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Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Volume 1 — DIALOGO IX

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DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS

Ia crescendo o gosto d'aquelles amigos com o exercicio de tão proveitosa conversação, de tal maneira, que nenhum perdia o sentido das materias, que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos, e exemplos, com que cada um mostrasse aos outros sua sufficiencia. N'aquella porém da pratica vulgar ficou Leonardo muito atalhado, assim por ser cousa em que tudo pende de opiniões incertas; como porque o doutor lhe cortara a urdidura, com que havia de ir tecendo o seu discurso, desejava mudar o proposito a outra cousa, que viesse mais ao seu; mas como aquelle era o de todos, não via caminho de o desviar. Veiu pois a noite do outro dia, e com ella os companheiros mui alvoroçados; aos quaes elle festejou com a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram, lhes disse: Se hei de falar verdade, eu estou tão carregado com o officio que de novo me déstes, que me não atrevo a dar boa conta d'elle; porque todas as que fiz para me dispôr a isso, me sahiram erradas: e me parece tão difficultoso falar de cuidado, e ordenadamente na materia em que se ha de praticar na lingua portugueza, que me hei de chamar ao engano, e o maior de todos foi darem-me espaço para temer, quando eu cuidei que o tomava para me prevenir.—Em vós (disse D. Julio) é gentileza esse receio; e ainda que fôsse fingido, eu o tenho por a primeira regra de falar bem, pois ensinaes aos discretos a não falarem com sobeja confiança; e pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa achara difficuldade, que é pôrdes em regras, e preceitos, o que tendes por natural, e por costume; que servieis mais para exemplo de quem vos ouve, que para mestre dos que não podem comprehender a vossa doutrina.—Se com titulo de me fazerdes mercê (respondeu elle) quereis que desconfie, mais facil vos será isso, que a mim o acertar: mas, para que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem, mormente entre cortezãos tão discretos, que cada um me poderá dar preceitos para o ser: mas se disser em algumas cousas a minha opinião, faço-o para com as razões dos que a contradisserem aprender a acertar.—Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os discretos são essas primeiras,

receio

, e

humildade

. E passando adiante, começae já a descobrir essa rhetorica, nova á lingua portugueza.—Por escusar (tornou elle) uma muito comprida; e dilatada em preceitos, e limites, que á força se hão-de misturar com os da latina; e por evitar a largueza da arte, e poupar a paciencia dos ouvintes para outras noites, accudirei brevemente a alguns vicios da lingua portugueza, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a elles por fundamento, mas fazendo-o n'estas cinco advertencias:

Falar vulgarmente, com propriedade. Fugir da prolixidade. Não confundir as razões com a brevidade. Não enfeitar com curiosidade as palavras. Não descuidar com a confiança.

—Certo (disse o doutor) que me parece essa uma rhetorica abreviada, que podia servir a todas as linguas: porque a confusão dos muitos preceitos e figuras, que lhe attribuem os mestres d'esta arte, se podem comprehender debaixo d'esses cinco muito bem achados. E pois Solino chamou aos meus vicios sete peccados contra a discrição, podia chamar a estes preceitos os cinco sentidos d'ella. E tratando do primeiro, como entendeis

falar vulgarmente com propriedade

, que em parte me parece que o vulgar não guarda muitas vezes o respeito ao proprio? —Falar vulgarmente (respondeu Leonardo é qual os melhores falem, e todos entendam sem vocabulos estrangeiros, nem esquisitos, nem innovados, nem antigos, e desusados: senão communs, e correntes, sem respeitar origens, derivações, nem etymologias; que a linguagem mais pende do uso, que da razão: e por isso se chama lingua materna, porque nas mulheres, que menos sahem da patria, se corrompe menos o uso do falar commum, posto que ellas saibam pouco da razão de seus principios. E d'isto, e do falar com propriedade, tenho dito na pratica que tivemos sobre as cartas missivas; o que não será necessario repetir agora de novo, mas sómente dar mostra de que estes dois termos se não encontram: que se o falar proprio, é com palavras naturaes, e menos figuras da rhetorica, para ornamento d'ellas; e não usar dos tropos de allegorias, metaforas, translações, antonomazias, antifrazes, ironias, enigmas, e outras muitas; isso se usa na pratica vulgar para se tratarem livremente as palavras proprias, pois sómente algumas translações, antonomazias, e ironias se acham n'ella; e mui raramente outras figuras: e posto que n'isto me detenha mais do que determinava, me hei de embaraçar com estas três figuras.

