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A Relíquia

I (continued 2)

Reading edition

—Caramba, vou fartar o bandulho!

Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou desconfiança da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrinação tão promettedora de gozos—resolvi ligal-a supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi, esgazeado, com os braços a tremer no ar.

—Ó titi! pois não quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: «Fazes bem, Theodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro… E estou muito contente com tua tia… Tua tia é das minhas!…»

Ella juntou as mãos, n'um fogoso transporte d'amor:

—Louvado seja o seu santissimo nome!… Pois disse isso? Ai, era bem capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando… Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe… Não te fartes, não te fartes!

Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma effusão de sympathia:

—E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca… Talvez te sejam necessarias mais ceroulas… Encommenda, filho, encommenda, que graças a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!…

Encommendei: e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete de cortiça, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem, com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no Malaga, vapor da casa Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa dôce, veria, ao fim d'um dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as muralhas de Jerusalem!

—Diabo, Benjamim… Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um bocadinho de Hespanha? Ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.

—Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia, tem a batota, tem a mulherinha… Tudo do bom. É lá que você se refastela!

No emtanto, já no Montanha e na tabacaria do Brito se fallava da minha santa empresa. Uma manhã, li, escarlate d'orgulho, no Jornal das Novidades estas linhas honorificas: «Parte brevemente a visitar Jerusalem, e todos os sacros lugares em que padeceu por nós o Redemptor, o nosso amigo Theodorico Raposo, sobrinho da exc.^{ma} D. Patrocinio das Neves, opulenla proprietaria, e modelo de virtudes christãs. Boa viagem!» A titi, desvanecida, guardou o jornal no oratorio, debaixo da peanha de S. José: e eu jubilei, por imaginar o despeito da Adelia (leitora fiel do Jornal) ao vêr-me assim abalar desprendido d'ella, atestado d'ouro, para essas terras musulmanas—onde a cada passo se topa um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sycomoros…

A vespera da partida, na sala dos damascos, teve elevação e solemnidade. O Justino contemplava-me—como se contempla uma figura historica.

—O nosso Theodorico… Que viagem!… O que se vai fallar n'isto!

E padre Pinheiro murmurava com unção:

—Foi uma inspiração do Senhor! E que bem que lhe ha de fazer á saude!

Depois mostrei o meu capacete de cortiça. Todos o admiraram. O nosso Casimiro, todavia, depois de coçar pensativamente o queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapéo alto…

A titi acudiu, afflicta:

—É o que eu lhe disse! Acho de pouca ceremonia, para a cidade em que morreu Nosso Senhor…

—Ó titi, mas já lhe expliquei! Isto é só para o deserto!… Em Jerusalem, está claro, e em todos aquelles santos lugares, ando de chapéo alto…

—Sempre é mais de cavalheiro, affirmou o dr. Margaride.

Padre Pinheiro quiz saber, solicitamente, se eu ia prevenido com remedios para o caso d'um contratempo intestinal n'esses descampados biblicos…

—Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista… Até linhaça, até arnica!…

O pachorrento relogio do corredor começou a gemer as dez; eu devia madrugar; e o dr. Margaride, commovido, agasalhava já o pescoço no seu lenço de sêda. Então, antes dos abraços, perguntei aos meus leaes amigos que «lembrançasinha» desejavam d'essas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro queria um frasquinho d'agua do Jordão. Justino (que já me pedira no vão da janella um pacote de tabaco turco) diante da titi só appetecia um raminho de oliveira, do monte Olivete. O dr. Margaride contentava-se com uma boa photographia do sepulchro de Jesus Christo, para encaxilhar…

Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas imcumbencias—voltei-me para a titi, risonho, carinhoso, humilde…

—Cá por mim, disse ella do meio do sofá como d'um altar, tesa nos seus setins de domingo, o que desejo é que faças essa viagem com toda a devoção, sem deixar pedra por beijar, nem perder novena, nem ficar lugarzinho em que não rezes ou o terço ou a corôa… Além d'isso, tambem estimo que tenhas saude.

Eu ia depôr na sua mão, brilhante de anneis, um beijo gratissimo. Ella deteve-me—mais aprumada e secca:

—Até aqui tens sido apropositado, não tens faltado aos preceitos, nem te tens dado a relaxações… Por isso te vaes regalar de vêr as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no Jordãosinho… Mas se eu soubesse que n'esta passeata tinhas tido maus pensamentos, e praticado uma relaxação, ou andado atraz de saias, fica certo que, apesar de ser a unica pessoa do meu sangue, e teres visitado Jerusalem, e gozar indulgencias, havias de ir para a rua, sem uma côdea, como um cão!

Curvei a cabeça, apavorado. E a titi, depois de roçar o lenço de rendas pelos beiços sumidos, proseguiu com mais authoridade, e uma emoção crescente que lhe punha, sob o corpete raso, como o fugitivo arfar d'um peito humano:

—E agora quero dizer-te para teu governo uma só coisa!…

Todos de pé, e reverentes, logo percebemos que a titi se preparava a proferir uma palavra suprema. N'essa hora de separação, rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus magistrados, D. Patrocinio das Neves ia decerto revelar qual fôra o seu intimo motivo, em me mandar, como sobrinho e como romeiro, á cidade de Jerusalem. Eu ia saber emfim, e tão indubitavelmente como se ella m'o escrevesse n'um pergaminho, qual deveria ser o mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo, nas terras do Evangelho!

—Aqui está! declarou a titi. Se entendes que mereço alguma coisa pelo que tenho feito por ti desde que morreu tua mãi, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te egoa para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me d'esses santos lugares uma santa reliquia, uma reliquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas afflicções e que cure as minhas doenças.

E pela vez primeira, depois de cincoenta annos de aridez, uma lagrima breve escorregou no carão da titi, por sob os seus oculos sombrios.

O dr. Margaride rompeu para mim, arrebatadamente:

—Theodorico, que amor que lhe tem a titi! Rebusque essas ruinas, esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma reliquia á titi!

Eu bradei, exaltado:

—Titi, palavra de Raposão que lhe hei de trazer uma tremenda reliquia!

Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a commoção dos nossos corações. Eu achei me com os beiços do Justino, ainda molles da torrada, collados á minha barba…

Cedo, na manhã de domingo, 6 de setembro e dia de Santa Libania, fui bater, devagar, ao quarto da titi, ainda adormecida no seu leito castissimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se o som molle dos seus chinelos. Entreabriu pudicamente a porta; e, decerto em camisa, estendeu-me, através da fenda, a sua mão escarnada, livida, cheirando a rapé. Appeteceu-me mordel-a; depuz n'ella um beijo baboso; a titi murmurou:

—Adeus, menino… Dá muitas saudades ao Senhor!

Desci a escadaria, já de capacete, sobraçando o meu Guia do Oriente. Atraz a Vicencia soluçava.

A minha mala nova de couro, o meu repleto sacco de lona enchiam o coupé do Pingalho. Ainda as andorinhas retardadas cantavam no beiral dos telhados; na capella de Sant'Anna tocava para a missa. E um raio de sol, vindo do Oriente, vindo lá da Palestina ao meu encontro, banhou-me a face, acolhedor e risonho, como uma caricia do Senhor.

Fechei a tipoia, estirei-me, gritei: «Larga, Pingalho!»

E, romeiro abastado, soprando á brisa o fumo do meu cigarro—assim deixei o portão de minha tia, em caminho para Jerusalem!

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