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Echos de Pariz

EÇA DE QUEIROZ (continued 4)

Reading edition

Oh! esta sinistra fuga para o palacio da prefeitura, do landeau da côrte tornado bruscamente carro d'hospital! Já para dentro saltára um cirurgião, que, de mangas arregaçadas, tendo desabotoado as calças do presidente, palpava a ferida, vedava o sangue com os lenços emprestados pelos lacaios. E assim galopa um quarto d'hora furiosamente, sob as bandeiras, os arcos de luxo e as grinaldas de luzes. Um mero cidadão seria logo transportado, e em braços, ao pateo d'uma casa, ao balcão d'uma botica. Mas o presidente tem de recolher ao palacio, ainda que se esvaia em sangue, porque, mesmo n'uma Republica, é severa a regra do Protocollo! Nas ruas, a multidão, que nada sabe da punhalada e vê passar entre os couraceiros o landeau d'Estado, onde vagamente se agitam e brilham plumas e dragonas de generaes, bate as palmas festivas, acclama Carnot! Mas em cima, nas janellas, a gente que as enche tem uma visão estranha, terrivel, quasi burlesca—o chefe do Estado estendido, com a gran-cruz, a placa de diamantes da Legião de Honra e o ventre nú, a fralda da camisa fluctuando, já tingida de sangue! Visão espantosa que passa entre ovações—ao clarão dos fogos de Bengala, sob o estalar dos foguetes. Passa, desapparece, n'um galope de cavalleiros, deixando apenas o sulco arrepiador d'aquella fralda branca e sangrenta!

Á porta do palacio da Prefeitura a confusão é tão grande que dous reporters, sofregos de se envolverem n'um acontecimento historico, se apoderam do corpo do presidente e o arrancam do landeau, um agarrando uma perna, outro um braço. Começa o penoso, hesitante transporte através das escadarias e passagens da prefeitura, um palacio novo, mal conhecida ainda, estreiado n'esses dias de gala.

Logo no primeiro patamar ha um embaraço angustioso... O presidente só devia recolher tarde, depois da representação de gala no Grand Theâtre; toda a criadagem, com tres horas livres, abalara para as festas, para os fogos da Exposição:—e as luzes estavam apagadas, todos os corredores em trevas! E ninguem tinha um phosphoro! O ferido, desmaiado, arrefece, perde o sangue. E a anciedade toda é por um phosphoro. Emfim, lá dardeja ao fundo um bico de gaz. O corpo do presidente é pousado sobre a colcha de seda do seu leito de ceremonia.

Mas, através das portas escancaradas da prefeitura, penetrara uma immensa turba, que atulhava os corredores, invadia o quarto, estorvava os serviços dos cirurgiões. Foi necessario que acudisse policia e tropa para rechassar, através do palacio, aquella multidão, tomada de uma curiosidade furiosa, e onde auctoridades, magistrados, ministros se debatiam, berravam, repellidos no longo rôlo. Um magote mais tenaz, em que havia senhoras, permaneceu fincado deante da porta do quarto lamentavel. Não ha nada, já notou Victor Hugo, que mais aguce a curiosidade do que um muro, uma porta fechada, por traz da qual se está passando alguma cousa de irreparavel.

Quando essa desejada porta se abria, dando passagem a algum general com bacias ou pannos ensanguentados, todos, homens e senhoras, se empurravam, se esticavam para contemplar o chefe do Estado no seu leito, ainda de casaca, ainda de gran-cruz, com o ventre nú, as pernas núas...

Assim morria, n'esta desordem, o mais decoroso dos chefes de Estado.

Cesar, ao cahir, deu um grande movimento á toga para se tapar todo, n'uma suprema decencia:—e em torno d'elle não havia senão os brancos marmores do senado deserto, e ao fundo um personagem consular, muito velho, muito gordo, que adormecera, nada percebera do feito supremo e continuava resonando, com o labio pendente, emquanto esfriava o corpo gasto do vencedor das Gallias e se mudava a ordem do mundo.

Emfim o presidente está morto, lavado, vestido, com a sua casaca, as suas insignias—e apertando na mão já hirta um par novo de luvas brancas. Defunto, Carnot parece manter aquella correcção official que fôra o seu cuidado durante a vida. Para comparecer na presença de Deus, como chefe de Estado, elle tem a sua placa de diamantes, a sua gran-cruz, e na mão as suas luvas novas. Estas luvas d'além da campa, muita gente as acha estranhas! Ellas são todavia do velho ceremonial funerario de França. Os reis de França eram enterrados com luvas. O grande cavalleiro Roldão, ao morrer em Roncesvalles, tira, no derradeiro arranco, o seu guante de escamas de ferro e entrega-o ao archanjo S. Miguel, que ao lado esperava para conduzir ao Senhor o alto paladino da christandade. Era da etiqueta feudal, nos tempos Carlovingios, que o vassallo, ao penetrar no solar do seu suzerano, despisse o guante da mão direita e o abandonasse a um pagem.

