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A confissão de Lucio

A Confissão de Lucio (continued 2)

Reading edition

Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, ás vezes, querendo-as recordar por força, as unicas que conseguia suscitar em imagem, eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.

Ah! bem forte, sem duvida, o meu espirito, para resistir ao turbilhão que o silvava...

(Entre parenteses observe-se, porêm, que estas obsessões reais que descrevo nunca foram continuas no meu espirito. Durante semanas desapareciam por completo e, mesmo nos periodos em que me varavam, tinham fluxos e refluxos).

Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham fustigar. Coloca-se até aqui um episodio curioso que, embora sem grande importancia, é conveniente referir:

Apesar de grandes amigos e de intimos amigos, eu e Ricardo não nos tratavamos por tu, devido com certeza á nossa intimidade ter principiado relativamente tarde—não sermos companheiros de infancia. De resto, nunca sequer atentaramos no facto.

Ora, por esta epoca, eu encontrei-me por vezes de subito a tratar o meu amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, corando como se viesse de praticar uma imprudencia. E isto repetia-se tão amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior naturalidade:

—Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubiante, vermelho como uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridiculo entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o «você». Viva o «tu»! É muito mais natural...

E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um certo embaraço ao empregar o novo tratamento—tratamento que me fôra permitido.

Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:

—Este Lucio sempre tem cada exquisitice... Não vês? Parece uma noiva liria!... uma pombinha sem fél... Que marócas!...

Entretanto este meu embaraço tinha um motivo—complicado motivo esse, por sinal:

Nas nossas entrevistas intimas, nos nossos amplexos, eu e Marta tratavamo-nos por tu.

Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.

Este receio converteu-se por ultimo numa ideia fixa, e por isso mesmo, por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter subitos descuidos. Porêm, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não Marta, Ricardo.

E embora depois tivessemos assentado usar esse tratamento, o meu embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente, confiadamente, Ricardo houvesse exigido que eu e a sua companheira nos tratassemos por tu.

As minhas entrevistas amorosas com Marta, realisavam-se sempre em minha casa, á tarde.

Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os labios a morder e consentia vicios prateados.

Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se encontrar comigo todas as tardes á mesma hora, em se demorar largo tempo.

Uma vez recomendei-lhe prudencia. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como não eram estranhadas as suas longas ausencias, como me chegava sempre tranquila, caminhando pelas ruas desensombradamente, nunca se preocupando com as horas... E ela então soltou uma gargalhada, mordeu-me a bôca ... fugiu...

Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.

Entretanto fôra mais um segredo que se viera juntar á minha obsessão, a excitá-la...

De resto, as imprudencias de Marta não conheciam limites.

Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir—ou mesmo o proprio Ricardo, que muitas vezes, de subito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não podesse acontecer—tal como se nós nos não beijássemos...

Aliás, se havia alguem bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem disposto.

Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo—como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.

As suas antigas complicações d'alma, essas, mal eu chegara a Lisboa logo ele me dissera que já não o desolavam—pois que, nesse sentido, a sua vida se limpara.

E—facto curioso—justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição—o seu orgulho, o seu jubilo, o seu triunfo...

As imprudencias de Marta aumentavam agora dia a dia.

Numa audacia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim dirigidos, na presença do proprio Ricardo!

Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava—nunca os via; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.

Assim, uma tarde de verão, lanchavamos no terraço, quando Marta de subito—num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada—me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.

Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os labios mal os pousando na péle...

E Marta:

—Que beijo tão desengraçado! Parece impossivel que ainda não saiba dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...

Rindo, o meu amigo ergueu se, avançou para mim ... tomou-me o rosto ... beijou-me...

* * * * * * * *

O beijo de Ricardo fôra igual, exactamente igual, tivera a mesma côr, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.

VI

Mais e mais a minha tortura se exacerbava cada noite. E embora visse claramente que todo o meu sofrimento, todos os meus receios, provinham só de obsessões destrambelhadas e que, portanto, motivo algum havia para eu os ter—o certo é que, pelo menos, uma certeza lucida me restava pressentida: fosse como fosse, havia em todo o caso um motivo real no arrepio de medo que me varava a todo o instante. Seriam destrambelhadas as minhas obsessões—ah! mas eram justos, bem justos no fundo, os meus receios.

Os nossos encontros prosseguiam sempre todas as tardes em minha casa, e eu hoje esperava, tremendo, a hora dos nossos amplexos. Tremendo e, ao mesmo tempo, a ansear numa agonia aquilo que me fazia tremer.

Esquecera as minhas repugnancias; o que me oscilava agora era outra duvida: apesar de os nossos corpos se emmaranharem, se incrustarem, de ela ter sido minha, toda minha—começou a parecer-me, não sei porquê, que nunca a possuira inteiramente; mesmo que não era possivel possuir aquele corpo inteiramente por uma impossibilidade fisica qualquer: assim como se «ela» fosse do meu sexo!

E ao penetrar-me esta ideia alucinadora, eu lembrava-me sempre de que o beijo de Ricardo, esse beijo masculino, me soubera ás mordeduras de Marta; tivera a mesma côr, a mesma perturbação...

* * * * * * * *

Passaram-se alguns mêses.

Entre periodos mais ou menos tranquilos, o tempo ia agora seguindo. Eu olvidava a minha inquietação, o meu misterio, elaborando um novo volume de novelas—o ultimo que devia escrever...

Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos—acumulei-vos... acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços... Etereo construtor de torres que nunca se ergueram, de catedrais que nunca se sagraram... Pobres torres de luar ... pobres catedrais de neblina...

* * * * * * * *

Por este tempo, houve tambem uma epoca muito interessante na minha crise que não quero deixar de mencionar: durante ela eu pensava muito no meu caso, mas sem de forma alguma me atribular—friamente, desinteressadamente, como se esse caso se não desse comigo.

E punha-me sobretudo a percorrer o começo da nossa ligação. De que modo se iniciara ela? Misterio... Sim, por muito estranho que pareça, a verdade é que eu me esquecera de todos os pequenos episodios que a deviam forçosamente ter antecedido. Pois decerto não começaramos logo por beijos, por caricias viciosas—houvera sem duvida qualquer coisa antes, que hoje não me podia recordar.

E o meu esquecimento era tão grande que, a bem dizer, eu não tinha a sensação de haver esquecido esses episodios: parecia-me impossivel recordá-los, como impossivel é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam...

Mas estas bizarrias não me dilaceravam, repito: durante esta epoca eu examinei-me sempre de fóra, num deslumbramento—num deslumbramento lucido, donde provinha o meu alivio actual.

