PRIMEIRA PARTE (continued 2)
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Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo que lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e ralhando com os servos para entreter o vicio, e com o capellão que continuava a benzer-se.
Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pae em preparativos de jornada,{87} e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistencia.
Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro caso em que as opiniões dos paes se harmonisaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lagrimas, que nem sequer curou de enxuga'-las com caricias.
Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras asperezas:
—Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer contrariedade! Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquella palha! Bonita educação, não tem duvida!
—Está bom!—disse Gonçalo com mansidão.—Excedes-te nas grandes e nas pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: está dito tudo.
—Então achas bonita aquella choradeira!
—É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se não lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa, Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós{88} que de mestres. Se tua mãe quizer iremos no anno que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as capitaes de França e de Hespanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes nas magnificencias da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?
—Gosto do que quizerem que eu goste—respondeu carrancuda Maria Henriqueta.
O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma: «Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas, e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a contrariem seus paes...»
Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia. Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como aterrada do seu futuro.
Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na palavra futuro!
Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:{89}
—A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á decrepidez! Alli está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com a natureza, não pude corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com o genio de ambas, azedado pela discordia em que vão viver. Como hei-de ser justo, se forem ambas injustas? O que fará a raiva e o desespero no coração insoffrido de minha filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?
Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de golpe no quarto, e disse com sobresalto:
—Não sabes, primo Gonçalo?
—O quê?
—Estou espantada!
—Que é? Fala...
—Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!
—Que viste?!—exclamou Gonçalo, erguendo-se.
—Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...
—Isso que tem de extraordinario?!
—Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um militar apanha'-la.
Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa suor de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e com grande esforço, disse:{90}
—Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas vida a mim, e honestidade a tua filha...
Maria das Dôres murmurou apenas:
—Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a honestidade de uma filha!...
FIM DA PRIMEIRA PARTE
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