Translação

é figura quando passamos as palavras de uma cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos

uma fonte de sabedoria

,

um pôço de lettras

,

um rio de ouro

,

um thesouro de partes

, ou

de graças

. Esta figura se costuma usar para um de quatro effeitos, ou para evitar palavras deshonestas, ou para abreviar razões compridas, ou por accudir á pobresa da linguagem, ou por aformosear e enfeitar a pratica. No primeiro modo faz officio mui necessario, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que sôam mal por o seu nome proprio, como dizer:

uma mulher que usa mal de sua formosura

;

que se vende a preço

;

que se entrega a Venus

;

que serve o seu gôsto

.

Um homem affeiçoado a ramos

;

perdido por Bacco

;

esquecido de si

. Tambem, para abreviar razões, é de muita utilidade na pratica, como quando dizemos,

ficou em secco

,

deitou azar

,

torceu a orelha

,

deu cinco

. Os outros dois modos me parecem na pratica sobejos, e culpaveis: o primeiro, porque sempre se ha de fugir n'ella o enfeite, e ornamento das palavras: e o outro, porque não faltam na lingua portugueza as necessarias para cada um declarar o que lhe convém dizer. A figura da

Antonomazia

se usa algumas vezes na conversação: posto que só nas pessoas, ou partes do mesmo reino será mais aceite. Entre nós, quando nomeamos

o Poeta

, se entenderá Luiz de Camões,

o Historiador

, João de Barros:

o Duque

, o de Bragança:

o Marquez

, o de Villa Real:

a Cidade

, a de Lisboa:

a Coutada

, a de Almeirim; e outras semelhantes cousas, ás quaes a grandeza deu superioridade das outras do mesmo nome. A

Ironia

, mais que todas, é propria na conversação, pois consiste mais na graça, riso, ou dissimulação do que fala, que nas palavras: esta se considera em duas maneiras, a primeira tirando a propriedade ás cousas; a segunda, furtando o sentido ás razões; uma é mero escarneo; a outra dissimulada subtileza. A primeira, quando do fraco dizemos que é um Hercules: do louco, que é um Catão: do miseravel, que é um Alexandre: e da mulher pouco casta, que é uma Helena. A segunda, como se disseramos:

Nunca lhe cahiu a lança da mão

ao que a não tomou n'ella:

não lhe chegou ninguem com a espada

, falando do que fugiu:

nunca pediu nada

, falando do que furta:

paga mais do que deve

, entendendo o que paga por justiça. No que pertence ás figuras me parece que basta esta lembrança. E as palavras, que se devem escusar para falar vulgarmente, não hão de ser estrangeiras, nem esquisitas, nem innovadas, nem tão antigas, que se perdesse já o uso d'ellas. Das primeiras teem muita culpa os estudantes, e lettrados, que introduziram as latinas na conversação, fazendo a linguagem de misturas.—Essa culpa (respondeu o doutor) é dos mancebos que como no praticar não teem a madureza, que só costuma a ensinar a experiencia, cuidam que se melhoram em falar escuro, e elegante, fazendo na prosa accentos de musica, ou medidas de poesia.—Muitos lettrados sei eu (disse Solino) que não são moços, e n'isso o querem parecer, que falam uma linguagem como sereia, mulher até aos peitos, e ametade peixe; e são homens, a que não escapa por nenhuma via o verbo no cabo; e sendo a nossa lingua de muito bom metal, lhe misturam tanta liga, que perde muito de seus quilates.—Não tenho por grande erro (acudiu Pindaro) quando a conversação é entre doutos, usar de algumas palavras tiradas do latim, quando forem melhores que as com que nos podiamos declarar em portuguez: antes creio que, se isto se fôra introduzindo, viera a nossa lingua pouco a pouco a se apparentar com ella, e ficar tão polida, e apurada como a toscana.—E essa (tornou Leonardo) que fructo tirou do parentesco, se não foi chamarem-lhe alguns auctores

bôrra da lingua latina

?—O caso é (disse Solino) que vós devieis ser affeiçoado á phrase de um cirurgião de Coimbra do nosso tempo, que por ella se fez famoso, que disse á moça de um ferido, a quem curava:

