← Table of contents
Dom Casmurro

MACHADO DE ASSIS (continued 5)

Reading edition

—Era na Lapa; eu ia desesperado, e papae não parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas.... Sim, senhor, acceito.

Estendeu o copo ao vinho que eu lhe offerecia, bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia assim tambem, com a cara mettida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de archeologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor, contava o Egypto e os seus milhares de seculos, sem se perder nos algarismos; tinha a cabeça arithmetica do pae. Eu, posto que a ideia da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da resurreição. Ás vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defuncto falava e ria por elle.

Não havendo remedio senão ficar com elle, fiz-me pae deveras. A ideia de que pudesse ter visto alguma photographia de Escobar, que Capitú por descuido levasse comsigo, não me acudiu, nem, se acudisse, persistiria. Ezequiel cria em mim, como na mãe. Se fosse vivo José Dias, acharia nelle a minha propria pessoa. Prima Justina quiz vel-o, mas estando enferma, pediu-me que o levasse lá. Conhecia aquella parenta. Creio que o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que por ventura houvesse achado no menino. Seria um regalo ultimo; atalhei-o a tempo.

—Está muito mal, disse eu a Ezequiel que queria ir vel-a, qualquer emoção póde trazer-lhe a morte. Iremos vel-a, quando ficar melhor.

Não fomos; a morte levou-a dentro de poucos dias. Ella descança no Senhor ou como quer que seja. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu, nem podia, tão outra a fizeram os annos e a morte. No caminho para o cemiterio, iam-lhe lembrando uma porção de cousas, alguma rua, alguma torre, um trecho de praia, e era todo alegria. Assim acontecia sempre que voltava para casa, ao fim do dia; contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que elle deixára, como se as casas morressem meninas.

Ao cabo de seis mezes, Ezequiel falou-me em uma viagem á Grecia, ao Egypto, e á Palestina, viagem scientifica, promessa feita a alguns amigos.

—De que sexo? perguntei rindo.

Sorriu vexado, e respondeu-me que as mulheres eram creaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruina de trinta seculos. Eram dous collegas da universidade. Prometti-lhe recursos, e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. Commigo disse que uma das consequencias dos amores furtivos do pae era pagar eu as archeologias do filho; antes lhe pagasse a lepra.... Quando esta ideia me atravessou o cerebro, senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz, e quiz apertal-o ao coração, mas recuei; encarei-o depois, como se faz a um filho de verdade; os olhos que elle me deitou foram ternos e agradecidos.

CXLVI

Não houve lepra.

Não houve lepra, mas ha febres por todas essas terras humanas, sejam velhas ou novas. Onze mezes depois, Ezequiel morreu de uma febre typhoide, e foi enterrado nas immediações de Jerusalem, onde os dous amigos da universidade lhe levantaram um tumulo com esta inscripção, tirada do propheta Ezequiel, em grego: «Tu eras perfeito nos teus caminhos.» Mandaram-me ambos os textos, grego e latino, o desenho da sepultura, a conta das despesas e o resto do dinheiro que elle levava; pagaria o triplo para não tornar a vel-o.

Como quizesse verificar o texto, consultei a minha Vulgata, e achei que era exacto, mas tinha ainda um complemento: «Tu eras perfeito nos teus caminhos, desde o dia da tua creação.» Parei e perguntei calado: «Quando seria o dia da creação de Ezequiel?» Ninguem me respondeu. Eis ahi mais um mysterio para ajuntar aos tantos deste mundo. Apesar de tudo, jantei bem e fui ao theatro.

CXLVII

A exposição retrospectiva.

Já sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, não ficou ahi para um canto como uma flor livida e solitaria. Não lhe dei essa côr ou descôr. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura, é verdade. Ellas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva, e, ou se fartam de vel-a, ou a luz da sala esmorece. Uma só dessas visitas tinha carro á porta e cocheiro de libré. As outras iam modestamente, calcante pede, e, se chovia, eu é que ia buscar um carro de praça, e as mettia dentro, com grandes despedidas, e maiores recommendações:

—Levas o catalogo?

—Levo; até amanhã.

—Até amanhã.

Não voltavam mais. Eu ficava á porta, esperando, ia até á esquina, espiava, consultava o relogio, e não via nada nem ninguem. Então, se apparecia outra visita, dava-lhe o braço, entravamos, mostrava-lhe as paizagens, os quadros historicos ou de genero, uma aquarella, um pastel, uma gouache, e tambem esta cançava, e ia embora com o catalogo na mão....

CXLVIII

E bem, e o resto?

Agora, porque é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca, nem os de cigana obliqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitú da praia da Gloria já estava dentro da de Matacavallos, ou se esta foi mudada naquella por effeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciumes, dir-me-hia, como no seu cap. IX, vers. 1: «Não tenhas ciumes de tua mulher para que ella não se metta a enganar-te com a malicia que apprender de ti.» Mas eu creio que não, e tu concordarás commigo; se te lembras bem da Capitú menina, has de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.

E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a summa das summas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos tambem, quiz o destino que acabassem juntando-se e enganando-me.... A terra lhes seja leve! Vamos á Historia dos suburbios.

FIM

INDICE

IDo titulo

IIDo livro

IIIA denuncia

IVUm dever amarissimo!

VO aggregado

VITio Cosme

VIID. Gloria

VIIIÉ tempo!

IXA opera

XAcceito a theoria

XIA promessa

XIINa varanda

XIIICapitú

XIVA inscripção

XVOutra voz repentina

XVIO administrador interino

XVIIOs vermes

XVIIIUm plano

XIXSem falta

XXMil padre-nossos e mil ave-marias

XXIPrima Justina

XXIISensações alheias

XXIIIPrazo dado

XXIVDe mãe e de servo

XXVNo Passeio Publico

XXVIAs leis são bellas

XXVIIAo portão

XXVIIINa rua

XXIXO imperador

XXXO Santissimo

XXXIAs curiosidades de Capitú

XXXIIOlhos de ressaca

XXXIIIO penteado

XXXIVSou homem!

XXXVO protonotario apostolico

XXXVIIdeia sem pernas e ideia sem braços

XXXVIIA alma é cheia de mysterios

XXXVIIIQue susto, meu Deus!

XXXIXA vocação

XLUma egua

XLIA audiencia secreta

XLIICapitú reflectindo

XLIIIVocê tem medo?

XLIVO primeiro filho

XLVAbane a cabeça, leitor

XLVIAs pazes

XLVII«A senhora saiu»

XLVIIIJuramento do poço

XLIXUma vela aos sabbados

LUm meio termo

LIEntre luz e fusco

LIIO velho Padua

LIIIA caminho!

LIVPanegyrico de Santa Monica

LVUm soneto

LVIUm seminarista

LVIIDe preparação

LVIIIO tratado

LIXConvivas de boa memoria

LXQuerido opusculo

LXIA vacca de Homero

LXIIUma ponta de Iago

LXIIIMetades de um sonho

LXIVUma ideia e um escrupulo

LXVA dissimulação

LXVIIntimidade

LXVIIUm peccado

LXVIIIAdiemos a virtude

LXIXA missa

LXX>Depois da missa

LXXIVisita de Escobar

LXXIIUma reforma dramatica

LXXIIIO contra-regra

LXXIVA presilha

LXXVO desespero

LXXVIExplicação

LXXVIIPrazer das dôres velhas

LXXVIIISegredo por segredo

LXXIXVamos ao capitulo

LXXXVenhamos ao capitulo

LXXXIUma palavra

LXXXIIO canapé

LXXXIIIO retrato

LXXXIVChamado

LXXXVO defuncto

LXXXVIAmai, rapazes

LXXXVIIA sege

LXXXVIIIUm pretexto honesto

LXXXIXA recusa

XCA polemica

XCIAchado que consola

XCIIO diabo não é tão feio como se pinta

XCIIIUm amigo por um defuncto

XCIVIdeias arithmeticas

XCVO papa

XCVIUm substituto

XCVIIA saida

XCVIIICinco annos

XCIXO filho é a cara do pae

C«Tu serás feliz, Bentinho!»

CINo ceu

CIIDe casada

CIIIA felicidade tem boa alma

CIVAs pyramides

CVOs braços

CVIDez libras esterlinas

CVIICiumes do mar

CVIIIUm filho

CIXUm filho unico

CXRasgos da infancia

CXIContado depressa

CXIIAs imitações de Ezequiel

CXIIIEmbargos de terceiro

CXIVEm que se explica o explicado

CXVDuvidas sobre duvidas

CXVIFilho do homem

CXVIIAmigos proximos

CXVIIIA mão de Sancha

CXIXNão faça isso, querida

CXXOs autos

CXXIA catastrophe

CXXIIO enterro

CXXIIIOlhos de ressaca

CXXIVO discurso

CXXVUma comparação

CXXVIScismando

CXXVIIO barbeiro

CXXVIIIPunhado de successos

CXXIXA D. Sancha

CXXXUm dia

CXXXIAnterior ao anterior

CXXXIIO debuxo e o colorido

CXXXIIIUma ideia

CXXXIVO dia de sabbado

CXXXVOthello

CXXXVIA chicara de café

CXXXVIISegundo impulso

CXXXVIIICapitú que entra

CXXXIXA photographia

CXLVolta da egreja

CXLIA solução

CXLIIUma santa

CXLIIIO ultimo superlativo

CXLIVUma pergunta tardia

CXLVO regresso

CXLVINão houve lepra

CXLVIIA exposição retrospectiva

CXLVIIIÉ bem, e o resto?

Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings