; mas João já se retirou para alem da porta e passeia em frente d'ella como para espairecer os negros pensamentos.

Judas voltou á leitura sempre silencioso.

SIMÃO quasi em segredo aos seus dois commensaes:

Nunca ouvi tal falar da bôca do João.

SIMÃO PEDRA tristemente:

E o caso é que tambem começo a achar razão A tudo que elle diz.

Abandonam o triclinio reunindo-se junto da proxima janella, onde conversam em voz baixa sem que Judas possa ouvil-os.

MATHEUS

O Judas, francamente, No que hontem se passou, deu prova de demente, Ou de infiel ao Mestre e cinico impostor!

SIMÃO

Hontem?

MATHEUS

Á noite.

SIMÃO

O quê? Dizei-me, por favor. Não sei do que falaes.

MATHEUS

Passou-se tudo aqui. Durante a ceia. Não ouviste?

SIMÃO

Não; sahi, Mas foi por pouco tempo.

SIMÃO PEDRA muito confidencial:

Então eis o motivo... —Durante toda a noite esteve pensativo E por mais d'uma vez fugiu-nos á conversa Com palavras banaes e frias. Tão submersa Tinha em meditações a alma, que ninguem Deixou de perceber...

SIMÃO

Percebi eu tambem Que, muito mais que outr'ora, havia no seu rosto A fiel expressão d'um intimo desgosto.

SIMÃO PEDRA

Maria, aquella honesta e bôa rapariga, Desejando seguir a usança muito antiga No povo do Senhor, a de render um preito De sincera amizade e natural respeito Ao viajante illustre a quem se dá guarida, Abeirou-se da mesa, e, muito commovida, Derramou sobre o Mestre um perfumado unguento De nardo puro. Então, infame sentimento De Judas se apodéra. Em vez de prazenteiro E alegre como nós, aquelle companheiro Reputado fiel, só tem uma censura Para galardoar a prova de ternura: —«Melhor fôra, elle diz, que esse custoso nardo Se tivesse vendido. Eu, que o dinheiro guardo, Saberia guardar tambem zelosamente A importancia da venda a todos pertencente, Entregando-a depois em meu e vosso nome Áquelles que teem frio e áquelles que teem fome.»

SIMÃO como assombrado:

Mas isso foi um insulto! E o mestre?

SIMÃO PEDRA

Respondeu Brandamente, como é velho costume seu.

SIMÃO

Nem siquer suspeitaes a causa?

MATHEUS

Tarde ou cedo, Alguem desvendará por certo este segredo.

E vão-se os trez para alem da porta, onde ficam ainda conversando, encaminhando-se por fim para mais distante.

JOÃO tinha voltado, e encostára-se a uma das camilhas, observando sempre Judas. Como não possa conter o que sente em si, aproveita o ensejo de estar a sós com elle para expandir-se. Começa, porem, em tom sereno, como procurando dominar-se:

O que estás lendo? O assumpto é grave, ao que supponho. Reparo em que lhe dás toda a attenção.

JUDAS

Medonho! —A infamia de Caím.

JOÃO

É proveitoso, e muito! Feliz coincidencia! E eu que tinha o intuito, No que inda ha pouco ouviste em frase rude e chã, De falar d'esse crime o qual desde manhã Tanto me preoccupa.

Muito ironico:

Á tua consciencia Não pode causar damno esta coincidencia... És tão sincero, és tão leal e virtuoso!... —Mas devo confessar-te...

JUDAS sereno e sempre sentado:

O quê?

JOÃO

Que estou ancioso De ha muito por que tu expliques o motivo, Que te obrigou a ser cruel e offensivo Para quem te consagra uma affeição fraterna.

Exaltando-se pouco a pouco, mau grado seu:

O que possues em ti, Judas, que assim governa O teu entendimento? É sempre em vão que eu scismo No misterio que abriu na tua frente um abismo Cercado de fataes e nús despenhadeiros, Affastando-te assim dos nossos companheiros, Sem que nenhum pezar lá dentro te remorda.

E indicando a corda com que prende a tunica á cintura:

Somos na união eguaes a esta corda, Que as estrigas de linho unidas fortemente Fizeram tão subtil, mas que é tão resistente. Na sólida affeição, unificados, somos Assim como n'um fructo os solidarios gommos. —Desfia-se, porem, a corda, ao que parece; E julgo ver no fructo um gommo que apodrece...

JUDAS com affectada bonhomía:

Chiméras, illusões...

JOÃO

Talvez.—Mas quando penso Que o teu profundo mal pode tornar immenso O crime, e que será depois intempestivo O arrependimento... Em summa, não me esquivo A dizer-te o que tenho a corroer-me a entranha: Nunca simpathisei comtigo; não se amanha Com a tua frieza a ardencia do meu peito. É por isto que eu sou dos Dôse o mais affeito A observar-te.

