A FILHA DO CABIDA (continued 2)
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N'este momento, porém, crusava-se no ar com o punhal d'Americo uma comprida e ponteaguda faca, vibrada pela mão vigorosa do negro.
Duas vidas estavam suspensas das pontas d'aquelles dois instrumentos. Os braços podiam descer ao mesmo tempo, e ao mesmo tempo fazerem duas victimas, rasgando dois seios.
E assim aconteceria, se não fosse uma imprudencia de Magdalena, imprudencia que a poderia ter morto, mas que felizmente não teve resultados funestos.
Quando a força dos dous inimigos ia ser empregada em vibrar o golpe, chegava Magdalena collocando-se entre elles.
Suspenderam-se então, mas nos olhos de cada um chammejava feroz a raiva, o odio, uma tempestade, finalmente, horrorosa e tetrica.
--Que faz, senhora moça! gritou o negro.
--Estás doido, cabinda!
--É o que te vale, canalha! acudiu Americo.
--Basta, senhor, d'injurias e d'infamias! Sou mulher e fraca, mas não tenho receio de o mandar calar e de retirar-se!
--Creança!
--Lacaio!
O cabinda era um vulcão latente. Continha-o a presença de Magdalena. No entanto, as forças, ou antes, a paciencia, ia começando a faltar-lhe e ai do mulato se a lava podesse romper!
Americo sentiu-se humilhado com a affronta provocada, e respondeu atrevidamente a Magdalena:
--Ponha essa palavra na bôcca d'um homem e diga-lhe que m'atire.
--Ó senhora moça! deixe-me com elle! gritou o cabinda investindo para Americo.
--Não, que te enlameias!
--Respeito-a porque é mulher, porque é uma creança. Todavia, creia que não ficaremos sem saldarmos as contas.
--Quando quizer. Vamos, cabinda.
E Magdalena, aquella creança que nós conhecemos, bondosa, meiga, delicada, sensivel, tomou, lançando ao mulato o seu olhar expressivo de cólera, o negro pelo braço e arrastou-o consigo, affastando-se em direcção a casa.
O cabinda cedeu, e nem elle era homem que resistisse á sua filha, mas não sem que se voltasse para traz, gritando ao mulato:
--O negro cá fica. Cautella com o cabinda.
Americo tragou a ameaça em silencio e ficou só, no meio da febre da sua exaltação, que pouco a pouco devia ir diminuindo.
Sentou-se e esteve scismando durante alguns minutos. Occorreu-lhe, porém, a lembrança de que o negro poderia voltar, achou-se fraco perante a robustez do seu inimigo e deixou a chacara saltando para fóra.
Estava cançado.
As coisas começavam a correr-lhe mal, e isto exasperava-o mais, que as offensas e as affrontas que havia recebido.
Deixou correr as ideias atraz dos seus desejos de vingança, mas teve um momento em que quasi succumbiu.
Americo, em vez d'um, via, agora, tres inimigos diante de si:--Luiz, Magdalena e o negro.
A lucta era desigual e poderosos os seus contendores.
O primeiro ensejo, a primeira occasião favoravel, fôra de toda perdida, e longe de aproveitar-lhe antes o collocou em mais critica posição.
Os cuidados e as precauções haviam de redobrar-se agora contra elle, e isso obrigava-o, para conseguir os seus fins, a redobrar tambem d'astucias e d'ardis.
No entanto, as esperanças de derrubar Luiz do altar do coração de Magdalena, não o abandonaram de todo. Mais ou menos lá lhe floriam no coração, entre os sentimentos ignobeis da preversidade que o dominava.
No entanto, Magdalena acompanhada pelo cabinda, ao dirigir-se a casa, depois d'aquella scena violenta, que tanto a excitára, ia-lhe dizendo, com ar de quem lhe impunha a sua vontade:
--Olha que não quero que alguem saiba do que se acaba de passar-se.
--Descance a minha filha.
--Nem mesmo ao senhor Luiz, quando chegar, ouviste?
--Nem o branco?
--Nem esse.
--Então o mulato hade ficar assim?
--Perdoo-lhe, Cabinda.
--Mas o negro é que não perdoa senhora moça.
--Ha de perdoar, porque eu assim o quero.
--E se elle voltar? o mulato é mau...
--Se voltar, fallaremos então.
--Oh! senhora moça! o negro tem bom olho e pulso forte. E o cabinda estende-o logo como o caçador á onça do mato.
--Já te disse que não fazes nada.
--A minha filha manda.
--E tu obedeces.
Tinham chegado á escadaria de pedra que conduzia á habitação. A preta Maria, que era a mucamba de Magdalena, uma especie de creada grave, vinha descendo já para ir procural-a, estranhando que contra o seu costume, a senhora moça andasse pela chacara áquella hora.
Magdalena apenas a viu perguntou logo:
--Onde vaes, Maria.
--Ia procurar a senhora moça.
--Ainda bem que te poupo esse trabalho. Fui passear até ao lago, acompanhada do cabinda.
--Eu não via a senhora moça, e fiquei logo com cuidado.
--Obrigada. Estava a noite tão bonita que não pude resistir-lhe.
--Fez bem, senhora moça.
--Pergunta ao cabinda, como, na grande tamarindeira, do lago, estava cantando um sabiá!
--Bonito, Maria!
E n'isto foram entrando em casa.
Perto da meia noite entrava tambem o mulato no seu quarto da rua dos Pescadores. Levava estampado no rosto a expressão d'um grande descontentamento. A decepção que soffrera fôra grande e, sobre tudo, inesperada.
Depois, não era só isto o que o preoccupava; era tambem a ideia de que tinha ainda novas scenas, apenas Luiz chegasse, porque tinha como certo que Magdalena não deixaria de narrar-lhe a sua ousadia, e tudo quanto tinha acabado de passar-se.
Americo reconhecia agora a falsidade da sua posição.
Além d'isto, se todas estas coisas chegassem aos ouvidos de Jorge, era mais facil que elle perdoasse a Luiz, e attendesse aos rogos de Magdalena, sua filha, do que esquecesse a infamia tentada por Americo.
O que elle tinha como certo; era que as coisas depois dos ultimos acontecimentos, dessem de si, tivessem um resultado qualquer. Luiz era um homem de dignidade e a isto juntava agora todo o amor que o inflammava. E bem ameaçado deixára o mulato antes de partir para Macahé, fazendo-lhe sentir que Magdalena lhe era uma pessoa sagrada, e que teria de justar com elle todas as contas, se de qualquer modo a offendesse, injuriasse ou affrontasse.
Todavia, Americo, apesar de sentir o peso de todas estas reflexões que lhe suggeria o seu espirito, não deixava, ainda assim, de conceber uma esperança. Desanimar, não desanimava.
Tinha a pertinacia dos da sua raça pouco pura, a teimosia dos que, dotados de maus sentimentos e indole perversa, não duvidam nem hesitam em ir augmentando o mal, para conseguirem os seus fins, á medida que os obstaculos, que as barreiras se vão levantando.
Era por isso que o mulato, no silencio do seu quarto, examinando agora o bilhete de Magdalena e a fita de sêda que as tranças dos cabellos d'ella lhe deixaram nas mãos, dizia com expressão de grande malvadez: --Ainda cá está isto! Valem e podem muito estes objectos!
XIV
Passaram-se quatro dias sem acontecimentos dignos de mencionarem-se. Magdalena ia gemendo as suas saudades; o cabinda cuidando dos jardins e da chacara, e Americo curtindo os ardentes desejos da suspirada vingança.
Ao quinto dia surgiu Luiz, regressando de Macahé.
Vinha ancioso o pobre moço; eram vehementes os desejos de vêr Magdalena.
Depois, como a todos os namorados, como a todos aquelles que se alimentam do fogo sagrado do amor, Luiz sentia d'um lado as venturas de ter acabado com uma ausencia, que lhe era extremamente dolorosa, e sentia, do outro, os espinhos afiados, com que o estava ferindo a ideia de que Magdalena o tivesse esquecido, o tivesse abandonado.
