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Electra

ACTO PRIMEIRO

Ramalho Ortigão translation

Sala sumptuosa no palacio dos senhores de Garcia Yuste. Á direita, sahida para o jardim. Ao fundo, communicação para outras salas do palacio. Á direita, no primeiro plano, porta dos quartos d’Electra.

SCENA I

MARQUEZ E JOSÉ

José

Estão no jardim... Vou dar parte.

Marquez

Espera lá. É esta a primeira visita que faço aos senhores de Garcia Yuste no seu palacio novo... Deixa-me dar uma vista d’olhos... Está n’um grande pé... Bem hajam os que tão bem empregam o seu dinheiro! Porque não é sómente o seu estado de casa, é o bem que fazem, o generosos que são em obras pias...

José

Oh! lá isso...!

Marquez

E tão mettidos comsigo! tanto da paz e do socego do lar!... Ainda que, segundo cuido, ha novidade agora na familia...

José

Novidade? Ah! já sei... Quer o snr. Marquez referir-se...

Marquez

Escuta, José! Promettes fazer o que eu te peça?

José

Já o snr. Marquez sabe que eu me não esqueço nunca dos quatorze annos que servi na sua casa... O snr. Marquez manda, não pergunta.

Marquez

Pois venho cá de proposito para conhecer essa interessante senhorita, que os teus amos trouxeram agora d’um collegio de França...

José

A senhorita Electra.

Marquez

Podes dizer-me se os senhores estão contentes com essa nova sobrinha? É pessôa amoravel, agradecida?

José

Oh! n’esse particular!... Os senhores morrem por ella... Sómente...

Marquez

Quê?

José

A menina é travessasita...

Marquez

A edade!

José

Brincalhôna, oh! mas brincalhôna, que se não faz uma ideia...

Marquez

Mas diz que é linda, que é um anjo...

José

Um anjo sim, se ha anjos parecidos com mafarricos... É que nos põe o sal na moleira a todos cá de casa!

Marquez

Estou morto por conhecêl-a!

José

No jardim a encontra o snr. Marquez. É lá que passa as manhãs pondo em redemoinho tudo.

Marquez

(olhando para o jardim) Lindo jardim, bello parque, as velhas arvores do antigo palacio das Gravelinas...

José

É exacto.

Marquez

O grande predio, ao fundo da alameda, é tambem dos senhores de Yuste?

José

Tambem. Com entrada pelo jardim e pela rua. Em baixo tem o seu laboratorio o sobrinho dos patrões, o senhorito Maximo, primeiro dos trunfos de Hispanha nas mathematicas, e... na outra coisa... na...

Marquez

Bem sei... Chamam-lhe o Magico prodigioso... Conheci-o em Londres... ainda a mulher d’elle era viva.

José

Morreu em fevereiro do anno passado... e deixou-lhe dois filhos, dois amores!

Marquez

Ultimamente renovei com elle o meu antigo conhecimento, e, apesar de nos não visitarmos, por certos motivos, somos muito amigos.

José

Tambem eu gósto d’elle. Optimo sujeito...!

Marquez

E outra coisa: não estão arrependidos os teus amos de terem mettido em casa esse diabretesito?

José

(receoso de que venha gente) Eu direi a V. Ex.ª... Tenho notado... (Vê vir D. Urbano pelo jardim) Ahi vem o senhor.

Marquez

Põe-te a andar.

SCENA II

MARQUEZ E D. URBANO

Marquez

(abrindo-lhe os braços) Querido Urbano!

Urbano

Marquez! ditosos olhos!...

Marquez

E Evarista?

Urbano

Bem... Sómente extranhando muito as grandes ausencias do marquez de Ronda...

Marquez

Oh! você não imagina o inverno que passámos...

Urbano

E Virginia?

Marquez

Assim, assim... Sempre achacada, mas reagindo constantemente pela força de uma vontade tenaz, cabeçuda lhe chamarei.

Urbano

Pois ainda bem! ainda bem!... Com quê... quer que desçamos ao jardim?

Marquez

Vamos já! Deixe-me tomar assento, pouco a pouco, na sua casa nova... (Senta-se) E conte-me lá, querido, conte-me d’essa menina encantada, que foram buscar ao collegio.

Urbano

Não, não estava já no collegio. Tinha ido para Hendaya, para uns parentes da mãe. Eu nunca fui muito da opinião de a trazer para cá. Mas Evarista emprehendeu n’isso... Quer sondar o caracter da pequena, apurar se d’ella se poderá fazer uma mulher em termos, ou se nos estará destinada a vergonha de a vêr herdar as tendencias da mãe... Você sabe que era uma prima irmã de minha mulher; e escuso de lhe lembrar os escandalos que deu essa Eleuteria desde o anno de 80 a 85.

Marquez

Nem me fale n’isso!

Urbano

Emfim, foi a ponto de que a familia, vexada, rompeu com ella de todo e para sempre! Esta menina, agora, cujo pae se não sabe quem seja, criou-se com a mãe até os cinco annos. Depois levaram-a para as Ursulinas de Bayona. Lá, ou por abreviar ou pelo que fosse, puzeram-lhe esse nome, exquisito e novo, de Electra.

Marquez

Novo, propriamente, não. Á pobre mãe—coitadita—Eleuteria Dias, todos nós, os intimos da casa, lhe chamavamos tambem Electra, em parte talvez por abreviatura, e em parte porque ao pae, militar valente mas assignaladamente desditoso na vida conjugal, tinham posto a alcunha de Agamemnon.

Urbano

D’essa não sabia... Tambem nunca vivi com elles. Eleuteria, pela fama que tinha, figurava-se-me uma creatura repugnante...

Marquez

Por amor de Deus, querido Urbano, não sejamos pharisaicos... Lembre-se que Eleuteria—a quem chamaremos Electra I—mudou de vida, ahi por 88...

Urbano

E não deu pouco que falar esse arrependimento tambem. Lá foi morrer a S. João da Penitencia, em 95, regenerada, abominando a monstruosa libertinagem da sua vida...

Marquez

(como quem lhe reprehende o rigorismo) Deus lhe perdoou...

Urbano

Sim, sim... perdão, esquecimento...

Marquez

E tratam então agora de tentear Electra II a vêr se inclinará para bem ou se lhe dará para mal... Que resultado vão dando as provas?

Urbano

Resultados obscuros, contradictorios, variaveis de dia para dia, de hora para hora. Ha momentos em que ella nos revela qualidades sublimes, mal encobertas pela sua innocencia; outros, em que nos apparece como a creatura mais doida a quem Deus deu licença de vir ao mundo. Tão depressa encanta pela sua candura angelica como aterra a gente pelas diabolicas subtilezas que desfia da sua propria ignorancia.