JUDAS

A mim?!

JOÃO

E sabes o que vejo? Que tens uma alma rude e instincto malfasejo!

JUDAS erguendo-se, vagaroso, com o rôlo nas mãos, fingindo indifferença:

Chiméras, illusões...

JOÃO

Talvez.—Mas quem nasceu, Tendo as ondas por berço, e a cupula do ceu Por vasto cortinado; aquelle que na infancia Aprendeu a olhar com summa repugnancia Para tudo o que seja immundo, vil, terrestre, Muito melhor que tu ha de entender o Mestre. Não podem comprehendel-o os rudes corações Selvagens como o teu!

JUDAS

Chiméras, illusões...

JOÃO

Não podes comprehendel-o, e apezar d'isto queres Viver junto de nós!... Ás bolsas esmoleres Supplícas com aspecto humilde uma parcella P'ra o Mestre!—Na verdade, é preciosa e bella Tanta dedicação! Provoca o elogío! —Ah! julgas que não sinto ás vezes, quando espío O teu olhar matreiro, o brilho da avareza A dar-lhe um tom sinistro?—Odeias a pobreza!

Ambicioso e fraco, andas comnosco apenas Como atraz do rebanho os lobos e as hienas!

JUDAS avançando para elle, irrompe finalmente com um rugido abafado, o olhar ameaçador:

João!

JOÃO cruza os braços e sereno:

Podes bater, amigo! Por que esperas?

Judas, arrependido do seu primeiro movimento, affastou-se rapido. E João, agora ainda mais excitado:

E chamas illusões! e vens chamar chiméras Ao que é verdade núa e positiva?!—Agora Que a todos cumpre ter mais força do que outr'ora; No actual momento em que até eu vacílo, Presentindo que não poderá ser tranquillo O futuro do Mestre e de nós todos, mudas Em odio declarado essa frieza, Judas?! Que mal te fez, que affronta, elle, que é tão bondoso? Confessa que proveito, ou que terrivel goso Encontras n'essa infamia abjecta!

Desesperado pela indifferença apparente de Judas:

Que supplicio! Não poder arrancar-te ao menos um indicio! Não poder descobrir a causa que assim léva O teu cerebro audaz a trabalhar na tréva! Ah! não poder, depois do que disseste aqui, Rachar-te o craneo ao meio, e entrar dentro de ti!

E senta-se, febril, n'uma das camilhas.

JUDAS, que em silencio estivera contorcendo as mãos nervosamente, diz-lhe emfim com muita ironía:

Está bem! muito bem! Ao menos, esperava Que soubesses deter a incandescente lava, Que todo me queimou, transformando em carvão A minha consciencia... embora de ladrão.

Resoluto, firme, altivo:

Vou deixar-vos! Não sei qual seja o meu destino; Mas isso que te importa? Um ser tão viperino, Como eu, só tem logar no meio da ralé, E quando estorva o passo, affasta-se co'o pé!

JOÃO repêso, olha para elle bondosamente e com um sorriso amigo:

Acalma a excitação, Judas. O principal Resume-se, ao presente, em confessares qual A origem do teu odio. É isto o que eu te peço, É isto o que eu desejo.

JUDAS n'um brusco impulso de independencia:

Isso é que não! Confesso Á minha consciencia o que me vae no peito! Arrancar-me um segredo? E julgas ter direito De desvendar em mim reconditos misterios? Acalmo a excitação, mas guarda os vituperios! —Pediste por acaso ao mar em que nasceste Que descobrisse o leito? Alguma vez desceste A espreitar-lhe a vida, a revolver-lhe o fundo? Pois o meu coração como elle é tão profundo, Que se alguem pretendesse abrir uma passagem, Teria de morrer submerso na voragem!

João avançou para elle com expressão conciliadora; Judas, porem, detem-no com um gesto. Depois, parecendo sincero, mas occultando as suas verdadeiras intenções:

Não me perguntes mais. Ao peso da injustiça Conseguirei vergar esta alma tão submissa. Chiméras, illusões condemnam-me implacaveis... Judas, vae reunir-te áquelles miseraveis, Que vagueiam, sem rumo, e que andam foragidos, Erguendo para os ceus o olhar e os gemidos... Depois quando vier o derradeiro instante, Desamparado, nú, febril, agonisante, Revolvendo no pó as tuas mãos afflictas, Em vez de maldições, tem palavras bemditas, Para quem desprezou teu pobre coração, Deixando-o succumbir como se fosse um cão! —Adeus e para sempre.

