ITINERARIO DA VIAGEM, (continued 2)
Reading edition
Morea
, à vista de
Modon
. Daqui caminhámos a
Zante
, em que estivemos dez dias, e logo a
Corfu
, adonde estivemos e celebrámos a Festa do
Nascimento de Christo Senhor nosso
. He esta Ilha de
Corfu
, huma das mayores forças, que os Venezianos tem na
Grecia
; e como tal, he de muita consideraçaõ, por ser como chave de Italia.
Passámos a costa de
Esclavonia
,
Albania
e
Dalmacia
, e chegàmos à agradavel Ilha, e Cidade de
Lesna
, e nos hospedáraõ os Religiosos de
Saõ Francisco
no seu Convento por espaço dos cinco dias em que houve no mar grande tormenta. Fallaõ aqui os naturaes a lingua
Esclavonica
, ainda que entendem a
Italiana
. A Cidade he pequena; tem boas, e fortes casas, e bom porto. Daqui viemos pela costa de
Istria
à Cidade, e Bispado de
Parenço
, e sahindo da nao em hum barco, passámos a
Veneza
, a que ha quarenta legoas, adonde chegámos com saude, e alegria, e a Deos démos as graças por nos levar, e trazer de taõ Santa viagem, e jornada taõ perigosa por mar, e terra. Gastámos de
Tripoli
a
Veneza
a sessenta e seis dias. Entrámos na Cidade em 19. de Janeiro do anno 1589. e desde que della sahimos, atè que tornàmos, passáraõ cinco mezes, e cinco dias.
Da jornada, que fizemos de Veneza atè Sevilha.
Detivemonos mez e meyo em Veneza, por repararmos a saude, e socegarmos do trabalho do caminho, recolher, e emendar os meus livros, que achey estampados. Hospedou-nos hum Cantor da
Senhoria
, chamado
Antonio de Ribera
, que me regalou de modo, que meus pays se foraõ vivos, e alli se acháraõ, o naõ fariaõ melhor, nem com mais amor, o que foy causa, de que nos restituissemos ao que eramos, pois vinhamos muito maltratados.
Sahidos de Veneza, viemos a
Ferrara
,
Bolonha
,
Florença
,
e Pisa
, Cidades principaes de
Italia
. Chegámos a
Leorne
, porto de
Toscana
, procurando as Galés do
Graõ Duque de Florença
, que partiaõ para Marselha, a buscar a
Graõ Duqueza
sua esposa, filha do
Duque de Lorena
. Estava o
Graõ Duque
em
Leorne
, e me fez a merce de me admittir a beijarlhe a maõ. Mandoume aposentar, e dar o necessario com toda a grandeza; e me prometteo de me accómodar nas Galés do
Papa
, que estava esperando por instantes para hirem em companhia das suas, que jà tinhaõ partido com as de
Genova
, e
Malta
, que por todas eraõ dezaseis, adornadas, e armadas com toda a magnificiencia, como para a occasiaõ de bodas de taõ grande Principe.
Chegàraõ as Galés do
Papa
, e o Capitaõ General a rogo do
Graõ Duque
, me recebeo, e me regalou na sua Capitania, trazendo-me na camera de popa, e dandome a sua mesa, e tambem tratado cheguey a
Marselha
, que naõ estranhey o mar, pois nelle tive todos os regalos da terra.
Na Semana Santa entrey em
Marselha
, e nella tive a
Paschoa
; e como as Galés ficáraõ esperando a
Duqueza
, fretámos hum Bergantim para virmos a
Barcelona
, em que embarcámos dous Genovezes, (hum se chamava
Joaõ Ansaldo
) dous Italianos, e dous Hespanhoes.
Sahimos do porto com hum pouco de mao tempo, e com o desejo de tornar para
Marselha
, tanto que nos fizemos ao largo; e tendo caminhado como cinco legoas; entrámos no abrigo de huma calheta, por naõ podermos passar a diante. Apenas puzemos os pés em terra, quando vimos junto a nòs hum Bergantim, que entendemos, vinha, como o nosso, a esperar, que o tempo melhorasse. Vinha elle cheyo de arcabuzeiros ladroens, e muitos Lutheranos; e descubrindo-se com os arcabuzes à cara, lhes dissémos,
que se detivessem, que nos dávamos por rendidos
, porque se nos puzessemos em resistencia, nos perdiamos, pois em o nosso Bergantim sómente havia espadas, e dous arcabuzes mal preparados; e ainda que fossem mais, eraõ poucos; e assim melhor era salvar as vidas. Estes soldados (ou ladroens, por melhor dizer) entraraõ no nosso Bergantim, tomáraõ-nos as chaves dos nossos alforges, e maletas, e tudo revolveraõ, naõ deixando cousa em seu lugar. Estavamos nòs em terra, vendo o que passava, e esperando o fim destes ladroens, com taõ pouca esperança de vida, olhando huns para os outros sem dizer palavra. Era já quasi noite, quando nos mandáraõ entrar em o seu Bergantim, e tomáraõ posse da nossa roupa, e armas; e nos fizeraõ tornar a traz a huma Fortaleza em que viviaõ, e donde sahiaõ a fazer estes roubos. Antes que a ella nos levassem, nos puzeraõ em huma camara cheya de palha, e junto a ella muita lenha, e todos estiveraõ de fóra fallando na sua lingoa: e nòs encomendando-nos a Deos, com o temor de que aquelles Hereges nos queimassem; porèm
Deos nosso Senhor
nos tirou deste temor, e perigo.