Marquez

Natural desequilibrio da edade, excesso de imaginação, talvez. É esperta?

Urbano

Como a electricidade em pessoa, mysteriosa, repentista, de grande tino. Destroe, transtorna, perturba, illumina.

Marquez

(levantando-se) Fervo em curiosidade. Vamos vêl-a.

SCENA III

MARQUEZ, URBANO, CUESTA, pelo fundo

Cuesta

(entra com mostras de cançaço, tira do bolso a carteira de negocios, e dirige-se á mesa) Marquez... Tudo bom por cá?

Marquez

Oh! grande Cuesta! que nos conta o nosso incançavel agente?

Cuesta

(senta-se. Revela um padecimento de coração) O incançavel... começa a cançar.

Urbano

Homem! e que me dizes da alta d’hontem no Amortisavel?

Cuesta

Veio de Paris com dois inteiros.

Urbano

Fizeste a nossa liquidação?

Marquez

E a minha?

Cuesta

Estou com isso... (Tira papeis da carteira e escreve a lapis) N’um instante saberão as cifras exactas. Tirou-se todo o partido que se podia tirar da conversão.

Marquez

Naturalmente... Sendo o typo de emissão dos novos valores 79,50... tendo nós comprado por preço muito baixo o papel recolhido...

Urbano

Naturalmente...

Cuesta

O resultado foi enorme.

Marquez

Querido Urbano, esta facilidade com que se enriquece é positivo que dá o amor da vida e o enthusiasmo da belleza humana. Vamos para o jardim.

Urbano

(a Cuesta) Vens?

Cuesta

Preciso de dez minutos de silencio para pôr em ordem os meus apontamentos.

Urbano

Deixamos-te em socego. Não queres nada?

Cuesta

(abstrahido nas suas contas) Não... quero dizer... Sim: manda-me vir um copo de agoa. Estou abrasado.

Urbano

Immediatamente. (Sae com o Marquez para o jardim)

SCENA IV

CUESTA E PATROS

Cuesta

(corrigindo as suas notas) Ah! cá está o erro. Aos de Yuste toca... um milhão e seiscentas mil pezetas. Ao marquez de Ronda, duzentas e vinte e duas mil... Temos que descontar as doze mil e tanto, equivalentes aos nove mil francos... (Entra Patros com copos d’agoa, caramellos e cognac. Espera que Cuesta termine a sua conta)

Patros

Ponho aqui, D. Leonardo?

Cuesta

Põe e espera um instante... Um milhão e oitocentos... com os seiscentos e dez... fazem... claro! está certo. Bem bom! bem bom!... Com que então, Patros... (tira do bolso dinheiro, que lhe dá) Toma lá!

Patros

Muito obrigado!

Cuesta

E já te aviso que espero de ti um favôr...

Patros

Dirá, D. Leonardo.

Cuesta

Pois, minha amiga... (remechendo um caramello) Escuta...

Patros

Não quer cognac?... Se vem cançado, a agoa só pode fazer-lhe mal.

Cuesta

Sim: deita um poucochito... Pois o que eu quereria...—Não vás pôr malicia no que a não tem: sentido!—o que eu quereria era falar alguns momentos, a sós, com a senhorita Electra. Conhecendo-me como me conheces, comprehenderás de certo que o meu fim é o mais honrado e o mais digno... Mas sempre t’o digo para te tirar todo o escrupulo... (Recolhe os papeis) Antes que venha alguem, poderás dizer-me que occasião e que logar será melhor?

Patros

Para dizer duas palavras á senhorita Electra... (meditando) terá de ser então quando os senhores estiverem com o procurador... Eu verei.

Cuesta

Se pudesse ser hoje, melhor.

Patros

Ainda cá volta hoje?

Cuesta

Volto. Avisa-me.

Patros

Esteja certo. (Recolhe o serviço e sae)

SCENA V

CUESTA E PANTOJA, que entra em scena meditabundo, abstraído, todo vestido de preto

Cuesta

Amigo Pantoja, salve-o Deus! Como vamos?

Pantoja

(suspira) Vivendo, amigo, que é o mesmo que dizer: esperando.

Cuesta

Esperando melhor vida...

Pantoja

Padecendo n’esta o que Deus determine para merecer a outra.

Cuesta

E de saude que tal?

Pantoja

Mal e bem. Mal, porque me affligem desgostos e achaques; bem, porque me apraz a dôr, e me regosija o soffrimento. (Inquieto, e como dominado por uma ideia fixa, olha para o jardim)

Cuesta

Que ascetico vem hoje!

Pantoja

Olhe que cabecinha de vento a d’aquella Electra...! Lá vae ella de corrida com os pequenos do porteiro, com os dois filhos do Maximo, e ainda com filhos dos visinhos. Quando a deixam n’aquellas travessuras de creança é que ella é feliz.

Cuesta

Adoravel creaturinha! Que Deus a fade bem, para ser uma mulher como se quer!

Pantoja

D’aquella graciosa boneca, d’aquella voluvel menina facilmente se poderia tirar um anjo; da mulher que ella ha de ser, não sei.

Cuesta

Não o entendo bem, amigo Pantoja.

Pantoja

Entendo-me eu... Olhe, olhe como brincam... (Assustado) Deus de misericordia! quem é que vae com ella?... Não é o marquez de Ronda?

Cuesta

Elle mesmo.

Pantoja

Que corrupto homem! Tenorio da geração passada não se decide a jubilar-se para não dar um desgosto a Satanaz!

Cuesta

Para que mais uma vez se possa dizer que não ha paraizo sem serpente...

Pantoja

Para isso não! serpente já tinhamos. (Passeia nervoso e displicente pela sala)

Cuesta

E diga-me, passando a outra coisa: teve já noticia do dinheirão que lhes trouxe?

Pantoja

(sem prestar grande attenção e fixando-se n’outra ideia que não formúla) Ah! sim, já... Ganhou-se muito.

Cuesta

Evarista completará agora a sua grande obra religiosa.

Pantoja

(maquinalmente) Sim.

Cuesta

E poderá o amigo Pantoja consagrar muito maiores recursos a S. José da Penitencia.

Pantoja

Sim... (Voltando á sua ideia fixa) Serpente já tinhamos... Que dizia, amigo Cuesta?

Cuesta

Dizia eu...

Pantoja

Desculpe interrompel-o... Sabe se sempre é certo que o nosso visinho de defronte, o nosso maravilhoso sábio, inventor e quasi thaumaturgo, projecte mudar de casa?