E só me lembrava—conforme narrei—do primeiro encontro das nossas mãos, do nosso primeiro beijo... Nem de tanto, sequer. A verdade simples era esta: eu sabia apenas que devera ter havido seguramente um primeiro encontro de mãos, uma primeira mordedura nas bôcas ... como em todos os romances...

Quando a saudade dêsse primeiro beijo me acudia mais nitida—ele surgia-me sempre como se fôra a coisa mais natural, a menos criminosa, ainda que dado na bôca... Na bôca? Mas é que eu nem mesmo disso estava seguro. Pelo contrario: era até muito possivel que esse beijo, mo tivessem dado na face—como o beijo de Ricardo, o beijo semelhante aos de Marta...

Meu Deus, meu Deus, quem me diria entretanto que estava ainda a meio do meu calvario, que tudo o que eu já sofrera nada valeria em face duma nova tortura—ai, desta vez, tortura bem real, não simples obsessão...

Com efeito um dia comecei observando uma certa mudança na atitude de Marta—nos seus gestos, no seu rosto: um vago constrangimento, um alheamento singular, devidos sem duvida a qualquer preocupação. Ao mesmo tempo reparei que já não se me entregava com a mesma intensidade.

Demorava-se agora menos em minha casa, e uma tarde, pela primeira vez, faltou.

No dia seguinte não aludiu á sua ausencia, nem eu tão pouco me atrevi a perguntar-lhe coisa alguma. Entretanto notei que a expressão do seu rosto mudara ainda: voltara a serenidade, a serenidade melancolica do seu rosto—mas essa serenidade era hoje diferente: mais loira, mais sensual, mais esbatida...

E desde aí, principiou a não me aparecer amiudadas vezes—ou chegando fóra das horas habituais, entrando e logo saindo, sem se me entregar.

De maneira que eu vivia agora num martirio incessante. Cada dia que se levantava, era cheio do medo de que ela me faltasse. E desde a manhã a esperava, fechado em casa, numa excitação indomavel que me quebrava, que me ardia.

Por seu lado, Marta nunca tinha pensado em justificar-me as suas ausencias, as suas recusas. E eu, embora o quisesse, ardentemente o quisesse, não lhe ousava fazer a mais ligeira pergunta.

De resto, devo explicar que, desde o inicio da nossa ligação, terminara a nossa intimidade. Com efeito, desde que Marta fôra minha—eu olhava-a como se olha alguem que nos é muito superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha—como aquilo que menos poderia esperar, como uma impossibilidade.

Eis pelo que não arriscava uma palavra.

Eu era apenas o seu escravo—um escravo a quem se prostituira a patrícia debochada... Mas, por ser assim, tanto mais contorcida se enclavinhava a minha angustia...

* * * * * * * *

Uma tarde decidi-me.

Passara ha muito a hora depois da qual Marta nunca vinha.

—Ah! que faria nesse instante? Porque não viera!?...

Fosse como fosse, era preciso saber alguma coisa!

Já mais duma vez, quando ela me faltava, eu estivera prestes a ir procura-la. Mas nunca ousara sair do meu quarto, no receio pueril de que—embora muito tarde—ainda aparecesse.

Nesse dia, porêm, pude-me vencer. Decidi-me...

Corri a casa do meu amigo numa ansia esbraseada...

Fui encontra-lo no seu gabinete de trabalho, entre uma avalanche de papeis, fazendo uma escolha dos seus versos inéditos para uma distribuição em dois volumes—distribuição que ha mais dum âno o torturava.

—Ainda bem que apareceste!—gritou-me.—Vais-me ajudar nesta horrivel tarefa!...

Volvi-lhe balbuciando, sem me atrever a perguntar pela sua companheira, motivo unico da minha inesperada visita... Estaria em casa? Era pouco provavel. Emtanto podia ser...

Só a vi ao jantar. Tinha um vestido-tailleur, de passeio...

* * * * * * * *

Agora todas as minhas obsessões se haviam dissipado, convertidas em ciume—ciume que eu ocultava á minha amante como uma vergonha, que fazia por ocultar a mim proprio, tentando substitui-lo pelos meus antigos desvairos. Mas sempre embalde.

Contudo nunca passavam três dias seguidos sem que Marta me pertencesse.

O horror fisico que o seu corpo já me suscitara tinha voltado de novo. Esse horror, porêm, e o ciume, mais me faziam deseja-la, mais alastravam em côres fulvas os meus espasmos.

Muitas vezes repeti a experiencia de correr a sua casa nas tardes em que ela não vinha. Mas sempre encontrava Ricardo. Marta não aparecia senão ao jantar... E eu, na minha incrivel timidez, nunca perguntava por ela—esquecia-me mesmo de o fazer, como se não fosse para isso só que viera procurar o meu amigo àquela hora...

Porêm, um dia o poeta admirou-se das minhas visitas intempestivas, do ar febril com que eu chegava e, desde então, nunca mais ousei repetir essas experiencias, aliás inuteis.

Decidi espiona-la.

Uma tarde tomei um coupé e, descidas as cortinas, mandei-o parar perto de sua casa... Esperei algum tempo. Por fim ela saiu. Ordenei ao cocheiro que a seguisse a distancia...

Marta tomou por uma rua transversal, dobrou á esquerda, enveredou por uma avenida paralela àquela em que habitava e onde as construções eram ainda raras. Dirigiu-se a um pequeno predio de asulejo verde. Entrou sem bater...

* * * * * * * *

Ah! como eu sofria! como eu sofria!... Fôra buscar a prova evidente de que ela tinha outro amante... Louco que eu era em a ter ido procurar... Hoje, nem mesmo que quisesse, me poderia já iludir...

E como eu me enganara outróra pensando que não seria sensivel á traição carnal duma minha amante, que pouco me faria que ela pertencesse a outros...

Começou então a ultima tortura...

Num grande esforço baldado, procurei ainda olvidar-me do que descobrira—esconder a cabeça debaixo dos lençois como as crianças, com medo dos ladrões, nas noites de inverno.

Ao entrelaça-la, hoje, debatia-me em extases tão profundos, mordia-a tão sofregamente, que ela uma vez se me queixou.

Com efeito, sabe-la possuida por outro amante—se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos...

Sim! sim!—laivos de roxidão!—aquele corpo esplendido, triunfal, dava-se a três homens—três machos se estiraçavam sobre êle, a polui-lo, a sugá-lo!... Três? Quem sabia se uma multidão?... E ao mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse...

Ao estrebucha-la agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuisse tambem todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu. A minha ansia convertera-se em achar na sua carne uma mordedura, uma escoriação de amor, qualquer rastro doutro amante...