Era a duvida, d'um lado, com toda a sua escuridão, com toda a sua noute; e a esperança, do outro, com os resplendores vivissimos do seu formoso sol, com todos os suaves perfumes das flôres da sua primavera.
Além d'isto avultava tambem a incerteza sobre o procedimento do mulato, seu socio.
Teria elle respeitado Magdalena?
Teria commettido alguma infamia, durante os quatro dias e meio da sua dolorosa ausencia?
Ninguem podia responder-lhe; e ávido de saber tudo isto, ávido de vêr Magdalena, de fallar-lhe, de a ouvir, de lhe escutar ainda uma e muitas vezes um protesto d'amor, é que elle entrava agora em casa, trazendo tambem a consciencia satisfeita, pelo bom desempenho da commissão, de que fôra encarregado.
Americo não o esperava de volta tão cedo, e sentiu o que quer que é ao vêl-o entrar, porque estremeceu, e empallideceu subitamente.
Presentiu, naturalmente, a violencia das tempestades, que iam desencadeiar-se, e depois de revolto o mar, quem poderia assegurar-lhe a salvação, ou evitar-lhe um naufragio?
Esperanças, pelo menos, de fazer mal a Luiz, tinha-as elle, embora poucas, mas assentes em que base é que elle não sabia. Resultados da sua indole, da sua perversidade.
Em todo o caso, desistir da lucta, nunca! Seria uma cobardia, uma vergonha immensa, uma nodoa indelevel, segundo o seu parecer, e a isso preferia antes o esmagamento, uma quéda, uma derrota completa, que lhe inutilisasse todos os recursos. Então sim, antes d'isso, não desistiria dos seus intentos.
No entanto, Luiz, entrando em casa, ás oito horas da manhã quiz mostrar-se generoso, ou antes, que tinha confiança em si e em Magdalena, e dirigiu-se a Americo, cumprimentando-o, como que se um resentimento o não estivesse remordendo intimamente.
O mulato respondeu cortezmente, mas com certa frieza.
A sua pallidez, ou antes a mudança de côr que se operara no seu rosto, com a entrada inesperada de Luiz, desappareceram após as primeiras impressões, para dar logar á viva expressão dos desejos que o assaltavam de recomeçar a luta com o seu antagonista.
Tinha o mulato para si, que devia romper, e romper logo, a fim de ganhar sobre o seu adversario a força moral de que precisava. Era uma estrategia boa na apparencia, mas falsa, sem duvida, pelos resultados.
Luiz tambem não era homem para succumbir; dava-lhe alentos o seu amor, e além d'isso era... portuguez!
Ás oito horas e meia entrava Luiz no escriptorio, depois de se ter preparado.
Americo lá estava, sentado a lêr a correspondencia.
Nem sequer olhou para o seu socio.
--Fez-se algum negocio? começou Luiz.
--Bastante, respondeu Americo seccamente.
--Houve alguma novidade, durante estes dias que andei por fóra?
--Importante nenhuma. Apenas uma entrevista que me deu Magdalena, uma d'estas noites, aproveitando para isso a tua ausencia.
Luiz sentiu-se como ferido por uma profunda punhalada, e levantou-se subitamente com a pallidez no rosto, o fogo nos olhos e umas temiveis convulsões nas mãos.
--Mentes! bradou o moço.
--Mentirei...
--Mas como um vilão!...
--No entanto tenho as provas comigo.
--Mostra-as, se és capaz!
--Julgas então que era chegar, vêr e vencer! Enganas-te. Magdalena disfructava-te, porque fazia de ti um brinquedo, com que se divertia, sem nunca pensar em tomar a sério os teus protestos d'amor.
--É falso, repito! E senão mostra-me as provas ou esmago-te como quem esmaga um reptil venenoso!
--Tenho-as aqui e parece-me que bem claras.
--Fazes-me perder a razão, e depois...
--Conheces esta letra? lê...
E Americo deu a Luiz o bilhete em que Magdalena lhe concedia a entrevista.
--E, mais do que isso talvez... tens ainda aqui esta fita da trança dos seus cabellos... Que dizes agora?
Luiz nunca na sua vida sentira o que estava sentindo n'aquelle momento. Era o ciume, a raiva, o desespero e o odio, confundidos, misturados, amalgamados, n'um sentimento que a penna não póde traduzir.
Vacillava-lhe a razão, fugia-lhe a vista, em face d'aquelle bocadinho de papel, que lhe estava queimando as mãos, como fogo do inferno. Era incrivel, mas era a realidade! conhecia a letra de Magdalena, reconhecia tambem a fita que lhe prendia os cachos dos cabellos negros, na tarde d'aquelle jantar saudoso. Luiz desejava duvidar do que estava vendo, mas como, se as provas estavam agora na sua mão! Passou-lhe por diante dos olhos a visão medonha da vingança. Mas a Providencia não desampara os que bem lhe merecem, e limitou-se apenas a exclamar:
--Tão infame é ella como tu!...
--Então já não duvidas? perguntou Americo, attendendo apenas ao estado em que Luiz se achava, e importando-se pouco com as injurias que elle podésse dirigir-lhe.
--Não sei. Todavia quem me affirma que Magdalena não foi forçada a escrever estas linhas, a pôr o seu nome n'esta folha de papel e a entregar-te ou a mandar-te esta fita? Quem?
--Com isso poderá ella desculpar-se se lhe fores agora pedir contas do seu procedimento, bem o sei, mas pouco importa, porque esse bilhete falla bem alto.
--Oh! mas isto é incrivel! isto é um sonho!...
--Não é sonho, não. É a realidade. Acceitaste a lucta, batalhamos. Quando julgavas haver vencido, vês a victoria do meu lado. Acontece muita vez. Além d'isso, que dotes ha em ti que te recommendem mais que a mim? O seres portuguez? o seres branco? É justamente por isso que menos devias confiar em ti. Se tenho côr... sou brazileiro!
--Em todo o caso abusaste da minha ausencia e o teu procedimento não póde ser classificado senão de infame!
--Embora! com tanto que eu vença...
--Isso é o que ainda não está decidido. Não julgues que fico com o que me dizes. Heide indagar, heide empregar todos os esforços para descobrir a verdade. A letra do bilhete e a fita de sêda são de Magdalena, não ha duvida, mas se para as conseguires empregaste alguma violencia, commetteste alguma infamia, ou abusaste de qualquer modo, não te perdôo, Americo; as contas serão então comigo.
--Que pretendes, pois, fazer?
--Indagar a verdade, dissipar esta duvida que me atormenta!
--Como? Fazendo publico que a filha do teu amigo, do teu socio deu a um homem uma entrevista a horas inconvenientes? Queres deshonral-a d'esse modo? Queres dar esse desgosto ao teu protector?
--Muito cynico és, Americo! bradou Luiz espumante de cólera. E tu, canalha, não te lembraste que devias a esse homem tanto como eu, para lhe illudires a filha! Qual de nós a deshonra mais? eu que me julgo hoje com direito de lhe pedir contas de seu procedimento, ou tu que abusaste necessariamente da sua ingenuidade, ou a estás infamando, faltando á verdade, e então és duplamente abjecto e criminoso?
--Indaga.
--Heide indagar, sim. E ai de ti se ousaste calumniar, quem só devia merecer-te todo o respeito.
--Em todo o caso restitue-me isso.
--O bilhete e a fita? nunca!
--São meus.
--Que importa,
--Importa muito. E, ou m'os dás ou...
--As ameaças depois, agora... a verdade!
E Luiz ia a retirar-se quando ouviu no armazem a voz de Jorge que havia entrado.
O mulato estremeceu de medo. Comtudo, já tinha a consolação de ter amargurado e bem o coração de Luiz.
Este, apenas deu a Jorge conta do bom desempenho da missão de que fôra encarregado a Macahé, sahiu, deixando-o no armazem com Americo.
