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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

ECLOGA CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES

Reading edition

(Bieito, Aleixo, Corino.)

BIEITO

Uma novilha dourada, Que anda naquella floresta Com uma estrella na testa Silva branca e remendada, Viste, Aleixo, d’onde veio, Que anda alli sem companhia?

ALEIXO

Quiçais se derramaria, Será d’algum gado alheio. Para nós se vem chegando, E se eu tenho ainda o meu tino. A novilha é de Corino, E o pastor anda-a buscando. É n’estes pastos extranha, Veio ha pouco a seu curral, Acha-se no campo mal, E foge para a montanha.

BIEITO

E d’onde houve aquella rez. Que elle poucas vacas cria?

ALEIXO

Ganhou-a n’uma porfia Nas festas, que Ergasto fez. Houve então grão desafio Em lucta, canto, e louvores, Venceu todos os pastores Da serra, e d’além do rio.

BIEITO

Muito sabe, mui bem canta, Muito faz quem se lhe atreve: Como dança! como é leve! Que voz tem! como a levanta! Viu, correu muitas aldeias, Viveu numa, e n’outra parte; E com ser só na nossa arte, Sabe o muito das alheias. E segundo tenho ouvido, Já elle houve outro cuidado Bem longe de guardar gado Com o nosso trajo, e vestido. Foi na villa dos melhores: Mas uma dor bem sentida Fez que deixasse essa vida, E buscasse a dos pastores. Mas ainda quando se eguala Com o nosso modo aldeão, D’outra sorte dá razão, D’outra sorte canta, e fala.

ALEIXO

Digo-te que assim parece; Que logo na arte, e no geito Tem uma graça, um respeito, Que aos pastores nos fallece. Vêl-o? assoma na ladeira; Anda o bom pastor sem tino, Chamo por elle, ah Corino.

BIEITO

Não responde com canceira. Cá anda a tua estrellada. Para nós vem, já nos vê: Façamos que um pouco estê Com nosco n’esta abrigada. Que uma hora do seu falar, E um lanço do seu saber, Nem é para se perder, Nem é para se pagar.

CORINO

Deus vos salve: venho morto.

ALEIXO

Senta-te descançarás.

CORINO

Corri todo o valle atraz, E ainda agora tomei porto.

ALEIXO

Tens a novilha segura; Descansa e descuida d’ella.

CORINO

Folgo de achal-a, e perdel-a Já não tenho em má ventura. Porque é tão grande interesse O de vossa companhia, Que de ganho ficaria Quando de todo a perdesse. Ha muito que estais aqui?

BIEITO

Já sol fóra nos juntámos, E até gora não cantámos: Foi dita esperar por ti.

CORINO

Eu não sei negar-me: agora Vedes que venho cansado, Que não me quero rogado: Cantára, se isto não fôra. Faz seu officio a edade, Sou já velho, a voz fallece: Mas se a vontade merece, Tendes bem certa a vontade.

BIEITO

Toma alento; então nos dá O que sem te ouvir não temos; Que a vaca nós a traremos. E t’a levaremos lá. Faze-nos prazer que ouçamos Aquelle cantar primeiro, Que te ouvimos no ribeiro Quando acaso te topamos; Que mui gabado, e mui raro Para a coisa de que trata.

CORINO

Canto emfim: que quem dilata Dizem que quer vender caro. E pois que em al não mereço, Quero colher d’isto o fruito.

BIEITO

Tudo o que dizes val muito, Mas isso só não tem preço.

