MADONA DO CAMPO SANTO (continued 2)
Reading edition
—Morta, que? Morta? dizia elle a tremer, com o outro debaixo do joelho, as mãos crispadas errando, e um riso horrivel na bocca. Morta? Este canalha!...
Ia alcançal-o pelas guelas com a cabeça perdida de dôr, mas presentindo o lance, amigo Flores furtou-lhe o corpo de repente, e Arthur cahiu de bruços, desamparado, como se fôra morto.
—Diabo, diabo! fez o jacobino attonito. Fui-lhe rebater as asserções, era a pequena. Hum! Indole molle; pouco dará.
Quando sem chapeu n’essa noite, envelhecido e lugubre, Arthur veio para modelar o rosto e mãos de Judith, encontrou Albano assentado na cama onde a irmã estava morta. Ao lado, espedaçado n’um impeto de colera, via-se o Stradivarius que o pobre careca vibrava tão bem, sendo ella viva.
Elles viram-se e não trocaram palavra, minados por esse febril e medonho tedio, que vem na ultima noite aos enforcados. O egoismo sereno das fórmas em roda, infiltrava-lhes desprezos áridos por tudo, uma quisilia de vingança contra a cidade, d’ella não vestir o lucto que os imbecilisava a ambos.
A pancada do relogio na casa do jantar era tão nitida, tão viva, tão insupportavel, que Arthur desconcertado fez parar a pendula. Assim as horas iam sem elles saber, e aquella ultima noite foi tres vezes mais pequena. Sómente a bocados, do fundo da Estrella, vinha em dobres arquejantes aquelle tragico sino que fôra o pavor de Judith pela alta noite, no inverno, quando o rir dos ventos cortava a solidão de imprecações, e muito embrulhada no velho capote d’Albano, ella se ia anichar ao pé da mamã, rolando para todos os lados os seus bonitos olhos assustadiços. E esse velho phantasma agora lamentava-a como de longe, um gigante amoroso, encarcerado n’uma velha torre de menagem. Não sei que arzinho escapado por fendas, punha ondulações nas cortinas. Por cima dos moveis, na mesa do centro, ou esmagadas sobre as costas das cadeiras, peças de roupa abandonavam-se em attitudes vazias, enrodilhavam-se, cahiam, remexidas dos bahús por mãos convulsas, trazidas ao acaso sem luz, postas de parte, atiradas com desespero, e por fim esquecidas na ultima toilette de Judith. Um cangalheiro gordo, com a andaina preta esfiada de miseria, cabello em escova bordando cimalha por cima d’uma testa baixa, toda polida de gordura, viera tomar medidas para o caixão. Albano sem saber o que fazia, tinha empurrado o homem brutalmente, que se fosse embora quando não matava-o, e a gritar que não queria a sua irmã pisada, quando lhe deitassem a terra por cima da cova.
Estacado á porta da alcova, braços cahidos, collarinho sem botão, o collete abotoado ao acaso, Arthur viu de relance aquella desordem de gavetas abertas, a ultima chicara de caldo fria na beira do aparador, colheres pelo chão, a um canto o centro de mesa com pinhas de rosas esmorecendo sem agua no crystal do jarrão proeminente—e por tudo aquillo os seus olhos iam vitrosos d’imbecilidade. Um grande tule pendia n’um cabide, com vincos ainda da loja, cortes nitidos de tesoura na base; e por elle abaixo, com folhas de panno envernizado, grinaldas brancas desabrochando efflorencias de quinquilharia vulgar, n’um asco de tintas frescas ainda. Ao redor d’um crucifixo de pau, assustador, como esculptura, velas altas derretiam nos castiçaes da sala. Duas hospitaleiras com grandes rosarios badalando á cinta, andavam á roda bulindo, aconchegando as coisas de olhos baixos, psalmejando rezas lugubres em latim barbarengo. Elle via-as na sombra negra dos biocos, aborridas, resfolegando, bocejar muitas vezes com mau modo, emquanto as suas rezas seguiam de cór, n’uma lenga-lenga afadigosa. Mas entre a realidade e os seus olhos, um vago de bruma interpunha-se, fazendo-lhe vêr as coisas n’uma perspectiva remotissima. A morte de Judith surgia-lhe indefinida como n’um pesadêlo, sem maguas d’aresta viva, sem biographia, nem vehementes saudades inconsolaveis, sem lagrimas mesmo, descorrelacionada, confusa, como phosphorencia do cerebro doente. Era uma impressão de coisa passada n’outros tempos, com outras pessoas, n’outros logares. De quando em quando, as corbeilles em misulas nos vãos da casa de jantar, esfolhavam rosas silenciosamente, deixando folhas murchas irem cahindo n’um pranto humilde. E Arthur n’uma cadeira baixa considerava as pequeninas graças d’aquella doce amiga, como ella cortava as espinhas com os seus dentinhos brancos, vivacidades sedosas dos seus garços olhos que piscavam n’um fremito irrequieto, e todas as manhãs os seus bons dias chilreantes de trepadora. E apodrece para ahi n’esse desconforme cemiterio, calcada a pés juntos por coveiros ferozes e descarnados! Dez horas, onze horas, duas da manhã, tres, quatro...
