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A Chave do Enigma

ADVERTENCIA ESPECIAL Á «CHAVE DO ENIGMA»

Reading edition

Quando sahiu em 1862 a nova edição do Amor e melancolia, entendeu o poeta enriquecel-a com o precioso appenso que intitulou A chave do enigma.

N'essas paginas de brilhante prosa explicou ás legitimas curiosidades do publico portuguez os seus amores com a incognita recolhida do mosteiro de Vairão. Precedeu a narrativa d'esse caso com a historia da meninice, illustrando as suas formosas paginas com esboços de retratos de familia: sua Mãe, seu Pae, seu irmão querido, e outros, que servem de documentos autobiographicos, entre descripções de sitios, e ricas digressões sobre variados assumptos.

A incognita de Vairão era a senhora D. Maria Isabel de Baêna Coimbra Portugal, com quem o poeta ajustou casamento, sem ainda se conhecerem pessoalmente, e com quem veio a casar na egreja do mosteiro a 29 de Novembro de 1834; filha de Francisco da Silva Coimbra de Carvalho, e de D. Maria Fortunata Agostinha de Portugal.{6}

Algumas rapidas annotações irão acompanhando o texto; no mais deixemos falar o poeta. Melhor que ninguem nos saberá iniciar nos segredos da sua vida, que n'este livro decorre desde 1800 até 1837; isto é: desde o berço d'elle até á campa da sua virtuosa e digna primeira mulher, inspiradora, companheira, confidente, e amiga.

São paginas de saudade, em que elle a retrata, e se retrata a si.

OS EDITORES.

Áquella que já não sente, pendura com mão tremula n'um ramo do seu cipreste esta pequena corôa

O Autor.{9}

A CHAVE DO ENIGMA

Dezembro de 1861

Digam embora que me biographei; vou escrever uma pagina da minha vida.

Se mais ninguem a lêr, lêl-a-hão os meus amigos. Ella tambem, êrma de interesses grandes, desenfeitada de estilo, e só attendivel, se o fôr, por verdade e affecto, aspira unicamente a captivar a attenção dos poucos para quem um murmurio de folhas n'um retiro de estio, e de vez em quando uns gorgeios ou pios de duas aves que se entrereclamam emboscadas, supprem conversações, leituras, e até pensar.

Emfim, se nem para os meus intimos valer o que eu tenho de bosquejar, muito saudoso de tempos que lá vão, ficará sendo só para mim, e para quem m'o inspirou; ¡ah! quem m'o inspirou já m'o não póde lêr, mas por ventura o ouve. Será um devaneio,{10} e um solilóquio; será uma folha sôlta de uma deliciosa arvore longinqua, hospedeira minha ha muitos dias; folha que uma viração despegou, volveu nos ares, me atirou á fronte, e me lançou aos pés, para ahi fenecer esquecida.

Não vale a pena de mais prologo. Nem tanto me está parecendo agora que fosse necessario.{11}

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