O pobre moço ia fóra de si, como perdido, desvairado, e, diga-se a verdade, bastante indisposto com Magdalena, porque acreditava mais ou menos no seu perjurio.
N'este estado, seguiu para o Botafogo.
XV
Eram onze horas quando chegou.
Magdalena havia acabado d'almoçar e viera para o salão, no proposito de espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas esqueceu-se d'elle, embebida na leitura do suavissimo Camões do nosso immortal Garrett.
Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:
«Longe, por esse azul dos vastos mares, Na solidão melancólica das aguas, Ouvi gemer a lamentosa alcyone E com ella gemeu minha saudade...»
quando Luiz surgiu á porta, através do reposteiro, que a velava.
Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.
Magdalena não o esperava e, ao vêl-o entrar deixou cahir o livro das mãos e correu para elle, gritando commovida:
--Ah! ainda bem que veio!
Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos ás mãos d'ella que as procuravam, e recuou dous passos dizendo:
--Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!
--Luiz!... acudiu ella, vendo o modo como elle se apresentava.
--Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. Ex.a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão seductora dos sonhos do nosso amor purissimo...
--Desconheço-o... Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz em lagrimas.
--Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex.a é uma mulher, como todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma d'estas pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, capaz de perfumar com toda a felicidade os dias d'amor, que lhe depunha aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares d'espinhos envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céo nos olhos, quando, afinal V, Ex.a só preparava a victima para lhe despedir a punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex.a era a mascara, debaixo da qual se escondia uma grande hypocrisia... toda a sua preversidade, emfim!
--Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ella com duas lagrimas nas pupillas.
--Bem sei; são ainda as lagrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e sobretudo, digno de V. Ex.a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e aspirações, em quanto que V. Ex.a, zombando da sua fé, zombando do sentimento e da sinceridade d'esse homem, se ria, brincando com elle, como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex.a! O que não sei é como V. Ex.a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, põe em prática os principios da philosophia d'ella! O que não sei é como V. Ex.a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!
--Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte d'esse modo, porque eu estou innocente!...
--Innocente!...
--Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o meu peccado!...
--Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que invocára, n'um momento de hypocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, para me fazer um protesto d'amor!
--Oh! muito, eu... bem vê que não tenho forças para tanto!... soluçou ella, inundada de lagrimas.
--É muito! é muito! diz V. Ex.a! O que não será, então, rojar um homem aos pés d'uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, acolher cheio d'esperanças um sorriso. d'amor d'essa mulher que lhe fica sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura d'esse homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro:--Venha que o espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha muito o que me está ouvindo?
--Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!
E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.
Eram as consequencias da sua imprudencia!
--Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex.a teve razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome pomposo, expatriado, d'uma familia humilde e ignorada, que tem apenas por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por divisa, a virtude, em quanto que V. Ex.a é a senhora D. Magdalena, a filha riquissima, a herdeira unica do ex.mo capitalista Jorge de Macedo!
Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, perfilou-se, e exclamou n'uma como explosão, que era a prova mais evidente da dôr aguda que estava sentindo:
--Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza d'uma mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lagrimas de sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, ha meia hora, na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para me insultar as lagrimas de que me arrependo agora, porque não merece! Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!
--Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!
--De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco benevolamente?
--Que tivesse menos hypocrisia e mais consciencia.
--O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! Consciencia!
--Consciencia, sim, minha senhora. E fallo-lhe d'este modo, porque tenho aqui as provas! Veja-as, analyse-as, reveja-se V. Ex.a n'ellas. Ahi lhe ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!
E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ella havia escripto a Americo, e a fita, que dos cabellos, elle lhe levára, n'aquella noite fatal da entrevista junto ao lago.
Magdalena, vendo sahir Luiz, cahiu n'uma cadeira, apertando o seio convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando, debulhada em pranto:
--Ah! é assim que se paga um amor como este!...
E soluçava nervosamente, vertia lagrimas copiosas!
Pobre creança!
Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As auroras esplendidas dos primeiros dias d'amor sumiam-se mal despontavam, e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.
E como ella não soffria agora!
Luiz fôra cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia fugir a uma explosão d'aquellas. Depois da tempestade viria a bonança, depois das arguições o arrependimento.
Em theoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica, nenhum d'aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de fazer o que elle fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a respiração.
Deixar d'amal-a, não deixava elle, e este incidente, que dera causa a lagrimas, d'um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais as labaredas que lhe queimavam o seio.
Todo o amor tem a sua cruz e o seu martyrio, como tem a sua redempção e as suas alegrias.
Magdalena estava soffrendo os martyrios e o peso da cruz do seu amor. A redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar, sobretudo a quem era tão digna d'ellas.
No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso amor, havia feito desencadear.
N'isto entrou o cabinda; vinha trazer á sua filha um ramo de flores do jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando esperava achal-a contentissima.
O negro correu para ella, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu com ellas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés, exclamando:
--Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?
--Sou muito desgraçada, cabinda!
--O branco...
--Maltratou-me... sahiu... já me não ama!...
O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe d'ellas o ramo de flores, quando elle exclamou:
--Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda cá está, e a minha filha hade ser muito feliz!
XVI
Eram quatro horas da tarde, approximadamente, quando Jorge regressou á chacara, depois de ter deixado o armazem.
Magdalena chorava sósinha no seu quarto.
Sympathicas lagrimas aquellas!
Eram as lagrimas verdadeiras, das dôres d'um amor casto, puro e ardente, deslisando silenciosas, como perolas finissimas, pelas faces assetinadas do rosto d'um anjo, cahindo e sumindo-se no seio, de dentro do qual ellas brotavam!
Eram as flores pallidas, destoando muito das rosas frescas, das candidas açucenas, dos lyrios perfumados, d'um vasto jardim de crenças!
Eram as nuvens crepusculares, velando um pouco o sol d'aurora deslumbrante d'um olhar limpido e formoso, em que se reflectia o céo, com toda a magia dos seus infinitos esplendores!
Eu não sei, mas creio que nada ha mais attrahente do que as lagrimas d'uma mulher, moral e physicamente bella, quando, em cada uma, ha os aromas embriagadores d'um grande sentimento; quando, cada uma traduz, na sua mysteriosa, mas eloquente linguagem, uma estrophe melodiosa d'uma paixão ardente, mas pura, casta e honesta.
Parece-me que não.
As lagrimas teem então a fascinação irresistivel da sympathia, teem o condão poderoso do magnetismo, que attrahe, e enleva, e encanta.
Eram assim as lagrimas da Magdalena.
No entanto, o momento d'exaltação havia passado; haviam cessado os pequenos assomos de cólera, que lhe despertaram as asperezas, com que fôra tratada por Luiz.
Após o seu desabafar, por meio d'uma explosão, em que a vimos, reagindo contra as palavras do sympathico moço, que a estavam ainda ferindo tão injustamente, veio a reflexão e com ella a desculpa, com a qual Magdalena ia já cobrindo Luiz.
Um amor verdadeiro perdoa sempre, porque não deixa de ser amor. Exalta-se facilmente, até com as coisas mais pequeninas, que não lhe escapam, que elle descobre sempre, mas não resiste nunca a proclamar a sua absolvição.
Se é amor verdadeiro!...
Luiz apezar d'aquella scena violenta, d'aquellas arguições irreflectidas, d'aquellas arrogancias geradas pelo seu sentimento ferido e julgado em desprezo, era ainda o eleito de Magdalena, era ainda o homem por quem palpitava o seu coração, por quem floriam as rosas brancas da sua alma candida e perfumada.
Atravez do tenue véo do resentimento em que ella estava, e que mais ou menos a dominava, jazia ainda, illuminada pelos raios deslumbrantes do sol do amor, a imagem de Luiz, a imagem do primeiro homem que a impressionára, e que ella não podia deixar de contemplar com olhos affectuosos, de acariciar com a ideia, de ameigar com o sentimento.