Pôz-se a amassar gesso para a mascara, quando o viu plastico penetrou timidamente na camara e foi para o cadaver.
—Gostavas d’ella? perguntou o estudante n’um tom estupido. O esculptor fez com a cabeça que sim, e o outro ficou a vel-o applicar o gesso.
Sobre a colcha afogada em flôres, tochas á cabeceira, dormia ella vestida de noiva para os esponsaes da bemaventurança, o nariz afilando n’uma aresta fina como um gume. Cerrada com ancia, essa bocca dir-se-hia um sulco a buril. Quem teria coragem de viver sem ella n’este crapuloso e vil mundo, quem?
E como o esculptor comprimia certos pontos do rosto, os olhos, azas do nariz, as maçãs da face, todas as proeminencias e fossetas das feições, Albano n’uma ternura magoada, desviando-lhe o braço:
—Olha que isso faz doer, coitadinha!
Esta simples phrase fez que os olhares se encontrassem, medindo a horrivel desgraça; veio-lhes o mesmo brado d’aniquilação supplicante; e n’um choro de profundos soluços e grandes lagrimas que rolavam no branco setim da morta, abraçaram-se por cima do leito, e assim estiveram, por muito tempo, n’aquella postura. Uma das hospitaleiras, que tinha ido roendo pão e queijo que trouxera na mala, entre o livro de orações, unguentos, e um frasco com agua benta, foi para dizer baixinho alguma coisa ao estudante, que alheio a tudo nem a ouviu, e fez um gesto de hombros evasivo. Aquillo forçou a pobre mulher a ir ter com Arthur. Era uma anafada, minhota de fallas, mais velha que nova, com sua grande verruga no queixo. Pedia dinheiro para a agua de Labarraque. Arthur descollava a mascara de gesso ao tempo, e áquellas palavras os seus olhos cahiram sobre Judith, viram-lhe a face marbreada de roxo, tomando a expressão carrancuda d’uma mulher offendida. E teve os olhos longamente n’aquelle desmoronar. Por um canto dos beiços tufavam n’uma espuma viscosa, bolhas de gaz podre que punham ruidos de fervor. Já moscas se abatiam por dezenas no rebordo das palpebras e fendas do nariz, depondo larvas.
A irmã minhota de lado, desviando a outra que se pozera a dormitar:
—Já cheira.
Um calafrio alvorotou Arthur áquella horrivel palavra.
Só na parede, ao debil ondular das tochas, arfava a sombra deitada de Judith, n’uma tranquilla respiração, e dir-se-hia dormindo, tão placida, a virgem das rosas brancas!
Ainda hoje ouço dizer, que Arthur seria o mais extraordinario esculptor do seu tempo, se aquella morte subita o não desorienta no foco das suas grandes faculdades. Elle antes de tudo era uma cabeça fraca, que por uma indole singularmente recatada e hesitante, jámais ousara sasonar e polir as indomaveis paixões da sua alma. Como nos abandonados d’affectos desde o berço, aquelle primeiro amor de mulher alanceando-o no mais fogoso da edade, devia explosir por fórma a perturbar-lhe dentro o rythmo placido do coração e do cerebro.