Cuesta

Quem? Maximo? Acho que sim... Parece que em Bilbau e em Barcelona acolhem com enthusiasmo os seus admiraveis estudos para novas applicações da electricidade; e lhe offerecem todos os capitaes que elle queira para proseguir nas experiencias que encetou.

Pantoja

(meditativo) Oh! capitaes eu lh’os daria tambem, comtanto que...

SCENA VI

PANTOJA, CUESTA, EVARISTA, URBANO E O MARQUEZ, que veem do jardim

Evarista

(soltando o braço do Marquez) Bons dias, Cuesta. Pantoja, quanto estimo vêl-o! (Cuesta e Pantoja inclinam-se e beijam-lhe respeitosamente a mão. A senhora de Yuste senta-se á direita; o Marquez em pé ao lado d’ella. Os outros agrupam-se á esquerda falando de negocios.)

Marquez

(reatando com Evarista uma conversação interrompida) Por este andar a minha boa amiga não sómente passa á Historia mas passa a figurar tambem no Anno Christão.

Evarista

Não me gabe por coisas em que não ha merecimento nenhum, Marquez... Não temos filhos: Deus cumula-nos de riqueza. Temos em cada anno uma herança. Sem trabalho nenhum—nem, sequer o de discorrer—o excesso dos nossos rendimentos, habilmente manejados pelo amigo Cuesta, capitalisa-se sem darmos por isso, e cria novas fontes de dinheiro. Se compramos uma quinta, a subida dos productos triplica n’esse mesmo anno o valor da terra. Se ficamos senhores de um baldio inteiramente sáfaro, acontece que no subsolo se descobre um jazigo immenso de carvão, de ferro ou de chumbo... Que quer dizer tudo isto?

Marquez

Quer dizer—acho eu—que quando Deus multiplica tantas riquezas sobre quem nem as deseja nem as estima, bem claramente elle está indicando que as concede para que sejam empregadas em servil-o.

Evarista

É claro. Interpretando-o tambem assim, eu apresso-me a cumprir a vontade de Deus. O dinheiro que Cuesta nos veio hoje trazer apenas me passará pelas mãos, e com elle completarei a somma de sete milhões consagrados á obra do Santo Patrocinio. E mais farei para que a casa e o collegio de Madrid tenham o decoro e a magnificencia adequada a um tão grande instituto. Desenvolveremos tambem as obras do collegio de Valencia e do de Cadiz...

Pantoja

(passando para o grupo da direita) Sem esquecer, minha senhora, a casa dos altos estudos, a sua escola de instrucção superior, que virá a ser o santuario da verdadeira Sciencia.

Evarista

Bem sabe que é esse o meu constante pensamento.

Urbano

(passando tambem para a direita) N’isso se pensa n’esta casa de noite e de dia.

Marquez

Admiravel, minha querida amiga, admiravel! (Levanta-se)

Evarista

(a Cuesta, que igualmente tem passado para a direita) E agora, amigo Leonardo, que vamos fazer?

Cuesta

(sentando-se ao lado de Evarista, a quem propõe novas operações) Por hoje nos limitaremos a metter algum dinheiro...

(Pantoja, em pé, colloca-se á esquerda de Evarista)

Marquez

(passeando na scena com Urbano) Ha de permittir, querido Urbano, que, proclamando os merecimentos sublimes da senhora de Garcia Yuste, eu não deite em sacco roto os nossos: falo da minha mulher e de mim. Saberá que Virginia já fez a caridade de transferir para as Escravas de Jesus um bom terço da nossa fortuna...

Urbano

Das mais solidas da Andaluzia.

Marquez

E por nosso testamento deixamos tudo a essas senhoras, menos a parte destinada a certos encargos e aos parentes pobres.

Urbano

Ora vejam lá!... Mas, segundo me constou, o Marquez aqui ha annos parece que não via com enthusiasmo illimitado que a piedade da marqueza, minha senhora, se tornasse tão angelicamente dispendiosa...

Marquez

É certo... mas converti-me. Abjurei todos os meus erros. A minha mulher catechisou-me.

Urbano

Exactissimamente o que me succedeu a mim. Evarista virou-me com o forro de santo para fóra.

Marquez

Para conservar a paz e estabelecer a harmonia conjugal, principiei por contemporisar, continuei contemporisando... Pois, meu amiguinho, contemporisação foi ella que, a pouco e pouco, cheguei ao que se vê: Sou um escravo... das Escravas de Jesus! E não me arrependo. Vivo n’uma placidez beatifica, curado de todas as inquietações da minha vida. E estou já agora a convencer-me de uma coisa: é que a minha mulher não sómente salva a sua alma, mas que me salva a minha tambem!

Urbano

Pois é o que eu egualmente recommendo cá em casa: que não se esqueçam, podendo tambem ser, de me salvar a mim!

Marquez

Nós, homens, não temos iniciativa para nada.

Urbano

Absolutamente para nada!

Marquez

Verdade seja que ás vezes até o que se chama respirar nos prohibem!

Urbano

Prohibida a respiração... Conheço!

Marquez

Mas vivemos em paz.

Urbano

E servimos a Deus sem esforço nenhum. Isso é que é.

Marquez

As nossas mulheres lá vão adeante de nós, por esse bemdito caminho da eternidade, pela gloria fóra; e podemos estar socegados, que nos não deixam na estrada.

Urbano

Pois! é a sua obrigação.

Evarista

Urbano?...

Urbano

(acudindo pressuroso) Menina...

Evarista

Põe-te á disposição de Cuesta para a liquidação e para a entrega aos padres.

Urbano

Hoje mesmo. (Cuesta levanta-se)

Evarista

E outra coisa: faze-me favor de chegar ao jardim, e dizer a Electra que tem já tres horas de brincadeira.

Pantoja

(imperioso) Que se venha embora. É brincar de mais.

Urbano

Vou já. (Vendo vir Electra) Ella ahi vem.

SCENA VII

ELECTRA, atraz d’ella MAXIMO

Electra

(Entra a correr e a rir, perseguida por Maximo, a quem ganhou na corrida. O seu riso é de medo infantil) Bem feito, que não me pilhas!... Enraivece-te, brutamontes!

Maximo

(traz em uma das mãos varios objectos que indicará, e na outra um ramo de choupo, que esgrime como um chicote) Eu te digo se te pilho ou não, selvagem!

Electra

(sem fazer caso dos que estão em scena, corre a casa com infantil ligeiresa e vae refugiar-se no vestido de D. Evarista, ajoelhando-se-lhe aos pés e abraçando-a pela cinta) Estou salva!... Tia, ponha-o fóra!