Pobre creança, que o amor começava por beijar tão phreneticamente!
Pobre avesinha, a quem tentavam impedir os primeiros vôos!
Jorge chegou, pois, do armazem, e estranhou que Magdalena o não estivesse esperando, como era de costume. Fizeram-lhe falta os doces beijos, as suaves caricias, as meiguices consoladoras, com que a filha adorada o acolhia sempre no topo da escadaria.
Entrou e perguntou por ella. Tivera um presentimento o seu coração de pae affectuosissimo. Responderam-lhe que estava no quarto. Dirigiu-se immediatamente para lá, pensando, fóra de qualquer duvida, que Magdalena, a não estar encommodada, não faltaria a esperal-o, com os seus affagos de filha estremosa.
A porta estava fechada por o lado interior, e esta circumstancia mais sobresaltou ainda Jorge.
--Magdalena! chamou elle, batendo mansamente. Ouviu dentro um leve ruido, mas ninguem lhe respondeu. Era Magdalena que tentava limpar as lagrimas e dar ao rosto e aos olhos uma expressão que não a trahisse.
--Magdalena! minha filha! volveu Jorge, batendo segunda vez, e já um pouco opprimido.
--La vou papae!
Jorge serenou-se, ouvindo-a. Magdalena abriu effectivamente a porta, e, diga-se a verdade, mais para occultar que havia chorado, do que por extremos d'affeição filial, lançou-se-lhe ao pescoço, tentando assim encobrir o rosto.
--Papae! disse ella com voz meiga.
--Estou muito zangado comtigo! disse elle, beijando-lhe os negros e formosos cabellos.
--Comigo? continuou ella cada vez mais acariciadora e mais impressionada. Porque?
Jorge desprendeu a filha de si, tomou-lhe delicadamente a cabeça nas mãos, e imprimiu-lhe um novo beijo na fronte, ébrio d'affeição paternal.
--Porque! Ainda m'o perguntas!... Mas, que tiveste, ajuntou elle, mudando subitamente d'expressão, que ainda tens nos olhos os vestigios das lagrimas?
--Eu? respondeu Magdalena, tentando illudil-o.
--Tu, sim, minha filha; então não estou eu vendo que choraste.
--Não, papae, engana-se.
--Diz a verdade, Magdalena.
Magdalena, debaixo da impressão que a dominava fôra, pouco e pouco, sentindo subir de novo do coração aos olhos as lagrimas, que tentava sopear. Era um vulcão latente, prestes a romper n'uma erupção medonha. Quando, porém, Jorge instava ardentemente para que ella lhe revelasse a verdade, a afflicta menina não poude conter-se por mais tempo, não poude, nem por mais um momento, domar as ondas que lhe referviam no seio, e lançou-lhe novamente os braços ao pescoço, occultando o rosto, e exclamando soluçante:
--Sou muito desgraçada, papae!
E as lagrimas represadas romperam o dique que as detinha, cahindo copiosas dos olhos negros e formosos de Magdalena.
Jorge sentiu uma dôr aguda, profunda e intensa, dentro do seu coração de pae, de pae que via a unica filha, a sua maior affeição no mundo, a chorar, chamando-se desgraçada!
Elle que daria tudo, a vida até, para que Magdalena não soffresse uma dôr, uma unica, pequenina que fosse, sentiu-se quasi desfallecido, com a dolorosa scena porque estava passado. Longe, bem longe, de vir encontrar a filha estremecida n'aquelle estado lacrymoso, antes pensava vir achal-a contente, alegre e ditosa, que n'isso ia um dos seus maiores cuidados, que para isso trabalhava elle constantemente.
Todos os paes são extremosos e dedicados, e não ha desgosto, por maior, que possa fazer estancar a fonte limpida das affeições paternas. Jorge de Macedo, era porém, duplamente affeiçoado a sua filha, porque era ao mesmo tempo, pae e mãe. Beatriz, sua esposa adorada, partindo d'este exilio, chamado mundo, para a vida d'alem-tumulo, legou-lhe, não só o thesouro d'uma filha para consolo das suas dolorosas saudades, senão tambem as joias do subido affecto com que amava o fructo formoso do seu verdadeiro e acrisolado amor.
Foi por isso que elle, ao ver Magdalena n'aquella explosão de pranto, sentiu cravar-se-lhe no seio um como punhal d'aguçadissima ponta.
--Desgraçada, minha filha?! exclamou elle pallido e convulso. Por piedade, diz-me o que tens!
--Oh! soffro muito... muito!... balbuciou ella, soluçando ainda.
--Filha! minha filha, não me mates! Diz-me o que tens, conta-me o que te aconteceu!
E Jorge beijava-a phreneticamente, bebia-lhe as lagrimas que cahiam crystallinas, quatro a quatro, e affagava-lhe os cabellos fartos, que se haviam desatado pendendo em duas grossas e luzidias tranças.
Magdalena não podia fallar suffocada pelo pranto. Jorge, porém, cada vez mais afflicto, continuava n'uma dolorosa anciedade:
--Falla, filha. Tens aqui o coração d'um pae, doido d'amor por ti, para acolher as tuas mágoas, como tem acolhido sempre os teus sorrisos. Magdalena... Magdalena...
--Deixe-me descançar, papae... deixe-me serenar, e não se afflija....não?
--Então para que choras d'esse modo?
--Oh! exclamou ella, porque sou uma creança, papae!...
E sentou-se, como para descançar d'uma grande fadiga. O seio arfava-lhe com violencia. Tinha no rosto a pallidez sympathica, que tantas vezes inspira os poetas, e as mãos delicadas entrelaçadas uma na outra. Jorge, ao vêl-a sentada, ia ajoelhar-se junto d'ella, para mais uma vez, e carinhosamente, a interrogar, mas ella obstou a isso, accudindo de subito:
--Não, papae, sente-se aqui, ao meu lado...
--Mas conta-me o que tens, minha filha, disse elle, sentando-se. Bem sabes como devo estar soffrendo!
Magdalena, que conhecia bem a grandissima affeição, que seu pae lhe votava, e por consequencia, que bem avaliava as dores que o estavam alanceando, encheu-se de coragem, e disse-lhe, tomando-lhe as mãos:
--E não se zanga comigo?
--Não, minha filha.
---Então ouça-me.
E Magdalena relatou a Jorge tudo quanto se passára, desde o jantar dos seus annos até á scena violenta, que dera logar áquellas afflições e áquellas lagrimas. Mencionou tudo, não esquecendo a minima das circumstancias. Jorge estava ouvindo-a mais que admirado, n'um silencio profundo, religioso até. Sentia-se chocado, grandemente chocado, e, para isso bastava apenas a surpresa que ia recebendo, porque bem longe andava elle de suppôr siquer o que se havia passado.
Alma sensivel, porém, Jorge ia ouvindo a filha adorada, e não a condemnava, não. Elle tambem tivera sonhos na sua mocidade, e a narração de Magdalena fez-lhe passar, deante dos olhos do espirito, os primeiros dias floridos do seu amor e do amor da sua querida Beatriz. No entanto, ao saber das tentativas arrojadas de Americo, na noite da entrevista, junto ao lago da chacara, Jorge não poude occultar a sua exaltação e levantou-se exclamando:
--Infame! Era assim que me queria pagar o quinhão da minha fortuna, que ha dias lhe dei!...
E Magdalena proseguiu na exposição dos acontecimentos. Nada escondeu, nada furtou, nada occultou, de quanto se havia passado, e só a verdade presidiu a narração de cada facto. E tambem, para que havia de obrar de outro modo? Não era Jorge seu pae? e uma pae tão benevolo? tão meigo? tão bondoso?
Elle, quando Magdalena acabou, para mais a tranquilisar, affagou-a, dizendo-lhe:
--Não te afflijas, minha filha. O que preciso é que me digas se gostas muito do senhor Luiz, mas que me digas a verdade.
