Note 1 — AS FARPAS
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Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias, contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional—a fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte—a imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o, desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações. Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim, invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe fizesse justiça. «Exijo—dizia elle—que me paguem indemnisação na medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida, repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de menos. 1