(Canta Corino)

“Aqui nesta montanha, Aonde este trajo humilde, e despresado Dos homens não se extranha; Aonde só com um cajado, Vence a fortuna um pobre desarmado; Aonde não tem valia As mais custosas pedras do Oriente, E as riquezas que cria O mar, que ousadamente Commetteu cubiçosa, e cega gente; Aqui n’esta rudeza Só de humildes pastores escolhida, Aonde a natureza, Já menos offendida, Dá doce amparo á desejada vida; Aqui meu desengano Góso contente, e minha liberdade, Livre d’aquelle dano Da cega vaidade, Que corrompeu nos homens a vontade; Aqui de burel grosso Me vestirei contente, e esquecido D’aquelle traje nosso Tão vão, tão mal trazido, Dos primeiros principios esquecido. Qual entre a concha amada A tartaruga tem quieto abrigo, Não se teme de nada, E no maior perigo, Escondida entre si, vive comsigo; Tal o meu pensamento Não quero que á ventura o logar deva; Que não ha mór isento. Nem que melhor se atreva, Que o que tudo, que tem, comsigo leva. Qual cobra na espessura, Que deixa entre os espinhos esquecida A velha vestidura, E d’ella já despida, Como anguia no mar, renova a vida; Assim quando me vejo Que começo a viver n’esta mudança, Contento meu desejo, Troco minha esperança, Não quero mais de enganos, que a lembrança. A cauta cotovia, Vendo o ligeiro imigo, o voo nega; N’elle não se confia, Com a terra se apega, Porque ali com as azas não lhe chega. D’esta arte se defende O Pastor despresado da ventura, Que ella sempre pretende Descer da mór altura Quem cuida que no alto se assegura. Da lã d’este meu gado Coberto escaparei, terei socego; Que n’ella disfarçado, Em perigo mais cego, Escapou do gigante o cauto grego. E o meu desejo acceso, Que encontrando a razão mal se empregava, Ponha em mãos do despreso Os bens que procurava, Da liberdade minha, que era escrava. Adeus doces enganos; Já parece razão que vos despida, Viveis ha muitos annos, Deixae-me agora a vida, Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”

BIEITO

Ah! Corino, quem podera Dizer agora o que sente, Se, só com te vêr prezente, A voz não lhe emmudecera. Confesso que estou culpado, Mas não só de atrevido: Mil vezes te tenho ouvido, E só agora escuitado. Quem te trouxe entre pastores, Aonde esta vida t’extranha? Que póde dar-te a montanha, Senão rusticos louvores? Quem não sabe conhecer-te, Como saberá presar-te? Mas ainda acertaste em parte, Pois vinhas para esconder-te. Não fieis da serra tanto; Que al vai de vêl-a a sentil-a: Torna pastor para a villa, E serás na villa espanto. Não apouques ao teu muito, Não vivas n’estas aldeias, Aonde entre as ramas alheias Se não conhece o seu fruito.

CORINO

Louvores mal empregados, Quando as partes são presentes, Menos deixam de contentes. Pastor, que de envergonhados. Porém te affirmo, Bieito, Que n’estas nossas montanhas Ás boas partes, e manhas Se tem ainda algum respeito. Que eu já na villa tratei Muitos mezes, muitos annos, Trouxe d’ella os desenganos, Com que aos matos me tornei. Aprendi muito, e bradavam Os mestres para ensinar-me: Ensinaram-me a queixar-me, Porque todos se queixavam. Depois de ter conhecido Homens, e o seu proceder, Aprendi a me esquecer De quanto tinha aprendido. Ouvi gabar esta vida, Este trajo, este cajado; Busquei-a agora obrigado Da que já tinha perdida. Que ainda cá por esta serra Se ama o saber; se deseja, Lá não lhe deixa a inveja, Lugar, em que estê na terra. Não se tecem já coroas Para as partes estimadas; Entre nós de envergonhadas Se encolhem as artes boas. Saber, e conhecimento Fazem já desmerecer; De sorte, que o não saber Serve de merecimento. Assim que é melhor partido, Ao que busca o que convém, Enterrar partes se as tem, E andar dos outros vestido.