--Oh! muito, meu papae!
--E não te enganarás?
--Não, eu bem o sinto.
--Então ainda hasde ser muito feliz.
Momentos depois, partia o cabinda do Botafogo para o Rio, no vapor da carreira, com a seguinte carta de Jorge para Luiz.
Meu socio e amigo.
«Para negocios de gravidade preciso, ainda hoje mesmo, fallar-lhe e ao senhor Americo. Rogo-lhes pois o obsequio de chegarem aqui, onde os fica esperando o seu
Socio amigo, etc.
Jorge de Macedo.»
E em quanto o negro transpunha a distancia que vai do Botafogo á cidade, ficavam Jorge e Magdalena entregues á refeição do jantar, conversando já mui animadamente, muito contentes, entre os perfumes suavissimos das flores formosas do affecto que lhes enchia as almas.
XVII
Não ha nada mais caprichoso do que o coração humano, e, por consequencia, nada mais enigmatico, nada mais incomprehensivel. Prende-se muitas vezes com as cousas mais simples d'este mundo, e olha, outras tantas, com indifferença para sacrificios, que, d'um só jacto o deviam attrahir para sempre. Ora se exalta, ora se humilha pelos mesmos motivos, e nas mesmas circumstancias; ora se lamenta e ora sorri com a mesma causa, indo, muitas vezes, até ao ponto de juntamente chorar e rir, de implorar e impôr-se!
Eu não sei, mas creio que de todas as sciencias, a sciencia do coração é a mais difficil, a mais transcendente, a mais impyrica.
O coração offende-se com cousas pequenissimas, que muitas vezes não perdôa, e é capaz de não se offender com cousas de vulto, ou de facilmente as esquecer e perdoar!
Luiz ainda não tinha chegado ao Rio e já ia arrependido das asperezas que dirigira a Magdalena! Já a julgava innocente, e incapaz da trahição, que lhe imputou durante os momentos de mágoa e de colera do seu amante coração.
Em verdade, passados os primeiros impetos, serenadas as primeiras impressões violentas, Luiz começou a recordar os protestos de innocencia de Magdalena, viu as lagrimas que ella derramou, atravez d'um prisma muito menos carregado, e convenceu-se de que só uma injustiça as fizera derramar, e censurou-se a si mesmo pela precipitação com que procedera!
Tivera tentações de retroceder para, tanto quanto podésse, desfazer o mal que originara, mas era impossivel pelo adiantado da hora.
As lagrimas da formosa menina estavam-lhe pesando na alma e no coração, d'um modo terrivel. Elle, depois de passada a grande exaltação que o dominára, não podia attribuir a Magdalena um crime tamanho. Era nova de mais para tanta maldade, muito innocente e ingenua para tanta hypocrisia, e assaz bondosa para tamanha crueldade.
Alli a grande infamia, o grande mal fôra necessariamente commettido pelo mulato, fôra fatalmente tramado por Americo.
Que mal havia feito Luiz a Magdalena para que ella se vingasse d'elle d'um modo tão barbaro e tão cruel?
Depois, a memoria de sua mãe tão solemnemente, invocada n'um protesto de fidelidade e de amor, seria uma cousa tão pequena, que se olvidasse, unicamente para satisfazer um capricho, para attrahir mais um galanteio?
Não era crivel.
Magdalena estava innocente, e com esta convicção entrava Luiz em casa, na rua dos Pescadores, apezar da scena violenta em que o vimos, apezar de toda a sua inexorabilidade, durante a meia hora em que se achou na presença d'ella.
No entanto, como havia agora de remediar o mal feito?
Uma confissão sincera d'um sincero arrependimento era a unica solução do problema.
Seria, porém, bem acceita? Ouvil-a-ia Magdalena? Quebraria ella o seu orgulho, altamente despertado e inflamado pelas injustiças que elle fez ao seu caracter, á sua lealdade e ao seu coração?
Isto lançava-lhe uma duvida no espirito, e esta duvida era um punhal aguçadissimo que o feria dolorosamente.
Entrou em casa preoccupado com tudo isto, nas alternativas do receio e da esperança d'uma absolvição e d'uma condemnação.
Americo sahiu-lhe quasi ao encontro, e apenas o viu fitou-o expressivamente, como tentando lêr-lhe no rosto quanto se lhe passava na alma.
Luiz nem sequer lhe deu as honras de o olhar. Seguiu para o escriptorio, na firme resolução de completamente desprezar o infame, decidido a castigar-lhe a menor insolencia.
O mulato, porém, não era homem que se contentasse em estudal-o silenciosamente; embebido na ideia de conseguir os seus fins, pouco lhe importavam os meios e até as consequencias.
Dirigiu-se tambem ao escriptorio.
Luiz estava sentado escrevendo uma carta. Americo olhou-o, viu a severidade do seu rosto, mas nem assim recuou.
--Então? perguntou elle.
Luiz sentiu como que subir-lhe o sangue á cabeça e turvar-se-lhe a vista, mas não respondeu. Chamava a prudencia em seu auxilio, porém o desafio d'Americo era forte de mais para que lhe podesse resistir.
--Então? interrogou novamente o mulato com ar de refinado cynismo.
Luiz guardou ainda silencio durante alguns segundos, mas occorreu-lhe a ideia de que o seu silencio poderia traduzir-se por cobardia ou humilhação e volveu-se então para o mulato, fitou-o corajosamente e perguntou tambem com voz firme:
--Então o que!
--Qual de nós vence? acudiu Americo sorrindo.
--Ainda o duvidas canalha! Pois não o duvides, infame. Ha-de vencer o justo, que sou eu, tão certo como seres castigado, que és o despresivel.
--N'esse caso provou-se a innocencia da menina?
--Provou-se que és um salteador infame e cobarde, da honra dos que te chamam amigos e te sentam á sua meza, que é o mesmo.
--Vê que me insultas! se não apresentas as provas!
--Quem desce a isso, biltre! Teme o castigo e não peças as provas!
--Ah! ah! ah! vens, de mais a mais um pouco tragico. O que faz o amor!
--Americo! bradou Luiz quasi de todo exaltado.
--Começam as ameaças?
--E não ha duvida em que comecem tambem as obras. Retira-te, que já te não vejo. Não me provoques, porque te desprezo, como reptil asqueroso! Sahe! Não me obrigues a sujar a mão na lama que tens na cara!
--Luiz! gritou Americo, agarrando em um tinteiro.
--Canalha! bradou Luiz, estendendo-lhe a mão na face bronzeada, com a força d'um desesperado.
Estava travada a lucta. O mulato tinha mais força physica, mas Luiz possuia mais força moral e era mais corajoso. Aquillo foi um vulcão que se accendeu subitamente. Um instante depois estavam enlaçados um no outro, n'uma lucta medonha, incrivel e desesperada. Sentiam apenas o ruido dos pés, movendo-se aos impulsos fortes de um e outro lado, e a respiração abafada de cada um dos contendores. Americo só tentava lançar Luiz a terra, este porém resistia valentemente. E n'um momento favoravel atirou um murro ao infame que lhe fez logo brotar o sangue do nariz. O mulato enfureceu-se pela dôr e pelo orgulho, exasperou-se damnadamente, e atirou as mãos ao pescoço de Luiz, n'uma expressão de raiva desmarcada, no intento mesmo de o estrangular.
E de certo o teria feito; sem duvida, seriam funestas as consequencias d'aquella contenda se não fosse a apparição, no momento fatal, de um homem, cujo olhar quasi paralysou completamente a acção do mulato.
Era o cabinda, era o velho, mas sympathico, o negro, mas dedicado, o escravo, mas d'alma grande.
O negro vinha encarregado d'entregar a Luiz a carta de Jorge de Macedo. Muito contente da sua missão, porque lhe dizia o coração que se andava tratando da ventura de sua filha, o negro transpoz apressadamente a distancia que vae do Botafogo ao Rio, á rua dos Pescadores.
