← Table of contents
A viagem da Índia

A IDA

Reading edition

I

Onde vae, Tejo em fóra, a lusa armada?..

Naus altivas, possantes caravelas! Vae em busca da India enfeitiçada, Sobre as ondas azues, pandas as vélas.

II

E quem é, que essa gente assim conduz

A cumprir o prodigio nunca visto? Accesa levam n'alma a viva luz Da fé, e nos pendões a cruz de Christo!

III

Mas já vão longe as quatro embarcações...

Parecem quatro pombas a voar, Em demanda de ignotas vastidões, Onde vão novo ninho edificar.

IV

Romeiros da romagem longa e vaga,

Que nova Terra Santa, ao longe, alveja? Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga, E a vossa obra, eterna e benta seja!

V

Mas nas ondas o sol vae descaíndo,

E quando o manto placido e sidereo Da noite, o céu cobriu e o mar infindo... Perdeu-se a lusa armada no mysterio.

VI

Nenhuns olhos humanos a seguiam;

Espantadas, porém, da audaz empreza, No céu alto, as estrellas repetiam: «Vae ali a fortuna portugueza!»

VII

E aquella, que apontando sempre o norte,

Sobre a cupula movel, firme está, Dizia: «Raça ousada! raça forte! Dentro em pouco, outra irmã vos guiará!»

VIII

E, dentro em pouco, respondendo ao voto

Da irmã polar... lá vem surgindo a chamma, Sobre as ondas ignotas, astro ignoto, A divina Akher-Nahr, fanal do Gama!

IX

Porém, agora, que mysterio summo!..

Já sobre o Carro se condensa um véu; O mar o engole, quando ao alto, a prumo, Anda o Centauro percorrendo o céu!

X

E, emquanto a Hydra vem subindo, enorme,

Não baixa já, mas demandando a altura, Longe o Dragão, retorso e desconforme, Busca do mar a fria sepultura.

XI

Depois, na vaga, a Cassiopêa tomba,

E nascem estrellas, que ninguem conhece! Lá vem do Sul, a remontar, a Pomba, Quando ao norte, Cepheu desapparece.

XII

Da armada a gente, a vista leva immersa,

Com pasmo natural, que não surprende, N'aquella nova cúpula diversa, Que sobre mar e terra a noite extende.

XIII

Ergue-se, agora, da longinqua esphera,

―Ó Cruz maravilhosa e deslumbrante!― O symbolo christão, que n'alma impera, Não vista, mas cantada pelo Dante!

XIV

E ao passo que ante os olhos vão surgindo

Os segredos, que guarda a immensidão, Dir-se-ía, que da treva está saíndo, Á voz de Deus, segunda creação!

XV

E por todo o estrellado firmamento,

De cada estrella, esta pergunta cáe: «Quem viu tal aventura, tal portento? D'onde vem esta gente, e aonde vae?»

XVI

No emtanto, os rudes peitos temerarios,

Dentro das naves, perguntando vão: «Astros novos, propicios ou contrarios, Estes astros do céu, que estrellas são?»

XVII

Onde vae, mar em fóra, a lusa armada?..

Vae em busca do eterno vellocino. Olhos postos na cruz e a mão na espada, Leva em si Portugal e o seu destino.

XVIII

O destino de um povo! Assim tranquillo,

Sob a luz das estrellas scintillando, De Moisés o destino andou boiando, N'uma cesta de vime, sobre o Nilo!

XIX

Na treva, ruge o mar sinistramente;

Nas almas pésa a noite... Muito embora!.. Avançam para o fulgido Nascente, Hão de ver, no seu throno, a rosea Aurora!

XX

Vae ali cada um cumprir seu fado,

E Deus fará, que seja bem cumprido; Em vão ha de rugir o mar irado, Em vão clamar o céu desconhecido.

XXI

Por todos foi jurado,―e cada um,―

Levar a cabo um feito, ao pé do qual, Não houvesse, em annaes de povo algum, Memoria d'outro feito assim igual.

XXII

Hão de tudo tentar que for preciso...

Descer á eterna sombra do profundo, Escalar os humbraes do paraiso, Transpôr os proprios términos do mundo!

XXIII

Mal dá logar a crença, que os inflamma,

Ás visões, que o pavor, na mente gera; Em frente, muito em frente, a India os chama... Atraz, já muito atraz, a patria espera!

XXIV

Vozes mil o silencio perturbando,

Da treva densa, em côro, vão subindo! Serão monstros do mar, que estão bramando?.. Ou d'Africa os leões, que estão rugindo?..

XXV

Mas nenhum peito, a vozes taes se atterra;

A armada segue, pelo mar em fóra... É Portugal, que vae dizendo á terra: «É tempo já de despertar agora!»

XXVI

As ondas rugem; noite e dia, atroam;

Batem, com furia, nos bojudos cascos; D'azas abertas, para os seus penhascos, Corvos marinhos, crocitando voam.

