A PATA DA GAZELLA (continued 2)
Reading edition
X
Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara a noite antecedente.
Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua, sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso á janella.
Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada. Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.
A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza, sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se, a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.
Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo leão?
A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto, o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi maior, porque venceu o vencedor.
Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.
Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão fingida.
A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.
Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino. Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais alerta ella ficava para não commetter a minima falta.
Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa de Salles, no domingo em que estamos.
Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella, o seguinte dialogo:
—Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.
—Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.
—Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje, acredite, nunca a vi.
—Que tenho eu de mais?
—Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!
—O que é então?
—Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.
—Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor soffrido?
—A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente, um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!
A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.
—Entende agora, D. Amelia?
—Não! murmurou tremula.
—Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos, cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr de longe o objecto de minhas adorações?
O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
—Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.
—Eu não!
—A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.
Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir, disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça, emquanto lhe apertava a mão.
—Não seja cruel!
—Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de ressentimento.
Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por um bigode fino e elegante!
Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.
O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração. Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do vestido, disse em tom supplicante:
—Me deixa vêr?
—Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.
—Quando cessará este capricho?
—Nunca.
Horacio teve um assomo de impaciencia.
—Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de mostral-o a uma pessoa.
—A quem? perguntou a moça irritada.
—A seu marido.
Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem; mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não passavam de um galanteio.
—Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a condição de não mostrar.
—Havemos de discutir essa condição.
—Vamos mudar de conversa?
—Como quizer; temos muito tempo para continual-a.
Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das senhoras, tomou parte na conversação geral.
—Já sabem a novidade, minhas senhoras?
—Qual dellas? Ha tantas.
—A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira mão, de caminho para aqui.
—Algum casamento, aposto.
—E eu sei de quem.
—Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento; quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.
—Aonde?
—No Cassino?
—No Club?
—Em casa do Azevedo.
—É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!
—Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!
—Quando é o dia?
—No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de Troia.
—Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.
—Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos, inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços, parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide para pendurarem a lyra.
Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço, com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida, abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.
Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á seu lado:
—Amelia ficou lograda!
—Como?
—Creio que Horacio está justo com outra.
—Quem lhe disse?
—A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.
—É verdade. Com quem será?
—Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na escola dos maridos.
Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos assucarados, como confeitos do carnaval.
Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros das fazendeiras ricas.
Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se. Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais excitou a attenção da moça maliciosa.
Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o jacta est alea por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que tornasse a passar.
Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do casamento?
Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.
—O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa grande teia humana que se chama familia.
Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou nessas reminiscencias a prova de sua opinião.
—O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob hypotheca?
Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o conduziu á casa.
Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se cada vez mais da resolução que havia tomado.
XI
Eram onze horas da manhã.
Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das cortinas.
Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos rosados do collo mimoso.
Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia, substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.
Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso botão.
A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.
O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.
Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.
—Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do escriptorio?
—Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e... comtigo, a quem o objecto mais interessa.
—A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?
—Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.
Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se dentro de si mesma.
—Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.
—O que papai quizer! balbuciou a menina.
—Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?
As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.
—Papai não acha bom?
—Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada.
—Que roda papai?
—De moços da moda.
—Porque é solteiro.
—Então o que decides?
—Desde que papai e mamãi desejam, eu....
—Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.
Amelia emmudeceu.
—Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um não.
Salles Pereira encaminhou-se para a porta:
—Mas, papai!.... murmurou a moça.
—Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!
—Vai responder já?
—Já.
—Deixe para amanhã.
—Nada; são cousas que se decidem logo.
—O que vai responder então?
—Que não.
—Mas eu não disse isto!
—Tu nada disseste.
—Pois si eu não gostasse diria logo.
—Ah! neste caso gostou?
Amelia sorrindo acenou com a cabeça.
—Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?
A moça fez um supremo esforço:
—Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.
O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.
—Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?
—Oh! papai!
—Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da ventura?
D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.
De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de mata-borrão.
O pai sorriu vendo entrar a filha.
—Curiosa!
—Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.
—Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o braço.
Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava alguma cousa.
—Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
—Está muito boa papai. Só acho uma cousa?
—O que?
O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentaes.
—Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo, assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.
—Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o feliz desde já.
—Papai pensa que elle duvida?
—Ah! Já sabe então! Muito bem!
—Eu não lhe disse nada, papai.
—Então como sabe elle? Adivinhou?
—Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem durante quinze dias, antes de dar a resposta.
—Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.
—Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.
O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta, confiada a um creado.
Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco riso que trinava em seus labios.
O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação, estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil receios.
Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio mimoso.
Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio, Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era natural.
—Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que não basta ser meu marido para vêr...
Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.
Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos desencontrados que vibraram na alma da moça.
Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues, tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.
Ella esperava Horacio.
Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo, onde estava a pendula de alabastro.
As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do negociante.
No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a Horacio:
—Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.
—E que disse elle?
—Nada; leu e riu-se.
—Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.
Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.
Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e produz uma especie de intuição.
Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio; mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não escapáram aos escravos.
D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.
—Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida; disse uma senhora a Leopoldo.
—Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem perturbar-se.
—Com quem? perguntou outra moça.
—Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.
Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.
As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça, embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.
Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal o mancebo rompeu o silencio:
—É verdade que foi pedida em casamento?
Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a enganal-o.
—É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não respondi.
—Estimo que seja muito feliz.
—Obrigada.
Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma resignação serena.
—Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no sepulchro.
Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.
Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
—Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo; mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?
Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto faltavam treze para a decisão.
—Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não. Está decidido.
XII
Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira. Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com a mão o pesinho que elle adorava.
Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.
Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.
Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára; fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la em casamento no dia seguinte.
—Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.
O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:
—Ainda não?
Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda faltavam alguns dias para o prazo marcado.
Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.
Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um encontro.
Foi no theatro.
Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico, avistou Horacio que vinha do lado opposto.
Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão com o Salles Pereira.
Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram de novo o leão ao jugo.
—Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta do meu pésinho!
Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os seus recursos.
Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos adereços.
Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido, sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das estrellas de sua coroa de rei da moda.
Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia, excitando-lhe ciumes.
Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este pensamento.
Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse despeito?
Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite, o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do espectaculo, abrandaria o seu rigor.
Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão, cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da sala.
Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças. Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria. Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a sahida para trocar algumas palavras com a moça.
Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:
—Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?
A moça calou-se.
—Não lhe mereço nem uma palavra!
—Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
—Que injustiça!
—Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que faltam.
—Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?
—E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.
—Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.
Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.
O carro do negociante aproximou-se:
—Vai sem me deixar uma esperança?
—Não é aqui o logar de pedil-a.
—Então amanhã?
—Si quizer!
No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no outro á largos sorvos.
Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella noite entre um sorriso e um rubor.
Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se em sua imaginação.
—Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.
No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até que viesse á sabel-o por algum estranho.
Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio, não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente. Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um rival.
Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o coração!
—Tenho pena delle!
E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas, escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.
Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte, e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.
Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?
Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.
Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.
—Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.
—Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.
Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira sua alma.
—Adeus! murmurou a moça afinal.
XIII
A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte concorrêra ao sumptuoso baile.
Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se encontram reunidas.
Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa via lactea.
Amelia acabava de sentar-se.
Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza de seu trajo.
Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.
Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para disputar as admirações da noite.
—Dançaremos a primeira: disse Horacio.
A moça corou.
—Sim.
Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado. Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava antipathia.
Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma. Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do mancebo.
De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava; a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura, tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por uma especie de pudor, proprio das almas virgens.
Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer, do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo forte.
—Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?
—Para que? Estamos tão bem aqui.
—D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.
—Como quizeres.
As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e comprimentou.
Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.
—Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....
—Qual?
—A ultima!
—A ultima? repetiu Amelia rindo-se.
—Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando seu pensamento com o olhar.
—Então a sexta.
A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e formou-se o turbilhão.
Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o fim de embaraçar o vestido da moça.
—Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.
—Barbara, non hai cor! replicou-lhe Horacio com as palavras do romance.
—O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.
—O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora para movel-o em meu favor. Sim?
—Não: respondeu a moça agastada.
—Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.
A moça olhou-o com expressão.
—Tenho sim, tenho ciumes!
Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou Leopoldo sentado á uma das mesas.