E um dia de triunfo, finalmente, descobri-lhe no seio esquerdo uma grande nodoa negra... Num impeto, numa furia, colei a minha boca a essa mancha—chupando-a, trincando-a, dilacerando-a...

Marta, porêm, não gritou. Era muito natural que gritasse com a minha violencia, pois a boca ficara-me até sabendo a sangue. Mas o certo é que não teve um queixume. Nem mesmo parecera notar essa caricia brutal...

De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo—foi-me impossivel relembra-lo numa estranha duvida...

* * * * * * * *

Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante ... os seus outros amantes...

Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não ignorasse as suas horas—todo o meu ciume desapareceria, não teria razão de existir.

Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, se apenas se ocultasse dos outros, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa, atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.

Não, não me enganara outróra, ao pensar que nada me angustiaria por a minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessario que ela me contasse os seus amores, os seus espasmos até.

O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo misterio. Daí a minha angustia—daí o meu ciume.

Muita vez—julgo—deligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo, evidencear-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martirio. Ela porêm, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afecto para tamanha prova de amor.

Se em face do meu ciume todas as outras obsessões haviam sossobrado, restavam-me ainda—como já disse—as minhas repugnancias incompreensiveis. E procurando de novo aclara-las a mim proprio, assaltou-me de subito este receio: seriam elas originadas pelo outro amante?

Eu me explico:

Tive sempre grandes antipatias fisicas, meramente exteriores. Lembro-me por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde todas as noites jantava com Gervasio Vila-Nova, ia algumas vezes uma rapariga italiana, deveras graciosa—modelo sem duvida—que muito me enternecia, que eu cheguei quasi a desejar.

Mas em breve tudo isso passou.

É que a vira um Domingo caminhando de mãos dadas com certo individuo que eu abominava com o maior dos tedios, e que já conhecia de o encontrar todas as tardes jogando as cartas num café burguês da praça S. Michel. Era escarradamente o que as damas de quarenta ânos e as criadas de servir chamam um lindo rapaz. Muito branco, rosadinho e loiro, bigodito bem frisado, o cabelo encaracolado; uns olhos pestanudos, uma bôca pequenina—meiguinho, todo esculpido em manteiga; oleoso nos seus modos, nos seus gestos. Caixeiro de loja de modas—ah! não podia deixar de ser!...

Embirrava de tal forma com semelhante criatura açucarada, que nunca mais tinha voltado ao café provinciano da praça de S. Miguel. Com efeito era-me impossivel sofrer a sua presença. Dava-me sempre vontade de vomitar em face dêle, na mesma nausea que me provocaria uma mistura de toucinho rançoso, enxundia de galinha, mel, leite e herva-dôce...

Ao encontra-lo—o que não era raro—eu não sabia nunca evitar um gesto de impaciencia. Uma manhã por sinal nem almocei, pois abancando num restaurante que não frequentava habitualmente, o alambicado personagem tivera a desfaçatez de se vir assentar diante de mim, na mesma mesa... Ah! que desejo enorme me afogueou de o esbofetear, de lhe esmurrar o narizinho num chuveiro de murros... Mas contive-me. Paguei e fugi.

Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil—fôra o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não deixara de ser um amor—é claro—mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homemzinho loiro, engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança amanteigada, vir-me-hia um gosto humido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possui-la então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões...

Pois bem: e se as minhas repugnancias em face do corpo admiravel de Marta, tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava, fosse alguem que me inspirasse um grande nojo?... Podia muito bem ser assim, num pressentimento, tanto mais que—já o confessei—ao possui-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir tambem o corpo masculino desse amante.

Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quasi certo de que me enganava ainda; de que era bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas repugnancias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse, antipatisasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas nauseas.

Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de enjoo—a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilepticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos pápas—da gente que o misterio grifou...

Numa derradeira vontade tentei ainda provocar uma explicação com Marta—descrever-lhe sinceramente todo o meu martirio, ou, pelo menos, insultá-la. Emfim, pôr um termo qualquer á minha situação infernal.

Mas não o consegui nunca. Quando ia a dizer-lhe a primeira palavra, via os seus olhos de infinito ... o seu olhar fascinava-me. E como um medium no estado hipnotico eram outras as frases que eu proferia—talvez só as que ela me obrigava a pronunciar.

Então resolvi, pelo menos, saber de qualquer forma quem era o habitante do prediozinho verde. Repugnavam-me muito as deligencias suspeitas, mas não descera eu já a seguir Marta?

Assim, enchi-me de arrojo e determinei ir perguntar pelas cercanias informações sobre o que eu desejava averiguar, recorrendo mesmo em ultimo caso ao porteiro—se é que o predio tinha guarda-portão.

Escolhi a manhã dum domingo para as minhas investigações, dia em que eu e Marta só nos encontravamos em casa do poeta, que todas as tardes de domingo nos levava a passear no seu automovel, o qual então—estavamos em 1899—fazia grande sucesso em Lisboa.

Porêm, ao dobrar a rua transversal que levava á avenida onde era o predio misterioso, tive um gesto de despeito: Ricardo caminhava na minha frente. Não me pude esconder. Ele vira-me já, não sei como:

—Hein? Tu por aqui a estas horas?...—gritou admirado.

Reuni todas as minhas forças para balbuciar:

—É verdade... Ia a tua casa... Mas lembrei-me de ver estas ruas novas... Ando tão aborrecido...

—Do calor?

—Não... E tu proprio ... dize-me... Nunca costumas sair de manhã ... sobretudo aos domingos...

—Ah! uma madureza como outra qualquer. Concluí agora mesmo uns versos. E na ansia de os ler a alguem, ia a casa do Sergio Warginsky para lhos mostrar... É aqui perto... Anda comigo... Fazemos horas para o almoço...

A estas palavras todo eu tremi num arrepio. Silencioso, pus-me a acompanhá-lo, maquinalmente.

O artista quebrou o silencio:

—Então, e a tua peça?

—Terminei-a a semana passada.

—O quê!? Mas ainda não me tinhas dito coisa alguma!...

Desculpei-me murmurando:

—É que me esqueci, talvez...

—Homem! tens cada resposta que não lembra ao diabo!...—recordo-me perfeitamente de que êle exclamara rindo. E prosseguiu:

—Mas conta-me depressa... Estás satisfeito com a tua obra?... Como resolveste afinal aquela dificuldade do segundo acto? O escultor sempre morre?...

E eu:

—Resolveu-se tudo muito bem. O escultor...

Chegaramos defronte do prediozinho verde. Interrompi-me de subito...

Não! não era ilusão: em face de nós, no outro passeio, Marta sempre nos seus passos leves, indecisos mas rapidos, silenciosos—sem nos ver, sem reparar em redór de si, dirigia-se ao predio misterioso, batia á porta desta vez, entrava...

