SANTA MARGARIDA
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PRIMEIRA PARTE
I
Era adoravel no berço pela sua tranquillidade feliz: esse primeiro anno de existencia passou-o a mammar e a dormir, deixando de mammar para dormir, e interrompendo o dormir só para mammar. Nos curtos intervallos d'estas occupações sérias mostrava pouca vivacidade de caracter: para tudo e para todos olhava com tal incomprehensão, que se julgou que fosse doente, ou de somenos intelligencia. Pouco mais do que a planta que vegéta apegada á terra, e que só estima a terra que a nutre; pois o unico apego ou affeição manifestado n'este primeiro periodo de vida, foi pela ama, a Antonia, mulher do caseiro, e desdenhava os afagos da mãe verdadeira, preferindo-lhe os d'aquella que a sustentava de leite. A boa creatura ufanava-se com isto e no intimo julgava-se com melhor parte na maternidade de Margarida do que a propria D. Claudina, que a déra á luz. Este ciume levou-a a dizer ao seu homem, que mais queria aquella menina do que ao seu Zé, cuja creação entregara a uma irmã, para tomar conta da filha dos patrões, como estava assente e ajustado que fosse, mesmo antes dos dois partos. E justificava-se:
—Pois se ella é tão minha amiga, que não póde estar um só instantinho sem mim!... Meu rico anjo!... Se accorda e me não vê, logo chora que é grande matação. Lá o meu rapaz era muito mais bravo e até ruim. Dava-me cada dentada!... Havia noites, que eu não pregava olho por causa d'elle.
Assim correu o primeiro anno; mas quando se entrou no seguinte e pela volta dos quatorze mezes, começaram para a misera Antonia noites difficeis e tormentosas com o rompimento das presas. Tudo que até ahi fôra doçura de caracter, se transformou em rabugem insupportavel. Quantas dôres não soffreria a pobre creança para chorar continuadamente, de dia e de noite, que nem se comprehendia como tivesse folego para tanto!... A ama aguentava com heroicidade e lagrimas as mordeduras no peito, que chegavam a fazer-lhe sangue. Os medicos prohibiram o desmamme n'esta grave crise, que foi tão violenta e alarmante, como qualquer perigosa molestia. Esperava-se que isto passasse; decerto havia de passar e passou, depois de ter durado tres longos mezes, com a creança entre a vida e a morte. Não lhe faltaram com nenhuma coisa que podesse minorar aquelle soffrimento horrivel: além dos medicos que vinham ambos todos os dias, foram requeridos os mais afamados e milagrosos santos da visinhança; e consultadas as feiticeiras mais sérias, que predisseram com grande tino e sagacidade, sobre cueiros e camisinhas da innocente Margarida. Mas n'esse periodo atroz dos tres mezes tudo parecera infructifero: as convulsões eram aterradoras, a febre continuada, o emagrecimento implacavel! As honras da victoria, por fim, couberam a santa Margarida, padroeira da capella da casa, cujo valimento imploraram, adiantando-lhe uma illuminação de velas de cera em oito dias e oito noites contadas hora a hora. As primeiras reconhecidas melhoras declararam-se exactamente no fim d'este espaço de tempo, e por tal motivo houve depois missa cantada em acção de graças e sermão, em que o padre José Pitança disse coisas maravilhosas ácerca do incontestavel milagre.
Passara o perigo e com elle todas as afflicções n'aquella casa. A creança melhorou, entrando n'uma phase de saude regular. Voltaram-lhe as bellas côres do rosto. Acordou d'esta especie de lethargia com vivacidade irrequieta nos olhos e signaes de esperteza em todo o semblante, o que até ahi se lhe não tinha notado. Os paes viviam mais contentes do que nunca, pois que a filha lhes fôra restituida accrescentada em espirito e saude. Antonia é que não seria completamente da mesma opinião, visto que a sua querida menina já não era tão meiga e docil de caracter. Estava uma insupportavel traquina: tinha muito genio, um frenesi permanente lhe dominava a vida infantil, custava muito a aturar. Os nervos ainda se lhe exacerbaram e o querer tornou-se mais irascivel, quando aos sete annos veio uma segunda crise de doença. Aquelle pequenino rosto, uma oval delicada que podia conter-se na exigua mão d'uma fada; aquella bocca pequenina e vermelha como um botão de rosa; os dois olhos negros como duas amoras... tudo se transformara a ponto de parecer um rosto feio, com dentes transitoriamente deseguaes e em posição cahotica, beiços grossos da inflammação, e olhares violentos e maus. A misera Antonia passou n'este periodo amarguras desconhecidas: eram mordedellas, beliscões e pancadas com que a mimoseava esta sua filha de leite. Não socegava, nem de dia nem de noite. O seu dormir d'agora, era tão vario e turbulento, que mesmo durante o somno seguia a encarniçada batalha da vida, com gargalhadas, choros, gritos, gestos e palavras de violencia, como se estivesse acordada. A paciente ama andava constantemente a pé com um frio de lobo, para a cobrir; pois considerava, que, se a pequena lhe apanhasse algum resfriamento, ella mais do que ninguem pagaria o mal com vigilias e canceiras. Durante essas longas horas de silencio, á luz tremula da lamparina que havia no quarto commum, escutando o vento que uivava nas carvalheiras da matta e a chuva que grazinava no telhado e nas vidraças, é que a humilde serva tinha os seus desabafos deante da imagem da Virgem, que estava no oratorio:
—Mesmo uma cabrita!... Não é do meu leite... não! Isto... trocaram-m'a por outra. Se esta Nossa Senhora a levasse para a sua companhia...