Maximo

Ah! já foges! já tens medo, minha menina!

Evarista

Mas, filha da minh’alma! quando é que terás modos de senhora? E tu, Maximo, és tão creança como ella.

Maximo

(mostrando as coisas que traz) Vejam o que esse demonico me fez. Quebrou-me estes dois tubos... E olhem o estado em que poz estes papeis, contendo calculos que representam um trabalho enorme. (Mostra os papeis suspendendo-os de alto) D’este fez uma passarola; este deu-o aos pequenos para pintarem elephantes, burros e um couraçado a atirar balas a um castello...

Pantoja

Então ella foi ao laboratorio?

Maximo

E revolucionou os pequenos... Revolveram-me tudo!

Pantoja

(com severidade) Isso, menina...

Evarista

Electra!

Marquez

(enthusiasmado) Electra! Encanto de menina grande! Bemditas travessuras!

Electra

Eu não lhe quebrei os tubos. Não ha tal! Foi Pepito que lhe fez esse obsequio. Os papeis, sim senhor; fui eu que peguei n’elles, imaginando que não serviam para nada com os hediondos esgaravunhos que tinham.

Cuesta

Basta! haja pazes!

Maximo

Pois vá lá, por esta vez... (a Electra) Perdôo-te. Deves-me a vida... Toma lá. (Entrega-lhe a chibata; Electra recebe-a, e bate-lhe brandamente)

Electra

Toma agora tu! Esta é pelo que me disseste. (Batendo-lhe com mais força) Esta agora pelo que não quizeste dizer-me.

Maximo

Disse-te tudo.

Pantoja

Moderação! juizo!

Evarista

Que te disse elle?

Maximo

Disse-lhe verdades uteis... Que aprenda por si mesma o muito que ainda ignora; que abra bem abertos esses grandes olhos e que os estenda pela vida humana, para que veja que nem tudo é alegria, que ha tambem no mundo deveres, desenganos e sacrificios...

Electra

Chega o lobishomem! (Occupa o centro da scena, onde todos a rodeiam, menos Pantoja, que se colloca ao lado d’Evarista)

Cuesta

Nem tudo applausos!

Urbano

A severidade é precisa.

Maximo

Em severidade ninguem me ganha... Dize: é ou não é verdade que sou severo, e que tu m’o agradeces? Confessa que me agradeces!

Electra

(batendo-lhe de leve) Peste de sábio! Se isto fôsse um açoite verdadeiro, ainda com mais alma te batia.

Marquez

(risonho e encarinhado) Electra, veja se me bate em mim tambem... Faça-me essa esmola!

Electra

Em si não, porque não tenho confiança... Só se fôr muito de levesinho... assim... assim... assim... (Toca levemente no Marquez, em Cuesta e em Urbano)

Evarista

Melhor seria que tocasses piano para esses senhores ouvirem.

Maximo

Quê, se não estuda nada! Só uma coisa se póde comparar á sua grande disposição artistica, é o seu espantoso desapego de todas as artes.

Cuesta

Que nos mostre as aquarellas e os desenhos. O Marquez vae vêr. (Juntam-se todos em volta da meza, menos Evarista e Pantoja, que conversam áparte)

Electra

Ahi sim senhor! (Procurando a pasta de desenhos entre os livros e as revistas que estão na mesa) Agora se vae vêr se sou ou se não sou uma artista!

Maximo

Forte gabarola!

Electra

(desatando as fitas da pasta) Pois sim! tu a desfazeres e eu a augmentar-me veremos quem póde mais. Ora aqui está, e pasmem! (Mostrando os desenhos) Que teem que dizer a estes portentosos esboços de paizagem, de figura, de animaes? a estas vaccas que parecem pessoas? a estas naturezas mortas que parecem vivas? a estes rochedos que só lhes falta fallarem?! (Todos se extasiam no exame dos desenhos, que passam de mão em mão)

Evarista

(tendo desviado a attenção do grupo do centro, entabolou conversa intima com Pantoja) Tem razão, Salvador. Quando é que a não tem? Agora, no caso de Electra, o seu argumento é um clarão que nos illumina a todos.

Pantoja

Não vá crêr que seja a minha pobre intelligencia que projecta essa luz. Ella é apenas o resplendor de um fogo intenso que tenho em mim: a vontade! Por meio d’esta força, que devo a Deus, esmaguei o meu orgulho e emendei os meus erros.

Evarista

Depois da confidencia que hontem á noite me fez é indiscutivel para mim o seu direito de intervir na educação d’essa cabeça de vento...

Pantoja

Para lhe ensinar o caminho da vida, para lhe mostrar o alto fito da nossa misera existencia na terra...

Evarista

E esse direito que indubitavelmente lhe cabe, implica deveres inilludiveis...

Pantoja

Quanto lhe agradeço que tão perfeitaimente o comprehenda, minha senhora e amiga da minha alma! Eu receava que a minha confidencia d’hontem, historia funesta que reveste de negro os melhores annos da minha vida, me tivesse feito decaír da sua estima!

Evarista

Não, meu amigo. Quem é que dentro da humanidade se póde considerar liberto da fraqueza humana? Em si o peccador regenerou-se, castigando a vida com as mortificações do arrependimento, e dignificando-a com a pratica da virtude.

Pantoja

A divina tristeza, o amor da solidão, o convicto desprezo de todas as vaidades do mundo foram a salvação da minha alma. Pois bem: eu não estaria completamente purificado perante a minha consciencia se n’esta occasião não interviesse nos negocios da terra para salvar dos seus perigos a angelica innocencia d’essa menina, fatalmente destinada, se lhe não acudirmos, a precipitar-se pelo caminho em que se perdeu a sua desgraçada mãe.

Evarista

A minha opinião é que fale com ella...

Pantoja

A sós.

Evarista

Assim o entendo: a sós. Faça-lhe comprehender, o mais delicadamente que possa, a especie de auctoridade que tem...

Pantoja

É todo o meu desejo esse... (Continuam em voz baixa)

Electra

(no grupo do centro disputando com Maximo) Deixa-te de sentenças, que tu d’isto não sabes nada! Então não querem vêr com a que elle se sae? que o passaro parece um velho pensativo, e que a mulher faz lembrar uma lagosta desmaiada...

Marquez

Não senhor... Eu acho que está muito bem feito!

Maximo

Ás vezes tambem lhe dá para ahi! Quando menos pensa saem-lhe coisas prodigiosamente exactas.

Cuesta

É certo que estas velhas arvores, atravez das quaes se descobre uma triste faixa de mar, ao longe...