Com ironia muito concentrada, já no limiar da porta:

Acceita em pensamento O que d'aqui te envio: em tão cruel momento, Abraçar-te e beijar-te é todo o meu desejo Sincero. Para quê? pois de que serve um beijo Dado por mim? Demais, meu hálito enxovalha! —Adeus, amigo. Adeus... Adeus, João.

E por entre dentes, inaudivel e rancoroso, saíndo a porta:

Canalha!

JOÃO ficou meditando, e depois generosamente, como falando á sua propria consciencia:

Oh! fui desapiedado! A sua voz tornou-se Tão lacrimosa e humilde! É mui de crêr que eu fosse Pedir ao exagero o auxilio necessario Para augmentar de vulto o crime involuntario, Ou a leviandade alheia á malvadez. Pobre Judas! E vae fugir de nós! Talvez Arrastar pelo mundo uma existencia nua De affectos, desgraçada... E não por culpa sua...

Á porta de casa appareceram Eleazar, Simão Pedra, Matheus e Simão de Bethania.

ELEAZAR indicando João aos companheiros:

Eil-o aqui está! E nós á tua espera!

SIMÃO PEDRA

São horas de partir para a cidade.

JOÃO cercado pelos amigos e já esquecido do que se passou, todo o seu pensamento entregue ao Mestre:

Não deve ser pequena a caravana!

MATHEUS

Junto do Mestre, o povo delibera Acompanhal-o.

SIMÃO PEDRA

O que é grande imprudencia!

JOÃO

Grande imprudencia?!

SIMÃO PEDRA

Os nossos companheiros Em vão procuram com docilidade Suster o passo á gente leviana...

JOÃO

E porquê? Não são elles verdadeiros Defensores do Mestre?

SIMÃO PEDRA

Mas reflecte...

JOÃO

O povo quer seguir-nos? Pois que venha!

SIMÃO PEDRA

Mas pode provocar algum tumulto. É preciso que a dentro da muralha Evitemos qualquer indisciplina.

JOÃO

Tu que dizes? Que pensamento occulto Encerram taes palavras? Será crivel Que te arreceies da imbecil gentalha, Que anda a rosnar as suas ameaças Contra a força que temos, invencivel, Justiceira e tremenda?!

SIMÃO PEDRA

E porque não? Onde possues algemas e mordaças Para conter as furias imminentes? Pode acaso fugir-se a uma traição? Reflecte bem: devemos ser prudentes, Evitando que Hanan tenha pretexto Para exercer emfim uma vingança, Roubando ao Mestre a preciosa vida.

JOÃO, animando-se, cheio de puro enthusiasmo messianico:

Não tens portanto uma unica esperança Em ver surgir a aurora promettida? —Enganas-te! Abrigae-vos sob o manto Do Profeta, que vamos afinal Assistir ao enorme vendaval, Que ha de causar a todo o mundo espanto! Da Lei não ficará nem uma linha, E as pedras do Templo hão de cahir! Eu antevejo, amigos, o porvir, Que de instante a instante se avisinha! Como cães a ulular, de toda a parte Hão de saír as abominações! Entre espadas de fogo e maldições, Vae tremular um sólido estandarte! Hão de as nuvens rasgar-se! A voz de Deus Ribombará como um trovão gigante, E o vento ha de levar para distante, Onde não haja terra, mar, ou ceus, As ultimas parcellas do monturo A que chamamos hoje humanidade! Álerta! vae rugir a tempestade! —Confia em Deus! Espera no futuro!

Voltando-se e vendo Gamaliel, não pode reprimir a sua surpreza:

Gamaliel?!

GAMALIEL que pouco antes chegára da cidade, ouviu todo o falar de João. Traz o rosto abatido, o olhar cavo; dir-se-ía portador de uma nova terrivel.

Eu proprio. E vejo que cheguei A tempo de lembrar que existe de uma Lei A rispida crueza, a inquebrantavel força, E que por mais que a tua exaltação retorça O positivo, elle ha de emfim prevalecer! Vós tendes a palavra. Hanan tem o poder. —O perigo é enorme.

Todos rodearam Gamaliel, attentos, em grande anciedade:

Ouvide: Nicodemo, Um homem de honradez e que respeita em estremo O vosso Mestre, não me occulta o que se passa A dentro do Conselho. Evite-se a desgraça, Fazendo-se abortar o plano vingador!

TODOS em sobresalto:

Um plano?!

JOÃO

Como?!

SIMÃO PEDRA

Dize!

MATHEUS

É de grande valor O que disséres.

JOÃO

Sim! deves dizer-nos tudo!

E acercam-se d'elle ainda mais:

GAMALIEL pausada e custosamente:

Hanan possue no genro o seu melhor escudo. Se transformou Kaíapha em Grande Sacerdote, Foi para ter alguem que cegamente vote Na sua opinião. Mais do que o genro, alcança Dos homens do Conselho estima e confiança.