XXVII

Dir-se-íam bandos de crueis harpyas,

No seu dominio temeroso e vasto, Aves d'agoiro, a reclamar, sombrias, Aquellas presas para o seu repasto.

XXVIII

Depois a calma, a infinda quietação!

Negro aviso de morte ingloria e lenta, N'um mar de chumbo, sepulchral mansão, Que obriga a ter saudades da tormenta!

XXIX

N'isto, uma nuvem, caprichoso fumo,

O azul remoto levemente empana; Ligeira avança, e traz do norte o rumo... É bom prenuncio... mas as naus engana!

XXX

Que extranha nuvem, é, porém, aquella?..

Corta a direito, consciente e viva!.. Trará no bojo horrisona procella? Ou sôpro brando á calmaria estiva?

XXXI

Pasmam de vel-a os arduos navegantes!

Parece palpitar! que vida tem!.. São hostes mil de pombos emigrantes, Que as terras vão buscar d'onde elles vêm!

XXXII

E os pombos, a quem tarda o quente ninho,

Vendo os mastros da armada festival, Julgam ser os pinhaes de Portugal Que foram recebel-os ao caminho!

XXXIII

E n'elles pousam confiadamente...

Pelas enxarcias, nos ovens, nas pontes, São cachos vivos, são tropeis, são montes... Que as naus adornam sob o peso ingente!

XXXIV

Descancem ledos, nos humbraes sagrados!..

Ninguem lhes toca, n'um respeito mudo. Destinos altos! vão assim trocados! É Deus que o manda, Deus assim fez tudo!

XXXV

Mas quando, emfim, das naves se levanta

Aquella nuvem, que escurece o dia, ―Por que a levem á patria sacrosanta,― Cada um, sua prece lhe confia!

XXXVI

Que traço argenteo, as ondas illumina?

Uma estrada de luz!.. Talvez a esteira Deixada pela espuma crystallina, Da nau do Dias, que as cortou primeira.

XXXVII

Sempre ao Sul, sempre ao Sul, a estrada avança!

De cada lado d'ella, o eterno escuro! Extendeu-a no mar a mão da Esperança, Na direcção da Gloria e do Futuro!

XXXVIII

Sempre ao Sul, sempre ao Sul, a estrada segue!

Ao termo d'ella, encontra-se o Ideal! Em demanda do Sonho, que as persegue, Navegam quatro naves de crystal!..

XXXIX

Partiram todas d'um paiz de fadas,

As quatro envoltas em celeste alvor; Vão em busca das Ilhas Encantadas, Onde dorme o divino Encantador!

XL

O caminho é de luz; porém, infindo;

Tem o termo, talvez, na immensidade! Quem vae as quatro naves dirigindo?.. Vae o genio immortal da humanidade!

XLI

Anjo indómito, prompto a combater.

Curvado sempre ao seu destino mudo! Vae a Fé, vae a Força, vae o Querer, A Vontade, que emfim consegue tudo.

XLII

Inquebrantavel, vae da Historia a lei,

Essa, que aos povos a missão traçou; O saber, o pensar de um grande rei, E a tradição, que um rei maior deixou.

XLIII

De noite, recortando o vivo argento,

De dia, sobre as vagas de turqueza, Lá vae, de Portugal o pensamento, Ao leme de uma esquadra portugueza!

XLIV

Sempre ao Sul, sempre ao Sul! porém um dia

Hão de as proas dobrar-se ao Oriente; Então perdida a esteira, que hoje os guia, Engano e trevas hão de ter sómente.

XLV

Sempre ao Sul, sempre ao Sul! eia! valor!

Na cerração, que ao longe se condensa, Mal sabem, que os aguarda a voz immensa Do assombrado gigante Adamastor!

XLVI

Vão entrar nas paragens revoltosas,

―Paragens que ainda hoje o homem teme,― Onde luctam as ondas alterosas, E o vento, em turbilhões, contínuo geme.

XLVII

Onde, em furia, tres mares se combatem;

Onde o encontro se faz de tres correntes; Portas de inferno, onde Cerbéros latem, De tripla fauce e triplicados dentes.

XLVIII

Portas divinas, onde Archanjos luzem,

Sente-o o Gama, no crente coração; Portas de luz, que ao exito conduzem; Portas do Sonho! portas da Visão!

XLIX

Sempre ao Sul! sempre ao Sul! ao largo! em fóra!..

Mas a armada parece que se perde Nas liquidas montanhas de um mar verde, Que as naus afunda, e soffrego as devora!

L

E mais e mais ao Sul se aventuravam,

As gastas equipagens consumidas, Em tal desesperar, que a Deus bradavam, As almas lhes guardasse, e não as vidas.

LI

Mas em que mares vão agora entrando,

Que o sol, tão pouco tempo ali dardeja?.. É castigo de Deus, que os vae chamando Aos confins onde eterna a noite seja?..