BIEITO

Á fé que não dizes mal Quem m’o disse hora? qual dia? Que o bem que perde a valia, Porque entre os homens não val. Cresce a virtude louvada, A planta favorecida, A vontade agradecida, E a parreira alevantada. Fui domingo a vêr a lucta, E outros com grande alvoroço; Vim encantado d’um moço, Que alli cantava em disputa. Dos pastores mais gabados Tinha á roda mais de mil, Que ao som do seu rabil Estavam como enlevados. Perguntei, vendo occasião, Onde, e que gado guardava, Entre nós? que eu n’isto dava Primeira fé de affeição. Eis quando alli se murmura, Que se ia d’estas aldeias A buscar terras alheias, Ou buscar n’ellas ventura. Engeitou-lhe a natureza O bem de seu natural; Então sustenta-se mal A arte onde se despresa.

CORINO

As hervas que os gados pascem, E as flôres que os olhos vem, Mais poderes do sol tem, Que não da terra onde nascem. O grão, que na varzea cresce, Com humidade arrebenta: O sol cria, o chão sustenta, Levanta-se e reverdece. O enxerto já crescido Com o sol, e agua accommodada, Se cae sobre elle a geada, Secca-se murcho, encolhido. O bom natural é parte, Que o despreso desanima: Como a cousa não se estima, Não podes d’ella prezar-te. Vi eu d’isto uma pintura Com arte e modo extremado; E se inda estou bem lembrado, Tinha ella esta figura: Um mancebo que encaminha Vôar com desejo acceso, D’uma mão atado um peso, Na outra umas azas tinha; Uma livre, outra sujeita, E dizia a lettra assim: Se esta pésa contra mim, Est’outra que me aproveita? Quanto melhor parecera Valer menos tudo o mais, E que ás partes naturaes A mão, e o favor se déra! Em que se hão de conhecer Os homens, se n’isto não? Que em forças vence o leão, E outro animal qualquer. Nas partes que o mundo présa, Quantas feras vão deante, No corpo, gesto e semblante Nas forças, na ligeiresa? Só no saber as vencemos, Com elle as senhoreamos; E quantos n’isto encontramos, Que nos vencem, não soffremos. D’isto, em que o mundo se pôz, Nasce já que os animaes No que eram tão deseguaes, Nos podem vencer a nós. Não posso ter soffrimento N’esta queixa, e não me val; Que acanha um baixo metal A um subido entendimento. Os homens como pintura Falam só com o que apparece: Cada um monta e merece Pelas mostras da figura. Dizem que já n’outra edade Falaram os animaes, (E eu creio que por signaes Inda hoje falam verdade). Ouvi cantar como então Se fez valente, e temido Um vil jumento escondido Nos despojos de um leão. Emquanto de longe o viam Os outros, fugiam d’elle; Eram milagres da pelle Do rei, a que elles temiam. Quiz falar, buscou seus damnos, Que os outros com raiva crúa Fazem pagar pela sua Da outra pelle os enganos. Quantos ha na nossa aldeia Leões e lobos fingidos, Que houveram de andar despidos, Se não fôra a pelle alheia! Sem sabor, sem consciencia Andam com ella entre nós, Conhecem-os pela voz, Honram-os pela apparencia.

BIEITO

O bom tempo é já perdido; N’este de agora, em que estamos, Taes somos, que nos mostramos Ou no tracto, ou no vestido. Vendem-se as mostras de fóra; Al era no tempo antigo; Deus dê repouso a Rodrigo, D’isso canta, e d’isto chora. Eram tempos deseguaes, Tratava a sorte melhor; Se ás partes davam louvor, Não lhe negavam o mais. Se Franco cantava bem, Era por isso estimado: E hoje quiçaes que é culpado Por essa parte que tem.