E custando-lhe a despegar dos labios as palavras:

Eis por que hontem á noite, e em sessão secreta, Por elles foi votada a morte do Profeta!

SIMÃO PEDRA, erguendo as mãos aos ceus:

O meu presentimento!

MATHEUS, convulsamente:

Infamia!

JOÃO, n'um grito:

Cobardia!

ELEAZAR agarrando Gamaliel por um pulso:

É tempo de calcar aos pés a tirannía!

Todos, excepto Gamaliel, estão nervosos, irrequietos, consultam-se, animam-se, invectivam Jerusalem. João foi á janella, e com os dentes cerrados, o braço erguido, ameaça-a de esterminio.

GAMALIEL

Tende serenidade!

JOÃO

Oh! não, Gamaliel!

ELEAZAR

Liberte-se de vez o reino d'Israel!

GAMALIEL

Que poderá tornar-se em grande mar vermelho, Se Poncio perfilhar o voto do Conselho!

JOÃO

As espadas de Roma, as furias de Tiberio, Inda hão de succumbir a todo o nosso imperio! O povo ha de gritar, raivoso, leonino, Rasgando a face impura ao despota assassino!

GAMALIEL, procurando serenar os animos; as lagrimas borbulhando nos olhos e cahindo-lhe pelas barbas brancas:

Ouvide-me, por Deus! Eu tenho lido tanto No livro da experiencia, amigos, que é de pranto A minha pobre offerta á causa alevantada! Vós não podeis brandir a rutilante espada; Nem elle, todo amor, consentiria nunca Na transfiguração do verbo em garra adunca. Parti, pois que é preciso apparecer ao povo, Mas fugide a que venha um incidente novo Aguçar ao tiranno o sanguinario intento. Entrae com desassombro a porta do aposento Onde finge dormir, silencioso, o crime; Acalmae-vos, porem, ou elle não reprime O seu rancor feroz!

SIMÃO PEDRA tambem resoluto:

Seja o que Deus quizer!

JOÃO

Nem lamina d'espada, ou pranto de mulher, Pode esfriar em mim a indignação!

GAMALIEL

Piedade!

ELEAZAR

Vamos!

MATHEUS

Jerusalem!

SIMÃO

Coragem!

JOÃO

Na cidade Havemos de formar com os nossos companheiros Possante legião d'impávidos guerreiros!

E vão-se todos tumultuariamente, levando comsigo de roldão o velho Gamaliel.

Decorridos alguns momentos em que a moradia de Simão ficou abandonada, Maria e Martha veem de fóra. Martha sempre alegre; a irmã sempre absorta em grande melancolía. Ao entrar em casa, Maria vae logo postar-se á janella, seguindo com o olhar cheio d'angustia os que vão a caminho de Jerusalem.

MARTHA

E uma vez que partiram Para a cidade, afinal, Entreguemo-nos agora Ao que julgo essencial: Tratemos da nossa casa.

MARIA, indolente:

Espera. Não tenhas pressa...

MARTHA

É que está tudo em desordem, E o nosso irmão começa Dentro em breve a murmurar Que ninguem aqui trabalha!...

MARIA

Martha, vae tu repoisar, Que eu tratarei do preciso.

MARTHA

Não teimes, que me aproveito Do teu conselho.

MARIA

Careces De alguns momentos no leito; Deves estar fatigada.

MARTHA

E não te enganas. Ergui-me Ao romper da madrugada...

MARIA

E foste uma das primeiras Que se juntaram co'os Dôse No Monte das Oliveiras, Onde passaram a noite, Como é costume.

MARTHA, abeirando-se da irmã, muito meiga:

E não ficas De mal comigo?

MARIA

Porquê? Se em nada me prejudicas...

E anciosamente, vendo Judas que acabou d'entrar:

O que ha de novo, Judas?

JUDAS

Nada sei...

MARTHA muito admirada:

Não quizeste partir para a cidade?

JUDAS indolente, recostando-se n'uma das camilhas do triclinio:

Como vês, não parti... pois que fiquei.

MARIA

E porquê?

JUDAS

Porque o somno que me invade Exige para o corpo algum repouso. Vae alto o Sol; de ha muito manifesta Que brilha no seu ponto mais radioso, E que são horas de dormir a sesta.

MARIA, sem o fitar, serena:

E vaes dormir?

JUDAS cerrando as palpebras:

O Livro dos Proverbios Alguma coisa diz... «Quem se julgar Com pequenos desgostos, exacerbe-os A dormir, a dormir... e a sonhar...» —Se durmo, para onde é que foge a vida? Para fóra de mim quem a conduz? Encontrará descanso na guarida Para onde, ao apagar-se, vae a luz? Ao despertar depois, quem reacende No cerebro o fulgor que relampeja? Quem é que nos dá vida ou que a suspende A seu prazer?