LII

Ali, a luz do sol se desvanece;

É tres vezes menor que a noite, o dia; Em este despontando, logo desce Na treva immensa, cada vez mais fria!

LIII

Não é esse, não é, nem por signaes,

Aquelle grande sol, de intensos brilhos, Que prateia as madeixas de seus paes, E aquece as cabecinhas de seus filhos.

LIV

Não é aquelle o sol, de vivos raios,

Que pinta os verdes prados a matiz, Que faz abrir as rosas dos seus maios, E que doira os trigaes do seu paiz!

LV

O de lá, illumina com doçura,

Beija a terra, e aquece-a com amor; Este, aqui, é um sol de sepultura, Mortiça luz, sem brilho e sem calor.

LVI

Não mais o sol verão da sua terra!..

Com que saudade o dizem! que saudade!.. Aperta-os ali dentro a immensidade! O espaço, como um tumulo, os encerra!..

LVII

E sempre o Sul demanda a larga volta,

Que nas azas do vento a armada leva, Para a morte, de certo, á véla solta, Para o silencio... a solidão... a treva!..

LVIII

Cinco vezes, o Cabo, a armada affronta,

Cinco vezes, a armada o Cabo investe! A costa retrocede, o céu remonta... É força as proas apontar a leste!..

LIX

Foi Pero d'Alemquer, que o conseguiu,

Largos dias de teima usando e manha; O piloto maior que o mundo viu, O que soube fazer maior façanha.

LX

Mas se foi Alemquer, piloto astuto,

O que a volta avisada ao Cabo deu, Foi o genio do Gama, resoluto, Quem dobrou as vontades e venceu.

LXI

Assim o reconhece a armada inteira,

Que em salvas, o saúda, de alegria!.. E Adamastor escuta, a vez primeira, A grande voz da lusa artilheria!

LXII

E quem desgraças taes prophetisou

Áquellas gentes, mais que tudo ousadas, Ouviu, em plenas ondas subjugadas, A resposta, que a armada lhe enviou!

LXIII

Ruge o colosso do que viu e ouviu!

Corre a envolvel-o a cerração distante. Mudo e quedo, o phantastico gigante, Humilhado, de nuvens se cobriu!

LXIV

Emquanto ao Sul desciam, mar em fóra,

Tinha visto, de bordo a rude gente, Das costas africanas vir a aurora, Caír nas salsas ondas o poente.

LXV

Pasmava a gente, agora, do que via,

Suppondo a natureza ser mudada; Sobre a terra, á sinistra, o sol descia! Erguia-se do mar a madrugada!..

LXVI

Vão colhidos na gávea, agora, ospannos;

Baixos os mastros; mas as naus correndo! Segredos são, que ninguem sabe; enganos, Com que a mãe natureza os vae mantendo.

LXVII

Vagas taes, ninguem viu, tão revolvidas!

Agora, as nuvens tocam sempiternas! Depois, as naus inteiras engulidas, Precipitam-se em lôbregas cavernas.

LXVIII

E as naves, por não serem dispersadas.

Cada uma, na gávea se allumia. ―Como um grupo de estrellas conjugadas, Umas ás outras são pharol e guia!―

LXIX

Onde vae, mar ignoto, a lusa armada?..

Nem enganos, nem trevas a detem! Vae á India levar a Cruz e a Espada; É ali, é ali, Jerusalem!

LXX

Ha contornos da magica visão,

Nos vagos horisontes da miragem!.. Ninguem pense no termo da viagem, Sem que surja a fulgente apparição!

LXXI

Antes de ao mar a armada se fazer,

Havia o forte Capitão jurado, De nunca, em caso algum, retroceder Nem um só palmo do caminho andado!

LXXII

E quando a desesperança algum vencia,

Irado, o Gama, então lhe perguntava: «Quando elle a mortes cem desafiava, Quem é que uma só morte ali temia?»

LXXIII

E o mór peso tomando do seu cargo,

Em vendo levantar-se a maior guerra, Quando a gente dizia: A terra! a terra!.. Gritava-lhes o Gama: Ao largo! ao largo!..

LXXIV

Hão de ver, o que o mundo nunca vira:

Surgir do mar a India abençoada, Acenando, de longe, á lusa armada, Em torres de esmeralda e de saphyra!

LXXV

Ou, então, enjeitados pela Gloria,

Figurarem, terriveis e sombrios, Como espectros, no templo da memoria, Eternamente, os homens e os navios!

LXXVI

Á nova Terra Santa! em frente! em frente!

Romeiros da romagem longa e vaga! Ah! Deus vos mostre a India refulgente! Deus vos leve, romeiros, Deus vos traga!

Illustration from A viagem da Índia: poemeto em dois cantos
Explore with AITake your curiosity a little further.

Reading settings