—Oh! por cá tambem, Leopoldo?
—É verdade; contra meus habitos.
—Está esplendido! Não achas?
—Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.
—Porque pensas assim?
—Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim, que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das fadas.
—Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de um encanto inexprimivel.
—Que condão será esse tão poderoso?
—Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e submisso.
—Mas no fim de contas o que é?
—Um pésinho!
Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era possivel exprimir na linguagem humana. Um pésinho, era aquelle ente adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha da natureza.
Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa fórma.
—Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste mundo uma cousa que me illumina a existencia.
—A gloria?... aposto.
—Um sorriso, apenas.
Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.
—Vais dansar? perguntou o leão.
—Agora não.
—Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te contarei a historia de meu pésinho.
—Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.
—Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.
Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.
—Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!
«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras; adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o coração, como aquella botina.
«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que Deus só concedeu á creatura racional.
«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel de um genio tardo e paxorrento.
«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar que ella revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea.
«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que abala até a ultima fibra.
«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.
«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações.»
Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.
—Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei, estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...
—É esta a tua historia?
—Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.
—Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...
—Não a amo?
—Não!
—Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de mim?
—Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.
—A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.
Leopoldo levantou os hombros.
—Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente. Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico; á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores, ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil: tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te habituaste á adorar.
Horacio soltou uma risada:
—Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas fazer disso uma regra geral!...
—Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.
—Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.
—Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.
—Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?
—Sim.
XIV
O Almeida accendeu outro charuto:
—«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda. Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.
«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua alma reflectida na minha.
«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos labios o sorriso, que era emanação de seu ser.
«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando mostrou-me um pé deforme.
—Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.
—O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!
—É curioso!
—Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do que vi. Era repulsivo; isto basta.
«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e vehemente.
«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda mais.
«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão; bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste, esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma illusão.»
—Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu imaginar uma tal coincidencia!
—É verdade!
Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.
Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de velludo verde.
—Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
—Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.
Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?
Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois vinha encontral-a desdenhosa e fria.
—Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento. Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!
O moço resolveu sondar o coração da noiva:
—A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.
—Illude-se!
—Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.
Deram alguns passos silenciosos:
—Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o cavalheiro com um sorriso ineffavel.
A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação o sim, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.
—Amanhã?...
A moça fez com a cabeça um gentil aceno.
—Não irei.
—Obrigada.
—Não devo ir.
—Porque?
—Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.
—Ah!
—Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...
—Cuida?...
Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que entreabria o céo de uma alma candida.
—Então amanhã?... disse Horacio.
—Vai?
—E si eu pedir?
—Experimente!
Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda emoção.
Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras pulsações de um coração virgem.
Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações inebriantes de um primeiro amor.
Na sala dansava-se a sexta quadrilha.
—Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora amortecido pela reflexão.
Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.
—E não tenho razão?...
Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia, a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um verme, que as babuja.
Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida, dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegação para tanto.
Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um grupo, chegou-se.
—Chame, papai. São horas!
Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.
Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom bem expressivo de intimidade.
—Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz commovida.
—Pois é com elle...
O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime eloquencia do pudor.
—Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.
—Não!
—Como o Sr. diz este não!
Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando pronunciára aquelle simples monosyllabo.
—Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.
—Porque?
Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina de velludo do toucador, voltou-se:
—Ha de me dizer! insistiu.
—É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto da moça á fimbria do vestido.
Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula, occultou-a.
—Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as senhoras sahissem do toucador.
—Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.
O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia. Lembrara-se do aleijão.
A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do mimoso pésinho?
—Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza material?...
Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se retirava, encontrou Horacio na porta.
—A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.
—O que?
—Adeus!
XV
Seriam quatro horas da tarde.
Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de seda frouxa de varias côres.
No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada, tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.
Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja tenção a moça trabalhava.
Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.
Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada. Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem, como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher amada.
Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do baile, e das scismas da noite mal dormida.
Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.
Era Horacio.
Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor.
—O que está bordando?
Amelia fez um gesto para cobrir o bordado:
—Deixe vêr! insistiu o moço.
—Não vale a pena!
—Ah!
Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de jubilo.
—É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia.