MARTHA com muita convicção:

É Deus...

JUDAS abriu os olhos, fitou-a, e depois, fechando-os de novo:

Talvez que seja.

MARTHA surpreza:

Talvez?!

Muito baixinho ao ouvido da irmã:

Extranho o Judas!

JUDAS

Sim, talvez; Porque não julgo prova de criterio, Antes se me affigura insensatez, Explicar um segredo co'um misterio.

MARTHA abeirando-se d'elle, e pondo-lhe a mão no hombro, diz com uncção, melodiosamente:

Anda a tua alma fugida Ao bom caminho da crença... Quem foi que d'elle a affastou E que dentro em ti deixou Uma escuridão immensa? Hontem á noite... (Desculpa Se acaso te contrarío Ao falar agora d'isto) Por todos nós foi mal visto, Judas, o teu desvarío. De tão modesta homenagem Não era merecedor Aquelle Mestre sublime Em cujo rosto se exprime A bondade e o amor? —Anda a tua alma fugida Ao bom caminho da crença. Que Deus de novo a conduza E o brilho reproduza Na tua alma, treva immensa!

Judas fica immovel e silencioso. Martha, satisfeita, julgando havel-o convencido, diz então baixinho á irmã:

Não responde. Pode ser Que facilmente consigas Descobrir toda a verdade.

MARIA, querendo esquivar-se:

Eu?

MARTHA

Com palavras amigas Interroga-o, porque, em summa, Custa ver n'um coração, Que deveria ser meigo, Semelhante ingratidão.

E vae-se para o interior da casa a reclinar-se no seu leito perfumado. Judas e Maria ficam a sós; Judas, com as palpebras semi-cerradas, observa-a.

MARIA conserva-se indecisa por algum tempo; mas depois, como respondendo a si propria:

É mais prudente...

E dirige-se para a porta por onde a irmã saíu:

JUDAS erguendo o corpo sobre o cotovello:

Maria, Pareces que vaes fugindo...

MARIA baixando o olhar:

Para não te incommodar, Quando estiveres dormindo.

E retira-se tambem, fechando a porta castamente:

JUDAS ergue-se de chofre e avança como para seguil-a; mas detem-se, perplexo. Depois, desalentado, senta-se n'um dos degraus da porta por onde Maria saíu, a cabeça entre as mãos, os cotovellos fincados nos joelhos. Ao cabo de longo meditar, solta brandamente a sua voz:

É isto mesmo, é isto: o effeito vem da causa... Pois quando ao seu trabalho alguem ordena pausa, Logo termina o effeito. É isto mesmo, sim. Provem este rancor, que ella sente por mim, Da paixão que lhe inspira o rosto, o olhar, a fala, Do ente extraordinario a que nenhum se eguala, Conjuncto singular de tudo o que ha perfeito. Portanto é elle a causa, e o rancôr o effeito! —Oh! que hei de supprimil-o, esmagando-o de todo, Ainda que me sinta a resvalar no lodo!

E erguendo-se, impetuoso:

E tu, Consciencia, não me opponhas embaraços! Quando o trovão ribomba altivo nos espaços, Acoita-se a tremer a aguia no seu ninho! Vae-te! vae para longe! Eu quero estar sósinho! —... Mas quem me diz não ser este sinistro plano Improficuo, ou então summamente leviano! Se elle fugir á morte, ao estertor final, Por um processo occulto e sobrenatural, Contra mim lançará todo o furor do ceu, Elle ha de ser juiz e eu hei de ser o réu!

Com a alma a contorcer-se n'um supplicio:

Se eu visse esta mulher entregue ao frio atroz, O craneo sem ter luz, a bôca sem ter voz, Ó Deus, entoaria, agradecido a ti, Uma canção igual aos psalmos de David, Transformando o meu peito em grande tabernaculo! —Mas vive: ha de ser minha! Hei de vencer o obstaculo!

Pensa longamente, em grande abstracção de tudo o que o cerca, com um sorriso malevolo, animando-se:

E se, como se diz, elle não fôr divino? Se obedecer, como eu, á força do destino?... —Sim! sim! Tudo consiste apenas no convulso E possante vigor d'um corajoso pulso!

Alguem o está ouvindo sem ser visto: Benjamim e Josué. Cautelosamente, Benjamim entrou em casa pela porta aberta e vae approximando-se de Judas, relanceando o olhar desconfiado; Josué empurrou o batente d'uma das janellas, e pela parte de fóra observa. Judas, porem, continúa, agora acobardado:

Assassinal-o!... Não! Vago terror me opprime. E como poderei matar, sem ver o crime? Armando um braço vil? comprando uma consciencia? É pouco, é muito pouco... e é tudo!—Que demencia! Quem poderá saber onde reside a féra, Que tenha peito humano e garras de pantéra?