Mas vinham-lhe logo idéas de arrependimento, por causa de taes arrenegos. Creara-a ao seu peito e lembrava-se com amor das consolações, que Margarida lhe dera no primeiro anno de amammentação, quando era meiga como um cachorro recem-nascido, formosa como um anho de lã branca. Não se lhe desvanecera ainda da pelle a sensação deliciosa d'aquelle contacto setinoso; no mamillo sentia ainda o sugar angelico que lhe inebriara de caricias todo o corpo e até, por vezes, a tinha adormecido com deleites (como dizem que produz a cobra manhosa, que magnetisa a teta ubere de que se sustenta ás furtadelas). Então Margarida era uma bolinha de carne, que dava gosto mostrar a toda a gente, e com quem appetecia dormir quando ella se mettia pelo corpo da ama dentro, feita n'um novello, os joelhinhos proximo do queixo, as mãosinhas agarradas na mamma com medo que lhe fugisse. Taes coisas nunca esquecem, deixam, na memoria de todo o corpo, impressão de suavidade e doçura tal, que impossivel é olvidal-as, mesmo quando surjam novos factos de natureza varia a contradizel-as. Foi por causa da primeira crise de dentição, que Margarida mammou muito para além do anno; e ainda para maior mal, Antonia continuara-lhe este vicio bem mais tempo do que se suppunha. Já o peito estava sêcco; a menina, que dormia com ella, não pegava no somno sem que tivesse a chucha na bocca e fazia-o com tanto geito e goso que a ama lhe dizia:
—Sua lambona! No dia em que se casar ainda ha de pedir d'isto... Caso é que parece correr-lhe...
E corria e ella deixava correr, pois que n'esse sugar improficuo e vicioso, a boa mulher, além de não querer contrariar Margarida, encontrava a lembrança de tantas meiguices passadas, que até lhe vinham lagrimas de contentamento. Se ao despegar a creança a bocca, por cahir em somno, ella reconhecia no bico do peito algumas gottas tiradas do seu sangue, vinham-lhe assomos de ternura, em que perdoava todas as rabinices do dia. Foram n'este viver defezo até aos cinco annos da pequenita, pois Antonia só assim encontrava meio de lhe dominar as crises de genio violento. Quando a via com o diabo no corpo, fechava-se com ella no quarto ás escuras e lá perpetravam o seu crime. Mal pensava a ama, que com tal proceder, concorria para tornar aquelles nervos (já de sua natureza vibrantes e sempre álerta para explodirem como centelhas electricas) exigentes e melindrosos, logo no começo da vida! Pois assim se formou aquelle cerebro excentrico e phantasioso: ora illuminado de alacridade estrondosa e communicativa, ora obscurecido por tristeza bronca e inconvivente; hoje da suavidade doentia da rola amorosa, ámanhã da rudeza do milhafre accommettendo com as garras e o bico. Quando presa de melancolia, procurava escuras sombras nos arvoredos da matta contigua á habitação, secrestando-se assim do convivio de todos; n'outras occasiões, com a mente jubilosa praticava innumeras temeridades—subindo a arvores e a telhados, provocando os viçosos bezerros que pasciam no prado, soltando os sanhudos cães de guarda para accommetterem pacificos transeuntes e os pedintes que vinham ao portal. Porém alegrias ou tristezas eram-lhe de pouca dura: simples fulgurações de nervos, que logo se apagavam após ephemero clarão. Appareciam frequentes e ligavam-se taes estados de sentir contrarios, mostrando, no emtanto, accentuado pendor para tudo que fosse bulha. Traziam tambem essas rebeldias de nervos caracter de contagiosas ou suggestivas para as outras creanças, que a imitavam e seguiam com enthusiasmo e obcecação, collaborando com ella em obras destruidoras contra animaes, flores ou mobilia. Esta pequena imperatriz da maldade impunha auctoritariamente a imitação do seu procedimento tyrannico e contundente. Os paes eram ricos, queriam-lhe muito e consentiam-lhe tudo; por isso encontrava sempre como victimas para esgotar a turbulencia da sua alma um velho creado paciente e tonto, um cão gottoso e indefeso que dormia juncto da lareira, um pobre jumento aposentado, que soltavam para comer nos vallados. Porém a passividade soffredora, que taes entidades lhe offereciam, mais lhe fazia referver o sangue; não se ressentirem das suas provocações tomava-o como de pouca consideração pelo seu poder; o soffrimento alheio causava-lhe regosijos de que dava mostras com animo contente e satisfeito. Quem podia, evitava-lhe o contacto; mas os creados e dependentes faziam-lhe vontades e muitas festas deante dos paes; diziam-lhe palavras de carinho e agradaveis; louvavam-lhe a docilidade de genio e animo dadivoso; porém, não poucas vezes, Margarida lhes commentou os dizeres com esta que tal rabinice:
—Tu dizes isso para a mamã te ouvir...
