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Espada da Justiça Sobre os Reos do Horroroso Delicto Praticado no Navio Pelos que Morreraõ Enforcados aos 14 de Agosto de 1781

ODE.

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Ó Tu do Ethereo Jove Irmaõ potente,[1] Supremo Pai das humidas Deidades, * ... Que manejas terrifico tridente, Que dominas as mesmas tempestades, Tu que todas as gentes senhoreas Na procellosa, nivea, vasta herança, * ... Que os cavallos maritimos enfreias, Distinguindo a tormenta da bonança, Levanta sobre o Pélago profundo A limosa cabeça, e vinga o Mundo.{4}

Sacrílegos Tipheos,[2] que conspirados Sem respeito a coriscos tortuosos Sobre os Orbes voluveis, e sagrados Intentastes alçarvos ambiciosos, Nos raios crepitantes destruidos, Em castigo do cego atrevimento, De pérfidos ingratos, e atrevidos Contra o supremo Deos do Firmamento, Vêde a outros Tipheos;[3] delicto insano! Que empunhaõ armas sobre o largo Oceano.{5}

De Inexoraveis filhos circulada Aligera mulher[4] cega, e robusta, De Mercurio nas Artes educada * ... Ah que tudo extremece, tudo assusta! Dos bens alheios ávidas Arpias,[5] Das cavernas Estygias povoadoras, Tristes imagens só de tyrannias, Dos maiores insultos aggressoras Vaõ atacar na liquida corrente A nadante morada, a inerme gente.{6}

Já as nocturnas aves vaõ pascendo Com os bicos de ferros aguçados; Nos quentes corações satisfazendo Os vís desejos nunca saciados: Aos tristes palpitantes destruidos Calcaõ os pés immundos, e cruentos, De huns resoaõ inda alguns gemidos, Outros de todo já não tem alentos: He tudo confusaõ, tudo agonia, Que encobre a noite, té que chega a dia.{7}

Aos maniatados corpos traspassando Do silencio nocturno a amiga turba, Que se farta no sangue miserando, E o socego do publico perturba, Huns entregaõ o peito ao golpe duro, Sem remedio saõ outros aprehendidos; Huns escolhem o mar por mais seguro, Outros escapaõ sim, mas escondidos; Este cahe, outro expira, aquelle geme, Correm rios de sangue, e tudo treme.{8}

Com este pezo as aguas se incurvaraõ, E Neptuno apôs delle, logo erguendo A lança triplicada, se avistaraõ Em sanguentadas ondas decorrendo; As formosas Nereidas[6] lhe assistiaõ, As crystallinas lagrimas limpando, E os ligeiros Delfins tristes corriaõ, Com mil ordens a Eolo[7] decretando: Os Euros[8] sibilantes quiesceraõ; Boreas, e Aquilões emmudecêraõ.{9}

Torpe, execrando, barbaro, incontrito, Em vaõ, em vaõ procuras asylarte, Pois que a culpa em sagrado he hum delito, Que o sagrado naõ deve perdoarte: Elle te guardará por criminoso, E os mesmos elementos conjurados Faraõ o teu supplicio tormentoso, Por crimes nunca de outros cogitados: Caso de horror, de susto, magoa, e pranto, Que ás mesmas féras causaria espanto!{10}

Oh que incuravel mal! Oh que fadiga Com diligencia insana procurada, Que a homens contra homens volve, e obriga, E que faz a Republica turbada! Grande fome, alta sede do Thesouro, Que motivas o odio, a vil surpreza, Só por fartarte hydropica no ouro, Atropellando as leis da natureza! De immortal fome, ah Tantalo[9] ambicioso, Tanto mais farto, quanto mais sequioso!{11}

Vem ó filha do Ceo, de Themis filha,[10] Que nascendo do Ceo, ao Ceo tornaste, Em cuja maõ direita a espada brilha, E na esquerda equilibrios ensinaste; Dispoem golpes mortaes, golpes sensiveis, Contra os filhos da terra, vís, cruentos, Monstros da tyrannia os mais terriveis, Dignos de alto castigo, altos tormentos; Corta filha de Jove[11] a iniquidade, Tanto delicto, insulto, e crueldade.{12}

Já os ferreos grilhões, grilhões pezados Arrastraõ os crueis insultadores, Já ficaõ comprehendidos, e accusados Do delicto maior, culpas maiores; Confessos, maniatados, e arguidos Gemem, debaixo dos mais justos pezos, A certeza de serem percutidos, O tormento de serem Réos, e prezos, De pagarem as vidas tantos damnos Para maior horror dos deshumanos.{13}

Olhai crueis a sorte do tormento, Que naõ tem proporção com tal insulto, Assim como differe do cruento O justo coração,[12] o mesmo indulto. Ide, ide pagar feios delictos, E ser nos altos póstes presentados; Naõ incautos, sem tempo, inda que afflictos, Com culpa, com favor, e preparados; Vêde, vêde o que póde a alta Piedade, Inda quando castiga a víl maldade.{14}

A maõ mimosa,[13] e Regia, junta ao peito O coração mostrando mais piedoso, Cheio de luz, e cheio de respeito, De hum semblante purissimo, e formoso, Que espalha sobre todos a riqueza, Rios de Graça, mil preciosidades; A maior exemplar de alta grandeza, Que honra o sacro Throno, e as Magestades, He, quem fez castigar o impio roubo, Quem nos fez libertar do voraz lobo.[14]{15}

Venturosa Ulysséa, ergue o rosto, E beija a sacra Maõ, que em nós derrama O socego, a fortuna, a paz, e o gosto, Huma chamma de amor, e outra chamma; Affina, a aurea lyra, e teus louvores Cheguem aos Ceos voluveis, estrellados, Cujo supremo Author lhe dá favores, E por ella nos faz felicitados Por ella, que virtudes mil encerra, Que premeia a virtude, e o vicio aterra.{16}

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