Desvairado; os braços agitando-se, convulsos; os cantos da bôca espumando:

—Vomíta, ó grande Terra, essa entidade estranha, Que vive silenciosa em tua negra entranha, Que é pura como o fogo, immunda qual farrapo, Enorme como Deus, mesquinha como um sapo! Genio amante do crime e á virtude adverso, Que mora num covil... e zomba do Universo! Eu quero conhecer o amigo dos devassos: Expele-o do teu ventre e arroja-o nos meu braços!

Com grande desanimo:

Nem elle me protege! E eu preciso, emfim, D'um ser bastante infame!

BENJAMIM com muita humildade:

Aqui me tens, a mim...

JUDAS voltando-se, rapido, e agarrando-o brutalmente pela nuca:

Quem és tu?

BENJAMIM avergado, mas sempre humilde:

Sou alguem que te escutava. O tempo, como vês, não desperdiço... Não perguntes quem sou. Aqui me tens, Amigo, ao teu serviço.

JUDAS sem o largar:

Ignoro quem tu sejas, mas se acaso Divulgar o meu odio tencionas, Juro que em curto praso No fio de uma lamina abandonas Co'o meu segredo a vida!

BENJAMIM amigavelmente, em censura carinhosa:

Cala a bôca! Não blasfemes de coisas respeitaveis. Venho fazer propostas acceitaveis, Dizer tudo o que sinto, E só respondes co'uma furia louca! Se me has de receber com effusão, Achando em mim o teu melhor amigo, Alevantas a mão, Ameaçador como um guerreiro antigo! É ser ingrato!

JUDAS largando-lhe a nuca, mas agarrando-lhe logo um braço:

Dize-me o que sabes!

BENJAMIM sinceramente:

Ora! sei que a tua alma se abalança, Depois do que houve aqui hontem á noite, A seguir o caminho da vingança. Naturalmente, sentes-te offendido Co'a resposta que teve o teu reparo Tão justo e merecido...

JUDAS como comsigo, satisfeito:

Portanto, ignora...

BENJAMIM

É isto amigo?

JUDAS, rapido:

É isso!

BENJAMIM explicando:

Eu hontem ouvi tudo junto á porta... —Manda, que eu te obedeço. Aqui me tens, Humilde, ao teu serviço.

JUDAS ficou hesitante, tendo largado Benjamim, que foi trocar signaes com Josué.

Mas se eu não sei...

BENJAMIM agora senhor de si:

Não sabes? Pois sei eu. O Mestre será morto, em poucos dias; Depende só de ti, fica sabendo!

JUDAS nervosamente:

Que dizes, fariseu?

BENJAMIM imperioso, rapido, monotono, quasi ao ouvido de Judas, que parece devorar-lhe as palavras:

Ouve: É tremendo O odio que lhe tem todo o Conselho, O qual procura o instante mais propicio De pôr em exercicio O plano da prisão, do julgamento...

JUDAS

E da morte?

BENJAMIM

E da morte! O que, porem, No actual momento Ao sacerdote Hanan muito convem É prendel-o em segredo, Á noite, em sitio obscuro. Hanan tem medo De que o povo alevante alguns protestos... Á prudencia conforme, Assim procederá.

JUDAS animado, satisfeito:

Dize-me então...

BENJAMIM

É urgente saber onde elle dorme. Tu sabes com certeza!

JUDAS hesitando, vagamente acobardado:

Mas...

BENJAMIM

O quê? Não queres a vingança, Judas?

JUDAS

Quero...

BENJAMIM

N'esse caso, aproveita o bello ensejo, Que outro não tens melhor. Sendo sincero E grande, como julgo, o teu desejo, Não deves recusar o que proponho. —Ouviste? Muito bem! Reflecte agora, Este sitio não é muito seguro... Aguardo te lá fóra!

Vae-se; Josué segue-o, e os dois desapparecem.

JUDAS ficou perplexo ainda, como medindo a gravidade da proposta. Mas depois:

De que serve hesitar, se me apresentam Como satisfazer o meu anceio? Basta que eu seja um cumplice d'Hanan, Um traidor simplesmente... Nada mais...

Com rude franqueza:

—Na mão direita a Infamia, A Consciencia na esquerda. Eu de permeio!

Com funda ironia:

A sentença fixei: «Não saiba a esquerda o que pratíca a irmã.» —Não saberá, que eu nada lhe direi!