Chegou, entrou, dirigiu-se á porta do escriptorio, tranquillo, socegado, contente, sem sequer se lembrar da scena que ia encontrar. Quando deu com os olhos nos dous, que ferozmente se debatiam, sentiu um como abalo electrico interior e não esperou por mais nada. Atirou-se em seguida ao mulato, que lançava as mãos ao pescoço de Luiz, agarrou-o pela gola do casaco, deu-lhe um fortissimo puxão e elle, largando Luiz, mais com receio do cabinda do que por vontade propria, foi cahir ao chão no meio do escriptorio.
--O negro cá está! bradou o cabinda.
--Não preciso de ti! acudiu Luiz.
--Só assim! murmurou Americo, espumante de raiva.
--Agora, meu branco, isto, que manda o senhor! disse o negro desprezando Americo, que tentava levantar-se, e entregando a Luiz a carta de Jorge.
--E a senhora moça? interrogou Luiz.
--Tem chorado muito; o branco não gosta d'ella, não!
--Vêl-o-has, cabinda!
E procedeu á leitura da carta de Jorge.
Ao terminar, tinha uma como nuvem diante dos olhos. Pareceu-lhe que uma grande tempestade se ia desencadear sobre a sua cabeça. E o que tinha fóra de toda a duvida é que era chegado o dia em que tinha de decidir-se a sua sorte. Mas se, por um lado, o apoquentavam os receios de não conseguir a suspirada felicidade, tinha, pelo outro, a consolação da tranquillidade da consciencia.
O mulato, entretanto, havia-se levantado, e dispoz-se a sahir, dizendo:
--Contra dous não posso, mas hei-de vingar-me!
--Nem contra um! a tua causa é a primeira a ser contra ti, canalha! bradou Luiz.
--O negro póde muito, o mulato bem o sabe.
--Deixemos agora as questões. O snr. Macedo convida-nos a irmos immediatamente ao Botafogo, para tratarmos negocios d'importancia. Quem sabe se será para nos julgar? Como nada receio, vou já. Convido-o; faço o meu dever, e nada mais.
--Ah! o branco é bom, ha-de ser feliz e a minha filha tambem. Depois que importa que o velho cabinda morra? morre contente, porque deixa contente a sua filha!
E o velho escravo seguiu Luiz, emquanto que Americo ficava limpando o sangue, que ainda, como signal da lucta em que se empenhára, lhe corria do nariz.
Aquelle convite de Jorge de Macedo fôra um incendio, que crestára todas as esperanças ao mulato. Para elle era inevitavel que não só não conseguia nada, senão tambem que estava perdido, porque Jorge havia de fazer justiça, castigando-o.
Pensou primeiro em fugir, mas depois achou que semelhante partido ainda mais o condemnaria, porque seria mais uma prova da sua culpabilidade, e dispoz-se a soffrer tudo.
Assim, emquanto que Luiz ia ganhando novas esperanças, emquanto atravez das nuvens que lhe toldavam o horisonte ia como que descortinando a luz brilhante, formosa e esplendida da felicidade que tanto sonhára, ia o mulato convencendo-se de que a Providencia vela sempre pelos bons e pelos justos, de que o mal tem sempre o seu castigo do mesmo modo que todo o bem é premiado.
Para um iam desabrochando, embora receiosas e timidas, as flores, cujos perfumes embriagam a vida.
Para outro, os espinhos que magoam, e ferem, e doem a todos os momentos.
E Magdalena, o nosso anjo, Magdalena, a formosa, esperava no entanto, cheia d'anciedade, pela chegada dos dous e pelo resultado d'aquella conferencia que ia ter logar agora.
O que lhe dizia o coração nos sobresaltos com que a agitavam?
O que lhe dizia a alma na esperança que a enflorava?
Tudo lhe dizia amor, ventura e ternuras!
Tudo lhe fallava de felicidades, porque era bondosa, meiga, innocente, candida, e sobretudo, porque era boa filha, porque nunca déra um desgosto áquelle que a mirava doudo d'amor!
XVIII
Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo d'uma duvida!
A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado enlevo, do receio, que fere com os espinhos d'uma perspectiva má e triste.
Esperar, d'este modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no espirito, embora oppostamente.
O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma realidade a aspiração que lá se gerou e n'elle vive, como pomba dentro do seu ninho.
Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que seu pae mandára chamar, depois d'aquella scena de lagrimas em que a vimos.
Tinha d'um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que ella amava ainda muito, apezar de tudo, e com elle a ventura, o affecto, os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, por que tanto almejava o seu coração, tão viçoso e tão sedento!
Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do sul!
No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, d'Americo e de Luiz, aquelle que fosse criminoso perante o tribunal e o juizo recto da sua impolluta consciencia.
Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, separados, a caminho do Botafogo, phantasiando o que iria passar-se, embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação á formosa Magdalena.
Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada senhora moça, que era n'este mundo a ideia que mais o prendia, enlevava e dominava!
O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só porque, por uma d'estas immensas sympathias, que se não podem explicar, era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como elle dizia, senão tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de antipathia e de raças.
Os tres, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, mas o mulato não se fez esperar.
O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na varanda Magdalena, que o esperava n'uma indescriptivel anciedade.
Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lagrimas recentes, no rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado d'excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento das ondas interiores.
No entanto, bella sempre, sempre formosa, sympathica, attrahente!
Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da escadaria.
Elle sorriu-lhe n'uma expressão de dedicação.
--Então, cabinda? interrogou ella subitamente.
--O branco veio, senhora moça,
--E aonde está?
--Na sala grande que deita para o jardim.
--E vem contente?
--Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.
--Vieste com elle?
--Vim, minha filha.
--E Americo?
--Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escriptorio, quando o negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.
--Ao mulato? perguntou assustada.
--Sim.
--Mataste-o?
--Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua!...
--Eu quero-te prudente, cabinda!
--E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!
--E elle? interrogou Magdalena com anciedade.
--O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho da jurity ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe. A minha filha comprehende?
--Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.
--Oh! exclamou o negro, ébrio d'alegria; oh! e como o negro ha-de rir de contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até ha-de dançar o batuque!
--Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com o jubilo do bom escravo.
Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz permanecia só, esperando pelo capitalista.
Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli, olharam um para o outro, ambos n'uma expressão de duvida, mas sem trocarem uma unica phrase, uma unica palavra.
O receio, pelo qual, cada um d'elles, era dominado, tinha origens diversas e faceis de explicação.
Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe fallava a sua consciencia; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor occasião, qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da felicidade por que suspirava com tanta loucura.
Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel, indigno e injustificavel.
Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo menos indispor de todo Luiz e Magdalena.
Estava uma tarde explendida.
Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu occaso, projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos jasmins perfumados uns reflexos da sua côr avermelhada e tropical.
Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de tamanhos variados e côres vivas e formosas.
Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores as juritys mimosas.
Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores. Longe, porém, e muito longe, estavam elles, dos encantos que alli se desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e contemplativa d'algum poeta ou d'algum artista.
Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior da casa.
Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao personagem que entrava.
Era Jorge de Macedo.
Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada com as linhas sombrias d'uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se cravaram nos d'elle, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz e d'Americo.
Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa cortezia.
Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga melancolia, para o que quer que é d'um desgosto, embora pequeno ou mal traduzido, do que para a indicação d'uma irritação, d'uma exaltação, que rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.
Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fôra a lembrança de que commetteria um acto d'inqualificavel cobardia, que mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido, para nunca mais apparecer.
Teve tentações de fazel-o.
Era a propria consciencia que o estava accusando d'aquelle modo! Bastava a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!
Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que elle adorava muitissimo.
E na sua consciencia só tinha o espinho d'um remorso a magoal-o! Era o de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para os arrebatamentos que lhe fizeram, a ella, derramar tão amargas e sentidas lagrimas.
E Magdalena?
E o cabinda?
O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir da ventura d'aquella e d'alegria intima dos ultimos dias da velhice d'este?
Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente collocar-se atraz d'uma porta fechada, que communicava com a sala grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era possivel escutarem o que se passava.
Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do capitalista, e quando este delicadamente lhes offerecia duas cadeiras, collocadas ao lado do sophá, onde tomou assento tambem.
Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz á direita e Americo na esquerda.
Houve um momento de silencio.
Os dous esperavam d'olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.
Que contrastes no intimo de cada um d'aquelles individuos! Que mares, tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um d'aquelles personagens!
XIX
Sentaram-se os tres, e houve, como já dissemos, um momento de silencio completo, em que até pareciam sustidas as respirações.
Depois, Jorge esfregou vagarosamente as mãos nos joelhos, gesto este, que póde talvez traduzir-se por uma certa repugnancia, ou por uma certa difficuldade em abrir a conferencia, para a qual havia chamado os seus recentes socios, e em seguida começou assim, com ar de gravidade:
--Devo principiar por pedir-lhes desculpa de os haver incommodado, mas tenho para mim, em tanta conta, em tanta gravidade, em tanta ponderação, o negocio que me obrigou a chamal-os agora aqui, que o não fazel-o poderia talvez importar-me um desgosto, que d'este modo me pouparei, creio-o. Resumirei em poucas palavras o que tenho a dizer, porque quero limitar-me, apenas, a descobrir a verdade. Sou infelizmente viuvo, mas sou pae. Choro, por um lado, as lagrimas da saudade, mas tenho, graças ao céo, por outro, um anjo que m'as dulcifica. Fui rapaz, tive a minha mocidade, com todos os sonhos, com todos os arrebatamentos, com todas as illusões, com todos os euthusiasmos que lhe são proprios, e nos quaes se desata a effervescencia do sangue dos vinte annos. O livro da minha vida d'então, escripto, capitulo a capitulo, não tinha, nunca teve, uma unica pagina maculada por uma nodoa, leve e pequenina que fosse. Mesmo nos delirios da minha juventude timbrei sempre em conservar intacta a pureza do meu nome, e jámais tentei realisar uma aspiração grande ou pequena, boa ou má, por meios que me fizessem soffrer a dignidade, ou ferissem a minha honra. Trabalhei para chegar ao que sou, e o bom nome que creio gosar, agora, não é mais que o nome grangeado então. N'esse tempo a ambição era egual á lealdade, se é que a ambição já existia n'um grau tão elevado como actualmente, mas ainda assim, nunca tão corrompedora, como na época que vamos atravessando. Agora mudaram as cousas, e é d'isso que me queixo. Visa-se ao alvo e ha-de chegar-se lá, custe o que custar, pouco importam os meios.
E Jorge fez uma pequena pausa, como que para descançar. Via-se que estava sensibilisado, commovido ou nervoso.
Os dous conservavam-se impassiveis, attentos, de fronte humildemente abatida. Agora já não tinham que duvidar; era a elles que se dirigia todo o discurso de Jorge de Macedo, que proseguiu momentos depois:
--Tratei-os sempre bem, sempre, mais como amigos, como parentes, como affeiçoados meus, do que como subordinados ao meu serviço. Para prova do muito que julgava merecerem-me, sentei-os ha dias á minha meza, n'uma festa intima, puramente familiar, no intuito, que realisei, de os fazer partilhar da minha sorte, fazendo-os socios meus.
--Eu, pela minha parte, senhor, serei eternamente agradecido ao muitissimo que devo a V.a Ex.a, acudiu Luiz.
--E eu... ia Americo a ajuntar tambem, quando Jorge o interrompeu continuando:
--Perdão! Será talvez assim, mas n'esse caso estou então illudido, porque para mim, um dos senhores, pelo seu comportamento, desdiz completamente do conceito que me... devia.
--V.a Ex.a deve, sem duvida, ter muitissima razão para fallar d'esse modo, e bom será que nos julgue, para que só o culpado soffra o castigo, atalhou Luiz.
--As justificações depois. Ouçam-me por emquanto e depois terão a palavra. Cheguei hoje do Rio, contente e feliz, esperando, pelo costume, vir encontrar, do mesmo modo, minha filha, que adoro com a loucura de pae que não tem outra, que não tem mais familia. Eu, que já me vejo mais perto do tumulo do que do berço, viuvo, e por consequencia, sem os consolos, sem as delicias com que sempre nos embriagam os corações d'aquellas que se unem a nós, partilhando da nossa vida, affiz-me aos carinhos e aos consolos da filha unica, que n'este ponto valia bem a chorada mãe, e costumei-me a pagar-lh'os sempre, trabalhando constantemente por em todos os sentidos lhe abrir caminhos, onde só desabrochassem flores e onde nunca viçasse um espinho. Consegui-o durante muitos annos, em que nunca uma nuvem, a não ser a da saudade que ambos cultivavamos pela rosa que Deus chamára a si, obscureceu levemente o céo da nossa vida. Prometti, no leito de morte da minha adorada Beatriz, que faria tudo para que Magdalena fosse ditosa. O céo tem-se empenhado em auxiliar-me no cumprimento da minha promessa, porque até hoje ainda Magdalena não derramou uma unica lagrima, ainda não teve um queixume para me lançar no coração. Sorria-me esta ideia da felicidade de minha filha, que era a da minha felicidade tambem, e era por isso que ao entrar e ao sahir de casa, em cada dia, eu o fazia contente, ébrio mesmo d'uma alegria que não me passou nunca pela mente, que podésse toldar-se ou ennublar-se. Não succedeu, porém, assim; e hoje, quando regressava, ancioso por lhe pagar em beijos os beijos e os affagos com que era costume esperar-me ella, venho encontral-a chorando triste e dolorosamente, proclamando-se desgraçada, a filha querida do meu coração. As suas lagrimas quasi que me fizeram succumbir. Não as esperava, não desejára esperal-as. Era, havia muitos annos, o primeiro momento de turtura que eu soffria...
E Jorge tinha as lagrimas nos olhos. Fez uma pequena pausa para desatar a voz que se lhe ia prendendo na garganta, e proseguiu:
--Interroguei-a com a brandura de quem é prudente, com a dôr de quem como eu a idolatrava tanto e com a curiosidade de quem tudo desejava saber, para tudo remediar se fosse possivel. Oh! o que eu soffria então! Porque angustias não passei durante os curtos momentos, que me valeram muitos seculos, antes de me revelar a verdade!
--E descobriu-a, não? interrogou Luiz subitamente.
--Não sei. Contou-me Magdalena uma historia, em que figuram, como principaes personagens, os dous homens que ha poucos dias sentei á minha meza para os associar, no negocio, ao meu nome. Soffri ainda mais!
--E... ia Luiz a interromper, quando Jorge continuou:
--Conclui que ambos a pretendiam, mas que nem ambos empregavam, para isso, meios muito honrosos.
O mulato estava tremendo de receio. Luiz sentia-se cada vez maior senhor de si.
--Perdão, senhor, da minha parte todos o eram. E se algum de nós procedia menos dignamente não era de certo eu, juro-o, disse Luiz com convicção.
--Eu tambem... acudiu Americo sem poder concluir.
--Qual dos dous convidou minha filha a uma entrevista junto ao lago a horas adiantadas da noute?
--Eu não, senhor, afirmou Luiz.
--Fui eu... disse o mulato a custo.
--E com que fim?
--Fallar-lhe... apenas, respondeu o mulato.
--Então não foi para lhe entregar uma carta do senhor Luiz?