E D. Claudina sempre a corrigia assim:
—Bem sei que és ruim como as cobras; mas és minha filha...
II
Os doze annos de Margarida, coincidindo com o domingo de Paschoela, em que se celebrava o orago da capella da casa, foram festejados com demasiada pompa. Quem primeiro lembrou o ajustado d'essas duas datas foi Antonia, e D. Claudina assignalou a importancia do facto, por serem os doze annos a edade que marca a transicção da inconsciencia infantil, para a responsabilidade de quem já repara na sombra. Talvez ambas tivessem o pensamento reservado de pedir a collaboração da santa, com o fim de conseguirem qualquer mudança favoravel no caracter irrascivel da creança!... Tem-se visto milagres d'estes e maiores; nunca se deve desesperar da possibilidade da intervenção do poder divino nos destinos humanos. Posta a questão de assim conseguirem para a alma de Margarida uma correlação de belleza com a do seu rosto, que era, em certos instantes, d'uma belleza seraphica, não se pouparam os paes a larguesas. Formaram plano grandioso: haveria missa a tres padres, com Gloria e Credo cantados por côro escolhido; haveria sermão de circumstancia pregado por qualquer padre de nomeada, que viesse de Braga, onde os ha bons; haveria fogo preso e musica de vespera; romaria e procissão com anjinhos no dia. Isto pelo que toca ao divino: no que diz respeito ao profano, grande jantar com numerosos convivas, uma especie de baile no domingo á noite, que se realisaria na grande sala de ordinario destinada a estendal e armazem das fructas, batatas e feijão, que se guardavam para todo o anno.
Quanto mais se martellava n'isto, mais se estendia e melhorava a primitiva idéa. João da Costa assentou em que, para celebrar condignamente a juncção da festa da padroeira da sua capella com os doze annos de sua filha, devia attrahir muito povo de perto e de longe e por tanto encommendou ao Zé Osti, o mais afamado fogueteiro do Alto Minho (onde se conhecem dos primeiros) um fogo preso chibante! Sabia elle muito bem que sendo conhecido este promenor, não ficariam em casa senão os muribundos; porque até os cegos e paralyticos haviam de concorrer.
Não se enganara: era de vêr como dos campos em lavrada, se levantavam alaridos de alegria no dia em que atravessaram as aldeias visinhas o proprio filho do Zé Osti, capitaneando uma duzia de mulheres, que á cabeça transportavam as diversas figuras e o abundante fogo do ar. Tambem João da Costa se não esqueceu de mandal-os esperar pela musica que tinha contractada, e que á frente vinha annunciando o caso com o estrondo dos seus metaes, tocando grandiosa marcha. A galhardia dos trombones, figles e cornetins, lardeados pelos alegres clarinetes e flautas soprados com alma e coração, e tudo esfuziado por um soberbo requinta que fôra musico do tres de Vianna, formavam um tal conjuncto alegre e ostentoso, adeante dos bombos e pratos, que era de deixar bois, charrua e arado, para vir ao caminho gozar, admirar e applaudir! Tudo merecia a imaginação copiosa e deslumbradora do afamado fogueteiro! As formosas moçoilas que abandonavam, por momentos, as sacholas e vinham acompanhadas dos namorados ver as ricas peças, bem o demonstravam exclamando:
«Olha a chieira d'aquella macaca de chapeu de flôres! Veremos se terá a mesma, quando lhe rebentarem as bombas por baixo da saia de balão.»
«Olha o barbeiro a amolar as navalhas! No sabbado á noite é que as hade amolar depressa!...»
«Olha o janota de chapeu alto, que grande charuto leva na bocca! Aquillo é que hade esguichar fogo, quando lh'o accenderem.»