O certo foi que mudou de residencia ao outro dia da morte de Judith, e Albano nunca mais o viu. Embalde o pobre careca o andou procurando por toda a banda, agora que tanto precisava d’aquelle grande irmão. Nunca mais o taberneiro do Bemformoso ouvira fallar d’elle, na brasserie quasi estava esquecido; as ruas deixaram de o vêr. Á mingua de melhor coisa onde matar tempo, Albano decidiu-se a acabar o curso. E esses annos que foram passando, tornaram o esculptor n’um singular personagem. Morto o idolo que soubera inspirar-lhe culto absorvente, o amor d’elle deformou-se, ampliou-se, derivou por excessos que o frenesi tornava assustadores, ou transfigurava-o o talento em prodigos d’arte ás vezes, como é uso nas gentes d’atelier, que amam sempre materialisar as mais fortes emoções. Elle não via nem fallava a ninguem; tinha tomado amor á aguardente, morava n’um arrabalde distante, todo curvado d’espinha e envelhecendo o mais depressa possivel. Amigo Flores, que alfim desposara a grande Barbara, nunca vinha áquella thebaida; o gallego avaro aposentara nos bucolismos da aldeia natal—e assim Arthur vivia miseravelmente, sem companhias, sem trabalho, sem amigos, sem fato, com uma juba feroz e uma barba intractavel, atormentado por não sei que estranho calor no cerebro, e escutando as grandes coleras desordenadas do coração revolto. O primeiro anno corrido sobre a morte de Judith, fôra para elle um d’esses terremotos de caracter mal forjado contra as asperidões da vida, que ao menor abalo esbeiçam fendas, por onde se vêem estrebuchar fraquezas e escorrer restos de crenças, lucta de paixão, hesitação, saudade e loucura, que a educação plastica do artista ia moldando lentamente, desesperadamente, em lucidos pedaços d’estatuaria. Ao cabo d’alguns mezes, quando já iam embotando as irritabilidades mais lancinantes da dôr, por fadiga dos centros de sensação, muitos detalhes finos d’essa divina figura de creança, escapavam á memoria d’Arthur, empallideciam, ou vinham-lhe apenas como esforço de reminiscencia, nas más horas de desconforto. Sómente as grandes linhas dramaticas da sua morte, relevos scenicos, attitudes que ella tomava, detalhes de perfil, um modo de inclinar a cabeça, certos timbres da sua voz melodica que elle ouvia de noite, ainda agora estando tudo tranquillo, ficaram-lhe para sempre na ideia, vehementes e nitidos, por sympathia ao ramo d’arte que professava. Dez vezes ou doze, com deseguaes intervallos, começara n’um bloco ou outro a estatua da mesma mulher em diversas posturas, e outras tantas o cinzel desalentado lhe cahira das mãos em meio da obra, na pavorosa desconfiança de estar profanando o divino ideal preconcebido, com facturas de mediocre nobreza.