CORINO

Muitos annos ha que dura O queixume em toda a parte, De vêr que não póde a arte Vencer em tudo a ventura. Mas se houve alguns queixosos N’esses bons tempos passados, Quantos houve levantados? Quantos houve venturosos? Com muitos provára o dito; Mas calo-os, porque em respeito Contar poucos é defeito, E todos fora infinito. Não demos culpa á edade Com tudo que é desacerto: Temos a causa mais perto, Porque é nossa enfermidade. Que estes desprezos que vemos, Do bom saber, da boa arte, Não se usa em toda a parte, Que al na terra onde nascemos. Nas outras ainda se présa; (E não sei se diga mais) Nós, e os nossos naturaes Somos de má natureza. Queremos grão mal ao bem, (Se isto se póde dizer) Sómente pelo querer A quem o merece, e tem. Verás um pastor, dotado De mil graças excellentes, Andar entre as nossas gentes Assim como homiziado. Descontente, e mal vestido, De encolhido não se atreve; E assim como o homem, que deve, Sempre só, sempre escondido. E a causa, que lhe sobeja, Porque traz em companhia Saber, que é mercadoria, Que deve muito á inveja. Coitado do passarinho, Que nasceu no valle escuso, Aonde nem canta por uso, Nem ha quem lhe saiba o ninho. Coitado do que nasceu N’esta nossa terra ingrata, Que tão mal conhece e trata Bens da sorte, e dons do céo. Que o mais honrado, e mais dino Pelas partes naturaes, Não lhe serve de ser mais, Senão de ser mais mofino. Sempre cae, sempre periga: No que ama, no que procura Faz-lhe acintes a ventura, Que é declarada inimiga. De tudo lhe nega o fruito: Se com pouco se sustenta, É-lhe do pouco avarenta; E se de muito, é de muito. Agua, Fogo, Terra e Ar, Sol, Estrellas, Austro e Norte, Tudo lhe negára a sorte, Se lh’o pudéra negar. E os homens por condição, Ao que devem mór corôa, Se lhe vem vir sorte boa, Vão-lhe mil vezes á mão. E qualquer que a causa seja, É bem baixo o fundamento Ou de fraco entendimento, Ou de mui forçosa inveja. Vão mil por este caminho De erros qu’eu contar não posso: Pesa-nos do bem que é nosso, Quando o vêmos n’um vizinho. Ouvir qualquer extrangeiro Falar de seus naturaes, Dá d’elles tão bons signaes, Que o não tem por verdadeiro. Falem-vos n’um natural, Dizeis faltas que não tem: Mente o outro para bem; Nós mentimos para mal. Deixemos para outra dia Os queixumes, que é já hora; Que a meu pesar deixo agora A elles, e a companhia.

ALEIXO

Da tua é para sentir A perda: mas bens não duram, Porque os muitos, que os procuram, Os tem affeito a fugir. Comtigo iremos andando, Que isto tambem foi partido: E pois o valle é comprido, Bem podemos ir cantando. Que eu quero da minha parte Mostrar que na voz me atrevo: E se não pago o que devo, Mostro que não sei pagar-te.

CORINO

Tu farás como eu presumo, Que é como o melhor da aldeia;

ALEIXO

Ante ti quem não receia? Quanto mais eu, que o costumo. Vamos, qu’eu quero ir deante: Por este caminho estreito Torna a novilha, Bieito.

CORINO

Chega manso, não se espante.

FIM DO SEGUNDO VOLUME

INDICE

DIALOGO IX—DA PRATICA E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS 3

DIALOGO X—DA MANEIRA DE CONTAR HISTORIAS NA CONVERSAÇÃO 9

DIALOGO XI—DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO 24

DIALOGO XII—DAS CORTEZIAS 37

DIALOGO XIII—DO FRUCTO DA LIBERALIDADE E DA CORTEZIA 49

DIALOGO XIV—DA CREAÇÃO DA CÔRTE 63

DIALOGO XV—DA CREAÇÃO NA MILICIA 79

DIALOGO XVI—DA CREAÇÃO DAS ESCOLAS 90

ECLOGA CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES 107

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