«E o painel de Santa Margarida cheio de lagrimas de côres á roda! É obra apilarada! Não vêdes gentes, como se parece com a morgadinha?!...»
Do fogo do ar é que se presumiam coisas de espavento, pelo que se vira na passada romaria da Agonia. Então deitaram-se foguetes com cabeças maiores do que as de gente, e houve por momentos receio de que pudessem estremecer e toldar os vinhos que ainda estavam envasilhados, ou aluir qualquer penedo mal seguro! Todos tinham tamanho respeito aos monstros, que o Zé Osti, não encontrando nas localidades homem bastante corajoso para lhes chegar a murraca, nas occasiões se fazia acompanhar por um especial, que tinha o craneo por forma duro e resistente, que não haveria receio de que lhe rebentasse o sangue pelos ouvidos, ou se lhe voltasse a mioleira, se por acaso um dos foguetes não subisse e lhe estalasse aos pés.
Era um sugeito atarracado e musculoso, que para exercer o mister tinha de arroxar o craneo com tres lenços em volta. No intuito de prevenir desgraças esses foguetes gigantes, deitavam-se sempre longe do ponto da romaria, e para agora haviam escolhido o conjuncto especial de penedos chamados o Castello, com o fim de que o estrondo não encommodasse.
Á chegada da musica e do fogo, a creadagem de João da Costa, logo appareceu no largo da entrada a distribuir copos de vinho, por toda aquella gente que vinha suada. Foi um despejar como nunca se vira: «e vivam os senhores fidalgos, por muitos annos e bons», «e viva a senhora morgadinha que ha de arranjar um namorado de truz!». Em quanto houve mollete nos cestos foi estacinhar e beber; achando-se já fartos, recomeçou a musica com tanta furia, que até parecia que se estava no dia da festa. O fogueteiro para mostrar a sua fazenda descarregou-a ali mesmo no quinteiro, pondo as figuras em correntesa, para que todos as vissem e admirassem. Havia realmente progresso e modernice quer nas attitudes, quer no vestuario, pois tudo era mais humano e natural. Os corpos com outros geitos e menos rigidos; nas roupas, os papeis semelhavam fazendas—de seda pareciam as saias e os corpetes, de casemira as calças e casacas. Até era pena que tão bellas coisas fossem destinadas a rasgões violentos de bombas e a arderem no meio da alacridade do povo! Tudo tinha, porém, o fim de augmentar a magnificencia da festa em honra de Santa Margarida e dos formosos doze annos da sua afilhada. João da Costa desceu com alguns amigos a apreciar de perto tanta maravilha e perfeição e com um gesto orgulhoso de cabeça, indicando um monte especial de foguetes perguntou:
—São os taes?
—Sim, senhor—respondeu o Osti.
—Parecem cabeças de toiro! Subirão?
—Como perdises que encastellem, verá! Iriam ao ceu se fosse preciso.
Eram as faladas maravilhas, timbre e gloria do famoso artista. Os creados da casa, com as canecas vasias na mão pasmavam deante d'ellas, considerando absortos, que alma damnada teriam dentro, para com o estrondo ao rebentar, metterem medo a quem estivesse mesmo a grande distancia.
Como fosse dia de sexta feira a musica retirou-se depois do beberete, para voltar na noite seguinte, que era a do arraial. Antes havia a ultimar os trabalhos de ornamentação da capella e escolher bem o sitio do fogo preso, para que fosse gosado por toda a gente. Porém com o fim de não haver descontinuidade no enthusiasmo pela apregoada festa, chegaram n'este dia pela volta das onze da manhã os tres zabumbas, as seis caixas e a respectiva gaita de folles, que João da Costa encommendara, e entraram na freguezia d'um modo ovante, tocando com verdadeira imponencia, para despertar a alegria nos corações. Atravessando o povoado em passo lento, solemne e compassado enchiam os ares com o estrondo magnifico dos seus instrumentos, e logo se dirigiram á casa de habitação dos festeiros para os saudar. Então ali é que foi o bom e o bonito, depois de despejarem mais de um cantaro de vinho sobre uma boa duzia de postas de bacalhau e brôa!... Como ficassem alegres e satisfeitos, quizeram mostrar melhor a sua gratidão e artes; por isso se proposeram a exhibir todos os segredos dos seus instrumentos. Bombos a um lado, caixas ao outro e gaita no centro, começou o grande apparato! Os zabumbas formavam um fundo de quadro de paisagem colossal e montanhosa; os seis tambores pareciam alegres comadres a chasquear e a ralhar; o da gaita de folles pavoneava-se desvanecido com ella nos braços, encostada ao hombro como um tropheu!... Veio a familia e vieram os convidados á janella; o rapazio gaudiáva dando cabriolas. N'um certo momento dois dos caixas, que andavam sempre em rixa, separaram-se dos companheiros para repenicarem com todo o primor, dobrando o rufo com elegancia e mestria. Era um florear de baquetas em tom cadenciado e tremulo sobre a pelle distendida das fallecidas cabras. Mostravam prestesa, pulso rijo e flexibilidade de musculos. Havia em tudo aquillo enthusiasmo e coração de valentes, o que se tirava da energia facial com que se combatiam, procurando reciprocamente cançar-se. No mais vivo da sequestra, um dos de zabumba, que tambem presumia de sua fama, saltou para o meio do terreiro e principiou muitas variações, saltando e pulando com mil requebros. Era homem agil e physionomia viva de olhos bugalhudos. Com a baqueta da mão direita feria o instrumento em todas as posições imaginaveis: por cima da cabeça, com elle horisontal á ilharga, suspenso nas costas, deitando-se no chão com elle sobre o ventre! Os companheiros seguiam-lhe a destresa de athlecta, com sorriso sceptico e molle, tirando dos seus bombos sons mais baços.