E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, dizia-me o poeta:

—No fim de contas é um disparate irmos incomodar o russo. O que eu estou é ansioso por conhecer o teu drama. Vamos buscá-lo os dois a tua casa. Quero ouvi-lo esta tarde. Tanto mais que o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...

* * * * * * * *

Vivi todo o resto desse dia como que envolto num denso véu de bruma. Emtanto pude ler o meu drama a Ricardo e a Marta. Sim, quando voltámos ao palacete, após termos passado por minha casa, já Marta regressara, e notei mesmo que já tinha mudado de vestido—embora contra o seu costume, não vestisse um traje de interior, mas sim uma toilette de passeio.

Lembro-me tambem de que durante toda a leitura da minha peça, só tive esta sensação lucida: que era bizarro como eu, no meu estado de espirito podia entretanto trabalhar.

De resto, conforme observei, as minhas dôres, as minhas angustias, as minhas obsessões eram intermitentes, tinham fluxos e refluxos: como nos dias de revolta social, entre os tiros de canhão e o tiroteio nas praças, a vida diaria prossegue—tambem, no meio da minha tortura, seguia a minha vida intelectual. Por isso mesmo lograra esconder de todos, até hoje, a atribulação do meu espirito.

Mas, juntamente com a ideia lucida que descrevi, sugerira-se-me durante a leitura outra ideia muito estrambotica. Fôra isto: pareceu-me vagamente que eu era o meu drama—a coisa artificial—e o meu drama a realidade.

Um parentese:

Quem me tiver seguido deve, pelo menos, reconhecer a minha imparcialidade, a minha inteira franqueza. Com efeito, nesta simples exposição da minha inocencia, não me poupo nunca a descrever as minhas ideias fixas, os meus aparentes desvairos que, interpretados com estreiteza, poderiam levar a concluir, não pela minha culpabilidade, mas pela minha embustice ou—criterio mais estreito—pela minha loucura. Sim, pela minha loucura; não receio escreve-lo. Que isto fique bem frisado, porquanto eu necessito de todo o credito para o final da minha exposição, tão misterioso e alucinador êle é.

Ricardo e Marta felicitaram-me muito pela minha obra—creio. Mas não o posso afirmar, em virtude do denso véu de bruma cinzenta que me envolvera, e que só me deixou nitidas as lembranças que já referi.

Jantei com os meus amigos. Despedi-me cedo pretextando um ligeiro incomodo.

Corri para minha casa. Deitei-me logo... Mas antes de adormecer, revendo a scena culminante do dia, observei esta estranha coisa:

Ao pararmos em face do predio verde, de subito eu vira Marta avançar distraída até bater á porta... Ora, segundo a direcção em que ela me aparecera, era fatal que tinha vindo sempre atrás de nós. Logo, ela devia-me ter visto; logo eu devia-a ter visto quando—lembrava-me muito bem—olhara para trás, por sinal em frente dum grande predio em construção...

E ao mesmo tempo—ignoro porque motivo—lembrei-me de que o meu amigo, quando decidira de repente não ir a casa de Warginsky, terminara a sua frase com estas palavras:

—... o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...

E eram as unicas palavras de que me lembrava frisantemente—mesmo as unicas que eu estava certo de lhe ter ouvido. Entretanto as unicas que eu não podia admitir que êle tivesse pronunciado...

Demorei-me ainda largas horas a rever o meu estranho dia. Mas por fim adormeci, levando num sono até alta manhã...

* * * * * * * *

Dois dias depois, sem prevenir ninguem, sem escrever uma palavra a Ricardo, eu tive finalmente a coragem de partir...

Ah! a sensação de alivio que experimentei ao descer emfim na gare do Quai d'Orsay: respirava, desennastrara-se-me a alma!...

Com efeito eu sofri sempre as dôres morais na minha alma, fisicamente. E a impressão horrivel que ha muito me debelava, era esta: que a minha alma se havia dobrado, contorcido, confundido...

Mas agora, ao ver-me longe de tudo quanto me misturara, essa dor estranha diluira-se: o meu espirito, sentia-o destrinçado como outróra.

Durante a viagem, pelo contrario, numa ansia de chegar a Paris, as minhas torturas tinham-se enrubescido. Eu pensava que nunca chegaria a Paris, que era impossivel haver triunfado, que sonhava com certeza—ou então que me prenderiam no caminho por engano; que me obrigariam a tornar a Lisboa, que vinham no meu encalço Marta, Ricardo, todos os meus amigos, todos os meus conhecidos...

E um calafrio de horror me zig-zagueara ao ver entrar em Biarritz um homem alto e loiro, no qual, de subito, eu julguei reconhecer Sergio Warginsky. Mas olhando-o melhor—olhando-o pela primeira vez realmente—sorri para mim proprio: o desconhecido apenas tinha do conde russo o ser alto e loiro...

* * * * * * * *

Emtanto agora já não podia duvidar; vencera. Atravessava a Praça da Concordia, monumental e aristocratica, tilintante de luzes...

De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris—o meu Paris, o Paris dos meus vinte e tres ânos...

E foram então os ultimos seis meses da minha vida...

Vivi-os de existencia diaria, em banalidade, frequentando os cafés, os teatros, os grandes restaurantes...

Nas primeiras semanas—e mesmo depois, numa ou noutra hora—ainda pensei no meu caso, mas nunca embrenhadamente.

Afinal—pressentia—tudo aquilo, no fundo, era talvez bem mais simples do que se me afigurava. O misterio de Marta? Ora ... ora... Fazem-se tantas loucuras ... ha tantas aventureiras...

E parecia-me até que, se eu quisesse, num grande esforço, numa grande concentração, poderia explicar a mim proprio tudo quanto me obcecara. Mas conclui que valia bem melhor não explicar coisa alguma, esquecer tudo. Esquecer é não ter sido. Se eu lograsse abolir o triste episodio da minha recordação, era exactamente como se nunca o existira. E foi pelo que me esforcei.

Entretanto nunca podia deixar de pensar numa circunstancia: a complacencia inaudita de Ricardo—a sua infamia. Então as coisas haviam chegado a ponto da sua mulher ir atrás dêle, quasi com êle, a casa dum amante? Pois se nós a não viramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. Mas nem por isso retrocedera!

E um turbilhão de pequeninas coisas me ocorria juntamente, mil factos sem importancia ao primeiro exame, mil pormenores insignificantes em que eu só agora atentava.

Ha muito que o meu amigo descobrira tudo decerto; por força que ha muito soubera das nossas relações... Nem podia deixar de ser assim. Só se fosse cego... Era pasmoso!...