Electra

A minha especialidade aposto que ainda nenhum adivinhou qual é?... Pois são os troncos velhos, são os carcomidos muros em ruina. É singular que só pinto bem aquillo que não conheço: a tristeza, o passado, o môrto! A grande luminosidade radeante da alegria, da mocidade, não me sae! (Com pena e assombro) Sou uma grande artista para tudo que não sou eu!

Urbano

Tem graça.

Cuesta

Esta menina é optima!

Marquez

É scintillante!

Maximo

Esperemos que lhe venha a reflexão tambem... a seu tempo...

Electra

(zombando de Maximo) A reflexão! a gravidade! o tempo que ha de vir!... É a sombra que sempre me deita este cipreste!... Ora fica sabendo que eu hei de ter tudo isso quando me dér para ahi... e mais do que tu, meu sabichão!

Maximo

Veremos... veremos isso quando te chegar a vez!

Pantoja

(que não tem dado attenção ao que se passa no grupo) Não posso occultar-lhe, minha senhora, que me desagrada muito a familiaridade de Electra com o sobrinho do seu marido.

Evarista

Ha de se lhe corrigir. Mas no emtanto sempre tenha você em conta que este Maximo, que ahi vê, é um homem perfeitamente de bem e raramente serio...

Pantoja

Bem sei, minha amiga... Mas nos desfiladeiros da confiança excessiva resvalam os mais solidos e os mais firmes; uma triste experiencia m’o ensinou a mim!

Electra

(no grupo do centro) Eu hei de tomar todo o juizo que eu quizer quando elle me fôr preciso. Ninguem se põe serio emquanto Deus não manda. Ninguem diz ai ai senão quando alguma coisa lhe doe.

Marquez

Lá isso é verdade!

Cuesta

Um dia aprenderá a ser pratica.

Electra

De certo que sim! No dia em que venha Deus e me diga: «Menina: aqui tens a dôr, a duvida, a responsabilidade, o dever...»

Maximo

E breve o dirá!...

Electra

Para que eu lhe responda!

Evarista

Electra, minha filha, não disparates.

Electra

Tia, é este Maximo... (passa para o lado de Evarista)

Urbano

O Maximo tem razão...

Cuesta

Certamente que sim. (Cuesta e Urbano passam tambem para o lado de Evarista e de Pantoja, ficando sós á esquerda Maximo e o Marquez)

Maximo

Então, Marquez, qual é o resultado da sua primeira observação?

Marquez

Encantou-me a rapariga. Vejo que você não exagerava nada.

Maximo

E por baixo do fascinante encanto d’essa innocencia não pôde a sua penetração descobrir alguma coisa...

Marquez

Ah! sim... belleza moral, juizo pratico... Ainda não tive tempo para isso... Continúo a observar...

Maximo

É que eu—você sabe—consagrado ao estudo desde muito moço, mal conheço o mundo, e os caracteres humanos são para mim uma escripta em que apenas soletro.

Marquez

Pois esse, meu amigo, é o unico dos livros em que eu leio de cadeira.

Maximo

Quer vir a minha casa?

Marquez

Com muito gosto. É possivel que minha mulher me reprehenda se souber que eu visito uma officina de electrotechnia, uma escandalosa fabrica de luz. Mas não será de uma severidade que eu não aguente. Posso aventurar-me... Voltarei depois aqui, e com o pretexto de admirar a menina ao piano falarei com ella e proseguirei os meus estudos.

Maximo

(alto) Vem, Marquez?

Urbano

Então assim nos deixam?

Marquez

Vamos vêr o laboratorio do nosso amigo.

Evarista

Marquez, estou muito sentida, mas muito, pela sua longa ausencia. Quererá descarregar-se de tantos peccados velhos almoçando hoje comnosco? É o seu castigo...

Marquez

Acceito-o em desconto da minha culpa e beijo a mão que tão docemente me corrige.

Evarista

Maximo, tu vens tambem.

Maximo

Se me deixarem livre, virei, de certo.

Electra

Não venhas, homem de Deus, não venhas! (Com alegria que não dissimula) Vens? Dize que sim! (Corrigindo-se) Não, não: dize que não.

Maximo

Descança que te não livras de mim! Á força has de ganhar juizo...

Electra

E has de perdêl-o tu, caturra velho! (Segue-o com a vista até que sae. Saem Maximo e o Marquez pelo jardim. José entra pelo fundo)

SCENA VIII

ELECTRA, EVARISTA, URBANO, PANTOJA, CUESTA E JOSÉ

José

(annunciando) A senhora Superiora de S. José da Penitencia.

Pantoja

Ah! a nossa bôa soror Barbara da Cruz...

Evarista

Que entre para aqui. (Levanta-se) Espera! Iremos recebêl-a ao salão.

Pantoja

Feliz opportunidade! escuso de ir ao convento.

Evarista

Electra, estudar. (Indica-lhe a sala proxima)

Cuesta

(despedindo-se) Eu saio e volto logo.

Evarista

Adeus.

Cuesta

(áparte, referindo-se a Electra) Deixam-a só?

Pantoja

(a Electra) Menina! Cultive com esmero a grande arte sagrada. Applique todo o seu talento ao estudo de Bach... para que se compenetre do admiravel estylo religioso. (Saem todos menos Electra)

SCENA IX

ELECTRA, pouco depois CUESTA

Electra

(entoando uma psalmodia de egreja, reune os desenhos e recolhe-os nas suas pastas) Bach... para que me compenetre do estylo religioso... é bom!... É bom, e é engraçado. (Canta)

Cuesta

(entra pelo fundo, recatando-se) Só...!

Electra

(canta algumas notas liturgicas. Vendo Cuesta) Oh! D. Leonardo...! Cuidei que tinha sahido...

Cuesta

(com timidez) Sahi mas voltei, minha querida menina. Preciso muito de lhe falar.

Electra

(um poucochinho assustada) A mim!

Cuesta

É um assumpto delicado, extremamente delicado... (Com fadiga e difficuldade em respirar) Perdoe-me. Padeço do coração... não posso estar de pé. (Electra chega-lhe uma cadeira. Senta-se) Tão delicado este assumpto, que não sei por onde comece...

Electra

Deus meu, que é?

Cuesta

(animando-se) Electra, eu conheci sua mãe.

Electra

Ah! a minha mãe foi bem desgraçada...

Cuesta

Que entende a menina por ser desgraçada?

Electra

Eu... entendo que viveu entre pessoas que a não deixaram ser tão bôa como ella queria.