O gaiteiro vendo applaudidos por todos os assistentes aquellas galhardias, não lhe consentiu o animo ficar em obscuridade. Era homem baixo e grosso, physionomia ossea, mas esperta. Filho d'outro de Compostella, herdara de seu pae o instrumento e a prenda de o tocar com distincção. Afastando-se dos zabumbas e caixas triviaes, principiou a rabear entre os tres que já se exhibiam com apparato e luxo de ademanes. Quiz tambem chamar sobre si a attenção dos festeiros. Com o ventre do instrumento impando, requebrava-se em passo cadenciado e dolente de dança gallega: tirava; ora sons plangentes e maguados como gemidos tristes; ora um psalmear monotono e roufenho, que ondulava no ar como o vôo pesado d'um ganço; ora guinchos agudos como estylêtes ou espinhos que entrassem nos ouvidos. Saracoteava-se com o instrumento ao collo, mechendo os dedos n'uma especie de canudo de flauta e soprando-lhe no ventre por um bico de cegonha.
Os bombos a falar grosso, as caixas a rufar certo, o gaiteiro a tocar variado, tudo n'uma paisagem primaveril de folhas tenras, um bom e carinhoso sol de primavera a aquecer, era deveras divertido e excentrico! Uma atmosphera empregnada dos aromas de mil plantas, tornava esta sexta feira de Paschoela risonha e feliz, o que bem se reconhecia dos semblantes de toda essa gente, pois tinha alma para o sentir.
III
Por todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e incondiccional, d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo, andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre os braços perguntou-lhe:
—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma coisa?
—Não sei... Falta!...
—O que?...
—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa, homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria, disse ao filho do Zé Osti:
—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se qualquer coisa, entendes?...
—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos ares, emquanto o diabo esfrega um olho...
Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:
—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar n'estas coisas.
O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:
—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...
As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, cobertura do modesto cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro susteve-a, dizendo:
—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...
João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:
—Ó filha! Nem te approximes sequer!...
—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e risonhos fitos no Osti.
—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.
—Então havia de ser bonito...
—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.
Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:
—Toma-a, que és o responsavel.
O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria, nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os companheiros de brinquedos e ali se quedou com a vista absorta na cal branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera, que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços. Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:
—Pois hei de ir lá vêr o que é!...
Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar! Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada, e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio, e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber! Descobriria o segredo d'esses deslumbramentos, que recamavam o negro manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira, a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.
Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz, variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no espaço como espiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita, e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis; alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta gente?! Mal se podia acreditar, pois toda a apparencia era de objectos vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande, propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica, maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no meio de lavaredas, que vomitavam raios, esfusiando de todos os lados!... Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz! talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a primeira nota d'um canto de gloria!...
IV
O pavor produsido pelo estrondo de bombas e morteiros a rebentarem dentro da adega grandemente illuminada, foi cruel e estupefaciente! Reconheceu-se o que tinha succedido; mas o que se não comprehendera logo, era como o caso se poderia ter passado, visto a chave andar no bolso do fogueteiro. Só espiritos malignos seriam capazes de ali ter penetrado; pois só elles podiam conceber a execução de tamanha catastrophe! Como as aguas das montanhas, quando collidem para um valle, correu toda a gente para o perigo. N'um momento foi aberto o largo portão, que semelhava a bocca de enorme forno, com o seu ventre em chammas! O creado mais resoluto atirou-se ao meio do incendio, subiu celere ao lagar e, de pé na borda, disse em voz tremenda:
—Jesus!... A menina a arder!...