Vae sair, mas a porta que dá communicação para o interior da casa abre-se, e Maria apparece no cimo dos degraus. Judas quedou-se.

MARIA que no limiar da porta ficára tambem indecisa:

Julguei ouvir falar...

JUDAS

Aqui? Foi puro engano.

E notando um movimento esquivo de Maria:

Retiras-te de novo? Eu faço qualquer damno Com a minha presença?

MARIA condescendente:

Oh! não...

JUDAS caricioso:

Deixa-te pois Ficar junto de mim, que facilmente os dois Teremos na conversa um passatempo. Fica.

E mentalmente:

Vejamos se o que diz me excita ou pacifíca.

Ha um grande silencio. Maria desceu mansamente e ficou de pé junto do primeiro degrau, o olhar sempre absorto, os braços inertes ao longo do corpo. Judas voltou para o triclinio, e de braços cruzados observa-a, apparentando a maxima serenidade. Lá fóra, o Sol illumina fortemente a paisagem; o calor primaveril irradía por toda a parte; ouve-se nitidamente o murmurio da agua; as vibrações das cigarras são cada vez mais intensas e estridulas; ha segredos d'amor nos ninhos proximos...

JUDAS

Em que pensas, Maria? O teu formoso olhar, Que era d'antes tão meigo e calmo como o luar, Ha tempos que derrama um brilho vago, incerto, E em nuvens de tristeza agora anda encoberto.

MARIA com simplicidade, avançando um pouco:

Por vezes, sem querer, entregue á dôr immensa Que me aniquilla, tenho a tudo indifferença. Ao passo que me opprime este cruel receio De vêr barafustar o nosso Mestre em meio Dos inimigos seus, mais frio do que a neve Se torna o meu olhar.

JUDAS tôrvamente:

Deve ser isso, deve...

E depois de algum silencio, ironico:

Costumado a subir nos estos d'esse amor Aos mundos do Ideal, o candido fulgor Transforma-se em desdem, e apenas se descerra Perante a mesquinhez que roja pela terra!

O olhar bem fito n'ella, animando-se:

Assim como um punhal de rija temp'ra e agudo, Esse olhar desdenhoso, austero, vago, mudo, Brilha sinistramente e vem caír direito N'este pequeno espaço, o espaço do meu peito!

N'um arranco d'alma:

Em verdade te digo, ó mulher altaneira, Quizesse Deus mandar-te aos olhos a cegueira, Já que d'alma és tão céga aos prantos de quem te ama, Que olhas para esse alguem, como se fosse lama!

Crescendo em furia:

Desde hontem que eu desejo estar comtigo a sós Para que emfim termine este supplicio atroz! Do meu peito o rugir não sabe em que se esconda, E vae saír de mim, como em torpel a onda, Tudo o que hei suffocado, e tudo o que hei soffrido! —Escuta-me, ó mulher, apura o teu sentido, E deixa de cuidar n'essa paixão agora, Que é maior a paixão que todo me devora!

Maria vae responder; elle porém, detendo-a com um gesto:

Eu sei! Conheço a frase; escusas de falar: É puro o teu amor, não é amor vulgar... Mas vê que, se elle abriu em ti essa ferida, No centro da minha alma em sangue e dolorída Existe uma paixão tambem que me envenena, Podendo ser mortal, assim como a gangrena...

Em frente d'ella, com a mão sobre o peito, contorcendo frenetico a roupagem:

Ah! no supremo arranco um peito esfacelado Como este, não receia o que haja mais sagrado, E julga-se capaz, co'o seu valor enorme, De luctar e vencer o ente mais disforme, Terrivel como Deus, gigante como Adão, Possuindo na voz as frases do trovão! E porque sinto aqui as contorsões finaes, Espando francamente as máculas brutaes, Que viveram sem luz n'um mundo subterraneo: Os monstros do meu peito e os vermes do meu craneo!

Grande e soberbo, de braços abertos, espéra.

MARIA que não se moveu, serenamente:

Sou fraca, sou mulher, e sei no que te escudas; Confesso-te, porém: causas-me tédio, Judas.

JUDAS n'um rugido:

Maria!

MARIA sempre immovel:

Com franqueza, eu disse-te por vezes: Em castidade egual ás innocentes rezes No Templo do Senhor dadas em sacrificio, Tenho por goso infindo, ao amor viver propicio, Dedicar áquelle ente em que a virtude brilha Acrisolado amor, amor... como de filha. Na terra nada mais preciso que uma coisa: A Crença.

Enlevada, com o olhar erguido, as mãos sobre o peito virginal:

O meu amor longe d'aqui repoisa, Estrella que não teme as nuvens tempestuosas. Brando como o dormir das aguas silenciosas, Vago como o misterio enorme do futuro, Meigo como um sorriso, e como o orvalho puro, Nos espaços do azul vive risonho e inerme. A estrella é sempre estrella...