—Não são para a senhora?
—Não; respondeu a moça admirada.
—Está zombando commigo!
—Veja!
A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro.
—Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse Horacio rindo-se.
—Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim!
—Lembra-se do que me prometteu hontem á noite?
Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima.
—Amelia!
—Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me.
—Então sua promessa? disse o moço com ironia.
Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima.
—Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi. Prometto-lhe!
—Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.
Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame.
Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça, occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da moça para quem estivesse sentado á sua esquerda.
O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se roubava á seus olhos.
—Não sabia que bordava tão bem!
—Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma divida...
—Como? Não é mais presente de annos?
—Uma e outra cousa.
—Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia.
—Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce resentimento. Uma amiga minha...
—Cujo nome não consta.
—É segredo! atalhou a moça com faceirice.
—Ah! É segredo?
—Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo suspeitem....
—Que é sua amiga?
—Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o bordado.
—Devéras? acodio Horacio.
—Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa...
—Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já não morreu de desgôsto.
—Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma menina de sete annos.
—Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as deusas, são assim.
—Com effeito! Si eu fosse ciumenta!
—De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de si mesma! disse Horacio gracejando.
—O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.
Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido. A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o thesouro, tão estremecido pelo mancebo.
Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.
—Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia, si não me engano.
—Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o pagamento de uma divida.
—Justamente.
—Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, que trabalha tão bem como os melhores de Pariz.
—É exacto.
—Como exacto? O senhor sabe?
—A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado.
—Não, senhor.
—Pensei.
—Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito uma encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por mim. Bem vê que não o enganei.
Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado, debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia, retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da moça.
O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.
O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe; aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses caturras hediondos das lendas da idade media.
—Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é?
Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra.
Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha.
Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu rapidamente as escadas.
Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma gargalhada satanica:—«A illusão é a unica realidade deste mundo.»
—Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de Amelia? Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um dragão sobre o terrivel segredo?
«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso, mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de conhecer a mulher, portei-me como um calouro.
«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme, esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.»
Horacio soltou uma gargalhada:
—Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de mostrar a toeza; si eu de a vêr.
«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara!
«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.»
Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio. Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como explicar a retirada e a volta?
—Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo. Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por toda a vida? Que supplicio!
«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.»
«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria predestinar-se para o homicidio.»
Passava um carro, que parou de repente.
—Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do carro.
—É verdade... sahi, mas....
—Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos arranjos.
Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo. Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo, como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.
As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.
Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava horror á seu noivo.
O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para impedir o dialogo intimo, que elle receiava.
Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.
—O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada sei, esqueci; disse elle despedindo-se.
Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.
Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá, permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao longe.
XVI
Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles.
Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.
O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia seguinte.
Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu que o melhor era confiar-se á inspiração do momento.
No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante.
As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades.
Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de seus labios.
—Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!
A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo.
—Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa.
—Não; Amelia não tem querido.
—Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva.
—Então não sabe? acodiu D. Leonor.
—Porque não se offereceu occasião; disse Amelia.
—Mas tem recebido visitas?
—Algumas.
—O Leopoldo não appareceu!
—Não frequenta nossa casa; respondeu a moça.
—Ah! cuidei?
—Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes.
—Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador.
Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava alheia a conversação.
—Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.
—Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.
—De onde, si não é segredo?
—Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.
—Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.
—O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.
—Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.
—Alguma cousa.
—E Leopoldo era seu par?
—Era.
—Par constante?
—Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo, porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.
—Optimo systema! Assim não se repara?
—Em que?
—Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.
—Isso se entende naturalmente com as moças que têm noivo arranjado, retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.
A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg, Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de provêr-se dessa virtude evangelica.
Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia com que a moça dedilhava.
—A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos romances de Balsac, verdadeiros lirios do valle, que vivem de orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos, no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou banqueiro... Estou incommodando-a talvez?
—Não; acabe.
A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horacio.
—A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem privados de uma distracção que tanto lhes agrada!
—Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de D. Clementina?
—Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido; a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo, passar as noites no Club ou no Alcazar.
Amelia soltou uma risada.
—Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.
—Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos, outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á sombra da mulher que amei.
—Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança; disse Amelia com ironia.
—Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!
—Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra: sahirá ainda mais perfeita.
—Ainda não perdi a esperança de encontral-a.
O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.
A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons vivos.
Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios da moça revellavam certa crispação nervosa.
Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o casus belli. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle tanto desejava.
—Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?
—Si quizeres.
—Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.
—Foi logo depois do baile do Azevedo.
—Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor não frequenta essas reuniões de gente pobre.
—Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros; respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.
Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a resistir; o rompimento era infallivel e prompto.
—Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.
Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio atirou á moça rapidamente estas palavras:
—Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei mais aqui.
Amelia estremeceu.
Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:
—Desejo que se divirta muito amanhã.
—Aonde? perguntou D. Leonor.
—Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?
A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta violenta, mas rapida.
Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez do porte, que uma vibração intima erigira.
—Vou sem falta!
Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do vestido, cortejou profundamente.
—Seja muito feliz.
Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha recalcado desde muitos dias.
A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas; cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se desfolhava da flôr viçosa de sua alma.
Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem esse travo do coração que chamamos saudade e sabem quanto é cruel o momento de separação.
Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a mutilação moral.
Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança. Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia, quem a desfolhara.
Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a submergiam.
XVII
Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.
Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.
Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem confusa de seus pensamentos.
Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça, escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente desejavam.
O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso forçado:
—Elle tem razão!
A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.
O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de Leopoldo.
—Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão. Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido alguma cousa de bom para mim.
—Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro propicio, sob cuja influencia nasceste.
—Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.
—Ah! e sob o meu influxo benefico?
—Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...
—Lembro-me.
—O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia. Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do collegio.
—Neste caso dou-te meus parabéns.
—E tu como vais com o sorriso?
—Sem novidade.
—Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.
—Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.
—Em uma victoria?
—Sim.
—A outra era mais baixa?
—Não affirmo.
—Adeus.
O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do encontro no Passeio Publico, onde vira o signal impresso na arêa pelo mimoso pézinho.
Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas reflexões, e chegava á este resultado.
—Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no Passeio Publico. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura. Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.
O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e contemplou a botina.
A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.
Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia consummada.
No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista. A questão era de tempo.
Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade da familia.
Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza; mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.
Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de madre-silvas.
Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores, modas, e mil futilidades.
Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.
Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu com tenue resistencia.
—Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?
A moça fez um gesto afirmativo.
—Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do Salles. Recorda-se?
—Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
—Duvida, Laura?
—Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha pedido.
—Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se lembra da dureza com que me tratava.
—E por isso consolava-se com Amelia?
—Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
—Quem lhe disse!
—Essa frieza.
—E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no semblante do mancebo.
—Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
—Ah!...
Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.
Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma almofada preta.
O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.
Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades da retirada.
Cortejou e sahiu.
A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador sempre feliz.
Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de dez annos?
De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a situação em que se achava.
—Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.
Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia, a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.
Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...
Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para o resto da existencia.
Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de um tilbure, que tomara no largo do Machado.
Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.
De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do Ouvidor passou por elle; era o coupé do Salles. O rosto encantador de Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do postigo.
Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.
Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo, afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo consideral-a impossivel.
Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella parada do carro, e não se enganava.
—Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.
—Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.
—Ficou atraz.
—Podemos ir a pé.
Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante; as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.
As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.
Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão que a moça pisava.
Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés até o colo da perna.
Horacio ficou fulminado.
Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas, arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.
Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça, passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já tinha partido a trote largo.
Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto. Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:
«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na perna um'alma!»
XVIII
Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas apenas a differença de dezoito mezes.
Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.
Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as zombarias do mundo.
Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.
Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual dependia a felicidade da filha.
Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher, comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava extremecidamente, morreu ignorando o segredo.
Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.
A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar de seus 18 annos, seus pés eram de menina.
Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do vestido.
Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva. Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu intento.
Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda, Laura esqueceu a sua.
Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da prima, chegava a invejar o seu infortunio.
Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro. Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.
Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto, recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista. Facil foi portanto illudil-o.
Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.
As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada a acceital-o.
Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.
Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta, obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado por baixo da janella.
A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas palavras.
Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.
A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.