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Contos Paraenses

III

Reading edition

De tempos a tempos, desviando a vista do livro para sacudir a cinza do charuto, Roberto fitava a mulher, sorrindo bondosamente. Surprehendida, a Candida pendia para o peito a formosa cabeça, disfarçava fingindo ler n'um livro que estava sobre a mesa. Em seguida, quando calculava que o marido continuava na leitura, tornava a pregar no rosto d'elle o seu ardente olhar, como se desejasse cobril-o com toda a vehemencia da paixão.

Ouvindo soarem no sino de Sant'Anna as 10 horas, Roberto fechou o livro.

—Vamos dormir?—propoz.

Candida estremeceu e levantou-se.

O moleque veiu fechar as portas e janellas e apagar o gaz.

No entanto, haviam os dois penetrado na pequena alcôva. Em cima do velador, uma véla côr de rosa ardia n'um castiçalzinho de porcellana de Sévres com pinturas allegoricas de Amores alados e Chiméras volitantes. No centro, uma causeuse de setim azul estava cheia de laços, corpinhos de renda, brochuras esparralhadas, n'um abandono adoravelmente dissymétrico. Vidros de perfumarias com rôlhas de crystal{134} reluziam em cima do toucador de jacarandá, lançavam scintillações cambiantes ao espelho inteiriço do grande guarda-roupa que havia no meio de uma das paredes lateraes.

Ao fundo erguia-se a cama,—pudicamente occulta entre as rugas de um cortinado de labyrintho finíssimo, suspenso do tecto por uma passadeira doirada.

Levantava-se d'aquella cama um quê de evaporação de felicidade inenarravel, que penetrava no espirito dos dois esposos pelos sentidos do olfacto e da vista. Parecia-lhes acharem-se deante do tabernaculo de seu amor, do altar de sua existencia feliz e encantadora. Para Candida, sobretudo, ella tinha uma importancia transcendental: evocava-lhe uma recordação agri-dôce, que fazia-a sorrir bondosamente depois de nove mezes de agradabilíssima co-habitação conjugal....

—

Quando iam deitar-se, Candida enlaçou a cabeça do marido com os braços descobertos,—mal vestida, apenas velada por uma curta camisinha de cambraia enfeitada de rendas do Ceará.

Roberto beijou-lhe as carnes, aspirando-lhes os mornos effluvios,—essas queridas exhalações de mulher amada,—n'um enlanguescimento concupiscente.{135}

—Olha, murmurou ella conservando-se na mesma posição, beijando-o na testa.—Quero dar-te uma noticia muito bôa....

—Qual é?—perguntou Roberto estreitando-a nos braços.

—Tenho tanta vergonha!....

Esta exclamação pronunciou-a Candida desprendendo-se do amplexo do marido e dando um pulo para o leito.

—Anda, fala, menina, que tolice é essa?

—Então apaga a luz, primeiro; póde ser que ás escuras eu me sinta mais animosa! ....

Roberto soprou a luz da véla e disse deitando-se:

—Agora....

Candida ficou por um momento silenciosa, afagando a fronte do marido com as pontas dos frios dedos trémulos. Depois, a subitas:

—É que,—murmurou com umas brégeiras risadinhas reprimidas,—é que eu.... estou grávida!

Um beijo sonoro, prolongado, ardente como o fogo dos grandes amores,—o beijo com que o esposo tenta revelar a indizivel alegria de vêr convertido em realidade o seu mais persistente anhelo,—respondeu áquella confissão prazenteira, na propicia escuridade da alcôva matrimonial....{136} {137}

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