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A mulher; Os Portuguezes em Tanger

II

Reading edition

Sans sa beauté, sans ses dons precieux la vertu même est moins belle à nos yeux. J. B. ROUSSEAU

Salve mimosa e fragrante flôr que nos embalsamas a existencia, levando-nos ao amago do coração felicidades!

Que seria a sociedade sem ti? Seria um viver monotono um viver sem delicias!

A mulher é a rosa que sobresahe virente no centro dos folguedos. Seus languidos olhares dão-lhes alma e suas meiguices mimo: suas fallas dictadas pelo instincto forte do sentimento deleitam-nos na escandecencia das frágoas, e o sorriso modesto onde se póde soletrar a sua bondade angelica, arrebata-nos, attrahe-nos ao borbulhar das festas.

Não fallo da mulher prosaica porque é um ente nullo, ama porque ouviu dizer que se amava; ama{16} só com o intuito de ter um escravo dos seus caprichos e um alvo dos seus sarcasmos!

A mulher prosaica é o escarneo da vida. D'essa não fallo eu. Fallo da mulher que sente e comprehende essa paixão e que é o termo dos vôos do nosso pensamento, e a paragem da mente embriagada do poeta, quando vaguêa escandecida por entre milhares de illusões;—que é o elo mais forte que vincula a sociedade.

Fallo da virgem que na manhã da vida, na maior influencia d'um baile, tranzida, por uma saudade amarga, entristece e se lhe pendura na palpebra uma lagrima que de repente se some, abafando um ardente suspiro que lhe fugira do coração.

Da mulher que no madrugar d'um dia formoso pára e scisma, contemplando a natureza, e junta aos hymnos que as aves elevam ao seu criador uma prece cheia de sentimento,—uma oração que os anjos lhe vem colher!

Esta mulher é um beijo do Criador;—é a corda mais afinada da lyra dos anjos.

Assim é! Pergunte-se ao filhinho que desabrochou no regaço de sua mãe; acalentado e acariciado pelos seus mimos, se póde haver no mundo amor que iguale os desvelos e cuidados de mãe!

Pergunte-se ao esposo, que levado por uma affeição sincera e pura, escolheu uma mulher para companheira da sua vida, se não encontra um balsamo{17} consolador para as suas dôres e procellas da vida, nas fallas e conselhos d'essa mulher!

Pergunte-se ao mendigo, coberto de miseria e corrido pelo infortunio, se jamais pediu a uma mulher que lhe mitigasse a sua dôr sem que lhe ella recebera os ais no coração, e lhe minorasse as mágoas e privações que lhe vão gastando a existencia!

A mulher poetica é uma viçosa grinalda, cujas flores foram colhidas por Deus e entrelaçadas pelos anjos!

É o campanario que a fallar-nos de longe, nos inspira um sentimento religioso!

É o raiar d'um dia formoso trazendo-nos no canto das aves, e nos raios do sol que vem trepando os montes, felicidade e poesia ao coração.

Deus na sua poderosa e immensa criação, copiou 'neste ser a bondade que os anjos teem,—engrinaldou-o com as odoriferas flores do Paraiso, pousou-lhe sobre a fronte uma corôa de virtudes, e entornou-lhe no coração todo o amor de que encheu a natureza.

Que poesia nos não inspira uma lagrima a marejar nos olhos d'uma donzella?!

É o nectar do seu coração que se nos vem mostrar languido e puro, sulcando-lhe as faces purpurinas do seu rubicundo rosto.

É uma gotta do lindo orvalho da manhã, pousado no calix d'uma rosa, que a buliçosa brisa,{18} com seu suave balancear, pendurou em suas viçosas e escorregadias folhinhas.

A mulher é o sanctuario do coração do poeta, o asylo dos vôos da sua imaginação, a inspiração das suas trovas, e a delicia da sua vida.

Consulte-se cada homem que tem amado, e ver-se-ha o que diz. Quando a alma se lhe dilata a receber um supremo gozo, ou quando se lhe comprime por algum atroz soffrimento, a primeira idêa que lhe assalta a imaginação, é ter junto a si a mulher que ama, para que ambos partilhem igual sentimento.

Escute-se a lyra d'um bardo, traduzindo-lhe os sentimentos affaveis do seu coração em melodiosos sons, arrancados por sua incerta mão..................

Mimosa c'rôa de encantos Te cinge a fronte, mulher! Prendem-nos a alma teus prantos Que meiga nos deixas vêr, És uma estrella radiante, Uma pérola brilhante, Um celestial descante Que nos mitiga o soffrer.

Qu'importa no mundo a vida Quando é vivida sem ti? É qual florinha pendída{19} Que o tufão matou assi! É como a triste saudade Que nos veda a f'licidade. No verdor da mocidade Quando a vida nos sorrí!

Tu és uma harpa divina Que os anjos vem desferir, És quem meiga nos ensina A crer, amar, e sentir! Fallam d'amor teus olhares, Fallam de amor teus pezares, Teus innocentes folgares, Teu deslumbrante sorrir!

Mimosa c'rôa d'encantos, Lindo sol do coração, Prendem-nos a alma teus prantos Que n'alma cahir-nos vão! Mulher tu és n'esta vida A nossa esperança qu'rida, A florinha enriquecida Pelo Auctor da criação!

FIM{20} {21}

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