--Minha? Não podia ser, disse este, levantando-se. Saiba V. Ex.a que este senhor mentiu ou abusou, se disse ou pretextou semelhante cousa. E peço licença para dizer duas palavras. Vivo ha perto de doze annos com V. Ex.a e nunca, creio eu, lhe dei motivos para uma censura, para uma queixa, para uma reprehensão. A minha vida modelou-se, no tocante a honra, a dignidade, a caracter, a tudo, emfim, pela de V. Ex.a que bem digna foi sempre, e é, de ser imitada. Fui sempre respeitoso e submisso, sempre, e não seria no momento em que V. Ex.a me deu uma grandissima prova da sua estima, que eu por um acto menos digno lançaria em terra, desfeito, desmoronado, um edificio que tanto tempo levou a construir. Com relação á filha de V. Ex.a o meu procedimento não me será lisongeiro talvez, mas tambem não é infame. Na tarde do dia em que tive a honra de sentar-me á sua meza, passeiava ao lado da bondosa filha de V. Ex.a pelas alamêdas do jardim, emquanto V. Ex.a e este senhor conversavam tomando café. A nossa conversação tomou o caminho que sempre segue entre pessoas de vinte annos. Achei-a então formosa de corpo e formosissima d'alma. Não resisti aos impulsos do coração que se abria com as suas palavras, que desabrochava subitamente com o sol dos seus olhares, e disse-lhe que a amava. Confessou-me tambem que nunca um homem a impressionára e que... tambem se inclinavam para mim as flores do seu affecto. Eu fallei então tão verdadeiramente, como o estou fazendo agora a V. Ex.a Parti. No dia seguinte, creio eu, recebi um bilhete de D. Magdalena, com duas phrases, filhas do seu sentimento, a que respondi com dignidade e affecto tambem. Impellia-me o coração e era valente de mais para que eu lhe resistisse. Quando V. Ex.a me encarregou de ir a Macahé tornei a escrever-lhe e dei a carta a um dos negros do armazem. Não sei se D. Magdalena a recebeu. O que sei é que este homem, com o qual nunca mais poderei viver, desde o momento em que conheceu que a filha de V. Ex.a me levantava até ella com o seu amor, começou a fazer-me uma guerra de morte, uma guerra declarada, protestando que a filha de V. Ex.a seria para elle e nunca para mim. Tivemos algumas altercações violentas. Quando regressei de Macahé, ancioso de vêr D. Magdalena, e contentissimo de bem ter desempenhado a minha missão, surge-me este senhor, apresenta-me um bilhete d'ella, em que lhe concede uma entrevista para horas adiantadas da noute, e uma fita dos cabellos d'ella que realmente reconheci. Não sei mais nada. Julguei a filha de V. Ex.a uma creança caprichosa, e hoje, talvez excessivamente desesperado, porque devéras me doía o coração, vim a esta casa e... disse á filha de V. Ex.a que estimava que fosse feliz, mas que me esquecesse. Ainda assim Deus sabe o sacrificio que fiz n'este ultimo acto. O meu resentimento era, porém, tão grande, que não pude ser-lhe superior. E para tudo dizer a V. Ex.a confesso que me arrependi logo, porque creio agora que a filha de V. Ex.a é uma bondosa e sincera menina e que aqui, em tudo isto, só andou uma infamia, uma indignidade da parte d'este homem, com que já hoje tive uma séria altercação. Amo ainda, e muito, a filha de V. Ex.a É destino meu e não posso fugir-lhe. Agora veja V. Ex.a o que ha de censuravel e indigno em tudo isto e condemne-me se o julgar conveniente. Esta é a verdade e não fujo a confessal-a, por todos os motivos, mas sobretudo, sendo V. Ex.a a pessoa a quem devo tanto e tanto.
--Eu sei tudo. É um cavalheiro o senhor Luiz. Dê-me a sua mão, quero apertal-a como a de um grande amigo.
Jorge e Luiz estavam commovidos. O mulato olhava atterrado para a porta, com horriveis tentações de fugir. O seu castigo começava alli.
--Eu sei tudo, continuou Jorge, porque nada me occultou Magdalena. E como a felicidade de minha filha é tambem a minha, ella é que hade vir terminar esta nossa conferencia.
Magdalena, que tudo ouvira, occulta atraz da porta aonde a deixamos, não se fez chamar; correu logo, ébria de alegria, e lançou-se nos braços de Jorge, gritando:
--Obrigada, papae! Obrigada, papae!
--Diz-me, interrogou-a elle, gostas muito do senhor Luiz, não é assim?
--Muito!... murmurou, ruborisada de pejo.
--Crês que has-de ser, com elle, tão feliz como desejo que tu o sejas, não?
--Muito, e só com elle.
--Bem. O senhor Americo, como recompensa do seu procedimento pouco digno, queira retirar-se e esperar ámanhã as minhas ordens no armazem. Limito-me a isto, porque não quero fazer mais no dia em que o céo me abre na terra a felicidade de minha filha.
O mulato tinha os olhos cravados no chão. Tomou o chapéu, volveu-se e sahiu vagarosamente, como que arrastado por uma força que tentasse tiral-o do logar onde o chumbava não sei que sentimento.
Quando transpôz a porta, pendiam-lhe dos olhos duas grossas lagrimas.
Seriam de vergonha?
Seriam de remorsos?
Seriam de odio?
Não sei.
Talvez de tudo isto juntamente, quem sabe?
Instantes depois, entrava o cabinda como doudo na sala e ia ajoelhar-se aos pés de Jorge, beijando-lhe phreneticamente as mãos e exclamando em extrema commoção:
--Bem haja, meu senhor, bem haja, que fez feliz o branco e a filha do cabinda!
Quando as primeiras sombras da noute desciam suavemente sobre a terra, andavam Luiz e Magdalena passeiando no jardim entre as flores, irmãs d'ella, entre os perfumes suaves, como os que então se evaporavam das rosas brancas de suas almas enamoradas.
Fez-se alli o primeiro idyllio do seu noivado.
Já dormiam as juritys nos ninhos avelludados, e os beija-flores, cançados de oscularem as rosas, mas substituiam-os, alli, duas almas prezas nos laços dulcissimos d'uma embriagadora felicidade.
XX CONCLUSÃO
Tres mezes depois o altar havia santificado o mutuo amor de Luiz e Magdalena.
O ninho de Jorge de Macedo abrigava mais uma ave; o bondoso capitalista, tinha, agora, em vez d'uma filha, dous filhos queridos.
Era duplamente feliz.
Luiz tomára sobre si todo o pezo e toda a responsabilidade dos negocios do honrado negociante, para que este descançasse, e desempenhava-se de tal modo de seus encargos, que nada havia por que merecesse uma censura.
Magdalena era feliz e muito feliz.
Ainda hoje, os dous esposos, se reunem em cada tarde no caramanchão de maracujás do lago da chácara, no Botafogo, e ahi passam horas e horas, enlevados nas dulcissimas venturas da sua vida, que tem mais do céo do que da terra.
Ha alli um novo Eden.
Americo sahiu do Rio de Janeiro no dia immediato áquelle em que foi forçado a desafivelar a mascara com que pretendia encobrir a sua ambição; n'aquelle em que foi expulso da casa do homem a quem devia muito, e ninguem mais o viu ou deu noticias d'elle.
Corria muito vagamente que andava desgraçadissimo na America do Norte, dizendo-se que fugira para lá.
Não sei. Talvez.
O cabinda, coitado, morreu de velhice, exalando o ultimo alento nos braços de Jorge, de Luiz e de Magdalena, que lhe cercavam o leito e o não desampararam nos dias de enfermidade.
Lembrou-se, no momento extremo, da sua parceira e dos filhos queridos, a quem, dizia, se ia juntar, mas desprendeu a alma do involucro terrestre, beijando risonho, como o justo que antevê o céo, as mãos dos seus tres amigos, e dizendo como que em signal de agradecimento, pelo modo distincto e humanitario com que sempre foi tratado:
--Bem haja, meu senhor! O negro lá ha-de dizer á sua senhora que o branco fez o que prometteu. Tratou bem o negro e fez feliz a Filha do Cabinda.
FIM
Porto--Imprensa Portugueza, Bomjardim, 181.
N. B. A propriedade d'este romance no Brazil, pertence a Antonio Teixeira Carneiro de Campos, do Rio de Janeiro.