Roldão não esquece este acto de vassalagem. Ao transpor as portas do céu, que é o solar de Deus, suzerano absoluto, elle tira o guante e gravemente o entrega ao archanjo, como a um pagem celeste.

Todos sabem, porque bons livros o contam, como Deus acolheu o cavalleiro perfeito e lhe chamou, sorrindo, seu filho. Assim, através das edades, a tradição liga Carnot a Roldão.

Considerae tambem como é dramatico o modo escondido e calado com que regressou a Pariz o corpo de Carnot. Na gare não havia uma auctoridade, um ministro, ninguem do grande pessoal do Estado, quando o comboio que trazia o cadaver, appareceu, sem um signal, sem um apito, sem um rumor, deslisando funebre e mudamente, como um fantasma de comboio, vago e coberto de crepes. D'uma portinhola sahiu, no mesmo silencio, Mme Carnot, vestida como na vespera, quando correra a Lyon, com um chapéo enfeitado de flôres vermelhas. Mettem o caixão á pressa n'um carro sem solemnidade civil e religiosa; e á pressa, n'um trote fugidio, através das ruas mais desertas, onde clareava a madrugada, levam-n'o para o Elyseu. O morto como que é recolhido ás occultas ao seu palacio, para se installar methodicamente na sua capella ardente, e depois, quando não faltasse uma colgadura nem um tocheiro, abertas as portas, e com a sumptuosidade que lhe competia, receber as supremas honras funeraes. Atraz d'elle, pelas ruas desertas, (segundo contam) só o acompanhou um fiacre, com vadios e mulheres nocturnas, fumando cigarros, de perna estendida. Estranho remate de uma noitada estroina—seguir n'um fiacre o cadaver d'um chefe de Estado!

Ao outro dia, porém, com a luz, começaram a pompa e o luto publico. Mas então cessam tambem os lances inesperados e melodramaticos. Tudo se torna regular, fixo e pautado pelo protocollo. Hoje Pariz desfila, com curiosidade e emoção, ante o ataúde do presidente, posto em capella, no devido luxo de flôres e de luzes, coberto com a tricolor. Amanhã Pariz, n'uma curiosidade crescente, mas já dimiunida a emoção, fará densas alas ao presidente que passa para o Pantheon.

Funeraes magnificos, de certo—mas de uma magnificencia muito cerceada pela sobriedade do gosto francez e pela simplicidade official da democracia. A democracia officialmente, usa casaca de panno preto:—e o severo gosto, em França, não permitte n'estas pompas outro luxo, além do luxo das flôres. Tudo o que outr'ora na antiguidade, e depois na Renascença, fazia o esplendor das ceremonias funebres—a sumptuosidade dos trajes, as sêdas negras cahindo dos balcões, os incensadores fumegando, os coros dolentes, os corceis ricamente ajaezados, as insignias symbolicas, os trophéos, os andores, os estandartes, os carros de deslumbrante architectura, a riqueza patricia, as criadagens agaloadas, e o incomparavel fausto da Egreja com os seus baculos, as suas mitras, as suas purpuras, as suas casulas de ouro—toda essa magnificencia esthetica aqui falta. Um pobre carpinteiro de Florença ou Roma, da Florença dos Medicis ou da Roma de Leão X, nunca acreditaria, contemplando esta procissão funeral, que uma opulenta e artistica nação estava fazendo a apotheose do seu chefe assassinado. Todavia a França, dentro das restricções impostas pela sobriedade do seu gosto e pela simplicidade da sua democracia, prestou a Carnot, largamente, todas as homenagens e preitos symbolicos. As flores que lhe offertou, foram incontaveis, custaram mais de tres milhões de francos, e durante todo um dia perfumaram o vasto ar de Pariz. E toda a França organisada, desde os corpos d'estado até aos clubs gymnasticos, acompanhou o seu feretro ao Pantheon, que a patria reconhecida reserva aos Grandes Homens.

Mas essas flôres uniformemente arranjadas em corôas, e accumuladas sobre carros, ou conduzidas isoladamente em andores, algumas enormes, de dous metros de diametro, e semelhando bolas pintadas de côres vistosas, não podiam formar, na sua uniformidade dogmatica, um quadro de belleza: só impressionavam pela abundancia, pela ideia mercantil dos milhões gastos, e em breve murchos.