E êle que me queria sempre ao lado da sua companheira? Mudara de lugar á mesa, pretextando uma corrente de ar que nunca existira, só para que eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se podessem entrelaçar...

Se saíamos os três, eu ia ao lado dela... E nos nossos passeios de automovel, Ricardo tomando sempre o volante, sentavamo-nos os dois sozinhos no interior da carruagem ... bem chegados um ao outro ... de mãos dadas. Sim; pois logo os nossos dedos se nos ennastravam—maquinalmente, instintivamente... Ah! e era impossivel que êle o não observasse quando, muita vez, se voltava para nos dizer qualquer coisa...

Mas—facto estranho—a verdade é que, nesses momentos, eu nunca receara que êle visse as nossas mãos; nunca me perturbara, nem sequer esboçara nunca um gesto de as desenlear... Era como se as nossas mãos fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro...

E dar-se-hia o mesmo com Sergio? Oh, sem duvida... Ricardo estimava-o tanto...

* * * * * * * *

O mais infame, o mais inacreditavel porêm, era que sabendo êle, a sua amizade, as suas atenções, por mim e pelo russo aumentassem cada dia...

Que êle soubesse e emtanto se calasse, por muito amar a sua companheira e, acima de tudo, não a querer perder—ainda se admitia. Mas então, ao menos, que mostrasse uma atitude nobre—que nos não adulasse, que não nos acariciasse...

Ah! como tudo isto me revoltava! Não propriamente pela sua atitude; antes pela sua falta de orgulho. Eu não soube nunca desculpar uma falta de orgulho. E sentia que toda a minha amizade, a minha sincera amizade por Ricardo de Loureiro, sossobrara hoje em face da sua baixeza. A sua baixeza! Êle que tanto me gritara ser o orgulho a unica qualidade cuja ausencia não perdoava em um caracter...

Mas devo esclarecer: ao pensar no extraordinario procedimento do meu amigo, nunca me confrangiam as reminiscencias das minhas antigas obsessões. Esquecera-as por completo. Mesmo que as recordasse, importancia alguma já daria ao misterio—seguramente misterio de pacotilha—ao meu ciume, a tudo mais...

Apenas ás vezes, quando muito, me assaltava uma saudade vaga, esvaída em melancolia, por tudo o que outróra me torturara.

Somos sempre assim: o tempo vai passando, e tudo se nos volve saudoso—sofrimentos, dores até, desilusões...

Com efeito, ainda hoje, ás tardes maceradas, eu não sei evitar numa reminiscencia longinqua, a saudade violeta de certa criaturinha indecisa que nunca tive, e mal roçou pela minha vida. Por isto só: porque ela me beijou os dedos; e um dia, a sorrir, defronte dos nossos amigos, me colocou em segredo o braço nu, mordorado, sobre a mão...

E depois logo fugiu da minha vida, esguiamente, embora eu, por piedade—doido que fui!—ainda a quisesse dourar de mim, num enternecimento asul pelas suas caricias...

E sofri ... ela era tão pouca coisa, mas a verdade é que sofri ... sofri de ternura. Nunca lhe tive amor. Apenas ternura ... uma ternura muito suave ... penetrante ... aquatica...

Os meus afectos, mesmo, foram sempre ternuras...

Porêm quando me acordava essa saudade branda do meu antigo sofrimento—isto é: do corpo nu de Marta—no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo.

E a minha revolta era cada vez maior.

Por felicidade, até aí, ainda não recebera uma carta do artista. Que nem a teria aberto, se a recebera...

Pessoa alguma conhecia o meu endereço. Saber-se-hia talvez que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos.

Não comprava jornais portugueses. Se vinha no Matin qualquer telegrama de Lisboa, não o lia; e assim, em verdade quasi triunfara esquecer-me de quem era... Entre a multidão cosmopolita, criava-me alguem sem patria, sem amarras, sem raizes em todo o mundo.

—Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse...—lembrei-me muita vez estranhamente, nos meus passeios solitarios pelos boulevards, pelas avenidas, pelas grandes praças...

* * * * * * * *

Uma tarde, como de costume, folheava as ultimas novidades literarias nas galerias do Odéon, quando deparei com um volume de capa amarela, recem-aparecido, segundo a classica tira vermelha... E diante dos meus olhos, em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro fulgurou...

Era com efeito a tradução francesa do Diadema que um editor arrojado acabara de lançar, revelando ao mundo uma literatura nova...

* * * * * * * *

Nessa tarde, pela primeira vez desde que cheguei a Paris, tive algumas horas realmente alucinadas.

Durante elas embrenhei-me a pensar em Ricardo, no seu procedimento inqualificavel, na sua inadmissivel falta de orgulho.

Meditei em todos os pequenos episodios que atrás referi, descortinei outros ainda mais significativos, perdendo-me a querer descobrir todos os amantes possiveis de Marta... E numa alucinação, não podia conceber que nenhum dos homens que eu vira um dia junto dela, não tivesse passado pelo seu corpo—e sabendo-o o marido: Luís de Monforte, Narciso do Amaral, Raul Vilar ... todos, emfim, todos...

Entretanto, no meio disto, ainda havia qualquer coisa mais bizarra: era que nesta revolta, neste asco, neste odio—sim; neste odio!—por Ricardo, misturava-se como que um vago despeito, um ciume, um verdadeiro ciume dêle proprio. Invejava-o! Invejava-o por ela me haver pertencido ... a mim, ao conde russo, a todos mais!...

E esta sensação descera-me tão forte, essa tarde, que num relampago me voou pelo cerebro a ideia rubra de o assassinar—para satisfazer a minha inveja, o meu ciume: para me vingar dêle!...

* * * * * * * *

Mas voltei por fim á minha calma, e, perante o meu antigo amigo, só me restou o meu nojo, o meu tedio, e um desejo ardente de lhe escarrar na cara toda a sua indignidade, toda a sua baixeza, clamando-lhe:

—Olha que fomos amantes dela ... eu e todos nós, ouves? E todos sabemos que tu já o sabes!...

Á noite, antes de adormecer, veiu-me ainda esta ideia perturbadora, num atordoamento luminoso:

—A sua baixeza ... a sua falta de orgulho... Ah! mas se eu me engano ... se eu me engano ... se é Marta quem lhe conta tudo ... se êle conhece tudo só porque ela lho diz ... se ela tem segredos para todos, menos para êle ... como eu queria... como eu a queria para mim... Nesse caso ... nesse caso...

E ao mesmo tempo—arripiadamente, desarazoadamente—acudiu-me á lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, ha tantos ânos ... no fim dum jantar ... para o Bosque de Bolonha ... no Pavilhão ... no Pavilhão d'Armenonville...