Cuesta

Ahi está uma profunda verdade que, sem querer, a menina disse... Lembra-se da sua mãe?... Pensa algumas vezes n’ella?...

Electra

A minha mãe é para mim uma recordação, vaga sim, mas de uma doçura incomparavel... uma querida imagem que nunca me abandona... Guardo-a viva no meu coração, que não é mais que uma grande memoria, no fundo da qual a procuram sempre os meus olhos anciosos de vêl-a. Minha pobre mamãsinha! (Leva o lenço aos olhos. Cuesta suspira) Diga-me, D. Leonardo, quando você conheceu minha mãe era eu muito pequenina...

Cuesta

Era um miminho. Faziamos-lhe cócegas para a vêr rir... o seu riso parecia-me o encanto da natureza, a alegria do universo.

Electra

Ahi está, D. Leonardo, ahi está porque eu sahi tão doida, tão travêssa, tão desparafusada... você alguma vez me teria pegado ao collo...

Cuesta

Innumeraveis vezes.

Electra

(sorrindo sem ter acabado de enxugar as lagrimas) E eu não lhe puxava pelos bigodes?

Cuesta

Ás vezes com tanta força que me fazia doer.

Electra

E de certo então me batia nas mãos...

Cuesta

Devagarinho, sim.

Electra

Pois ha de crêr que talvez que ainda me doam tambem?

Cuesta

(impaciente por entrar em materia) Mas vamos ao caso... E antes de mais nada a advirto, minha querida Electra, que é muito reservado o que lhe vou dizer... para nós ambos unicamente.

Electra

Mette-me medo...

Cuesta

Não, não é uma coisa que assuste... Veja em mim a menina um amigo, o melhor de todos os seus amigos; veja n’este acto o interesse mais puro e o mais elevado sentimento...

Electra

(confusa) Sim, não duvído, mas...

Cuesta

Eis aqui porque dou este passo... Com quanto não seja ainda muito velho, não me sinto com corda para longo tempo de vida. Viuvo ha vinte annos, não tenho mais familia que a minha filha Pilar, já casada e longe. Estou quasi só n’este mundo, tenho o pé no estribo para marchar para o outro... E a minha solidão, ai! parece empurrar-me e dar-me pressa... (Com grande difficuldade de expressão) Mas antes de partir... (Pausa) Electra, quanto pensei em si antes de a trazerem para Madrid!... E desde que chegou, Deus meu, senti—como lh’o direi?... Imagine o mais profundo, o mais puro affecto de um coração, envolvido nos gritos de uma consciencia...

Electra

(aturdida) Que grave coisa deve ser essa, a consciencia! A minha é, por ora, como um menino que dorme no seu berço.

Cuesta

(com tristeza) A minha é velha e memoriosa. Nem dorme, nem me deixa dormir, assignalando-me sempre, a grandes brados, os erros graves da minha vida.

Electra

Erros graves na vida... você, tão bom...

Cuesta

Bom? Sim... talvez... Bom mas peccador... Emfim deixemos os erros, tratemos dos seus resultados. Eu não quero de nenhum modo que a menina se possa achar ao desabrigo. Não tem fortuna propria, e é duvidoso que a protecção de Urbano e d’Evarista seja persistente e constante. Como havia de consentir eu que um dia se visse pobre, desamparada?

Electra

(com penosa lucta entre o seu conhecimento e a sua innocencia) Eu não sei se o entendo... não sei se devo entendel-o.

Cuesta

O mais apropositado será que me entenda, e não o diga; que acceite a minha protecção, e a não agradeça. Vão juntos o meu dever e o seu direito. Por culpa minha, Electra, não se quebrará o fio que une cada creatura na terra, com as creaturas que foram e com as que ainda vivem... E se hoje me determino a resolver este caso é porque... porque ha uns tempos me assalta o terror das mortes subitas. Meu pae e meu irmão morreram como fulminados de raio. A lesão cardiaca, destruidora da familia, sinto-a bem aqui: (indicando o coração) é um triste relogio que me conta as horas e os dias. Não posso adiar mais... Que me não colha a morte deixando abandonada no mundo a sua preciosa existencia! E concluo aqui, pedindo-lhe que tenha como assegurado na vida um bem estar modesto...

Electra

Um bem estar modesto... Eu?... para mim?

Cuesta

O sufficiente para viver n’uma decorosa independencia...

Electra

(confusa) Mas eu, que merecimentos tenho?... Perdôe-me, se não posso acabar de me convencer...

Cuesta

Mais tarde o convencimento virá.

Electra

E por que não fala n’isso a meus tios?...

Cuesta

(preoccupado) Porque... A seu tempo o saberão. Por agora ninguem mais deve ter conhecimento da resolução que tomei.

Electra

Mas...

Cuesta

(commovido, levantando-se) E agora, Electra, não quererá mal a este pobre enfermo, que tem contados os seus dias?

Electra

Querer-lhe mal!? Se é tão facil e tão doce para mim o querer bem! Mas não fale em morrer, D. Leonardo.

Cuesta

Completamente me consola saber que chorará talvez por mim...

Electra

Não faça com que eu chore já...

Cuesta

(apressando a sahida para vencer a sua commoção) E agora, minha querida filha, adeus.

Electra

Adeus... (retendo-o) E que nome lhe devo dar?

Cuesta

O de amigo me basta. Adeus. (Arranca-se para saír pelo fundo. Electra segue-o com a vista até que desappareça)

SCENA X

ELECTRA E O MARQUEZ

Electra

(meditativa) Meu Deus, que devo pensar? Aquellas meias palavras parece que ainda me dizem mais do que palavras completas. Mãesinha da minha alma!... (O marquez entra pelo jardim e adeanta-se devagar) Ah! O snr. Marquez!

Marquez

Assustei-a?

Electra

Não: surprehendeu-me apenas... Se vem para me ouvir tocar, aviso-o de que perdeu a viagem. Eu não toco hoje.

Marquez

Tanto melhor: assim fallaremos... Mal lhe sou apresentado entro em cheio na admiração das suas prendas, e, conhecida uma parte do seu caracter, vivamente desejo conhecel-a mais... Vae estranhar esta curiosidade, e julgar-me importuno...

Electra

Não acho. Eu sou curiosa tambem, e tanto que desde já me permitto fazer-lhe uma pergunta: é amigo de Maximo?

Marquez

Estimo-o e admiro-o muito... Coisa rara não é verdade?

Electra

Coisa naturalissima, me parece.

Marquez

Tão moça como é, talvez que se não dê bem conta das causas da minha amisade com o magico prodigioso... Vamos a vêr se me faço entender.