Traga-me um panno corpulento, para fricar os labios d'esta cicatrice.

E a um rustico, que vinha esmechado, respondeu que não tinha mais lesa que a superficie da fronte; e tendo palavras com outro, lhe disse que o aniquilaria, se dissesse alguma cousa em vilipendio de sua dignidade. E certo que tenho raiva, sabendo que a lingua portugueza não é manca, nem aleijada, vêr que a façam andar em muletas latinas os que a haviam de tratar melhor.—Ha outros (proseguiu Leonardo) que nem com isso se contentam; e andam buscando palavras muito esquisitas, que por termos mui escuros significam o que querem dizer. Como um que se queixava de sua dama, que de ciosa andava inquirindo os escrutinios do seu pensamento. E outro a um barbeiro disse, que lhe rubricára a parede com a sangria.—Alguns (disse o doutor) conheci eu culpados n'esse modo impertinente de falar, que por taes eram reprovados: porém o uso das palavras innovadas não achei ainda entre os portuguezes, como os hespanhoes e italianos. Nem tenho por grande vicio aproveitar de algumas antigas, muito bem usadas em outro tempo, e desterradas, sem razão, na nossa edade.—Não faltam (respondeu Leonardo) curiosos, que por acharem pobre a lingua, ou por elles o estarem de seus vocabulos, fazem alguns ao seu modo: como um lettrado, que querendo auctorisar umas casas para certa occasião, disso:

É necessario que as paredes d'este domicilio sejam alreadas, e que o fato uzivel fique retendo nas ultimas d'elle

. E outro disse de um navegante,

que fôra felice, se não fortuneara tanto no exito da viagem

. E ao que dizeis das palavras antigas, posto que em algum tempo fôssem boas, não o ficam sendo na parte em que se perdeu o uso d'ellas; pois, como já disse, esse só é o fundamento e razão das palavras: e assim, não diremos

leixou

,

trouve

,

dixe

,

ca

,

sicais

,

acram

,

leidisse

, e outros vocabulos de que usaram auctores gravissimos de cujos escriptos podemos aprender a perfeição da lingua portugueza. E bastou o contrario uso para n'esta parte poderem seguir os que agora escrevem, e falam bem.—Com uma só razão (accudiu Solino) condemnára eu a toda essa turba dos que no falar querem parecer singulares, e é que não falam para que os entendam melhor, senão para que pasmem d'aquella sua estranha eloquencia e galanteria. E haveis de saber que é lanço muito certo, que os que se contentáram com saber pouco do latim, falam mais alatinado, para que os ouvintes cuidem que o sabem: e assim como virdes cirurgião, ou boticario, que acabou a grammatica na quinta classe, ponde-lhe abrolho, que o não tirareis com vinte galgos á estrada do falar commum e se me esperardes estudante de philosophia em grade de freiras, vereis uma linguagem meada de logica, que vos não entendereis com o sentido d'ella. E dos que falam pela tempera velha, eu o não consentira, senão em homens de barba larga, penteada sobre os peitos, com carapuça redonda, e pelote de abas pregadas, que vos conte historias d'el-rei D. Manuel, e dos infantes em Almeirim, e de quando D. Rodrigo de Almeida tomou por compadre a Villa de Condeixa, do filho que alli lhe nasceu, em tempo do bispo D. Jorge. Porem nos vestidos justos de agora, e barbinhas turquescas tiradas pela fieira, e tintas sobre branco, palavras d'aquelle tempo parecem remendo de outra côr.

FIM DO 1.º VOLUME

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