Levaraõ-nos dahi a pouco à Fortaleza, deraõ-nos de cear, e as suas pobres camas; e começámos a perder o medo. Démos à mulher do Capitaõ alguns escudos de ouro, e ella nos assegurou, que naõ haveria perigo em nossas vidas. Trez dias estivemos desta maneira, sem nos deixarem sahir, nem aos nossos marinheiros, que tambem estavaõ prezos comnosco; e começámos a tratar da nossa liberdade, sendo medianeiro hum
Francez
que hia, e vinha. Pedio o Capitaõ por cada hum de nòs cem escudos, e que nos daria a roupa; ao que respondemos, que os naõ tinhamos, que fizesse o que quizesse.
Neste tempo chegou hum homem de Marselha desta companhia; e naõ soubemos que ordem trouxe; porèm o Capitaõ disse logo,
que de nòs naõ queria cousa alguma, porque elles eraõ Christãos, e nòs tambem; mas que como pobres soldados necessitavaõ
. Cada hum deu o que pode; a mim me custou a minha roupa vinte e cinco escudos; e deramos no dia, em que nos prenderaõ, pela segurança da vida, quanto nos pedissem. Aqui estivemos oito dias, e nos embarcámos com seu beneplacito, acompanhando nos o Capitaõ, e companheiros trez, ou quatro legoas no seu Bergantim, e nòs no nosso. Quando se apartou nos disse,
que naõ tornassemos a Marselha; porque se tornassemos, e elle nos colhesse, nos cortaria as cabeças
; e certamente o fariamos se podessemos, para que se soubesse de semelhantes Hereges ladroens.
Caminhámos dous dias por esta costa de
França
, e na Provincia de
Languedoc
em huma manhãa, caminhando nòs a remo, vimos sahir outro Bergantim com muita pressa de hum rio, e que nelle entrava alguma gente de terra, e começou a remar para o nosso, porèm os nossos marinheiros tanto trabalháraõ, que nos naõ puderaõ alcançar; porèm quando cuidámos, que estavamos livres delle, appareceo hum navio à vèla, que vinha contra nòs. Entendemos, que seria navio, que caminhava para Levante; mas logo que emparelhou com o nosso Bergantim, amainou, e mandou que parassemos, e se descubriraõ doze arcabuzeiros ladro[~e]s, e Lutheranos, que com as armas à cara nos renderaõ, e entraraõ o nosso Bergantim, e de nòs, e da roupa fizeraõ o mesmo, que os outros ladroens Lutheranos, ainda depois de lhe darmos o que levavamos nas bolças. Ataraõ o nosso Bergantim ao seu navio, e nos leváraõ como huma legoa, rio acima, junto ahuma Povoaçaõ, que chamaõ
Cirinhan
. Esta segunda prizaõ nos deu mais temor da morte, porque como disse hum dos soldados a
Joaõ Ansaldo
, teve o arcabuz à cara para me matar, e disparando-o, errou o tiro, ou passou por alto; o que todos attribuimos, a que neste tempo nos encomendámos à
Virgem Senhora de Monserrate
, fazendo voto de ir visitar a sua Casa, e de lhe dizer Missa. Passadas quatro horas, estando assim, veyo hum Cavalheiro, Alferes desta terra, e tomou por conta em hum rol toda a nossa roupa, e ordenou se guardasse no navio; e logo nos levou a huma Villa distante huma legoa, rogando-me, para que aceitasse o seu cavallo, e que elle como mais moço caminharia a pè, de que todos lhe démos o agradecimento, e chegados ao lugar, a todos deraõ pousada, e a mim me levou para sua casa, adonde me regalou.
Neste lugar reside hum Cavalheiro, Senhor de dous lugares, este nos recebeo alegremente, e dando-nos palavra de segurança (porque era Catholico Romano) nos disse escreveria ao
Duque Motmoranci
, Senhor da Provincia de
Languedoc
. Era Secretario deste Duque hum
Genovez
parente, e amigo de
Joaõ Ansaldo
; e tanto que soube da nossa prizaõ, fez toda a diligencia pela nossa liberdade; e por elle nos mandou despachar o Duque, e nos deu hum passaporte, para que se encontrassemos outros navios do seu destricto, tivessemos segurança; pelo que sahimos alegres, ainda que alguns escudos nos ficáraõ nas mãos dos soldados.
Sahimos daqui, e em quatro dias chegámos a
Barcelona
, aonde démos graças a Deos por nos livrar destes ladroens Francezes Lutheranos, e de muitas Galeotas de Turcos, que andavaõ por esta costa, das quaes tomou nove o filho de
Andrè Doria
. Digo certamente, que tendo andado por tantos, e taõ varios caminhos entre Turcos, Mouros, e Arabes, naõ tivemos o perigo, e pezar que padecemos na França. Visitámos a
Virgem Santissima de Monserrate
, e lhe démos as graças pelas merces que
Deos nosso Senhor
nos fez, por sua intercessaõ; e logo tomámos o caminho de
Valença
,
Murcia
,
Granada
, e chegámos a Sevilha, eu, e meu companheiro Francisco Sanches, com saude, adonde com muito contentamento fuy recebido de todos, especialmente do Illustrissimo Cardeal, o Senhor Dom Rodrigo de Castro, e do Cabido da Santa Igreja.
Dey conta neste breve tratado da minha viagem à
Terra Santa
, com toda a verdade Christãa, a todo o que desejar saber o caminho. De
Sevilha
a
Jerusalem
ha mil e quatro centas legoas de ida; e pela volta, que dey, pela Cidade de Damasco, entendo, que de ida, e vinda, ha trez mil legoas. He facil andar este caminho, pois eu o andey, tendo sessenta annos; pelo que se animem os moços, e que tem possibilidade, a fazerem taõ Santa viagem; que eu lhes certifico, que depois de vistos taõ Santos Lugares, seja tal o seu contentamento, que o anteponhaõ ao de possuirem todos os thesouros do Mundo.