Electra

Explique-m’o bem.

Marquez

Senhorita, a sociedade que eu frequento, o circulo da minha propria familia e os habitos da minha casa produzem em mim um effeito de asphyxia, de lento ameaço apopletico. Quasi que sem dar por isso, por simples impulso instinctivo de conservação, lanço-me de vez em quando á procura de um pouco d’ar respiravel. Os meus olhos, velhos e nostalgicos, voltam-se então avidamente para a sciencia e para a natureza... Maximo, para mim, é um sanatorio.

Electra

Quer-me parecer que vou começando a entendêl-o, e á sua doença de confinado, com faltas d’ar e de vida...

Marquez

Prova de que raciocina. Devo tambem dizer-lhe que tenho por esse homem um interesse immenso.

Electra

Estima-o devidamente, admira-o pelas suas altas qualidades...

Marquez

E lastimo-o pelo seu infortunio.

Electra

(surprehendida) Maximo, desafortunado?

Marquez

Que desdita maior que a da solidão em que elle vive? A viuvez prematura submergiu-o nos estudos mais profundos e mais absorventes, que podem comprometter-lhe a saude e a vida. É um dos meus receios.

Electra

Tem os filhos, que o acompanham e a consolam... O Marquez viu-os hoje... Que lindas creaturinhas! O maior, que vae fazer agora cinco annos, é um prodigio de intelligencia. O pequenito, de dois annos, é o mais engraçado sujeitinho de todo o mundo. Eu adoro-os, sonho com elles, e gostava, por elles, de ser creada de meninos.

Marquez

O pobre Maximo, aferrado aos seus estudos, não pode attendêl-os como devia ser.

Electra

É o que eu digo tambem.

Marquez

Claro! Maximo do que precisa é de uma mulher... Aqui principiam as difficuldades e as dúvidas. Por mais que olhe e que procure, não vejo, não encontro a mulher digna de repartir a sua vida com a do grande homem.

Electra

Não a encontra, está visto, porque a não ha, não a ha. Para Maximo deve-se arranjar uma mulher, principalmente, de muito juizo...

Marquez

Primeiro que tudo, isso: de muito juizo.

Electra

O contrario de mim, que, não tenho nenhum, nenhum, nenhum!

Marquez

Não direi eu isso...

Electra

Que, ainda assim, quando lhe digo tolices e lhe chamo brutamontes, tonto e sabichão, não vá o Marquez pensar que o digo a sério. É brincadeira!

Marquez

Tambem me queria parecer que não era uma convicção philosophica.

Electra

Brincadeira descabida, talvez, porque elle é seriissimo... E sobre esse ponto gostaria de ouvir o seu conselho: acha que eu deva tornar-me séria?

Marquez

Nunca! Cada creatura é como Deus a quiz fazer. Ninguem precisa de ser serio para ser bom.

Electra

Pois veja lá! eu que não sei nada, tinha pensado isso mesmo!

SCENA XI

ELECTRA, MARQUEZ E PANTOJA pelo fundo

Pantoja

(do fundo, áparte) E atreve-se a pôr os olhos peçonhentos n’uma tal flôr de candura, este libertino, velho e incorrigivel! (Adeanta-se lentamente)

Marquez

(dando por Pantoja, áparte) Cae-nos o apagador em cima. Apaguemo-nos!

Electra

O snr. Marquez tinha vindo para me ouvir tocar, mas eu estou muito estupida hoje. Ficou para outra vez.

Marquez

O meu caro snr. Pantoja sabe que Beethoven é a minha paixão. Como me tinham dito que Electra o interpreta bem, esperava ouvir-lhe a Sonata pathetica ou o Clair de lune... Puzemo-nos a conversar, e, visto que não é occasião agora...

Pantoja

(com desabrimento) A hora do estudo acabou.

Marquez

(recobrando o seu papel de sociedade) Outro dia será! Virginia e eu, meu presado snr. Pantoja, muito estimariamos que quizesse honrar-nos com os seus conselhos relativamente ao Recolhimento das Escravas de Jesus.

Pantoja

Sim senhor, hoje irei vêr a marqueza, e fallaremos...

Marquez

Nas Escravas a encontrará o meu illustre amigo toda a santissima tarde... E como creio que sou demais... (Movimento de retirar-se)

Electra

O snr. Marquez não estorva.

Marquez

Vou-me com a musica... até o laboratorio de Maximo.

Pantoja

Vá, vá, que ha de gostar!

Marquez

Até ao almoço, meu muito respeitavel amigo.

Pantoja

Guarde-o Deus. (Sae o marquez pelo jardim)

SCENA XII

ELECTRA E PANTOJA

Pantoja

(vivamente) Que é que elle lhe dizia? que lhe estava contando esse depravador de innocencias?

Electra

Nada: historias vagas, anecdotas para rir...

Pantoja

As taes historias! Desconfie sempre das anecdotas jocosas, e dos narradores amenos, que escondem entre suavidades e fragrancias de jasmins uma ponta envenenada de estilete... Estou a achal-a perplexa, enleada, abstrahida, quasi medrosa, como quem acaba de sentir pela macia relva matisada de lirios um roçagar de reptil.

Electra

Ah! não.

Pantoja

Essa inquietação resultante das conversações perturbadoras ha de acalmal-a a minha palavra serena e benefica.

Electra

Vejo que é poeta, snr. de Pantoja; e dá-me prazer ouvil-o.

Pantoja

(indica-lhe uma cadeira, e sentam-se ambos) Minha presada filha, vou dar-lhe a explicação da intensa ternura que me inspira... Terá dado por isso?

Electra

Tenho.

Pantoja

Tal explicação equivale á revelação de um segredo...

Electra

(muito assustada) Deus do ceu! estou a tremer...

Pantoja

Socegue, minha filha... E ouça primeiro a parte d’esta confidencia mais dolorosa para mim. Fui muito mau, Electra.

Electra

Como assim, com a fama de santidade que tem!

Pantoja

Fui mau—digo-lh’o eu—em certa occasião da minha vida. (Suspirando) Já lá vão alguns annos.

Electra

(vivamente) Quantos? Poderei eu lembrar-me ainda do tempo da sua maldade, snr. de Pantoja?

Pantoja

Não pode. Quando eu me depravei, quando me afundi no lodaçal do peccado, não tinha a menina ainda nascido...

Electra

Mas nasci afinal...

Pantoja

(depois de uma pausa) É certo.

Electra

Nasci... e d’ahi? Por quem é, abrevie essa historia...

Pantoja

A sua perturbação me indica que devemos desviar os olhos do passado. A sua condição presente socega-me.