E a França toda atraz, era apenas uma infinita e cerrada fila de casacas pretas. Interminavelmente passavam na irradiação do sol de julho as casacas negras. Aqui, além, por vezes, um grupo de embaixadores, as fardas d'um estado-maior, os juizes com as suas bécas escarlates destacavam, n'uma mancha fugitiva de brilho e côr. Mas logo se prolongavam, se eternisavam as calças pretas, as casacas pretas, marchando em cadencia. Nos olhos pesados, no espirito meio entorpecido, não restava por fim senão á impressão dormente d'um mudo e lutuoso perpassar de fato preto.

E aos olhos cançados, ao espirito adormentado, voltava, para embotar mais a emoção artistica d'esta pompa, a memoria de outras pompas, a de Thiers, a de Gambetta, a de Victor Hugo, em que tambem assim marchavam, em longas milhas, calças pretas, casacas pretas.

Uma novidade, porém, e singular, impressionava n'estes funeraes de Carnot:—e era que, atraz do feretro, coberto com a bandeira tricolor, se entreviam n'um carro batinas e sobrepellizes de padres. Depois, á frente dos embaixadores, marchava o nuncio do papa, nas suas grandes vestes rôxas. E por todo o prestito, mesmo misturadas aos uniformes, appareciam, aqui, além, sotainas de padres. Novidade consideravel! E então se attentava mais em que esta tragedia do presidente assassinado fôra realmente, toda ella, em todos os seus actos, seguida e ministrada pela Egreja. Carnot moribundo recebeu os santos oleos das mãos do arcebispo de Lyão.

Na capella ardente, entre os generaes que o guardam, rezam padres, e freiras desfiam os seus grossos rosarios. Ao pé do caixão ha um hyssope, n'uma caldeira com que Pariz, ao desfilar, asperge as pregas da bandeira que cobre o corpo, de modo que ao fim do dia a tricolor está toda orvalhada de agua benta. É o cura da Magdalena, de cruz alçada, com o seu clero, que vem ao pateo do Elyseu fazer a entrega do corpo, segundo o velho ritual de Pariz. Agora aqui vão padres atraz do carro funerario. Toda esta pompa marcha para Notre-Dame. Ás portas da antiga çathedral, o arcebispo de Pariz reza os responsos finaes, e do pulpito, como nos tempos de Bossuet, faz a oração funebre do presidente da Republica. Os radicaes, livres-pensadores, entraram na sombria nave, e de joelhos, por decencia, abalados por vagas memorias, baixaram a cabeça ao levantar da hostia. E depois outros padres irão ao Pantheon, desconsagrado pela Republica, para rebenzer o jazigo do presidente, que é ao lado do jazigo de Voltaire!

Estranhas vicissitudes! Carnot morto, leva atraz de si pelas ruas de Pariz o radicalismo compungido—e é para os altares que o vae levando.

Conheço uma velha gravura allegorica do seculo XVI, em que, atraz d'um cortejo, e tambem funerario, se vê um personagem de cornos, de pés de bode, que, todo torcido, com o rabo vexadamente mettido entre as pernas pelludas, vem rosnando e roendo as unhas, n'uma evidente mostra de humilhação e rancor. É o diabo. Pois tambem n'este cortejo derradeiro de Carnot, me pareceu avistar, lá ao longe, o nosso velho amigo, o jacobinismo, de barrete phrygio, com a face, o ar pelintra, roendo as unhas, horrendamente humilhado.

Toda esta semana, com effeito, tem sido para elle de humilhações. Mas o desventurado já as não conta! Desdenhado pela sciencia, mais desdenhado ainda pela philosophia, rechassado pelas lettras, abominado pela arte, espancado pela mocidade no pateo das escolas, troçado pelos caricaturistas, apupado pela plebe, esse pobre jacobinismo, tornado um objecto de escandalo e tedio, anda ahi mais escorraçado n'este fim do seculo XIX, do que o diabo, nos fins do seculo XVIII, nas vesperas da sua morte. A sua maior humilhação, porém, vem de que a França, a França que o produziu, e que ainda hoje, de certo modo, o produz, n'este mesmo dia dos funeraes, e pela voz d'um dos seus melhores espiritos, o declarou, com aviltante desdem—um producto de exportação!

Oh! empertigados manes de Robespierre! O jacobinismo declarado em Pariz—producto de exportação! Tal é a fragilidade das seitas. Sic transit gloria diaboli.

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