O seu arrojo, que fôra temeridade, tornou-se loucura: sem attender a risco, abre caminho por entre linguas de lume e estrondo de bombas, e tomando o debil corpo da creança, como quem abraça um feixe de lavaredas, sae com ella para o exterior, por entre gente apavorada. Logo acudiram com mantas e cobertores, conseguindo apagar as chammas dos vestidos de Margarida e do homem que a salvara. Porém a desgraçada creança, sem accordo, parecia morta! Levaram-n'a para casa no meio das afflicções de todos, especialmente dos desditosos paes e logo a despiram com rapidez para se apreciar a extensão do mal. O debil e formoso corpo estava intacto, menos nas partes desprotegidas pelo vestuario. A face então!? Essa pequenina meniatura de face, que dois beijos poderiam cobrir, agora vermelha, empolada e disforme perdera a brancura nativa e a graciosidade de linhas, que a faziam comparar ao rosto das santas! Todos os delicados relevos de feições tinham desapparecido nivellados em massa confusa e pastosa, sem expressão humana. No que se transformava belleza tão delicada, d'uma correcção tão perfeita e harmonica!... Crestados os cabellos longos e finos, e os bem desenhados supracilios, e as formosas pestanas, que sombreavam as pupillas; avolumado pelas empolas o delgado e airoso pescoço... desapparecera toda a graça da viva cabeça de Margarida. Isso que fôra encantador, prendendo a vista da pessoa menos attenta, era massa informe e sem espiritualidade. Onde estava o riso gracioso de seus labios tantas vezes cheios de brisas de carinho, quantas de nuvens caliginosas de desejos?! Onde a expressão turbulenta e dominante das narinas, exprimindo apetites rebeldes, mas innocentes?! E as orelhas pequeninas, da transparencia da porcellana com veios escuros nas curvas complicadas, onde estavam?! E o breve mento, tão breve e gracioso como o da Venus de Millo?!... Tudo se desfizera e se confundira!... Essa interessante physionomia que era jubilo, que era rebeldia de sangue em fervura, que era signal de alvedrios intensos gerados no limpo coração e logo subidos aos labios e aos olhos... Os olhos!... É verdade, os olhos de pupillas inquietas, os olhos de iris escura, mas indefinida com laivos de ceu e de mar profundos, que tinham lampejos á noite, mysterio ao entardecer, alegria na alvorada, carinho á luz brilhantissima do dia... que era feito d'elles?! Jaziam sepultados sob a grossura das palpebras inflamadas. Teriam vista ao menos?... Ninguem o sabia. A mãe de Margarida, sem accordo, como morta sobre a cama; o pae, homem forte e vigoroso, diluia-se em pranto junto da filha adorada. Os dois medicos que tinham corrido ao toque d'essa grande desventura, davam consolações vagas, esperanças infundadas. O lindo rosto de Margarida poderia voltar ao que fôra, a ser outra vez pequenino e engraçado...—diziam. Ainda n'elle se havia de gosar a vista da mesma espiritual belleza, que enchera de ventura o coração dos paes infelizes. Tinham-se visto curas completas mais extraordinarias do que esta, verdadeiros milagres no entender do povo. Os casos feios é que melhor assignalam as victorias da sciencia. Não era já circumstancia favoravel, que a vida tivesse sido poupada em perigo tão violento? O gentil corpo da creança estava quasi intacto na pureza das suas linhas, na elegancia do seu porte, na brancura da sua pelle, quando o natural teria sido ficar reduzido a um negro carvão. Só o rosto fora principalmente prejudicado... Certo é que no rosto reside toda a formosura. O de Margarida era tudo que havia de mais immaterial: a bocca pequenina e vermelha, tinha a graça; os olhos meigos e turbulentos, a inquietação infantil; na sombra das pestanas e no desenho dos supracilios, estava o inigma do pensamento; na pelle rosea, a mocidade; no arrojo do nariz a constante revolta; na curva serena do mento a tenacidade... Se isto viesse a faltar, ou se se transmudasse a rara combinação, que valeria o conjuncto, ainda que fôra dez vezes mais perfeito do que o da estatua grega?!... Porem como a esperança é o riso da natureza humana, e o natural e o proprio dos que soffrem dores fundas, já os angustiados paes principiavam a escutar com bastante conformidade as palavras de quem os consolava. Os medicos, primeiro que tudo, pediram liberdade juncto da pequena enferma, para largamente applicarem os meios que a profissão lhes aconselhava. Certificaram desde o começo que Margarida não morreria, e tocados de piedade por aquelle incomparavel infortunio, ousaram affirmar que haviam de restituir á creança, a saude e a belleza. A longa falta de conhecimento em que após o accidente se conservara algum tempo Margarida, attribuiam-n'o a estado epileptico, despertado pelo assombro de scena tão extraordinaria, como teria sido a de se ver repentinamente cercada de chammas e de estoiros infernaes. Devia ter sido horrendo para uma creança de doze annos, que dentro de si só devia ter fontes de sonhos aureos e aspirações celestes.