Electra

Porquê?

Pantoja

Porque ha de ter um amparo, um arrimo para toda a vida. Nada mais ineffavel para mim do que a fortuna de velar pelo destino de uma creatura tão bella e tão nobre! Quero consagrar-me a defendel-a de todo o mal, a guardal-a, a acalental-a, a dirigil-a, para que sempre se conserve incolume, intemerata e pura; para que nunca lhe toque nem a mais tenue sombra, nem o mais afastado respiro do mal. É hoje uma menina que parece um anjo. Não me conformo com que unicamente o pareça; quero que para mim o seja.

Electra

(friamente) Que eu seja um anjo de sua composição e propriedade sua?... E parece-lhe que se deva considerar como um rasgo de caridade extraordinaria e sublime esse fervoroso desejo que mostra de ter assim, um anjo de seu?

Pantoja

Não é caridade: é obrigação. Tu—entendes?—tens o direito de ser amparada por mim; eu tenho o dever de amparar-te.

Electra

Tamanha confiança... tão severa auctoridade...

Pantoja

A minha auctoridade provém do meu entranhado affecto, assim como do calor do sol provém a força da terra. A minha protecção é um producto da minha consciencia.

Electra

(levanta-se muito agitada, e afastando-se de Pantoja, áparte) Virgem mãe santissima! dois protectores! e um que precisa de opprimir para proteger! (alto) Olhe: eu admiro-o e respeito muito as suas virtudes. Emquanto á sua auctoridade—perdoe-me o atrevimento de lh’o dizer—não a comprehendo bem claramente, e parece-me que só a minha tia é que devo submissão e obediencia.

Pantoja

Vem a ser a mesma coisa. Evarista faz-me a honra de me consultar em tudo. Obedecer-lhe a ella é submetter-te a mim.

Electra

Então tambem a tia me quer para anjo d’ella? ainda por cima de eu já estar para anjo do snr. de Pantoja?!

Pantoja

Anjo de todos, de Deus principalmente. Convence-te, filha da minha alma, que vieste a bôas mãos, e que só te cumpre deixar-te guiar na virtude e na purificação.

Electra

(com displicencia) Pois, se querem purificar-me, purifiquem-me... Mas estão bem certos de que eu seja impura e má?

Pantoja

Poderias vir a sel-o. Melhor se vence o mal prevenindo que remediando.

Electra

Pobre de mim! (Levantando os olhos em extase, suspira. Pausa)

Pantoja

Porque suspiras assim?

Electra

Deixe-me aliviar o meu triste coração. Pesam-me demais em cima d’elle as consciencias dos outros.

SCENA XIII

ELECTRA, PANTOJA E EVARISTA, pelo fundo

Evarista

Amigo Pantoja, a Madre Barbara da Cruz espera-o para se despedir e receber as suas ordens.

Pantoja

Ah! não me lembrava... Vou immediatamente. (Áparte a Evarista) Falamos. Vigie. Acautelemo-nos! (Antes de saír Pantoja, pelo fundo, entram o Marquez e Maximo pela direita)

SCENA XIV

ELECTRA, EVARISTA, MARQUEZ E MAXIMO

Marquez

Tardamos?

Evarista

Não. Estiveram no laboratorio?... (Formam-se dois grupos: Electra e Maximo á esquerda; Evarista e o Marquez á direita.)

Marquez

Lá estivemos. É um prodigio este homem... (Segue falando no que viu)

Electra

(suspirando) Sim, Maximo, preciso de consultar-te sobre um caso grave.

Maximo

(com vivo interesse) Conta depressa!

Electra

(receosa olhando para o outro grupo) Impossivel agora.

Maximo

Quando então?

Electra

Não sei... Não sei quando t’o poderei dizer... Não se resume em quatro palavras...

Maximo

Pobre rapariga!... O que eu te predisse... Chegam as seriedades da vida, os deveres, as amarguras...

Electra

Talvez.

Maximo

(olhando-a fito, com grande interesse) Na expressão da tua physionomia ha um veu de tristeza e um estremecimento de susto... Desconheço-te.

Electra

Querem annular o que eu sou, e reduzir-me a outra coisa... a uma coisa angelical e celeste, que não sei o que é!

Maximo

(vivamente) Por Deus, não consintas isso! Defende-te, Electra.

Electra

Que me aconselhas?

Maximo

(sem vacillar) A independencia.

Electra

A independencia!

Maximo

Sim, a emancipação... N’uma palavra: Insurge-te!

Electra

Queres dizer que faça quanto me vier á cabeça, que danse, que pule, que corra pelo parque emquanto me appeteça, que entre na tua casa como em paiz conquistado, que conspire com os teus pequenos, que fuja com elles para o jardim, para longe, para onde eu quizer?...

Maximo

Tudo!

Electra

Olha o que dizes!?...

Maximo

Digo-te isto.

Electra

Mas é o contrario que me tens recommendado sempre!

Maximo

(olhando-a fixamente) Na tua cara, no vinco dos teus sobrolhos, na tremura da tua bocca, eu vejo que estão radicalmente transformadas as condições da tua vida. Tu agora tens medo.

Electra

(medrosa) Tenho, sim.

Maximo

Tu... (Hesitando no verbo que ha de empregar. Vae a dizer amar, mas não ousa) Tu queres ardentemente que alguma coisa succeda...

Electra

(com effusão) Quero. (Pausa) E dizes-me tu que contra o medo... a insubordinação.

Maximo

Sim: solta livremente todos os teus impulsos para que quanto ha em ti se manifeste, e se saiba quem tu és.

Electra

O que eu sou? Queres conhecer...

Maximo

A tua alma...

Electra

Os meus segredos...

Maximo

A tua alma... N’ella se comprehende tudo.

Electra

(notando que Evaristo a observa) Basta... Olham para nós.

SCENA XV

OS MESMOS, URBANO E PANTOJA, pelo fundo

Urbano

Almoça-se?

Pantoja

(a Evarista, suffocado, vendo Electra com Maximo) Então assim a deixa só com Mephistopheles?

Evarista

Não tenha sustos, Pantoja.

Marquez

(rindo) Não tem de que os ter. Esse Mephistopheles é um santo. (Dá o braço a Evarista)

Pantoja

(imperiosamente, pegando na mão de Electra para a conduzir) Commigo! (Electra, andando com Pantoja, volta a cabeça para olhar para Maximo)

Maximo

(olhando para Electra e para Pantoja) Comtigo?... Havemos de vêr com quem! (Maximo e Urbano são os ultimos que saem)

FIM DO PRIMEIRO ACTO

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