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Crónicas imorais

A tristeza profissional

Reading edition

Illustration from Crónicas imorais

Zamacois, escritor espanhol de muito talento, escreveu, algures, que não conhecia «melancolia mais incurável, abatimento mais profundo, nem declinar mais silenciosamente trágico, que o ocaso dos vélhos actores». Não deveria ter dito assim. A melancolia dos vélhos actores é a tristeza profissional e essa não a teem só os cómicos. Escritores, jornalistas, pintores, todos os que vivem dragando o cérebro e a imaginação, todos êsses sofrem dessa tristeza incurável, a mais horrível, a mais intensa, a mais cruciante de tôdas as tristezas.

A tristeza profissional é uma cousa inexplicável. É o assalto de todos os males do universo à criatura, porque não há lágrimas que ela não chore, agonias que não passe, dúvidas que não tenha. É o inferno, o inferno com todos os círculos da sua medonha expiação.

Imaginemos o martírio do comediante que envelheceu e se vê sem público. É o martírio da cortezã que se vê sem adoradores. Ela todos os dias ao espelho se vai gastando a olhar o embranquecer dos cabelos, o aparecimento das rugas. A pele perde a pouco e pouco a sua macieza, a carne torna-se mole, flácida, a bôca perde a airosidade da sua curva. Os homens vão-se. As juras e os protestos de amor evaporam-se. Á roda da criatura o gêlo sobe numa muralha que a isola do mundo. Imaginar a tortura dessa mulher curvada sôbre os estragos que o tempo vai fazendo, é imaginar a tortura do comediante curvado sôbre um passado que se evaporou. Que resta dele? Nada. Recordações, o que é quási nada. Cinza fria de apagado lume. As suas noites de glória, noites de ovação, noites de triunfo, o que são? Ninguêm se lembra delas. As suas criações, os seus fatos luxuosos de príncipes do acaso, imperadores de horas, quem os recorda? Ter sido grande e cair de repente no esquecimento é tão doloroso como ter sido rico, ter tido trens, equipagens, mulheres, e de repente ter que esmolar uma côdea para jantar. Mas o comediante é de todos o mais feliz. Foi vitoriado, aclamado. A sua figura fêz bater o coração das mulheres e despertar aplausos loucos nos dos homens. Foi feliz ao menos uma noite. E ter sido feliz na vida ao menos uma noite...

A tristeza do comediante comparada com a tristeza do escritor nada vale. A criatura que escreve não tem nunca consolações. O pior dos seus inimigos, o que a mina, a destrói, é a Dúvida. Para escrever uma página levava Flaubert uma semana. Eça sôbre o Crime do Padre Amaro gastou um têrço da sua vida. Acreditam todavia que, ao fim de tanto labor, êles poderam emfim descansar? Não, nunca! Depois da escrita, recebe-se a crítica com sobressalto. Se as páginas causam ruído, uma vaga consolação entra na alma da criatura. Mas é uma confiança firmada no ar. Basta que um invejoso venha entornar a sua taça de insídia, para que ela tenha logo torturas sem fim. No actor já ninguêm lhe pode apontar os defeitos, ao passo que o pelourinho do escritor é a sua obra. Envelhece e as suas páginas começam a tornar-se vélhas. Os que as louvaram, porque tambêm as viveram, morreram uns, esqueceram-se outros. E os novos veem, com a sua fúria iconoclasta, perturbar o sono aos pobres esquecidos. Veem, irreverentes e selvagens, sem respeito pelos nossos cabelos brancos, sem piedade pelas canseiras que tivemos, sem se lembrarem de que tambêm hão-de envelhecer, dizer que a nossa obra não vale um chavo, que nunca fomos moços, que nunca tivemos talento. E, mofando, destroem assim o que de mais caro nos restará. A dúvida, que já em novo nos perseguia a cada página feita, não nos larga mais.

É uma agonia pavorosa. Já não podemos ver os nossos livros sem horror. E tão intenso é êste horror profissional, que Zola não tornava a ler os seus livros depois de publicados e Flaubert os escondia no fundo das gavetas para não mais tornar a vê-los.