SEGUNDA PARTE
I
Passaram-se dias e passaram-se mezes. O soffrer longo e tormentoso seguia lento. A physionomia de Margarida era toda uma postula. Porém de informe nos primeiros tempos, foi adquirindo longes de vida e expressão com os inicios cicatriciaes. Margarida queixava-se pouco; parecia que os nervos se lhe tivessem insensibilisado, ou que na catastrophe houvesse adquirido coragem heroica para supportar a dôr. Até os medicos se admiravam de tanta paciencia nos curativos, pois lhe applicavam topicos que a deviam mortificar. Notava-se-lhe fundamental mudança no caracter: antes sempre inquieta e irascivel, agora conformada e paciente.
O padecer raro e profundo, poderá transformar a sensibilidade e o pensamento? amollecel-os se eram duros, endurecel-os se eram ternos? Em Margarida parecia realmente ter-se operado essa metamorphose grave: na vida feliz e descuidosa de infancia mostrara-se sempre e sempre insatisfeita, nunca se lhe encontrando fim ao querer e ao desejo; chegada a desventura e martyrio excepcionaes, dormitava-lhe o espirito em calma angelica, como se gosasse de paz e doçura celestiaes. Alguns queixumes ainda se lhe ouviram de começo (murmureos de ave doente), em que recorria aos nomes de seus paes e da ama que a creara, como lenitivos e sacrarios de amor santo; porém, depois, entrou n'um periodo de resignação e calma e os seus doze annos mostravam o juizo e a conformidade das velhas experiencias. Em vez de confessar atroz soffrimento, dizia palavras de consolação e esperança aos que muito lhe queriam e eram ellas de tanto conceito e elevadas que nem pareciam da sua juventude. Entrara, pois, n'aquelle corpo alma nova com o infortunio: a tonalidade da voz mudara para submissa e melancolica, as idéas appareciam como florinhas correndo leves em veio d'agua limpida. Já não era a Margarida que sem motivo gritava, que sem razão chorava lagrimas, que martyrisava com goso os animaes e as pessoas, que se deliciava inventando collisões para atormentar os com quem vivia. Accommodado o seu magro corpo no leito de doentinha, todos lhe apeteciam o convivio pelo exemplo que dava de um existir sereno e venturoso no meio de penas. Quando a enorme chaga, que lhe abrangia todo o rosto, principiou a mostrar tendencias para cura, um phenomeno singular se verificou—o ressurgimento da expressão humana, que ia apparecendo lentamente como uma aurora. E o facto excepcional e maravilhoso dava-se, quando tudo ainda era informe e cahotico n'aquelle rosto: nem a pelle rosea e setinosa o purpureava, nem a bocca de gazella sorria, nem a graciosa linha do nariz o equilibrava, nem a perfeita oval o fechava, nem os formosos olhos... (não falemos agora dos antigos olhos de Margarida). O que se ia vendo era a cicatrisação, que no seu progresso confuso já mostrava larga costura com manchas lisas, enrugamentos complexos, tecidos arrepanhados formando sombras. Assim estava a testa, a face, o nariz, o mento, as mimosas orelhas, o airoso pescoço... Porém de tudo isso que era sem fórma e sem graça, resaltava tal suavidade de expressão, qualquer coisa de ethereo e sublime, de suprahumano e bondoso, que só pelo transluzir d'uma alma candida e pura n'um rosto, se póde comprehender. E ainda lhe faltava a belleza dos seus olhos, vivos feixes de luz sempre em ardencia, e não tinha a pupilla nervosa e sempre movediça na iris, tão variamente colorida; porque esses olhos, absolutos senhores n'aquelle semblante expressivo, eram agora apenas dois globos leitosos, rolando senilmente dentro das orbitas, por traz das palpebras densas. Os medicos, para não desilludirem os atormentados paes e a ama Antonia, que lhe queria tanto como se fôra mãe completa, ainda agora os consolavam com mentirosas esperanças. As bellidas, simples pannos brancos lançados deante da vista, poderiam desapparecer com o tempo—diziam. Quando elles não podessem ultimar a cura, outros medicos havia especialistas de taes molestias, que operavam maravilhas, que pareciam milagres. D. Claudina escutava-os, porém muito mais se fiava do alto poder divino, do que de homens grosseiros e barbaros, que se limitariam a rasgar com ferros os olhos de sua filha! Por isso comprehendendo como indispensavel a intervenção superior do ceu (a unica forte e valiosa) continuou com mais fervor as promessas de romarias, de festas, de offerendas a todos os afamados medianeiros celestes, que se nomeavam perto e longe do logar onde viviam. Informações que aos ouvidos lhes chegassem de curas de pequena ou grande monta por este meio obtidas, serviam logo a D. Claudina e a Antonia de pretexto para proporem mais resas e penitencias, jejuns e novenas, oblatas ao divino e á Virgem sua mãe, que cumpririam verificado o beneficio. Isto não obstava á assidua frequencia da capella da casa, onde se demoravam em oração fervorosa ao orago, Santa Margarida, e a todos os santos da celestial côrte. E tamanha e tanta era a fé, que em cada manhã lhes renascia no peito a doce esperança e logo que sentiam a doentinha acordada do seu longo repouso, vinha a interessada mãe perguntar-lhe:
—Sentes-te melhor, filha?