No casinholo inhospito em que morava, esses esboços de marmore faziam por baixo da pedra a desbastar ainda, assombrosas tentativas de evasão, resurreição, de gritar por soccorro, como visagens por traz de espessos veus, medonhos arremedos d’angustia, estorsões dentro da lava solida que os constrangia: e no supplicio d’aquella immobilidade viva querendo cuspir entulhos da bocca n’um grito dilacerante, romper com os seus membros o atoleiro que a envolvel-os se petrificava todo, communicando a atroz sensação d’um soffrimento alarmante, tão magistralmente lançados esses primeiros golpes de grande esculptor. Era assim que de informes pedregulhos, rompiam admiraveis trechos acabados e vivos; braços invocando os ceus de mãos descarnadas; cabeças radiando suavidades esquivas, de nariz palpitante e bocca em supplica, tocadas talvez na visão paradisiaca do fra Angelico; busto d’uma impossivel delicadeza, sempre cingidos em romeiras de monacal desenho, onde pequeninas mãos apertavam rosas, surprehendentes e brancas, com pétalas finas como papel...—e para baixo o infame bloco impassivel soterrava o resto, desconforme, anguloso, hostil, brutal, como o tronco adusto soterra e termina a dryade na floresta sagrada da antiguidade. Estas tentativas de sceptico iniciando prodigios de cinzel para o sarcasmo de os pôr de banda logo, indo de obra prima em obra prima como um eterno descontente, no proposito de enraivecer a posteridade que o buscasse acaso n’uma obra completa, tudo achando mesquinho e pobre, e sem pretender da vida algum dos seus miseraveis triumphos, gloria, fortuna, estimulos ou emulos, faziam ellas só, toda uma arte estrondosa e moderna, cheia de singularidades e grandezas é certo, mas assignalavam no artista desconfortos de gigante e amarguras de vencido. Uma estatua seguia outra, e outra; e todas a alturas differentes eram postas de banda com teimosia colerica. Dias inteiros, mezes inteiros, levava no meio d’aquelles destroços d’olympo novo, sem fallar, sem trabalhar, exasperado de virgindade, consumido na chamma funebre do alcool, fazendo medonhos esforços para a reconstruir toda na ideia e parando onde se não lembrava, com medo de perverter a sua adoração de escravo, magro, revoltado, quasi faminto, com rosetas escandentes na face morta, e a bocca n’um rictus tragico de cariatide. A sua poderosa estatura curvava-se para a terra lentamente, aqui e além já lhe nevavam cabellos, a aguardente poz-se a agitar-lhe na allucinação que o ia invadindo, frageis phantasmas exhumados do passado—e via-a, fallava com ella, sentia as suas desgraças, deslumbrava-se na sua belleza, tinha com ella longos colloquios. Gargalhava pelas ruas sósinho, argumentando comsigo mesmo em voz alta; o fato cahia-lhe de miseria aos pedaços, deixou d’usar camisa, as suas botas cambavam. N’esse embrutecer cruel comtudo, lucidos espaços riam d’onde a onde; então n’um convergir de ultimos esforços, volvia aos ensaios, aos seus esboços, começava e recomeçava, modificando, inutilisando, com a ancia d’um naufrago e o desespero emphatico d’um rebelde.
Viam-se no atelier espalhados por duzias, como occupações d’esses curtos intervallos de razão, pares de mãos divinamente esculpidas, longos dedos, unhas de opala transparente, celestes delicadezas de toque, mas todos eguaes e como reproduzidos do mesmo modêlo raro. Ou copias sem numero d’uma mascara de gesso, soffredora e candida, que na parede, envolta em crepes, olhava pelo vazio das orbitas. Tal insistencia nos accessorios da mesma figura, exprimia o sentimento immutavel, mais remoto ou menos, da dôr. Era a arte d’um taciturno, immobilisando a imaginação do artista, mas crystallisando cada bocado em perfeições surprehendentes.
E Albano? Emfim como ultimo relampago, uma vez Arthur descobriu que acabara a estatua, ao fim de a haver começado doze vezes. Mas essa, que maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro d’equilibrio lançada na attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de estranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio d’audacia, palpitava, fallava, sentia-se soffrer e respirar como uma creatura.
Tinha uma simples roupa em longas pregas, a romeira cingida até á barba com austeridades claustraes, tranças meio enroladas ainda, soltando-se da nuca n’uma expressão espavorida e subitanea. E alli para um canto, acocorado por baixo d’uma juba de velho leão cahido, contemplou Arthur longamente a sua obra, com olhos extinctos onde pela derradeira vez passara um fogo subterraneo de cratera.
Pelas joelheiras laceradas, furavam os seus joelhos carcomidos, e a barba indomita de mendigo, espargia sobre os ossos do peito lugubres fios brancos, vestindo-lhe a nudez por uma especie de instinctivo pudor.
Ante o asceta miseravel, essa apparição de madona ascendia em escapadas de genio do seu pedestal floreteado, que representava um enorme bouquet das flores que Judith amara tanto. N’isto ouviu dizerem perto o nome d’ella.
Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a estatua, maravilhado, attonito, imbecil.
—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tens tabaco, por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].