VII

Outubro de novecentos principiara.

Uma tarde, no boulevard des Capucines, alguem de subito me gritou, batendo-me no ombro:

—Ora até que emfim! Andava exactamente á sua procura...

Era Santa-Cruz de Vilalva, o grande empresario.

Tomou-me por um braço, fez-me á viva força sentar junto dêle na terrasse do La Paix, e pôs-se a barafustar-me o espanto que a minha falta de noticias lhe causara, tanto mais que, poucos dias antes de desaparecer, eu lhe falara da minha nova peça. Disse-me que em Lisboa muita gente perguntava por mim, que apenas vagamente se sabia que eu estava em Paris por alguns portugueses que tinham vindo á Exposição. Em suma: «Que demonio era isso, homem? neurastenico pelo ultimo correio?...»

Como sucedia sempre quando alguem me fazia perguntas sobre a minha forma de viver, fiquei todo perturbado—corei e titubiei quaisquer razões.

O grande empresario atalhou, exclamando-me:

—Bom. Mas antes de mais nada, vamos ao importante: Dê-me a sua peça.

Que não a concluíra ainda, que não me satisfazia...

E êle:

—Espero-o esta noite no meu hotel ... ali, no Scribe... Traga-me a obra. Quero ouvi-la hoje... Que titulo?

—A Chama.

—Optimo. Até logo... Primeira em abril. Ultima recita de assinatura. Preciso fechar a minha estação com chave de ouro...

Fôra-me muito desagradavel o encontro que viera pôr termo ao meu isolamento de ha seis mêses. Porem ao mesmo tempo, no fundo, a verdade é que eu não o lastimava. Sempre a literatura...

Desde que chegara a Paris, não escrevera uma linha—nem sequer já me lembrava de que era um escritor... E agora, de subito, vinham-me recorda-lo—evidenceando o apreço em que se tinha o meu nome; e precisamente alguem que eu sabia tão pouco lisonjeiro, tão brusco, tão homem-de-negocios...

Á noite, como se combinara, li o meu drama. Santa-Cruz de Vilalva exultou: «Trinta seguras!» punha as mãos no fôgo; «a minha melhor obra»—garantiu.

Entreguei-lhe o manuscrito, mas com estas condições:

Que não iria assistir aos ensaios nem me ocuparia da distribuição, de pormenores alguns da mise-en-scène. Da mais ligeira coisa, emfim. Deixava tudo ao seu cuidado. Ah! e principalmente que não me escrevesse nem uma palavra sobre o assunto...

O grande empresario anuiu a tudo. Falámos ainda alguns instantes.

E ao despedirmo-nos:

—É verdade—disse—sabe quem me perguntou varias vezes por si? se eu sabia de você ... o seu endereço?... O Ricardo de Loureiro... Que o meu amigo nunca mais lhe tinha escrito... Tambem represento um acto dêle ... em verso... Boa noite...

Esquecera já o meu encontro com o empresario, a minha peça, tudo—emfim tornara a mergulhar no meu antigo alheamento, quando de subito me ocorreu uma ideia nova, inteiramente diversa da primeira, para o ultimo acto da Chama: uma ideia belissima, grande, que me entusiasmou.

Não descansei emquanto não escrevi a novo acto. E um dia não pude resistir; parti com êle para Lisboa.

Quando cheguei, tinham começado os ensaios pouco antes.

Todos os meus interpretes me abraçaram efusivamente. E Santa-Cruz de Vilalva:

—Ora ... se eu não sabia já que êle havia de aparecer!... Quem não os conhecesse... São todos a mesma...

Os ensaios marchavam óptimamente. Roberto Dávila, no papel do escultor, ia ter decerto uma das suas mais belas criações.

Passaram-se dois dias.

Coisa espantosa: ainda não falara do novo acto da minha peça, razão unica porque decidira regressar a Lisboa contra todos os meus projectos, contra toda a minha vontade.

Emtanto ao terceiro dia, enchendo-me de coragem (foi certo: precisei encher-me de coragem) disse ao empresario o motivo que me trouxera de Paris.

Santa-Cruz de Vilalva pediu-me o manuscrito, sem consentir porêm que eu lho lesse.

E na manhã seguinte:

—Homem!—gritou-me—Você está maluco! O antigo acto é uma obra-prima. Este, perdôe-me... Posso dizer-lhe a minha opinião franca?...

—Sem duvida...—volvi, já perturbado.

—Um disparate!...

Uma raiva excessiva me afogueou perante a boçalidade do empresario, a sua pouca clarividencia. Pois se algumas vezes eu adivinhara nas minhas obras lampejos de genio, era nessas páginas. Mas tive a força de me conter.

Não sei bem o que depois se seguiu. O certo é que tudo acabou por o drama ser retirado de ensaios, visto eu não consentir que o representassem com o primitivo ultimo acto, e a empresa se negar terminantemente a monta-lo, conforme o parecer do director e dos principais interpretes.

Quebrei as relações com um e com outros, e exigi que me entregassem todas as copias do manuscrito e os papeis. A minha exigencia foi estranhada—lembro-me bem—sobretudo pelo modo violento como a fiz.

Ao chegar a minha casa—juntamente com o manuscrito original, lancei tudo ao fogo.

Tal foi o destino da minha ultima obra...

Decorreram algumas semanas.

As dôres físicas do meu espirito tinham regressado; mas agora dôres injustificadas—dôres pelo menos cuja razão eu desconhecia.

Desde que chegara a Lisboa—era claro—não procurara ainda nenhum dos meus companheiros. Ás vezes parecia-me até que gente que em tempos eu conhecera, me evitava. Eram literatos, dramaturgos, jornalistas, que decerto pretendiam lisongear assim o grande empresario de quem todos mais ou menos dependiam, hoje ou amanhã.

Só uma coisa me admirava: Ricardo, pela sua parte, não me tinha procurado nunca. O que, de resto, ao mesmo tempo se me afigurava bem explicavel; o mais natural até: êle percebera sem duvida os motivos do meu afastamento, e por isso se retraíra, sensatamente.

Estimava bastante que tivesse procedido assim. Caso contrario ter-se-hia dado entre nós uma scena muito desagradavel. Em face dele, eu não saberia reprimir os meus insultos.

O caso da Chama aborrecera-me deveras. Uma grande nausea me subira por tudo quanto tocava á arte no seu aspecto mercantil. Pois só o comercio condenara a versão nova da minha peça: com efeito, em vez de ser um acto meramente teatral, de acção intensa mas lisa, como o primitivo—o acto novo era profundo e inquietador; rasgava véus sobre o álem.

Num ultimo tédio comecei vagabundeando dias inteiros pelas ruas da cidade, á toa, por bairros afastados de preferencia...

Lembro-me de que seguia por avenidas, dobrava por travessas, anseoso, quasi a correr: como alguem, emfim, que debalde procurasse uma pessoa que muito desejasse encontrar—não sei porquê, fiz esta comparação ás vezes.

Em geral á noite, febril, cheio de cansaço, aturdido, recolhia cedo a casa, dormindo dum sono estagnado até de manhã ... para recomeçar o meu devaneio...

Facto curioso: nunca me lembrei durante este periodo de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento d'alma. Não porque me desagradasse hoje essa maneira de viver. Apenas tal recurso nunca me passou pela ideia...

Uma manhã vi de subito alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro...

Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se-me no sólo. Ricardo, êle-proprio, estava em minha frente...

* * * * * * * *

Não me podem lembrar—de banais que foram, por certo—as primeiras palavras que trocámos. Seguramente o poeta me disse o espanto que a minha desaparição lhe causara, que lhe causava o meu procedimento actual.

Fosse como fosse, falara-me num tom de grande tristeza, e em toda a sua figura havia a expressão dum sincero desgosto. É possivel que ao expôr-me tudo isso, os seus olhos estivessem humidos de lagrimas.

Pelo meu lado, desde que o tinha em face de mim, ainda não pudera reflectir; aturdia-me um denso véu de bruma—tal como na ultima tarde que passara com o meu amigo.

Escutei em silencio os seus queixumes, até que, de repente—desenvencilhado, desperto—me não soube conter, como receara, e lhe comecei gritando todo o meu odio: a minha revolta, o meu nojo...

A sua expressão dolorosa não se transformou com as minhas palavras—o artista pareceu mesmo não as estranhar, como se eu lhe desse a resposta mais natural ao que me contara. Apenas só agora, indubitavelmente, as lagrimas lhe desciam pelo rosto; mas não era diversa da primeira a dôr que as provocava.

E eu acabei:

—... Tinha-me atascado na lama... Por isso fugi ... por essa ignominia... Ouves? ouves!?...

Todo êle tremeu então. Velou-lhe o rosto uma sombra...

Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, húmida—tão singular que nem parecia vir da sua garganta, começou:

—Ah! como te enganas... Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!... Doido que eu era no meu triunfo... Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam... Escuta-me! Escuta-me!... Oh! tu has de me escutar!...

Sem vontade propria, esvaído, em silencio, eu acompanhava-o como que arrastado por fios d'ouro e lume, emquanto êle se me justificava:

—Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante... Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que mo dizia sempre... Eu é que lhos mostrava sempre!...

«Sim! Sim! Triunfei encontrando-a!... Pois não te lembras já, Lucio, do martirio da minha vida? Esqueceste-o?... Eu não podia ser amigo de ninguem ... não podia experimentar afectos... Tudo em mim ecoava em ternura ... eu só adivinhava ternuras... E, em face de quem as pressentia, só me vinham desejos de caricias, desejos de posse—para satisfazer os meus enternecimentos, sintetizar as minhas amizades...»

Um relampago de luz ruiva me cegou a alma.

O artista prosseguiu:

—Ai, como eu sofri ... como eu sofri!... Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto—isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuisse... Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?...

«Devastação! Devastação! Eu via a tua amizade, nitidamente a via, e não a lograva sentir!... Era todo de oiro falso...

«Uma noite porêm finalmente, uma noite fantastica de branca, triunfei! Achei-A ... sim, criei-A! criei-A!... Ela é só minha—entendes?—é só minha!... Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fôra a minha propria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós-dois... Ah! e desde essa noite eu soube, em gloria soube, vibrar dentro de mim o teu afecto—retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas, estreitando-te ela, era eu proprio quem te estreitava... Satisfiz a minha ternura: Venci! E ao possui-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar—como os outros sentem na alma as suas afeições. Na hora em que a achei—tu ouves?—foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se tivesse materialisado. E só com o espirito te possuí, materialmente! Eis o meu triunfo... Triunfo inegualavel! Grandioso segredo!...

* * * * * * * *

«Oh! mas como eu hoje sofro ... como sofro outra vez despedaçadoramente...

«Julgaste-me tão mal... Enojaste-te ... gritaste á infamia, á baixeza... e o meu orgulho ascendia cada aurora mais alto!... Fugiste... E, em verdade fugiste de ciume... Tu não eras o meu unico amigo—eras o primeiro, o maior—mas tambem por um outro eu oscilava ternuras... Assim a mandei beijar esse outro... Warginsky, tens razão, Warginsky... Julgava-o tão meu amigo ... parecia-me tão expontaneo ... tão lial ... tão digno dum afecto... E enganou-me ... enganou-me...».

Atónito, eu ouvia o poeta como que hipnotisado—mudo de espanto, sem poder articular uma palavra...

A sua dôr era bem real, bem sincero o seu arrependimento; e observei que o tom da sua voz se modificara, aclarando-se ao referir-se ao conde russo—para logo de novo se velar, dizendo:

—Que valem os outros, emtanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Coisa alguma!... Não me acreditas?... Ah! mas é preciso que me acredites ... que me compreendas... Vem!... Ela é só minha! Pelo teu afecto eu trocaria tudo—mesmo o meu segredo. Vem!...

Depois, foi uma vertigem...

Agarrou-me violentamente por um braço ... obrigou-me a correr com êle...

* * * * * * * *

Chegámos por fim diante da sua casa. Entrámos ... galgámos a escada dum salto...

Ao atravessarmos o vestibulo do primeiro andar, houve um pormenor insignificante, o qual, não sei porquê, nunca olvidei: em cima dum movel onde os criados, habitualmente, punham a correspondencia, estava uma carta... Era um grande sobrescrito timbrado com um brazão a ouro...

É estranho que num minuto culminante como este, eu podesse reparar em tais ninharias. Mas o certo foi que o brazão dourado me bailou alucinador em frente dos olhos. Entretanto não pude ver o seu desenho—vi só que era um brazão dourado e, ao mesmo tempo—coisa mais estranha—pareceu-me que eu proprio já recebera um sobrescrito igual àquele.

O meu amigo—ainda que preso duma grande excitação—abriu a carta, leu-a rapidamente, e logo a amarfanhou arremessando-a para o sobrado...

Depois, torceu-me o braço com maior violencia.

Em redór de mim tudo oscilou... Sentia-me disperso d'alma e corpo entre o rodopio que me silvava ... tinha receio de haver caído nas mãos dum louco...

E numa voz ainda mais velada, mais singular, mais falsa—isto é: melhor do que nunca parecendo vir doutra garganta—Ricardo gritava-me num delirio:

—Vamos ver! Vamos ver!... Chegou a hora de dissipar os fantasmas... Ela é só tua! é só tua... has de me acreditar!... Repito-te: Foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se materialisasse para te possuir... Ela é só minha! É só minha! Só para ti a procurei... Mas não consinto que nos separe... Verás... Verás!...

E no meio destas frases incoerentes, impossiveis, arrastava-me correndo numa furia para os aposentos da sua esposa, que ficavam no segundo andar.

(Pormenor curioso: nessse momento eu não tinha a sensação de que eram impossiveis as palavras que êle me dizia; apenas as julgava cheias da maior angustia...)

Tinhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente...

Em pé, ao fundo da casa, diante duma janela, Marta folheava um livro...

A desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou dum revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu podesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho á queima-roupa...

Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pé do limiar...

E então foi o Misterio ... o fantastico Misterio da minha vida...

Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta—não!—era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés—sim, aos meus pés!—caira o seu revólver ainda fumegante!...

Marta, essa desaparecera, evolara-se em silencio, como se extingue uma chama...

Aterrado, soltei um grande grito—um grito estridente, despedaçador—e, possesso de medo, de olhos fóra das orbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca ... por entre corredores e salões ... por escadarias...

Mas os criados acudiram...

* * * * * * * *

... Quando pude raciocinar, juntar duas ideias, em suma: quando despertei deste pesadelo alucinante, infernal, que fora só a realidade, a realidade inverosimil—achei-me preso num calabouço do Governo Civil, guardado á vista por uma sentinela...

VIII

Pouco mais me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão. Entretanto ainda algumas palavras juntarei.

Convem passar rapidamente sobre o processo. Ele nada apresentou que valha a pena referir. Pela minha parte, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverosimil, ninguem se justifica. Por isso me calei.

O apelo do meu advogado, brilhantissimo. Deve ter dito que, no fundo, a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a policia, segundo creio, procurou em vão.

No meu crime subentenderam-se causas passionais, seguramente. A minha atitude era romanesca de esfingica. Assim pairou sobre tudo um vago ar de misterio. Daí, a benevolencia do júri.

Emtanto devo acentuar que sobre o meu julgamento conservo reminiscencias muito indecisas. A minha vida ruira toda no instante em que o revólver de Ricardo tombara aos meus pés. Em face a tão fantastico segredo, eu abismara-me. Que me fazia pois o que volteava á superficie?... Hoje, a prisão surgia-me como um descanso, um termo...

Por isso, as longas horas fastidiosas passadas no tribunal, eu só as vi em bruma—como sobrepostas, a desenrolarem-se num scenario que não fosse precisamente aquêle em que tais horas se deveriam consumar...

Os meus «amigos», como sempre acontece, abstiveram-se: nem Luís de Monforte—que tanta vez me protestara a sua amizade—nem Narciso do Amaral, em cujo afecto eu tambem crêra. Nenhum dêles, numa palavra, me veiu visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Que a mim, de resto, coisa alguma me animaria.

Porêm, no meu advogado de defeza fui achar um verdadeiro amigo. Esqueceu-me o seu nome; apenas me recordo de que era ainda novo e de que a sua fisionomia apresentava uma semelhança notavel com a de Luís de Monforte.

Mais tarde, nas audiencias, havia de observar igualmente que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o medico que me tinha tratado, havia oito ânos, duma febre cerebral que me levara ás portas da morte.

Curioso que o nosso espirito, sabendo abstrair de tudo numa ocasião decisiva, não deixe emtanto de frizar pequenos detalhes como estes...

Passaram velozes os meus dez ânos de carcere, já o disse.

De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.

Tinhamos uma larga cêrca onde, a certas horas, podiamos passear, sempre sob a vigilancia dos guardas, que nos vigiavam misturados comnosco e que ás vezes até nos dirigiam a palavra.

A cêrca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga—melhor: sobre uma especie de largo onde se cruzavam varias ruas. Em frente—pormenor que se me gravou na memoria—havia um quartel amarelo (ou talvez outra prisão).

O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.

Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistencia, por grandes gestos misteriosos, pois nada me podia interessar do que havia para lá dêle.

Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura—ennegrecido, lezardento, escalavrado—sobre raros indicios duma velha pintura amarela.

Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa, me contavam os maus tratos de que eram vítimas.

E o certo é que, ás vezes, se ouviam de subito, ao longe, uns gritos estranhos—ora roucos, ora estridentes. E um dia um prisioneiro mulato—decerto um mistificador—disse-me que o tinham vergastado sem dó nem piedade com umas vergastas horriveis—frias como agua gelada, acrescentara na sua lingua de trapos...

Aliás, eu com raros dos outros prisioneiros me misturava. Eram—via-se bem—criaturas pouco recomendaveis, sem ilustração nem cultura, vindas por certo dos bas-fonds do vicio e do crime.

Apenas me aprazia durante as horas de passeio na grande cêrca, falando com um rapaz louro, muito distinto, alto e elançado. Confessou-me que expiava igualmente um crime de assassinio. Matara a sua amante: uma cantora francesa, celebre, que trouxera para Lisboa.

Para êle como para mim, tambem a vida parara—êle vivera tambem o momento culminante a que aludi na minha advertencia. Falavamos por sinal muita vez desses instantes grandiosos, e êle então referia-se á possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida—fulvas de amor ou de angústia—e assim poder vê-las, ressentí-las. Contara-me que fôra essa a sua maior preocupação na vida—a arte da sua vida...

Escutando-o, o novelista acordava dentro de mim. Que belas paginas se escreveriam sobre tão perturbador assunto!

Emfim, mas não quero insistir mais sobre a minha vida no carcere, que nada tem de interessante para os outros, nem mesmo para mim.

Os ânos voaram. Devido á minha serenidade, á minha resignação, todos me tratavam com a maior simpatia e me olhavam carinhosamente. Os proprios directores, que muitas vezes nos chamavam aos seus gabinetes ou eles proprios nos visitavam, a conversar comnosco, a fazerem-nos perguntas—tinham por mim as maiores atenções.

... Até que um dia chegou o termo da minha pêna e as portas do carcere se me abriram...

Morto, sem olhar um instante em redór de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé.

Acho-me tranquilo—sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado dum outro. Permaneci, mas já não me sou. E até á morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face... A morte-real—apenas um sôno mais denso...

Antes, não quis porêm deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros, são muitas vezes os mais emmaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosimil—embora verdadeira.

Assim eu para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silencio, durante dez ânos, um crime que não cometi...

A vida...

1-27 setembro 1913—Lisboa.

Mario de SÁ-CARNEIRO.

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