—Sinto, minha mãe.
—E já me vês?
—Vejo.
—Com a tua vista?
—Com a minha alma e... e tambem um pouquinho com a minha vista—rematava sorrindo.
Era consolador ouvir-lhe isto, quando o sol raiava no ceu! Que affecto e que amor taes palavras continham! Porém amargava-lhes no final o desengano, ainda que suavisado pela ternura da voz. A dolorosa realidade permanecia. Era triste ver Margarida, com os dois olhos baços e leitosos como duas enormes perolas a moverem-se lentamente na busca de claridade e sem deixarem passar a vista, que estava por tras da nevoa! Compensava-os (bem insufficientemente) o reconhecerem que na larga cicatriz da ascosa chaga, havia uma vida nova e uma luz nova de vida superior. Quando a doentinha falava era de ver que as suas palavras semelhavam lampejos de luar n'um abysmo de trevas. Habito ou idealisação, certo era que esse rosto, sem feitio de rosto, tinha alguma coisa de raro e sublimemente espiritual. D'esta fórma suave, lenta e dôce, subtil como se fôra um sopro vital, em todos ia entrando a convicção de que a mente de Margarida, após a cegueira se sublimara, illuminando-se de divinos clarões, que a predestinavam para altissimos fins. Denunciava-o os seus conceitos serem de sentimento e bondade infinitas, e isto maravilhava pela precocidade. N'aquella voz percebia-se musica de suavidade angelica, cheia de ternuras e modolações aprasiveis. Encantava estar junto d'ella, escutal-a, conhecer como ella recebia a inspiração divina, que vinha como pomba esvoaçar-lhe sobre a cabeça. Não balbuciava uma queixa, nem uma saudade do mundo de que se conhecia separada para sempre. Ao contrario: confessava-se mais feliz e ditosa n'esta densa noite, do que o era na luz do tempo em que irrequieta, nervosa, exigente rebentava em lagrimas de cólera, á menor contrariedade. Agora nunca chorava!... Não saberão os cegos chorar? As lagrimas são a belleza dos olhos, quando como diamantes deslisam pelas faces dos que morrem d'amor; porém, as lagrimas tambem são signaes d'infortunio, se, como pingos quentes de chumbo escaldam a pelle de infelizes atormentados. Margarida não tinha nem edade para amar, nem experiencia para os grandes infortunios; por isso não precisava de lagrimas. Aquella mente, lago sereno em calma ventura, não tinha a encrespal-a ventos que só entram por ambiciosas e prescrutadoras pupillas.
Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que a physionomia de Margarida, outr'ora tão harmonica das combinações que dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém, pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que ainda vos hade fazer milagres?»
Era realmente o que todos viam, com verdadeiro jubilo e devocção. Já na mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios, juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha. Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande Ventura. Assim se consolavam os corações dos amargurados paes, que n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.
Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava, necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir, domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio, perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho, voltada para o officiante.
Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio. Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e vidente, pois aos antigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias. Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle tivessem medrado.
II
Os paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova e signal de que deviam submetter-se ao querer do Altissimo. E por ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra junctas?
Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeram então a necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima, nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham? Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação que a morte carnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade. Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e delicado corpo.
Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro, atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz, amando-lhe o explendor; que viesse visitar a paisagem que tencionava gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando. Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar nas hervas!»
Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do dos santos nos extasis contemplativos da magestade divina. Esses globos de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos, como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de Preste?»[1]
Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavam piamente n'esse divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes. Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu. Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores, traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido, que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhos dos medicos tinham auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e exigente, para que a não separassem das suas queridas flores. Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.
Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares, em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e juncavam-lhe com flores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes. E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena, fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...
III
Porém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta; no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e desesperos, desalentos e esperanças vivas!... Os carinhos maternos e a dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano, a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido, improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos passeios aconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial. Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de Deus!...
Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as flores campestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos e como branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.
Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediu com palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:
—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...
Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.
—Está morta—disse com sentimento grave o medico pousando-lhe a mão na testa.
—Está viva—pronunciou como em sonho, o padre Carvalhosa...
Lisboa, Abril de 1899.