Descendo o olhar para Judas:

e o verme é sempre verme.

JUDAS com as mãos encrespadas, os labios trementes:

Ó vil mulher, que tens desprezo pelo amor, Fugindo á grande lei do grande Creador, Que elle n'esse teu corpo as maldições concentre Para tornar assim fecundo o estéril ventre!

MARIA sem se perturbar:

Enlouqueceste!

JUDAS caíndo em si, fica por momentos silencioso. Depois, com o rosto dolorido, n'um queixume:

Mas se eu nunca fui amado! Assim como o terreno a que não chega o arado, Semelhante em mudez ás pedras do caminho, Era o meu coração. Via-me tão sósinho, Que, por vezes, cravando o meu olhar nos ceus, Interrogava o Espaço, interrogava Deus, Procurava arrancar ás trevas o motivo De haver dentro de mim um morto, estando eu vivo.

Com a voz muito quente, repassada de amor, sensual, o olhar húmido, como revestindo Maria com um manto de beijos, as mãos gesticulando em curvas graciosas, languidas:

Mas desde que no teu o meu olhar depuz, Enxerguei o brilhar d'uma divina luz Na immensa escuridão d'este viver amargo E senti-me surgir do fundo do lethargo. Fosse para onde fosse, eu via a tua imagem, Adorada Maria, envolta na roupagem Tão alva como o arminho, immaculada e honesta: No prado sorridente, em meio da floresta, Sobre os rochedos nús ás vagas sobranceiros, No horisonte sem fim, no dorso dos oiteiros... Por toda a parte, em summa!—Adoro-te, Maria! No caminho da vida o teu olhar me guia... Vem dar uma esperança ao pobre coração Que vive para ti, que te pertence...

MARIA com ligeiro movimento de cabeça:

Não.

JUDAS promptamente transformado, n'um arranco furioso:

Oh! que negra palavra, amarga como fel!

MARIA com a voz tranquilla:

Á doutrina do Mestre...

JUDAS interrompendo-a com uma risada feroz:

O Mestre!...

MARIA

... és infiel. Abrigas, por teu mal, um sentimento ignaro Do que seja o dever, e que se torna avaro, Cubiçoso, traidor, miserrimo, egoista! Não podes resistir-lhe? É bem que eu te resista! Se não queres viver do amor pela virtude, Se á pureza é rebelde essa tua alma rude, Então que ao sacrificio eu seja quem te exhorte: Foge para distante, ou foge para a Morte.

JUDAS allucinado, avançando para ella:

Escuso de ouvir mais. Não quero ouvir-te! Cala! Fica sabendo pois que isto que me avassala, O que por fim se espande e que ha de ser funesto, Nunca foi do amor um sentimento honesto!

MARIA levando instinctivamente as mãos aos seios:

Maldito sejas tu, se acaso me tocares!

JUDAS com os olhos chammejantes, as mãos trémulas, os passos rigidos, agarrando-a:

Que importam maldições inuteis e vulgares? Os castigos de Deus, Deus sobre mim desabe-os, Mas que eu sinta, mulher, o aroma dos teus labios!

E tenta beijal-a, soffrego:

MARIA evitando-lhe os beijos:

Oh! deixa-me, brutal demonio da luxuria!

JUDAS arrastando-a para o triclinio:

Chamaste muito bem á minha ardente furia, Como o fogo voraz, cruel e deshumana, Que a Eva perverteu, e maculou Suzanna.

MARIA com a voz estrangulada, luctando:

Soccorro! Eleazar!

JUDAS pondo-lhe a mão na bôca:

Oh! cala-te!

MARIA já sem forças:

Meu Deus!

JUDAS achegando-a ao peito, lúbrico, antegosando a posse:

Ah! como são gentis assim os olhos teus! Como é rosada e fina a tua debil mão! Vaes ser minha, afinal!

Aperta-a mais contra si; mas de subito, notando-lhe a immobilidade, abandona-a; e vendo o corpo de Maria caír inerte sobre uma das camilhas, diz n'um murmurio de desespero:

Desfallecida?!...

Um pensamento hediondo atravessa o cerebro de Judas; os olhos inquirem em volta. Estão bem a sós, não ha duvida... Sob irresistivel attracção, com o olhar lascivo desnuda-a; ergue-lhe em peso o corpo, aperta-o contra si... Mas de subito, como accordando, como se a voz da Natureza lhe désse um grito na alma:

Não!!

E tomado de horror por si proprio, foge, correndo como doido atravez dos campos, deixando o corpo de Maria inanimado, mas casto e puro como um lirio d'Issachar...

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings