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Da Loucura e das Manias em Portugal

X Sonhos

Reading edition

Ha gente que precisa viver mal; ter transtornos, ralhos, penas, estar n'um inferno; tudo, menos levar a vida com o socego que lhes faz lembrar talvez a monotonia da agua dormente—mare mortuum! Querem casos, avisos, phantasmas a trepanar-lhes a cabeça com desvarios nem possiveis nem faziveis...{176} A antiguidade espantava-se com o assoviar das serpentes, com o espirrar das luzes, com os vapores negros que saem da terra, com o roncar das Eumenides; a nós que somos a civilisação e o progresso, atterra-nos hoje sonhar com amoras, desgosto e feridas: com dados, perder os bens: com espelho, traição: com favas, doença: com herança, miseria: com padre, morte!

Alguns, não sei porque,—pode ser que por fazerem o mesmo acordados—sonham só com o que não têem, que são o que não podem ser, que fazem o que não fizeram nem farão; Job dá jantares, Creso pede meia libra, Adozinda bebe, Alda sae fóra d'horas; fica tudo{177} mudado; fazem-se em ortigas as violetas; Manuel Mendes engana Rebolo e Michaella; D. Quichote é farcista, e o Pança é poeta; a alegria aeria, crepitante, explendida, trepa como um foguete e cae d'ali a nada n'uma chuva de lagrimas; uns criticos que ha, da rua e da praça, gente que torce sempre o nariz—limite de seu horisonte—a tudo que vae pelo mundo, chegam no sonho a ser benevolos; está tudo de pernas para o ar; o Apollo de Belvedere é piteireiro: a Venus de Milo assa castanhas, Antinuo usa uma palla n'um olho, Dante é corcunda, Polichinelo está de capa de asperges!...

Porque será que se sonha?! Chega{178} a parecer que a alma não está nas pessoas: que está de fora, e é uma espécie de fio electrico que nos traz suspensos da mão de Deus para nos dizer o que elle quer; que uns cedem com mais facilidade, outros com menos á direcção que lhes é dada,—obedecer é ser virtuoso, e ser criminoso é não querer ir para onde o pucham. Quando a gente dorme, será porque Deus em vez de segurar o fio o deixe bambo:—qualquer brisa do ceu n'essa occasião faz fluctuar e emmaranhar-se toda esta meiáda de fios que prende as creaturas, e acerta ás vezes de encontrar a nossa a alma de quem não conhecemos, trazendo-nos idéas e imagens{179} que não têem parentesco com as imagens e as idéas do costume, extravagancias que só se dão nos sonhos, e que fazem que a gente como que esteja a ver pelo pensamento alheio!

Dizem que os successos do dia preparam os sonhos da noite.—Que a ultima coisa em que se pensa, é a primeira com que se vae sonhar.—Outros affirmam que em se querendo escolher o sonho é justamente quando elle não vem, e certo está em o evitando;—principios um pouco alheios aos do Evangelho, e que parecem querer dizer: Não procures e encontrarás; não batas e abrir-te-hão!

A maneira de dormir deve ter{180} n'isto influencia. Cama desengonçada e velha, que verga e range, ameaçando queda; a porta do quarto cheia de fendas; por cima da cabeça da gente os ratos a passear no sotão, saltando, roendo; depois, o dormir de boca aberta, com a lingua de fóra, de bruços... Como ha de ter sonhos felizes e côr de rosa um estafermo n'essas condições?

As crendices populares de Portugal são geralmente bonitas, e parece sentir-se n'ellas que vieram até nós do genio poetico dos arabes; as dos sonhos porém são quasi todas chapados disparates no genero d'isto: Tres luzes na alcova fazem sonhar com morte ou com{181} casamento.—E crê-se entre nós firmemente em sonhos, e todos os dias se ouve alguem attribuir-lhes a fortuna:—os que costumam ser desgraçados, já se vê, que os felizes não tenham medo que a attribuam nunca senão aos seus merecimentos!—E baralham tudo, o que sonham e o que scismam despertos; e adoecem das noites que passam, agitadas, febris; e queixam-se ora de visões, ora de insomnias:—e ás vezes, vae a ver-se, e o seu mal é ter pulgas no quarto!

Mas contam, commentam, improvisam, e dão parte á visinhança das apparições que tiveram, larvas, espectros, chimeras; e comparam,{182} e apreciam, e consultam-se gravemente de janella para janella de saguão para saguão,—com mais cautela sempre em esconderem o juizo do que a loucura!

É a fraqueza de temperamento; a necessidade de sentir-se escravo, que nos faz ser um povo bisonho, a scismar não se sabe em quê, mal humorado, merencorio e fusco, gatos pingados por natureza! Os que não teem desgostos, engendram-os. Imitamos tudo, menos a alegria dos povos livres. A falta de tormentos,—os sonhos. Em não havendo causas grandes, as pequenas nos bastam para dar cuidados; quem não tropeça n'um tronco de arvore, escorrega n'uma casca de{183} laranja,—e vae de ventas ao chão do mesmo modo.

—Não sabe, visinha? Esta noite sonhei com cominhos!

—Ai! Com cominhos!

—São pragas! É praga que me rogaram.

—Credo! É facil ser!

E dá-se credito.

Se alguem lhes affiançar que sabe metter um ferro em brasa n'um barril de polvora sem pegar fogo—estou que não acreditam ao ponto de se deixarem ficar para assistir ao caso,—mas que sonhar com uma concha seja signal de perder o credito, com um copo de agua de prompto matrimonio, com damascos de grande alegria, com{184} guitarra prazeres dispendiosos, e com papagaio descoberta de um segredo, quem se atreverá a pôl-o em duvida?!

Em Portugal o povo até tem resas para os sonhos,—por tal fórma os males imaginarios se tornam reaes em se pensando muito n'elles—como succedeu ao outro que cuidava ver uma cabeça na bandeira da porta, e foi pintal-a... para a ver melhor. Conhecem a oração a Santa Helena? Vou dal-a tal qual a ouvi: curiosa, original, excentrica; metade em verso e metade em prosa; conforme m'a disseram, que não me custou pouco a conseguil-o:{185}

«Gloriosa Santa Helena Filha da rainha Irena Moira foste, christã vos tornaste. Nas ondas do mar andaste, Com as onze mil virgens vos encontraste. Com ellas pão e queijo ceaste. Ao crucifixo vos encostaste Tres cravos que tinha lhe tiraste.

O primeiro atiraste com elle ao mar, para o consagrar; o segundo déste-o ao vosso irmão Constantino em Roma para com elle vencer a batalha da fé: o terceiro no vosso peito o depositaste. Minha gloriosa Santa Helena, pelo cravo que tendes no vosso peito declarae em sonhos o que pretendo saber. Se é como desejo, dizei-o em roupas lavadas, em aguas crystalinas, em campos verdejantes:—se assim não é, tudo venha ao contrario, e dizei-o em roupas sujas, casas negras e aguas turvas, Amen.»

Os somnambulos são a maravilha por excellencia, a rara avis{186} dos dormentes. A dormir fallam, a dormir vão de uma casa para a outra pelo seu pé. Muita gente tem medo d'elles;—principalmente desde o caso de Cupertino... Cupertino casou com uma menina de quem a familia lhe disse em segredo que era somnambula. O homem ficou um pouco espantado de ter mulher que passeiasse á noite pelos telhados; e quando, poucas noites depois das bodas, a viu levantar-se da cama e ir direita á cosinha—foi atraz d'ella. Cupertino não tinha criada: e vinha o gallego pela manhã lavar a loiça;—estavam em cima da mesa uns poucos de pratos; a esposa limpou-os todos, depois engraixou{187} as botas do marido, e foi deitar-se outra vez. Cupertino no outro dia não lhe disse nada do que se passara durante a noite; unicamente, para fazer economias, despediu o gallego.

—Isto não a cança, dizia entre si. Trabalha a dormir!

Principiou depois a fazer experiencias, e a fallar-lhe durante o somno, interrogando-a a respeito do tempo, das coisas da casa, dos acontecimentos politicos do paiz; e era um instante em quanto caía o veu a todas as intenções, conferencias, e mysterios. Cupertino não cabia em si de contente. De uma occasião dirigiu-lhe com voz tremula a seguinte pergunta:{188}

—Ó menina, em que numero sae d'esta vez a sorte grande?

Ella disse-lhe um numero. No dia seguinte—comprou o bilhete e sairam-lhe oito contos. Ganhava o que queria; não tinha mais do que perguntar-lhe qualquer coisa pela noite adiante; estava feliz.

De repente, porém, appareceu carrancudo, turbido, umbroso.... Constara-lhe que a mulher andava, como se lá diz, de cabeça no ar. Á noite perguntou-lhe—quando ella estava a dormir, já se vê:

—É verdade que tu andas de cabeça no ar?

—Ando.

—Por causa de quem?

—Do primo José Maria.{189}

—É possivel! E porque é isso?

—Porque elle é bonito, e tu és feio.

Cupertino metteu-a n'um convento, com horror ao somnambulismo.

A grande preoccupação popular são os pesadelos,—sonhos negros, carregados de angustias, de lagrimas, de gritos, que veem da desgraça que causámos.—-«Não é um sonho, Elvira, são remorsos!» como se diz na Nova Castro. Visões atterradoras, casos fataes, carreira torta, lances mysteriosos, creanças que morreram sem baptismo... Até se diz que os primeiros momentos da morte são ainda apenas dormir, e que se sonha. Os chronistas referem o caso de se haver D. Pedro I{190} levantado depois de morto, para confessar um peccado que não tinha dito.

Acordada, sonha a gente ás vezes; e é bem bom. A musica, por exemplo, faz sonhar; evoca á roda de nós um mundo ideal, por onde andam os sonhos a dar voltas, levantando-se os affectos que estavam caidos, reanimando-se as lembranças que o tempo apagára, cicatrisando feridas com os sons, e acalentando-nos n'um dormir melodioso em que se está a ver o que se ouve, n'um nevoeiro de sonhos em que parece ouvir-se o que se vê!

Em todo o caso ser feliz a sonhar ainda é ser feliz—quando não se possa sel-o de outra fórma. Sempre{191} são horas de ganho sobre os enfados e cruezas da vida. A sonhar se espera, a sonhar se ama, a sonhar se alcança. Só tem o contra de que o sonho não dure. No adro da egreja da Graça havia uma sepultura, que os frades depois levaram para os claustros, que dizia assim: «Aqui jaz Manuelinho, mercador, de 15 annos, que morreu espertando.»—É o perigo de acordar. Acorda-se do sonho—e ás vezes da felicidade!{192}

{193}

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