Ter escrito belas páginas, ter gasto a vida curvado sôbre uma obra, para que, no fim, o primeiro passante nos venha dizer que ela nada vale, é triste. Creio que não há martírio maior. Zola, que na Obra se autobiografou, rasga um bocado do que seja essa tragédia: «... o trabalho apoderou-se-me da existência. Pouco a pouco roubou-me minha mãe, minha mulher, tudo o que eu amo. É o gérmen lançado no crânio, que devora o cérebro, que se apossa do tronco e dos membros, que róe o corpo inteiro. Logo que salto do leito, de manhã, o trabalho agarra-me, prega-me à minha mesa sem me deixar respirar uma lufada do grande ar; depois segue-se o almôço; mastiga surdamente as minhas frases com o meu pão; depois acompanha-me, se eu saio, põe-se a jantar no meu prato, deita-se à noite no meu travesseiro, sem que eu possa deter nunca o pensamento da obra entre mãos e cuja germinação continua até no fundo do meu sono... Depois caio no sonambulismo das horas de imaginação, nas indiferenças e nos desconchavos da minha ideia fixa. Tanto melhor, se as páginas da manhã correrem bem, tanto pior se uma delas ficou defeituosa! O rosto rirá ou chorará, segundo o belo prazer do trabalho devorador... Fechei a porta do mundo por detrás de mim e lancei a chave pela janela... Nada mais, nada mais no meu antro, do que o trabalho e eu; êle devorar-me-há e depois não haverá mais nada, mais nada!

«As primeiras páginas ainda vão, mas depois, eis-me desanimado, nunca satisfeito com a tarefa quotidiana, condenando já o livro entre mãos, julgando-o inferior aos antecedentes, forjando-me torturas de palavras, de frases, de páginas, chegando até as próprias vírgulas a parecerem-me deformidades que me apoquentam. E quando está acabado, oh! quando está acabado, que alívio! não é um gôzo do indivíduo que se exalta na adoração do seu fruto, mas a praga do carrejão que deita abaixo o fardo que lhe magoou o espinhaço... Depois aquilo recomeça; aquilo recomeçará sempre; depois arrebentarei furioso contra mim próprio, exasperado por não ter tido mais talento, enraivecido por não deixar uma obra mais completa, mais elevada, livros sôbre livros, o empilhamento duma montanha; e terei ao morrer a medonha dúvida do que fiz, perguntando-me se aquilo estaria bem, se não devia ir antes para a esquerda quando passei para a direita, e a minha última palavra, o meu último estertor será para querer fazer tudo de novo...»

Tal foi a agonia de Zola. A dos outros foi uma agonia inconfessável, uma tortura que com êles se sepultou na Morte. ¿Onde existe pois maior tristeza do que esta? A tristeza do escritor, que um dia acreditou na sua obra e entra com êle o gusano da dúvida, não tem pendant na terra senão a do romântico que amou loucamente uma criatura que o atraiçoou—pobre banabóia que acreditou no Amor—ou a dos crentes que esperam no outro mundo ter a recompensa de todos os terrenos sofrimentos. Deve ser igual a esta a careta dêstes últimos, quando no limiar da morte se certificarem de que, ali, bons e maus são todos ossos, vermes, podridão e que não há bodo para os bons, nem caldeira para os maus.

Agora, pense-se na tristeza dos vélhos embarcadiços que o reumatismo prende em terra! A saudade dos longes de água, da amplidão, dos desertos sem fim, movediços e espumantes! Pense-se na tristeza dos caçadores a quem a velhice entropega as pernas e já não podem ir por montes e valados atrás da fugitiva e almejada presa! Pense-se em mil outras tristezas, que são mais própriamente tristezas profissionais. Pensem e digam-me se conhecem tristeza mais triste, amargura maior, dôr mais cruciante...

Eu não creio que haja. Não creio, e penso às vezes com horror no tormento indefinível e infindável da dúvida perpétua. Mata-se uma criatura a suar, a ralar-se e para quê? Para que outros venham, tambêm ingénuos e moços como nós fomos, alimentar o fogo em que lentamente se hão-de devorar. Ser grande, ser glorioso, para que depois se duvide, ser amado para que se seja esquecido, ser iludido para ser depois desenganado. E como se não bastasse já a mágua de nossas próprias vidas, ainda é sina acendermos por nossas mãos a chama que na velhice nos há-de queimar a fogo lento.

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